terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sobre as praxes

Decorria o ano 2004. Portugal parou para assistir aos jogos do Euro 2004, vibramos com as vitórias da Seleção das Quinas, choramos com a derrota contra a equipa grega.
Foi esse o ano em que terminei o meu secundário e ingressei no Ensino Superior. Concorri para os cursos que realmente queria, principalmente da Universidade do Porto. Cursos da área de Saúde estavam por completo fora das minhas ideias.

Entrei na 1ª opção em Ensino de Biologia e Geologia na Universidade do Porto com uma média generosa. Logo nesse dia, a minha mãe teve "a conversa" sobre o possível desemprego que poderia ter mais tarde uma vez que a área de ensino está há muitos anos pelas ruas da amargura.

Porque é que não tiras Enfermagem? Olha que é um curso muito bom. O filho da não sei quantas ganha um bom dinheirinho como Enfermeiro no hospital, numa clinica e não sei quê. Olha que ainda não há desemprego na área da Saúde... Medicina era o ideal, mas ainda estás a 1 valor e pico para lá chegares... 

Uma vez que não tinha feito os pre requisitos exigidos para os cursos de saúde, nenhuma universidade ou escola superior pública podia aceitar a minha candidatura, fui obrigada a inscrever-me numa Escola Superior de Saúde privada.

E lá fui eu, com dezassete anos e pico para a praxes. Cheguei lá no primeiro dia, fomos levados pelos nossos doutores para o Salão Nobre em que o presidente da Escola falou, depois um dos professores. E depois começaram as praxes em si. Caloiro não ri, caloiro rebola, caloiro meta o preservativo naquela banana, caloiro coma o almoço (que era esparguete) com um palito, cantiguinhas contra os outros curso, etc etc etc.

Se gostei de ser praxada? Hummmm até gostei. Foi lá onde conheci muitos dos amigos que duraram o curso todo. No entanto houve duas coisas que me fez sentir revoltava e com vontade de desistir daquilo:
Tinha eu dezassete anos e não era comum consumir álcool. E aqui a caloira foi obrigada a beber álcool. Obrigada sim porque fui mais que pressionada. Uma caloira contra cinco ou seis gajos e gajas de preto. Oh caloira beba que a sua mãezinha não está aqui! Mas que raio de caloira que se recusa a fazer parte da malta? 

Outra situação foi uma praxe noturna que fomos. Separam o grupo todo. Eu fiquei separada da minha boleia para casa. Os doutores ficaram com os nossos telemóveis. Uma das doutoras prometeu-me que me levaria a casa porque não tinham horas de acabar a praxe. Acontece que essa doutora, muitos outros doutores e muitos caloiros apanharam uma bebedeira descomunal. Ela, perdida de bêbeda, foi-se embora e esqueceu-se de mim. Tive muitas dificuldades para reencontrar a minha boleia porque não tínhamos o telemóvel.

No julgamento do caloiro queriam-me fazer a folha porque recusei ser praxada numa vez em que tinha um calo horroroso no pé. Não acreditamos no seu calo, caloira. Ainda mais porque está com sapato de salto alto. Tive que mostrar o meu calo aos doutores. Tive que mostrar o quão maleáveis eram aqueles sapatos (gente estúpida... qual é a relação entre um sapato de salto alto e biqueira larga e um calo no halux?)

Trajei, não praxei, e mandei o conselho de praxe da minha escola mamar na quinta pata do cavalo quando obrigaram os caloiros de Análises Clínicas ficarem de quatro por cima de pequenas rochas pontiagudas, tipo brita mas de maiores dimensões que seriam para calcetar uma estrada. Os doutores de Análises Clínicas disseram-me para não me meter. Stressei também quando gritaram bomba quando obrigaram os caloiros a passarem num enorme charco de lama  (quando nas praxes gritam BOMBA, segundo o código de praxe os caloiros devem-se deitar no chão).

Acabando o curso, guardei o traje num saco com umas bolinhas de naftalina, enfiei-o numa arca onde a minha mãe guarda o seu enxoval mais precioso e nunca mais o vi.


Concordo com as praxes até ao ponto em que começam os abusos. Se a caloira não bebe álcool, não bebe e pronto. Se a caloira não quer simular sexo com o cão, não quer e pronto.
As praxes são ótimas formas de convívio, de confraternização. E nunca para vinganças. Tive uma madrinha que me passou apontamentos de quem guardo uma grande estima. Não fui a caloira mais aplicada porque raramente ia a jantares e a convívios.... mas também reconheço que a organização dessas coisas poderia ser melhor na escola que frequentei.  Não guardo grandes memórias do meu tempo de estudante no Ensino Superior português.
A minha irmã acaba este ano em Coimbra e sempre deu para perceber que o espírito acadêmico é diferente. E nesse aspecto tenho alguma inveja dela porque ao menos passou cinco anos em Coimbra e fez com que eles valessem a pena.  E como lhe valeram a pena :)

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