quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

E assim do nada lembrei-me disto

Naquele tempo em que a minha maior preocupação e a dos meus colegas do meu antigo curso era essencialmente um "projeto" de tese, tínhamos que nos reunir de quando em vez na casa de alguém, no shopping da cidade, às vezes na universidade e em vez de estarmos concentrados no dito projeto, estávamos essencialmente na galhofa. Ainda não consigo perceber como é que acabamos aquilo.
Íamos para a casa do J., ligava-se o portatil, pão com manteiga aqui, sumol de laranja acolí a acabava-se a jogar bilhar na garagem do rapaz.

Seja como for, em qualquer trabalho de grupo é possível caracterizar-se certo tipo de pessoas:
1. Os que se concentram na coisa, dedicam-se à coisa;
2. Os que se concentram mas também se distraem quando é preciso (o meu caso e o de maior parte)
3. Os que se tentam concentrar e acabam por estorvar com ideias parvas (mas que são boa malta e pagam-nos o café e bolinhos)
4. Os que não ligam puto àquilo e só aparecem para assinar, imprimir e apresentar.

Eu, a Su, a A, o J. e o H. fazíamos parte do mesmo grupo. A A. era a marrona e perfeccionista, o H. apenas o perfeccionista, a Su, eu e o J. eramos os "ok, o que vocês decidirem, decidido fica".

Acontece que a A. a meio do trabalho resolveu saltar fora do nosso grupo sem nos avisar. Combinávamos via sms para aparecer no local X à hora Y, e ela nem aparecia nem dava satisfações.
E só poucas semanas antes de entregar o projeto é que soubemos por intermédio da coordenadora de curso que a A. saltou para o grupo das pole position (isto é, as meninas da fila da frente da sala de aula, de mini mini saia, graxa q.b., com excelentes notas e com apresentações de trabalho de aspecto impecável (é por isso que enfermagem não anda para a frente, só querem apresentaçõezinhas e trabalhinhos de grupo de treta)). A professora ainda nos explicou que ela lhe disse que nós não acompanhávamos o ritmo de sua sabedoria, que eramos baldas, que preferia ficar num grupo do mesmo nível dela. Claro que quando ouvi isto pela boca da professora eu só pensava no quão parvas podem ser as pessoas. Mudar de grupo, ok. Explicar à professora que somos baldas é que não.
Entre o grupo, ficou combinado que não iriamos comentar nada com a A. sobre esta troca súbita e sem qualquer aviso. Ela quando se cruzava connosco na Universidade lá tentava cumprimentar-nos e tal. E nós , tarefa hercúlea, disfarçávamos a vontade de lhe ir ao focinho.

Julho de 2008. Dia da defesa do projeto.

Fomos dos primeiros grupos a defender. Fizemos uma espécie de brilharete. A professora criticou isto e aquilo mas disse que o trabalho estava realmente muito bom. Deu até luz verde para que seguíssemos com o projeto em frente (que acabou por ficar no disco rígido guardado apenas)

Uns grupos depois, foi o grupo das pole position. Bem, foi o drama, o horror. A professora criticou imenso o trabalho. Garantiu que foi plágio puro e duro de uma tese de uma universidade brasileira. Deu-lhe um mísero 10. Elas bem se tentaram defender, mas a professora foi bastante dura e justa com elas. Ouvia-se risinhos e piadinhas quando elas tentavam argumentar.

E nós, grupo do projeto sobre Incidência de Casos de Síndrome Álcoolico Fetal  na Subregião de Saúde do Norte, aplaudimos de pé a humilhação das pole position. Com a A. incluída.


E se calhar, porque me lembrei disto?
Dois motivos:

1. Talvez porque se há coisa que mais detesto neste mundo são os chicos-espertos. Cedo ou tarde eles se esbarram forte e feio. Tenho a mania de me fazer de estúpida. E adoro fazer aquela expressão facial quando vejo alguém a enterrar-se e eu pensar "já te fod***te!"
Lembro-me de uma vez estar numa fila de transito, a chover que Deus me livre (Braga, penico do céu...) e de repente passa a alta velocidade uma moto daquelas bem ruidosas com um casal jovem. Uns escassos metros depois, vejo a moto no chão e o casal estatelado, ele meio atordoado ainda com o capacete posto, ela sentada no alcatrão, segurando os joelhos todos ensanguentados, a chorar e a dizer "o que vou eu dizer aos meus pais?". Eu páro o carro para os socorrer como podia (código deontologico assim obriga), vou ter com eles para ver se estavam bem. Apesar de ele estar um bocado atordoado, mais pelo susto do que por outra coisa, não resisti e disse para o rapaz: Andasses devagar como os outros! és mesmo estúpido! Bem feita!

2. Porque detesto trabalhos de grupo e sei que neles não sou capaz de dar o melhor de mim. Se é para fazer trabalhos, que sejam de carácter individual onde os erros são meus e só meus. 

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