sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Caro F.

Graças a ti e muitas mais pessoas, consegui que as minhas férias de Natal que duraram até hoje foram simplesmente impecáveis.

Gostei dos jantares, dos cafés que combinamos. Gostei particularmente daquele café que tomamos só os dois naquele café-santuário na tua zona. Achei tão fofinha a decoração e o espaço em si que à saída dei os meus parabéns à dona do café.

No entanto caro F., peço desculpas se eventualmente te induzi em erro. No outro dia, quando estávamos no meu bar favorito entre amigos e tu me arrastaste para a pista de dança e me fizeste jurar que iria parar com a mania que tenho de morder o lábio porque estava subtilmente a provocar-te, eu também te jurei que não estava com intenções de provocar a ti nem a ninguém.  Ficaste a olhar para mim e sem querer os teus pensamentos viraram sussurros que foram perceptíveis por mim mesmo com a musica alta. "Mas afinal, qual é a tua? Que pretendes afinal?", sussurraste. Eu limitei a sorrir para ti e de uma forma um bocado leviana respondi "Nada".

Antes de ir para a cama conferi as sms e chamadas que me poderiam ter enviado e tinha umas três sms tuas. Enviaste-as depois de termos ido para casa. Chamaste-me presunçosa e disseste que eu tinha a mania que era mais que os outros. Chamaste-me cobarde por ter tido oportunidade de ter tido a faca e o queijo na mão contigo e com o ex seminarista só num mês e que eu simplesmente evitei a todo custo só porque gosto não gosto de montanhas russas.
Não te respondi temendo dar uma resposta pouco própria nunca falamos sobre isso pessoalmente. Espero bem que tenha sido a alcool a falar por ti apenas.

De qualquer forma, estarei ausente daqui até Junho. Espero bem que te aguentes...

Alima

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sobre as praxes

Decorria o ano 2004. Portugal parou para assistir aos jogos do Euro 2004, vibramos com as vitórias da Seleção das Quinas, choramos com a derrota contra a equipa grega.
Foi esse o ano em que terminei o meu secundário e ingressei no Ensino Superior. Concorri para os cursos que realmente queria, principalmente da Universidade do Porto. Cursos da área de Saúde estavam por completo fora das minhas ideias.

Entrei na 1ª opção em Ensino de Biologia e Geologia na Universidade do Porto com uma média generosa. Logo nesse dia, a minha mãe teve "a conversa" sobre o possível desemprego que poderia ter mais tarde uma vez que a área de ensino está há muitos anos pelas ruas da amargura.

Porque é que não tiras Enfermagem? Olha que é um curso muito bom. O filho da não sei quantas ganha um bom dinheirinho como Enfermeiro no hospital, numa clinica e não sei quê. Olha que ainda não há desemprego na área da Saúde... Medicina era o ideal, mas ainda estás a 1 valor e pico para lá chegares... 

Uma vez que não tinha feito os pre requisitos exigidos para os cursos de saúde, nenhuma universidade ou escola superior pública podia aceitar a minha candidatura, fui obrigada a inscrever-me numa Escola Superior de Saúde privada.

E lá fui eu, com dezassete anos e pico para a praxes. Cheguei lá no primeiro dia, fomos levados pelos nossos doutores para o Salão Nobre em que o presidente da Escola falou, depois um dos professores. E depois começaram as praxes em si. Caloiro não ri, caloiro rebola, caloiro meta o preservativo naquela banana, caloiro coma o almoço (que era esparguete) com um palito, cantiguinhas contra os outros curso, etc etc etc.

Se gostei de ser praxada? Hummmm até gostei. Foi lá onde conheci muitos dos amigos que duraram o curso todo. No entanto houve duas coisas que me fez sentir revoltava e com vontade de desistir daquilo:
Tinha eu dezassete anos e não era comum consumir álcool. E aqui a caloira foi obrigada a beber álcool. Obrigada sim porque fui mais que pressionada. Uma caloira contra cinco ou seis gajos e gajas de preto. Oh caloira beba que a sua mãezinha não está aqui! Mas que raio de caloira que se recusa a fazer parte da malta? 

Outra situação foi uma praxe noturna que fomos. Separam o grupo todo. Eu fiquei separada da minha boleia para casa. Os doutores ficaram com os nossos telemóveis. Uma das doutoras prometeu-me que me levaria a casa porque não tinham horas de acabar a praxe. Acontece que essa doutora, muitos outros doutores e muitos caloiros apanharam uma bebedeira descomunal. Ela, perdida de bêbeda, foi-se embora e esqueceu-se de mim. Tive muitas dificuldades para reencontrar a minha boleia porque não tínhamos o telemóvel.

No julgamento do caloiro queriam-me fazer a folha porque recusei ser praxada numa vez em que tinha um calo horroroso no pé. Não acreditamos no seu calo, caloira. Ainda mais porque está com sapato de salto alto. Tive que mostrar o meu calo aos doutores. Tive que mostrar o quão maleáveis eram aqueles sapatos (gente estúpida... qual é a relação entre um sapato de salto alto e biqueira larga e um calo no halux?)

Trajei, não praxei, e mandei o conselho de praxe da minha escola mamar na quinta pata do cavalo quando obrigaram os caloiros de Análises Clínicas ficarem de quatro por cima de pequenas rochas pontiagudas, tipo brita mas de maiores dimensões que seriam para calcetar uma estrada. Os doutores de Análises Clínicas disseram-me para não me meter. Stressei também quando gritaram bomba quando obrigaram os caloiros a passarem num enorme charco de lama  (quando nas praxes gritam BOMBA, segundo o código de praxe os caloiros devem-se deitar no chão).

Acabando o curso, guardei o traje num saco com umas bolinhas de naftalina, enfiei-o numa arca onde a minha mãe guarda o seu enxoval mais precioso e nunca mais o vi.


Concordo com as praxes até ao ponto em que começam os abusos. Se a caloira não bebe álcool, não bebe e pronto. Se a caloira não quer simular sexo com o cão, não quer e pronto.
As praxes são ótimas formas de convívio, de confraternização. E nunca para vinganças. Tive uma madrinha que me passou apontamentos de quem guardo uma grande estima. Não fui a caloira mais aplicada porque raramente ia a jantares e a convívios.... mas também reconheço que a organização dessas coisas poderia ser melhor na escola que frequentei.  Não guardo grandes memórias do meu tempo de estudante no Ensino Superior português.
A minha irmã acaba este ano em Coimbra e sempre deu para perceber que o espírito acadêmico é diferente. E nesse aspecto tenho alguma inveja dela porque ao menos passou cinco anos em Coimbra e fez com que eles valessem a pena.  E como lhe valeram a pena :)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sobre os arranjinhos...

Ontem finalmente marquei um café com o primo de uma amiga minha, assim no modo blind date. Não, não ando à procura da minha cara metade. Mas se há coisa que tenho a certeza é que enquanto não se conhece a pessoa certa, vai-se conhecendo as erradas. Nunca lhe tinha visto a cara. Não tem facebook ou linkedin ou coisa do gênero. Ou seja, iria entrar num café e deduzir se aquele gajo era o tal do date.

Entrei num café que estava bastante cheio. Encontrei-o sozinho numa mesa no canto a ler o jornal. Dirigi-me a ele e perguntei-lhe se era o irmão da M. o que ele confirmou.
Sentei-me no lugar em frente ao dele...


A parte divertida de tais dates é essencialmente descobrir qual é o defeito do outro. Eu apenas sabia que ele era da minha idade e prima da M.. E pouco sei sobre a vida da M. e da família dela. Sei o que ela faz e onde passa férias e thats all about it . E ele sabia um pouco mais de mim porque andou a cuscar-me nas redes sociais.


E pronto, o encontro foi muito agradável. Falou-se de livros, de viagens, do trabalho dele... e de um tema a que tenho amor e ódio: religião. Sim, porque ele é ex seminarista, ex candidato a padre, licenciado em Teologia e professor de Educação Moral! Quando lhe perguntei em que circunstância da vida ele tomou a decisão de ser padre, ele respondeu-me que gostaria imenso de ser missionário em África, ajudar pretinhos bla bla bla. Quando lhe perguntei o que fez desistir da ideia, respondeu-me que o celibatário era uma coisa lixada.
E pronto, ele foi bastante pouco celibatário quando me roubou um beijo ao som do Oceano Pacífico no meu carro, porque dei-lhe boleia até ao carro dele. E deu-me outro e outro beijo. E então eu lhe disse que tinha que me ir embora, pediu-me para outro encontro o qual educadamente declinei explicando que o problema sou eu, não ele.


Chegando a casa, enquanto os portões da garagem abriam e não abriam (maldita humidade!), liguei ao P.

P: Que mania tu tens de me ligar quando estou a f****!
Alima: Olha, acabei de ser beijada por um prof. de Moral, ex seminarista, ex candidato a padre! E olha que ele estava numa de muito mais... Achas isto normal????


E pronto... Só ouvi gargalhadas do P. no outro lado da linha até que desliguei a chamada...

Hoje de manhã o P. mandou uma sms a convidar-me para ir lanchar com ele Orelhas de Abade... ou delicias de Frei João!

Estúpido! Mil vezes estúpido...

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Querido P.

Um dia a minha tia contou-me que a filha dela andava com as tensões baixas. Mãe galinha como é, numa vez que eu levou a filha a ver as tensões na farmácia, perguntou a alguém que lá trabalhava o que fazer para ter as tensões mais normais. Esse alguém lhe disse:
- Ela que coma coisas salgadas. Presunto, chouriço ou assim...

Ora bem, a minha tia lida diariamente com enchidos e presuntos.
Começou a açambarcar a minha prima de 12 anos com txouriças e presuntos.
A miúda tinha fome, comia pão com txouriço. A miúda voltava a ter fome, comia pão com queijo. A sopa dela levava uma quantidade extra de sal. E batata frita de pacote passou a ser o Pai Nosso de Cada Dia

Passado uns tempos, perguntei por casualidade se as tensões da minha prima estavam melhores.
Resposta da minha tia.
- Ai Alima, as tensões agora estão boas. O problema é que ela fez análises ao sangue e tem o colesterol a 300!!!



AHAHAHAHAHAHHAHAHAHAH

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do marisco II

Tinha eu uns cinco anos, quando uma prima da minha mãe pediu para que eu fosse a menina das alianças do seu casamento. A sogra dessa prima explorava um hotel muito famoso e trés chic na zona do Gerês. E como tal, o copo de água foi servido lá.


Não me recordo de muitos pormenores do casamento. Apenas me recordo do apertado renault 5 em que eu fui com a noiva para a igreja, perdida em folhos e babados, da igreja e de um ou outro pormenor do copo de água.

Pelos vistos, a sogra da minha prima colocou uma enormeeee mesa com tudo que era crustáceo comestível. As pessoas nessa altura só estavam habituadas a camarões e pouco mais. E como não queriam dar uma de parolas, nem sequer olhavam para as lagostas, lagostins e afins. Da centena e tal de convidados que estavam no copo de água, apenas se aproximaram da mesa de mariscos:

1. O meu tio, habituado a essas iguarias dos tempos do Ultramar;
2. O meu outro tio, que aprendeu a comer lagostas nos tempos em que trabalhava num hotel na Suiça 
3. Os meus pais, habituados a Pedras Altas e a jantares fancy que volta e meia iam...
4. Provavelmente a sogra, sogro e cunhados da noiva

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Querida S.

Se há coisa que sempre invejei em muitas das minhas amigas era o facto de muitas delas terem a avó mais fofinha do mundo. A minha avó nunca foi uma pessoa fofinha nem daquele tipo de avós que faz bolos e bacalhau como ninguém (ela nem fritar um ovo sabe).
A minha avó sempre foi muito dura com o que diz. Estes dias, antes de sair de casa, pus um bocado de batom vermelho nos lábios. E quando ela me viu, comentou que aquele vermelho fazia com que eu parecesse um poulet. A minha mãe vociferou para ela "oh mãe, isso são lá coisas que se digam?". Eu rapidamente perguntei à minha mãe em que medida eu parecia um frango. E a minha mãe acabou por me explicar que poulet à la puttanesca é um prato francês. À LA PUTTANESCA! A minha avó acha que o meu batom 31 da Boticário me dá um ar de puta!!!


De qualquer forma ela também me faz passar por situações embarçosas/hilariantes. Graças ao friozinho que se rapa em casa (Viver numa vivenda nunca é tão confortável como um apartamento), a velha acabou por ficar rouca, com tosse produtiva, pulmões encharcados e falta de ar para complicar ao seu mega coração nonagenário.
E claro, fez pressão para que fosse ao médico o quanto antes. Então pus-me a mexer uns cordelinhos num hospital da misericórdia perto de casa para que tivesse uma consulta o quanto antes.


Dia da consulta, à hora marcada.

Eu e a minha irmã e a velhota na sala de espera.
Passa um médico muito bem parecido por nós. A minha irmã sussurra para mim "Eu com um destes até ficava doente de propósito". Eu limitei-lhe a dar um sorriso de cumplicidade e troquei poucas palavras com ela sobre o quanto concordava.


A recepcionista chama o nome da avó para ir para a sala X.
Eu e a minha irmã entramos com ela. O médico era o tal bem parecido.

E pronto risinhos dele e dela para lá e para cá, eu e a minha irmã como mera espectadoras. Ele examinou-a, eu entreguei-lhe a lista de medicamentos que ela tomava e tal. Ele passa-lhe uma receita e coisa e tal.

Quase a acabar a consulta. A velhota dispara para ele:
- Reparei que o senhor Dr. não tem aliança. É casado?
- Não, senhora O.- responde-lhe o médico.
- Óptimo, sr. Dr.. É que aqui as minhas netas estavam lá fora a comentar entre as duas que o sr. Dr. é muito bonito. E digo-lhe já que você me parece um cavalheiro. E sabe, as duas ainda estão solteiras. E são muito boas mocinhas.  E olhe, são quase MÉDICAS, está a ver?

O médico olha para nós e nós as duas com um ar completamente aparvalhado. Afinal de contas a minha avó tem problemas de audição ou não?


Meus amigos, nós as duas ficamos de todas as cores. Se houvesse um buraco, seria ali onde enterrávamos a nossa cabeça.
Que vergonha, meu Deus. Que vergonha.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sobre o Bullying

Foi com grande tristeza que fiquei a saber que numa escola EB2/3, bem próxima à escola que frequentei há cerca de catorze anos, uma criança de 15 anos suicidou-se. O motivo para tal ato foi o bullying que lhe era exercido pelos colegas.
Não conheço a criança, mas conheço pessoas que o conheciam. Aparentemente era uma criança muito dada a brincadeiras e disparates, típicos de adolescentes, em que nada previa este tipo de pensamentos suicidas.

Fui também, em adolescente, vítima de bullying. Fui e sou a primeira a admitir. Não tenho qualquer problema em dar a cara.

Em criança nunca tive qualquer problema, pois numa fase da nossa infância, os melhores alunos (como sempre fui) eram sempre alvo de inveja e de exemplo a seguir.
O problema é que todas as crianças crescem e como tal tornam-se parvas. Quem é sossegado e aplicado nos estudos é um cromo. Quem tem algo físico fora do normal é uma provável vítima de bullying. No meu caso é e sempre foi o  meu tipo de cabelo, que apesar de eu ser de raça caucasiana, tenho um cabelo tipicamente de raça africana.

Uma vez comentei com os meus pais o que se passava comigo na rua onde gostava de brincar nas noites de Verão, em que algumas das crianças faziam troça de mim. A reacção deles foi essencialmente "tens de ser tu a resolver problemas.Não vamos ser nós que vamos chamar a atenção de que não podem nem têm o direito de fazer isto e aquilo E eles estão a brincar contigo quando dizes que és feia. Olha que quem desdenha quer comprar! ". E foi assim que passei a tentar ignorar cada boca, cada humilhação que me faziam sentir. Jurei também que nunca mais iria contar aos meus pais. E cumpri. Cada risada que adolescentes (e muitas vezes de adultos que se riam das coisas parvas que os adolescentes me faziam) era como se me matassem aos pouquinhos. O meu desempenho nos estudos sofreu bastante. O meu refúgio estava na música das boysband, nos filmes do Di Caprio, no meu diário no qual escrevia religiosamente, nas revistas tipo Bravo e Super Pop onde lia algumas histórias parecidas com a minha.

Até que um dia, uns colegas da minha turma resolveram cuspir em cima de mim durante o tempo do recreio. E achei que tinha sido a ultima gota. Assim que pude, fui falar com a Directora de Turma, expus o meu caso, mostrei a minha humilhação e a minha angustia. Afinal, eu não tenho culpa de ter sido uma aluna sossegada e boa aluna. Nem tenho culpa de ter um cabelo diferente de todos os outros. O que é certo é que a Directora de Turma, minha professora de Francês, que sempre achei das professoras mais eficazes e eficientes que alguma vez tive, convocou uma reunião com os pais de alguns daqueles que me fizeram passar por aquela humilhação, pois alguns deles eram da minha própria turma. Um deles dividia a mesa comigo!
Foi praticamente remédio santo. Ainda ouvi muitos termos prejurativos contra mim e lá tentava ignorar.

Posto isso fui para o secundário, universidade e nunca mais, nunca mais me senti vítima de bullying.

Cada vez penso que muitos desses bullies ficaram pelo 9º ano apenas, nunca mais os vi, nem no portão de entrada do liceu, onde todos os rufias paravam para fumar os seus cigarros.
Cada vez mais penso que eu fui uma vencedora. Por muito que me tentassem deitar abaixo, de uma maneira global, sei que superei. Tirei um curso universitário. Estou noutro curso. Viajei para outros países, provei outros sabores. Não tenho nenhum amigo do tempo da infância, provavelmente porque todos eles se afastaram de mim quando eu era o alvo de chacota. Afinal quem gosta de ser amigo daqueles que são vítimas de troça? Mas conservo bons amigos do tempo do liceu e da universidade.
Muitos desses bullies muitos anos mais tarde enviaram-me convites para ser amiga deles nas redes sociais. Não os aceito, como é obvio, mas mando sempre a mensagem do "Quem és?". Afinal de contas não quero saber onde andam, nem as merdas que andam a fazer. Nem gosto sequer de pensar que eles podem ficar a saber por onde ando nem o que ando fazer.

 A minha mãe, professora no agrupamento de escolas que este aluno frequentava, há bocadinho comentou comigo que pelos vistos a comunidade escolar sabia do que passava, mas que pouco pode fazer nestes casos. Que se calhar, se ele tivesse dito aos pais, provavelmente isto não teria acontecido.
Aparentemente olhei-a com muito má cara, disse-me ela. Contei-lhe sobre aquela fatídica tarde no recreio, em que uns seis-sete marmanjos de 13-14 anos resolveram cuspir em cima de mim. Do quanto me senti humilhada por toda a gente se ter rido de mim. De que ninguém, mas ninguém me socorreu. E da iniciativa que tive em contar à Directora de turma, que foi bastante activa no meu caso. A minha mãe fez uma expressão de incredulidade e perguntou-me como é que nunca foi informada deste episódio. Então eu disse-lhe "Para quê? Para me voltarem a dizer que tenho que ser eu a lidar com os meus assuntos? Eu também pensava em me matar quando tinha a idade dele, sabias? E se calhar nunca tomei tamanha atitude porque no fundo eu sabia que eu poderia vir a ser alguém e eles não passarem da cepa torta. E olha, pelos vistos, não me enganei..."

No fundo eu sei que este drama que passei afectou imenso a minha personalidade. Tornei-me uma espécie de Robin dos Bosques para ajudar outras vítimas. Fez com que eu não gozasse a minha adolescência na sua plenitude. Tornei-me sem querer numa pessoa vingativa. Muito provavelmente o meu desequilíbrio alimentar deve-se muito a isso, pois a comida tornou-se no meu maior refúgio. E nessa altura ainda não sabia o que significava Bullying! Para mim era gozo e troça pura e dura.

O bullying é crime. Mas é mais criminoso quem fecha os olhos a este problema.
RIP Nelson Antunes. 



Alima

Peripécias Psiquiátricas

O Joaquim (nome fictício) era um homem que estava institucionalizado num hospital psiquiátrico no Norte de Portugal desde o remoto ano de 1932. Segundo registos biográficos,tinha ele catorze anos quando entrou pela primeira vez naquele hospital. Diagnóstico: "de acordo com a madrasta, o Joaquim tem atitudes antisociais, contudo não violento. Imbecil. Oligofrénico".
Sugerida lobotomia "para alivio de sintomas"
Segundo registos das assistentes sociais, nunca recebeu visitas. Nunca.
Não tem um discurso coerente, mas lá ia respondendo quando era estimulado. Gostava de cantar.


Descobri o estudo de caso sobre este senhor no meu disco externo. Realizei este estudo de caso em 2007, num estágio. O sujeito muito provavelmente já faleceu. Se não faleceu ainda, tem 95 anos... de 1932 a 2007 foram setenta e cinco anos institucionalizado. As únicas saídas que provavelmente teve foram pequenos passeios que o hospital psiquiátrico proporcionava.
A medicação psiquiátrica a pouco e pouco foi sendo transformada em medicação para a tensão, diabetes e colesterol. E a imbecilidade foi substituída pela demência geriátrica.


Mais de 75 anos institucionalizado!!! C'um filha da mãe!



domingo, 12 de janeiro de 2014

Do marisco...

Contou-me o meu tio F. que um dia, há uns 30 e tal anos atrás, um emigrante vindo lá de França, queria pagar-lhe uns favorzitos. E como tal, queria pagar-lhe uma mariscada para os lados  de Vigo.
Acontece que o meu tio, ex-combatente de Ultramar já estava habituado a comer camarão e lagosta. Aparentemente o tal emigrante nem por isso.

Chegaram à marisqueira com toques de finnesse, abriram o cardápio, e o emigrante disse que queria uma espécie de parrilhada de marisco. Quando chega a parrilhada, o homem não tem meias medidas, agarra um camarão pela boca e começa a trincá-lo como se de uma coxa de frango se tratasse.
Segundo o meu tio, TODA a sala olhava para o senhor. Mas ele não deu parte de fraco. Foi assim que comeu meia lagosta. Com casca, antenas e com tudo.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Desta minha Braga que tanto amo,

Umas das coisas que me deixou triste em 2013 foi o facto de eu não ter votado nas autárquicas no meu concelho, já que estava longe, bem longe.
Eu, social democrata assumida, fiquei extremamente contente quando soube que o meu partido ganhou a Câmara de Braga, depois de 37(!) longos anos sob alçada do partido socialista.

Recém chegada a Braga para umas férias de Natal, aproveitei para dar umas caminhadas pelo centro.
Infelizmente só hoje é que pude explorar bem os cantos e recantos da zona centro, já que só hoje o S.Pedro foi generoso comigo e trouxe uns tímidos raios de sol, o que tornou a temperatura mais amena e o passeio bem mais agradável.

O que vi e realmente gostei (considerando que o meu ultimo passeio pelo centro foi algures em Agosto):
- Menos zonas de estacionamento a pagar. Como sou prática, gosto de estacionar o carro perto do centro. Só não gosto de deixar a moedinha no parquímetro.
- Grande iniciativa nos dias antes do Natal com música ao vivo, muitas lojas abertas, feirinhas de rua, um entra e sai de pessoas das lojas do comércio tradicional.

O que não gosto:
- Maior parte dos cidadãos bracarenses, tal como eu, cresceu com determinadas lojas típicas em Braga. Eu sempre me lembro de entrar no Centro Comercial de Santa Barbara, junto ao famoso Jardim de Santa Barbara, onde estavam as lojinhas dos 300, onde se comprou as minhas bonecas de porcelana e muitos utilitários para casa. Pouco a pouco essas lojas foram extinguindo e dando lugar as lojas dos chineses que vendiam praticamente as mesmas coisas, só um bocado mais caras e com um atendimento em que o funcionário fala mal português. Essas lojas dos chineses foram também desaparecendo e o shopping agora não passa de um lugar escuro, perigoso, com maior parte das lojas fechadas (e as que sobrevivem vão pelo mesmo caminho). E por falar em lojas dos chineses, onde eram lojas grandes de mobiliario e decoração, os logotipos foram desaparecendo para aparecer nomes como Cheio Cheio.
Sempre me lembro de junto ao edifício da Câmara Municipal, numa esquina no largo, existir uma mercearia velhinha, parecida com a mercearia da aldeia da minha mãe, onde o balcão era em madeira, com paredes repletas de estantes de madeira tosca, em que estava um velhote simpático com sempre as mesmas velhas piadas, de bata azul para nos atender. Ia lá com frequência para comprar farinha milho que ele vendia ao peso (e desconheço onde possa comprar esse tipo de farinha atualmente) e para comprar figos secos e nozes.  Era daquele tipo de mercearias que a minha mãe falava que nos seus tempos de juventude, só se comprava arroz a granel ou açúcar, alimentos que agora estão devidamente embalados. Pois bem, a mercearia deu lugar a um edifício na esquina com portadas fechadas e uma tableta a dizer Vende-se.
Mesmo em frente havia uma loja, o bazar C.. Era lá onde comprava as linhas para o ponto Cruz, comprei lá muitas meias, material escolar, água de colônia de cheiro a lavanda e sabão para sedas. Os meus bibes desde o jardim de infância era lá comprados. A ultima bata branca que comprei, quando entrei para enfermagem foi lá comprada. Toda a gente conhecia o bazar C. Toda a gente pelo menos uma vez na vida lá comprou algo. Pois bem, o bazar C. já não existe.
A velha drogaria na Rua do Carvalhal agora é uma loja de venda/compra de ouro usado.
No centro de Braga, só me recordo de duas específicas lojas de brinquedos que me deixavam, em miúda, verdadeiramente hipnotizada com a montra: uma no C.C. Avenida e outra na Rua dos Capelistas. Pois bem, foram recentemente transformadas em lojas de decoração.
No Campo da Vinha havia um estabelecimento chamado A CASA DO BACALHAU que além de vender bacalhau, funcionava também como mercearia. Os meus pais, renitentes a existência de um hipermercado que se chamava Feira Nova na altura, optavam sempre por comprar o bacalhau nessa loja. Recordo-me de uma vez, pela altura do Natal, tinha eu uns três-quatro anos, enquanto o meu pai pagava o bacalhau, eu tentei empoleirar-me no balcão. O senhor, virou-se para a prateleira que estava atrás dele e tirou um pacote de bolachas Maria e deu-mo. "Do Menino Jesus para um anjinho", disse-me. É incrível que se possa ter recordações destas em tão tenra idade. Pois bem, a casa do bacalhau já não existe e deu lugar a uma agência imobiliária.

Pensando bem, acho piada a estas novas iniciativas de tentarem recriar tascas e lojas tradicionais como de antigas se tratassem. O conceito de ornamentação nostálgica começa a vir ao de cima. Consegue-se ver que em Braga, quem pode inaugurar um café típico, com boa pastelaria e com pão quente a toda a hora, consegue fazer dali um bom negócio. Aliás, croissanterias, pastelarias de aspecto chique e caro foi o que mais apareceu no Centro.


Infelizmente (ou talvez não), sou mulher de velhos vícios e nada me tira do café da Brasileira a meio da manhã e da tarde e os croissants de 70cm (não, não é exagero) de 60 céntimos do Lima que alimentam uma família de 4 pessoas :)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

E assim do nada lembrei-me disto

Naquele tempo em que a minha maior preocupação e a dos meus colegas do meu antigo curso era essencialmente um "projeto" de tese, tínhamos que nos reunir de quando em vez na casa de alguém, no shopping da cidade, às vezes na universidade e em vez de estarmos concentrados no dito projeto, estávamos essencialmente na galhofa. Ainda não consigo perceber como é que acabamos aquilo.
Íamos para a casa do J., ligava-se o portatil, pão com manteiga aqui, sumol de laranja acolí a acabava-se a jogar bilhar na garagem do rapaz.

Seja como for, em qualquer trabalho de grupo é possível caracterizar-se certo tipo de pessoas:
1. Os que se concentram na coisa, dedicam-se à coisa;
2. Os que se concentram mas também se distraem quando é preciso (o meu caso e o de maior parte)
3. Os que se tentam concentrar e acabam por estorvar com ideias parvas (mas que são boa malta e pagam-nos o café e bolinhos)
4. Os que não ligam puto àquilo e só aparecem para assinar, imprimir e apresentar.

Eu, a Su, a A, o J. e o H. fazíamos parte do mesmo grupo. A A. era a marrona e perfeccionista, o H. apenas o perfeccionista, a Su, eu e o J. eramos os "ok, o que vocês decidirem, decidido fica".

Acontece que a A. a meio do trabalho resolveu saltar fora do nosso grupo sem nos avisar. Combinávamos via sms para aparecer no local X à hora Y, e ela nem aparecia nem dava satisfações.
E só poucas semanas antes de entregar o projeto é que soubemos por intermédio da coordenadora de curso que a A. saltou para o grupo das pole position (isto é, as meninas da fila da frente da sala de aula, de mini mini saia, graxa q.b., com excelentes notas e com apresentações de trabalho de aspecto impecável (é por isso que enfermagem não anda para a frente, só querem apresentaçõezinhas e trabalhinhos de grupo de treta)). A professora ainda nos explicou que ela lhe disse que nós não acompanhávamos o ritmo de sua sabedoria, que eramos baldas, que preferia ficar num grupo do mesmo nível dela. Claro que quando ouvi isto pela boca da professora eu só pensava no quão parvas podem ser as pessoas. Mudar de grupo, ok. Explicar à professora que somos baldas é que não.
Entre o grupo, ficou combinado que não iriamos comentar nada com a A. sobre esta troca súbita e sem qualquer aviso. Ela quando se cruzava connosco na Universidade lá tentava cumprimentar-nos e tal. E nós , tarefa hercúlea, disfarçávamos a vontade de lhe ir ao focinho.

Julho de 2008. Dia da defesa do projeto.

Fomos dos primeiros grupos a defender. Fizemos uma espécie de brilharete. A professora criticou isto e aquilo mas disse que o trabalho estava realmente muito bom. Deu até luz verde para que seguíssemos com o projeto em frente (que acabou por ficar no disco rígido guardado apenas)

Uns grupos depois, foi o grupo das pole position. Bem, foi o drama, o horror. A professora criticou imenso o trabalho. Garantiu que foi plágio puro e duro de uma tese de uma universidade brasileira. Deu-lhe um mísero 10. Elas bem se tentaram defender, mas a professora foi bastante dura e justa com elas. Ouvia-se risinhos e piadinhas quando elas tentavam argumentar.

E nós, grupo do projeto sobre Incidência de Casos de Síndrome Álcoolico Fetal  na Subregião de Saúde do Norte, aplaudimos de pé a humilhação das pole position. Com a A. incluída.


E se calhar, porque me lembrei disto?
Dois motivos:

1. Talvez porque se há coisa que mais detesto neste mundo são os chicos-espertos. Cedo ou tarde eles se esbarram forte e feio. Tenho a mania de me fazer de estúpida. E adoro fazer aquela expressão facial quando vejo alguém a enterrar-se e eu pensar "já te fod***te!"
Lembro-me de uma vez estar numa fila de transito, a chover que Deus me livre (Braga, penico do céu...) e de repente passa a alta velocidade uma moto daquelas bem ruidosas com um casal jovem. Uns escassos metros depois, vejo a moto no chão e o casal estatelado, ele meio atordoado ainda com o capacete posto, ela sentada no alcatrão, segurando os joelhos todos ensanguentados, a chorar e a dizer "o que vou eu dizer aos meus pais?". Eu páro o carro para os socorrer como podia (código deontologico assim obriga), vou ter com eles para ver se estavam bem. Apesar de ele estar um bocado atordoado, mais pelo susto do que por outra coisa, não resisti e disse para o rapaz: Andasses devagar como os outros! és mesmo estúpido! Bem feita!

2. Porque detesto trabalhos de grupo e sei que neles não sou capaz de dar o melhor de mim. Se é para fazer trabalhos, que sejam de carácter individual onde os erros são meus e só meus. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Fica um poema que aprendi quando tinha uns cinco-seis anos e ainda o sei de cor...

Hoje que o ano começa
E para que comece bem
Vou fazer uma promessa
Ao meu pai e à minha mãe

Prometo solenemente
Não brigar com o meu irmão
Repartir com toda a gente
Brinquedos, bolos e pão

Ter sempre tanto juízo
Quer de dia, quer de noite
E que nunca seja preciso
Apanhar algum açoite

Porque se assim o fizer
Hei-de ter muitos amigos e amigas
Porque a amizade se pega
Mais que o sarampo e as bexigas.

Desconheço o autor. Sei que este poema estava num livro infantil que eu tinha.

É pena que já não consiga decorar outras coisas.

Um excelente 2014! Que todos os vossos desejos se cumpram.


Alima