terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Recapitulando 2014

Num balanço geral, o ano foi muito positivo. Que 2015 seja tão bom ou ainda melhor. Pressinto que 2015 será um ano de muitas mudanças, a ver vamos se vão ser positivas.

Feliz Ano Novo, boa gente.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Do Karma

Sou uma pessoa que tem muito orgulho nas unhas. São unhas que dificilmente se quebram, são unhas que consigo deixar crescer sem problemas, se bem que desde pequena tenho o hábito de as ter curtas por causa do piano. São unhas que nunca levaram com gelinhos nem merdinhas em cima a não ser com vernizes de cor normalmente subtis ou no Verão com cores bem garridas. 

E pronto, este ano a minha mãe aconselhou-me que para ir toda pimpona para a consoada, deveria fazer uma manicure numa profissional:

- Deverias ir a uma moça que tem um centro de estética ali para os lados do centro. Faz baratinho. A tua irmã costuma lá fazer as unhas de gel. 

(Sim, a minha irmã é daquelas que tem umas unhas todas lixadas à conta do vício de as roer até não poder mais e daí ter posto gel naquilo que sobra de unhas...)

E lá fui eu, toda contente conhecer a profissional que trata das manápulas da minha irmã.

Cheguei ao centro de estética. Entro e a primeira coisa que reparei foi nas paredes verde pistacho de gosto duvidoso, no enorme espelho com luzinhas fusco-fusco e no balcão em madeira com um Pai Natal de pequeno tamanho. Chega a esteticista com uma farda toda florida tipo enfermeira americana e de máscara na cara.

- Boa tarde... é para quê?

 Imediatamente expliquei que queria que ela me desse um jeitinho às unhas. 

- Fachabôr de entrar naquele gabinete.

Entrei, sentei-me numa cadeira que lá estava. A gaja tinha tirado a máscara. De vislumbre, observo-lhe o focinho. EU CONHECIA-A de algum lado. E o meu pressentimento sobre ela não era bom. A gaja, com retoques de enjoada começa a pôr as minhas mãos numa tina de água morna. 
Eu tinha que puxar conversa:
- Está muito frio lá fora... isto está mau para quem sofre de frieiras... está-se em casa no quentinho, vai-se para a rua e quem sofre são as mãos.

- Você tem razão... então na minha zona cai geada que é uma coisa por demais... Frio lá e às vezes cá em cima está calor.- responde-me.

- Hum... geada é coisa típica na minha zona também. Onde vive mesmo?- pergunto descaradamente.

- Vivo na urbanização de S. Jerónimo- responde-me despreocupadamente.

- Que giro, eu moro relativamente perto! Provavelmente andamos na mesma escola.- digo.

- É provavel... eu era da turma do Xico. Toda a gente conhecia o Xico. 

Sim, toda a gente conhecia esse gajo pelos assaltos, arraiais de porrada que levava do padrasto e daquela vez que ele golpeou uma miúda com um x-ato por causa de cem escudo.

- A propósito, eu também era conhecida. Era conhecida pela Patoca. E tu? como te chamas? A tua cara não me é estranha...- continuou.

Claro, claro que me lembrava desta gaja, Era uma bully de primeira. Andava sempre com um grupinho de amigas, sempre vestidas de tons escuros e sempre a tentar enfernizar os mais novos, os maios calados, os menos populares. Andavam sempre a pedir dinheiro emprestado que não voltariam a entregar. Fumavam e curtiam atrás dos balneários. Lembro-me desta Patoca ter oferecido porrada a outra gaja por causa de um namorado que tinham em comum. E que a briga foi bem feia. Lembro-me de ela ter faltado a um teste de História e ter ido fazer esse teste na minha turma. E ela passou o tempo todo a chamar pela pessoa ao lado, neste caso eu, para que lhe desse as respostas ao qual eu categoricamente ignorei-a porque estava concentrada a fazer o meu e porque não tinha vontade nenhuma de a ajudar. A gaja à saída do teste deu-me um enorme pontapé na perna ao qual não reagi, ignorando-a.

Comecei a sorrir parvamente quando estas recordações vieram-me à cabeça. 

- Meu nome é Alima. 

Aquela que foi rainha da EB 2/3 está a fazer unhas a uma das suas antigas vítimas... Ai o sabor agridoce do karma!

 E sim, deixei gorjeta :)  





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Das ofertas

Se há coisa que não me importo de fazer é oferecer aos meus amigos o que vou tendo a mais. Por exemplo, todos os anos é sistemático que dê um saco de castanhas a algumas pessoas, uma vez que durante o Outono a minha mãe gosta de ir para os soutos apanhar castanhas e no Natal, sempre que vou à aldeia do meu pai, há sempre alguém que nos ofereça generosos kilos de castanhas para retribuir o facto de estarem a utilizar os nossos pastos e os nossos campos. E estas castanhas são para mim as melhores porque são enormes e demoram muito mais a apodrecer.

Muitas dessas pessoas me retribuem de volta com alguma prendinha simbólica assim que sabem que lhes vou dar castanhas ou outra coisa. Pronto... uma espécie de troca em que todos ficamos a ganhar.

Mas se há coisa que me irrita um bocado são aquelas pessoas que damos durante anos e elas nem sequer agradecem. E irrita-me mais quando ainda mandam bocas a mostrar que estão à espera de mais um saco de castanhas por exemplo.


Este ano fiz um pacto com a minha mãe: oferecer a quem nos oferece. Parece uma troca mais que justa. As castanhas que não dermos e que não comermos que apodreçam!

Hoje estava eu a tirar as compras do carro e aproximou-se uma vizinha que todos anos a minha mãe lhe oferecia fruta e que nunca se dignou de retribuir com o quer que fosse.

- Ai Alima, venho agora do supermercado, queria comprar umas castanhitas para por a assar na lareira mas estão tãaaao caras...!

- Pois estão Sra. M.! Venho do mesmo supermercado e reparei isso... Ainda bem que tenho imensas castanhas cá em casa que fomos apanhando ou que nos deram, senão ir-me-ia embora este ano sem provar uma. Olhe, são tantas que já estão a apodrecer o que é uma pena- digo-lhe dissimuladamente.

A mulher como viu que este ano não recebia nada deu meia volta...pronto.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Natal

O Natal. Detesto o Natal. É das piores épocas festivas que tenho que engolir e esta nunca consigo escapar.

Natal perfeito seria eu, de pijama e robe, de meias, à frente da lareira enquanto vejo um filme ou enquanto estou entretida a jogar na Wii. Se possível com a minha irmã e com a minha mãe a jogar também.

Mas não: Natal para ser Natal com a minha mãe, tem de ser enfiada numa sala de jantar bem barulhenta com os meus 14 tios e os meus 18 primos, família essa que só encontro nestas festas e alguns casamentos (porque esta gente nem se digna de ir a funerais). E quando se junta muita gente, é para discutir, roubarem os lugares da mesa uns dos outros. E depois promete-se que não se volta a repetir uma consoada assim no próximo ano. Mas depois  esquece-se e volta tudo ao mesmo todos os anos.

Natal é aquela época festiva que se pensa em usar uma roupinha bonitinha, mas acabamos por vestir uns jeans e uma camisola polar porque faz um frio do caraças.
É aquela altura em que o meu lado claustrofóbico surge quando estou dentro de um Centro Comercial, porque é muita confusão, porque é muito barulho, porque o mesmo cd de músicas natalícias passa em todos os lados, porque há muitas criancinhas aos gritos à solta, porque para embrulhar uma prenda tenho de estar numa fila com 1000001 pessoas....

Odeio o Natal. Já disse que odeio o Natal?






domingo, 21 de dezembro de 2014

Então Alima, conta lá como eram as tuas Consoadas na Infância...

Ano sim, ano não, passava na casa ou dos meus avós paternos (aka avô Custódio) ou na dos meus avós maternos (aka Avô Adelino) que alternava com o Ano Novo.

De longe, em miúda, eu gostava mesmo era do Natal na casa dos meus avós maternos. Tudo porque tinha uma catrafada de primos para brincar, porque era uma barulheira e confusão geral, onde predominavam as piadas, os risos e as discussões estúpidas. Era um Natal bem mais trabalhoso que na casa do avô Custódio, porque era muita mais gente, porque a casa era vinte vezes maior, onde a sala ficava numa ponta e a cozinha noutra e de um lado a outro, a avó fazia questão de deixar tudo impecável.

A decoração Natalícia cabia à inteira responsabilidade dos netos. Sabíamos de antemão que os objectos decorativos estavam num dos quartos do mirante. Antes da noite cair,  íamos buscar o musgo aos muros do laranjal e montávamos o presépio no pátio da casa. 

A loiça era a do serviço mais refinado que havia por casa, e normalmente usava-se os talheres já super antigos, dos tempos em que os meus bisavós tinham uma fábrica de cutelaria em Guimarães, quase a tentar não esquecer os tempos em que havia abundância de dinheiro. Os copos... bem, esses todos os anos um e outro partiam-se. 

O salão estava sempre repleto de gente, onde quase não havia espaço para todos. As crianças sentavam-se a uma ponta e os adultos em outra. Muitas vezes usava-se a mesa de jogo para servir de mesa de refeições também. 
Ao fundo do salão, em cima de um louceiro, ou em cima de uma arca enorme num dos quartos, haviam dezenas de pratos com os típicos doces natalícios minhotos.

Além dos típicos doces, os pratos da Consoada eram sempre os mesmos: o polvo assado, o bacalhau, o peru, e os mariscos. 

A dona Maria, a velha empregada da família, vivia numa azáfama no dia da consoada, ora a descascar e a cortar batatas, ora varrer e a voltar a varrer a cozinha, ora a aumentar a fogueira e só bem à tardinha é que ia para a casa dela, normalmente com a comida já preparada da casa da minha avó. 

O avô Adelino, um homem sério e com uma presença bem marcante, tinha o dom de acabar com as discussões e era capaz de impor respeito e silêncio quando se sentia perdido entre a confusão. 

Em qualquer festa há sempre a dramática. Esse papel caia como uma luva à minha tia Lucrécia. Ou reclamava porque as batatas eram poucas, ou porque havia pouco bacalhau, ou porque as couves estavam mal cozidas. E o alho? não há alho nesta casa para comer com o bacalhau? Reclamava, reclamava mas era a que chegava sempre tarde,  não ajudava nas lidas domésticas e saia sempre cedo, não ajudando a lavar a loiça.

Há meia noite tocava o sino para a missa de Natal. Ainda havia quem defendesse que deveríamos ir, mas não me recordo de ninguém que se tenha levantado para ir realmente.

Quase há hora da saída aparecia um Pai Natal que ia dando as prendinhas às crianças, normalmente uma caixa de chocolatitos para cada uma... Esse Pai Natal era claramente a minha tia Constança, porque mesmo atrás das barbas, via-se a quantidade de maquilhagem que ela usava (e usa) que sempre a fez com um aspecto pesarão. 
Mas a verdadeira magia do Pai Natal acontecia quando chegava à minha casa e na lareira estavam as minhas prendas que o velho de barbas deixava. Nunca eram as prendas que realmente pedia, eram bem mais fraquitas, mas para mim era fantásticas.
No dia seguinte, reecontravamos na casa do avô Adelino para comer a roupa velha e para acabar com os doces.

Eram Natais felizes e abundantes e sinto que a morte do meu avô Adelino no dia 25 de Dezembro de 1994 tenha sido a causa da decandência que foi aumentando nas Consoadas nos anos seguintes.

Na casa do avô Custódio, casa pobre e velhinha, comia-se na escura e decadente cozinha beirã junto ao fogo para fugir do frio, muitas vezes com o prato na mão. Eramos apenas 5-6 pessoas à mesa, não havendo mais crianças além de mim e da minha irmã, logo a refeição era feita em silêncio, ainda por cima sem televisão, porque a televisão ficava na sala. A refeição consistia apenas no bacalhau e nas batatas e um prato de aletria e mexidos. E depois de jantar, ficava-se à lareira a falar trivialidades. 

O pai Natal nunca chegou àquela aldeia. Ali era o Menino Jesus que dava as prendas. E era ali que compreendia que num frio daqueles, uma vaca e uma mula não são de todo suficientes para aquecer alguém. A casa do avô Custódio nunca soube o que era um presépio nem uma fita de Natal sequer. Que eu saiba, só a casa da frente e a de outra família é que tinham umas luzitas de Natal e pouco mais.

Todos os anos a minha mãe chorava porque queria estar na casa dos pais dela e no meio da confusão. Era a dramática da festa: ou porque aquele bacalhau era do fraco, ou porque a aletria estava uma porcaria (a minha avó metia leite na aletria, coisa que a minha mãe odiava), ou porque era o seu pior Natal de sempre. 
O problema é que ela mal sabia que iríamos passar no futuro Natais bem piores, Natais ainda com menos gente, Natais com menos comida.

O último Natal que passei na casa dos meus avós paternos foi o de 1996. Depois disso todas as festas começaram a ser feitas na casa da minha avó materna até à morte do avô Custódio a 22 de Dezembro em 1999.  E foi a partir desse ano que os Natais perderam completamente aquele sabor. Pode ser que volte a ter sabor quando voltarem a haver crianças à mesa. Nunca mais montei presépios nem decorei pinheiros de Natal. Tais decorações estão guardadas em parte incerta no sotão de casa. 

Alima.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Caro C.,

Como tu disseste naquela esplanada junto ao mar, debaixo de um sol tímido, a nossa amizade dura há anos. Uma amizade em que o contacto físico foi pouco, mas que graças ao computador, esse contacto não é assim tão obrigatório. Passamos horas a lermos um ao outro. Desabafamos um com o outro tantas vezes. Foste um porto de abrigo quando eu passei por um momento menos bom na minha vida. E o mais engraçado é que naquela esplanada fizemos piadas sobre essa fase que passei.
E com a mesma naturalidade continuamos a falar na cara um do outro sobre acontecimentos das nossas vidas. 

E quando me interrogaste porque é que nunca tentamos uma coisa séria um com o outro apesar de nos completarmos mutuamente, simplesmente sorri e limitei a explicar o meu conceito de distância e as consequências dela. Tal como toda a gente, estamos a lutar por chegar ao auge da nossa felicidade, auge esse que é inconstante e sempre mais difícil de alcançar, como se de patamares se tratasse. E nessa luta estamos juntos, meu querido, como camaradas de guerra contra as adversidades deste mundo e do nosso destino. 

Quando me falaste que irias tentar lutar por uma pessoa da qual achas que estás realmente disposto a abdicar de muitas coisas, eu limitei a advertir-te das consequências que às vezes eu sei bem e tu nem por isso. Abdicar de qualquer coisa faz parte da vida, mas até que ponto vale abdicar algo por alguém?

Desejo acima de tudo que a luta seja curta: ou que a conquistes depressa ou que assim que perceberes que talvez não valha a pena, desistas depressa. Porque desistir nem sempre é coisa de cobardes. Desistir muitas vezes é a solução para que não te leve à loucura, loucura que tu bem sabes que eu passei e que vou recuperando.


Na nossa despedida, abraçamos-nos e seriamente pensei em beijar-te. Um beijo terno, doce, sem compromisso e não tão intenso como naqueles do cinema. Mas optei por não o fazer não fosse eu ser mal interpretada ou de poder dar-te esperanças onde penso que talvez não existam.

Boa sorte com a tua luta...e que aquele farol que me mostraste ilumine sempre o teu caminho...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Facto

Enfardar dois pacotes de amendoins cobertos de Paprika e de Chilli, enquanto se olha para os livros, a menos de uma semana de começar os exames, deixa-me um bocado mal dispostinha.




Não sei se é dos livros. Ou do stress dos exames. Ou dos amendoins.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Tia Emília

A tia Emília era a irmã mais velha do meu avô. 
Era dona de uns olhos azuis, tal como os seus irmãos, um desdentado sorriso simpático e uma pele bem enrugada, fruto dos ventos da serra e dos anos na lida nos campos.

Em nova era uma mulher bonita. Loira e de olhos azuis. Como se de uma germânica ou viking se tratasse. Bonita e pobre. Tão bonita e tão pobre que fez com que o padre da aldeia se aproveitasse dela e lhe fizesse um filho. Chamaram-na de perdida. Perguntámos uma vez onde tinha ela a cabeça para se meter com um homem da igreja ao que ela respondeu que a fome e a necessidade era tanta que tinha que se sujeitar.

E como ninguém queria casar com uma mulher já com um filho, sujeitou-se a casar-se com um pobre bêbedo da aldeia. Dele teve mais cinco filhos. Todos os seus seis filhos dormiam na mesma cama em pequenos: três de um lado, três do outro. E quando os filhos foram crescendo, deixou-os na casa da cunhada para que os fosse criando. Dele também teve uma vida dura de violência doméstica e de muita miséria.

Viu dois filhos partirem para a guerra no Ultramar. Voltaram vivos. Viu todos os seus filhos emigrarem para França. Viu todos a voltarem com alguma fortuna para que pudessem abrir negócios no vila. Os pobres da aldeia tornaram-se praticamente donos de tudo que fosse negócio no vila.

A tia Emília foi uma figura que fez parte da minha infância e da minha adolescência, não fosse ela cunhada e confidente da minha avó. Recordo-me dela na cozinha escura da minha avó a descascar ervilhas à lareira. Tenho uma lembrança dela ter um prato enorme de barro com um galo pintado, onde ela, a minha avó e o meu avô comiam ao mesmo tempo do mesmo prato. 
Recordo-me que num Natal qualquer, a minha mãe comprou-lhe um perfume baratucho, o que a deixou extremamente comovida: foi o primeiro perfume que recebera em toda a sua vida.

Assistiu ao funeral do seu irmão mais novo (que morrera de silicose pouco após o encerramento das minhas de vulfrâmio), do seu irmão do meio, da sua cunhada, do marido, de dois filhos e de um neto. Foi ela que vestiu e asseou o irmão do meio quando ele faleceu. 
E com a perda dos dois filhos e do neto, começou-se a pensar que ela iria morrer de desgosto em breve. Aguentou-se da melhor forma como pode, indo semanalmente visitar o túmulo dos filhos. Mas foi, claro um duro golpe para ela. 
Os sintomas de senilidade logo logo apareceram. Sempre que a via na vila ia cumprimentá-la e ela já não me reconhecia. Mas educadamente lá trocava duas palavras comigo mesmo sem sabendo quem eu era.

A tia Emília resolveu partir numa manhã fria de Dezembro. Os seus olhos azuis fecharam-se para sempre. Tinha 97 anos e uma vida de muito sofrimento. Espero que ela tenha alcançado a paz que sei que ela merece. 


P. S. Nenhum filho ou neto destes três irmãos herdaram os olhos azuis. Foi a última pessoa da família a morrer com tal característica. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Como fazer com que a Alima se engasgue, fazendo estrandalhaço numa biblioteca pública...

Alima liga o computador.
Quando o computador da Alima se liga, liga imediatamente o Skype e Facebook Messenger.
Alguém escreve mensagem com um Olá no Skype para a Alima. A Alima responde-lhe.



E não... ele não estava a brincar... :(
E não.. não somos namorados.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Então Alima, que viste e sentiste ao ver a tua janela esta manhã?


Neve. E vontade de cortar pulsos tal o meu entusiasmo.

E começando logo a rezar que não vá ver muitas bacias e fémures partidos no Departamento de Ortopedia...ou que eu não vá lá parar tal a minha grande propensão a quedas.


Já disse que detesto neve..?

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Do enxoval

Não há muito tempo, se houvesse boa mãe que se prezasse, teria de aos poucos e poucos fazer um enxoval para os seus filhos. 

A minha mãe, de boas famílias minhotas, acabou por herdar da mãe dela, assim como das suas avós, das tias solteiras, de um padre bonacheirão e de um advogado da família que morreu solteiro, entre alguns objectos de valor, uma generosa quantidade de lençóis de linho assim como uma enorme panóplia de toalhas, camisas, cortinas e panos em linho bordado e rendas. 
Todo este enxoval que a minha mãe herdou está religiosamente bem guardado na arca renascentista que ela tem no quarto dela. Esta arca, quando aberta (o que é para aí uma vez ao ano), liberta um cheio intenso a alfazema dos saquinhos de algodão que tem lá dentro. 

Ou seja, em casa temos dois enxovais: o que vamos rompendo e o que nunca o vemos para não o romper. 

Volta e meia a minha mãe lava todo aquele linho porque é um tecido que mancha rapidamente. Fica meio amarelado como se estivesse em contacto com a ferrugem. Lava, põe limão nas manchas e deixa a curar ao sol... E como se não bastasse, se há passatempo que ela tem é passear por feiras de antiguidades e compra mais e mais linho ou bordados em linho.

"Vês, Alima... este linho caseiro pode não ser tão bonitinho como o industrial, mas que é melhor lá isso é.. Isto nunca mais acaba", diz-me sempre quando a acompanho.

Outro passatempo que ela tem é crochet. Cresci com a minha mãe sentada no sofá com a telenovela ligada enquanto contava os quadrados do seu crochet. E quem tem uma mãe que faz crochet, tem uma mãe que colecciona cortinas, colchas, toalhas e outras coisas. Até começarmos a comprar LCD's, todas as televisões tinham um paninho em cima.
E recordo-me bem daquele dia em que a minha mãe amuou, porque retirei as cortinas de linho do quarto para substituir por umas mais leves. "Assim desvalorizas o teu quarto, Alima!!!". Respondi-lhe que já bastava ter mobília estilo D. José no quarto, que não precisava de mais coisas para que se parecesse um quarto de museu. 

Poucas vezes por ano a tal arca é aberta e das poucas vezes que o é, é para resgatar algum jogo de lençóis de cama ou de banho quando temos visitas.
Sei que há lá uma toalha adamascada de mesa com quatro metros que a minha mãe comprou há muitos anos para que a usássemos na minha festa de final de curso. Eu já acabei um curso, a minha irmã também e a toalha nunca foi usada. Em tom de gozo perguntei à minha mãe, quando é que ela quer usá-la mesmo ao que ela respondeu que ainda não acabei o curso, nem fiz uma recepção aos convidados no meu casamento... pois, pois...

Nós bem dizemos à minha mãe que está na altura de ela começar a usar as coisas que ela foi herdando ao que ela responde "é pena estarmos a estragá-las... não querem que os meus futuros genros quando vieram cá visitar-me, durmam em lençóis bons? Estas coisas é para guardar para as visitas!"

Aposto que nenhum genro da minha avó dormiu em tais lençóis...

sábado, 29 de novembro de 2014

Ter uma semana intensiva na cirurgia/gastroenterologia foi interessante para saber que:

- é possível engolir uma escova de dentes, durante o acto da higiene oral, segundo a paciente.
- não é assim tão raro alguém chegar ao hospital com um desodorizante spray enfiado no respectivo traseiro.
- e quem diz desodorizantes, diz outros objectos cilíndricos de aspecto fálico que ficam empancados por descuido.
- que não é assim tão raro a tricotilofagia (distúrbio psicológico onde a pessoa tem o hábito de comer os próprios cabelos) e que depois aquilo quando removido do estômago é assim uma bola de pêlo com a consistência de uma pedra bahhhhhhhc
- que o acto de manusear um endoscópio é semelhante à maneira como eu jogo videojogos: inclina-se a cabeça, inclina-se a cabeça, retrai-se a cabeça em cada curva, contra curva e travagem.


Que semana mais divertida... hum hum

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

E durante o fim de semana vi o filme "Sei Lá"

E cheguei a brilhantes conclusões:

1. A roupa que se usava em 1999 é exactamente igual à que se usa em 2014.

2. As betas de Lisboa quando se encontram para jantares só de betas, é só para falar mal dos homens. 

3. Basta apertar os tomates de um marido traidor, para que ele pondere assim à primeira em passar a ser um esposo fiel.

4. Ter trinta anos e ter um apartamento acima do espectacular em pleno centro de Lisboa é uma coisa que era possível em 1999.

5. Em 1999, uma beta lisboeta com 30 anos já era uma jornalista conhecida e que até tinha a possibilidade de pedir o salário que pretendia.

6. A Leonor Seixas representou uma personagem que é tal e qual a Margarida Rebelo Pinto, coisa que eu sinceramente odiei.

7. A banda sonora era 100% beta. 

8. No filme aparece algumas falas em que a protagonista trata alguém por Você. Isso não é falta de respeito?

9. A única coisa que realmente gostei do filme foi o cabriolet verde do Cerdeira. 

10. A Margarida Rebelo Pinto, essa que pensa ser a Florbela Espanca deste século, continua a ser uma merda de escritora, com livros de merda, uma fútil de merda, com atitudes de merda.

 Ah e tal, como sabes que ela é uma escritora de merda, Alima? Talvez porque li alguns livros dela, sacadinhos na internet ou porque às vezes encontro os livros dela a preços de chuva no OLX, o que faz com que os leia e os ofereça a amigas que adoram a gaja.

domingo, 23 de novembro de 2014

Conversa de moucas

Enquanto o professor lia o powerpoint sobre Malárias, Ébolas e Degues, na cadeira Medicina Tropical, eu e a J., portuguesa do Puorto, começamos a conversar baixinho.

- Com estas doenças todas que acontecem nestes países, nem dá bontade nenhuma de os ir visitar...- sussurra a J.

- Olha, eu cá gostaria de visitar Cabo Verde. E não quero morrer sem ir a Angola primeiro. Mas primeiro tenho de conhecer algumas cidades pela Europa... tipo Viena.- digo-lhe baixinho.

- BIANA? Tu qu' és de Braga nunca foste a BIANA DO CASTELO???- pergunta-me com ar assustado.

- Oh burra, claro que já fui a Viana! Estou a falar de V-I-E-N-A! A de Áustria e que também tem muitos castelos. - respondo-lhe meia perdida de riso.

- Oh... Eu já fui a BIANA e a BIENA. Mas gostava de ir a Praga. Quando bamos a Praga as duas?

- Oh pah, quando eu estiver por Braga vais lá fazer-me uma visita e eu levo-te a conhecer a cidade.- respondo-lhe.

- Oh burra, PRAGA, não BRAGA!!!- diz-me de uma forma zangada mas divertida.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Agosto 2014- Festa de S.Bartolomeu (Ponte da Barca)

Eu e mais uns amigos íamos numa carrinha de 12 lugares rumo à romaria.
Diz a M.:
- Vamos estacionar a carrinha na casa de uns amigos dos meus pais porque eles têm a casa mesmo no centro logo não vamos ter chatices de arranjar spot para estacionar. Eles são uns porreiros. Os filhos deles também: o mais novo acabou agora medicina e a mais velha está a tirar medicina para a Rep Checa ou Letónia ou coisa do género... mas atenção: não se devem rir da forma como ela fala! Estão a-v-i-s-a-d-o-s!

Claro que ficamos com a pulga atrás da orelha para saber de que falava a M.

Chegados à casa dos amigos dos pais da M., fomos muito bem recebidos por dois dedos de conversa, um caldinho verde e um grelhadito de simpatia, coisa que aceitamos por educação e não porque estávamos com fome. Fomos apresentados aos filhos do casal. E sim a filha deles tinham uma forma de falar estranha. Basicamente o que mais me deixava desconfortavel era o facto de tudo que fosse J ela dizia X e o que terminava em plural ela terminava num sibilo com X. Portanto, o João naquela noite chamava-se Xoão e carros era carrox. 

Já no calor da festa, no meio da multidão, entre finos, ginginhas e outras misturas, inconscientemente gozávamos com a rapariga forte e feio, era o Xoão, era o Vila Franca de Xira ou seja puxávamos o que de parvo tínhamos em nós.. E como ela também estava sob o calor da noite, não se apercebia de nada, digo eu.


Outubro de 2014- Porta da Faculdade aqui da parvónia

Eu e o F. estávamos sentados nos bancos e aproximam-se um rapaz e duas raparigas que cumprimentam o F. entusiasticamente. O F. apresenta-me como colegas portugueses de transferência. Surge então uma conversa animada entre nós os cinco. Uma das raparigas fala qualquer coisa cujo tema não me recorda mas cuja forma de falar era-me familiar.

Destemida afirmei:
- És nortenha como eu!

Ela respondeu:
- Sou poix... sou minhota.

De uma forma séria disse-lhe:
- Deves ser do Alto Minho... Arcos ou... Ponte da Barca!

A miúda:
- Oh! Sou de Ponte da Barca! Como adivinhastex? Que xiro!

:D :D :D :D 

Não... eu não lhe disse que era pela forma como ela falava, porque nem sotaque posso chamar... Aliás, fiquei a saber mais tarde que ela trabalhou dois anos em Vigo onde provavelmente captou aquele sotaque galego... digo eu... 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Carta a uma companheira das ramboias que inesperadamente faleceu

Cara D.,
soube na passada segunda-feira da tua partida.
A minha primeira reacção foi a de incredulidade. Depois de revolta. Só depois de tristeza. 
Não éramos propriamente amigas, mas compartilhava-mos o mesmo gosto pelo mesmo bar com música jazz ao vivo, pelo gin tónico daquele bar e pelos assuntos que iam surgindo à mesa. Eras amiga das minhas amigas, nunca foste propriamente minha amiga porque só aparecia nos encontros nas minhas férias, logo nunca deu tempo para cimentar uma amizade.

Soube que entraste no hospital no fim-de-semana com possível gastroenterite... e que de lá não saíste viva... como é possível? 


Coincidência do caraças, o teu ultimo post no facebook foi sobre o preço ofensivo do parque de estacionamento do Hospital de Gaia... 


Espero que o local onde a tua alma está agora seja um local bem melhor que este. Que continue a ter gin tónico com rodelas de pepino ou ramos de hortelã-pimenta. Que tenha o mesmo barzito escuro com a mesma músiquinha de jazz e uns barmans jeitosos como tudo. Que desse lado o tabaco não faça mal.

Que este não seja um desfecho total de uma vida.


PS. Tentaremos deixar um lugar à mesa à espera que te sentes lá. Reserva uma mesa para nós também, desse lado, já agora.


Alima

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Do Português manhoso...

No lar onde a minha avó reside atualmente, há uma auxiliar de geriatria que essencialmente é fonte para uma boa barrigada de riso.

Trata-se de uma senhora com os seus quarenta anos, baixinha e loirinha, com ar muito ingénuo, que segundo ela, foi criada por um padre transmontano desde a sua meninice, numa aldeia de Bragança.
Seja como for, a senhora, assim que morreu o seu benfeitor, pegou nas suas coisas e veio viver para o Minho onde se tornou auxiliar de geriatria.
O seu português com aquela pronuncia transmontana assim como o calão transmontano faz com que educadamente lhe pedimos para que repita o que acabou de dizer.

E no Verão passado, quando fui visitar a  minha avó, ela veio ter comigo para conversar um bocadinho:

- Sabe menina, eu até gosto muito de trabalhar com velhinhos... Uns dias eles estão bem, outros dias menos bem... é um coisa complicada... Olhe, por exemplo, na semana passada o Sr. José estava com um tôma e nós não sabíamos porquê... e passado outro dia, um tôma na cabeça, outro no olho, outro tôma aqui no braço (apontando para uma zona do braço)... Uma chatice... Mas sabe, a sra. Enfª, diz que é por causa da medicação que faz com que ele ganhe facilmente tômas, mas eu não sei não...


Ela falava, falava e falava e eu só pensava: QUE RAIO É UM TÔMA?

À saída do lar e ao passar na sala de estar, onde alguns idosos estão grudados à tv, a auxiliar viu-me a passar no corredor e chama-me para entrar na sala. 
- Oh menina, venha ver o que lhe falei do sr. José.  Já viu uma pessoa assim com tantos tômas?

Eu vislumbro o velhote. Sim, estava um valente "galo" na testa e tinha o olho enegrecido...


- AHHHHH HEMATOMA!!!

Carta a uma jovem mãe que partiu

Soube da tua morte na noite de S. Martinho. Apesar de não me recordar muito bem de ti, sei que nos cruzamos diversas vezes, não fosses tu minha caloira, minha antiga colega de curso.

Fiquei chocada e revoltada com a tua morte apesar de não te conhecer. Sou uma valente lamechas no que toca a dramas destes, especialmente quando me são próximos. A onda de solidariedade por parte de colegas nossos ocupou o meu facebook durante os dias em que lutaste e o dia em que partiste. Deves ter sido uma pessoa maravilhosa, porque foram mesmo muitas as mensagens de pesar.  

Nos dias de hoje, no nosso Portugal, ninguém morre nas mesmas circunstâncias que tu. A mortalidade materna em 2012, segundo pesquisa, rondou os 4.5 por cem mil mulheres. E pelos vistos, 2014 foi o ano em que entraste para tais macabras estatísticas. A palavra lúpus é uma palavra feia que infelizmente ajuda muitas pessoas a ter um fim ainda mais feio. 


Mais uma vez volto-me a questionar a existência de Deus... Afinal, se Ele existe, onde estava Ele quando lutavas pela tua vida e pela vida do teu bebé? Não me venham com tretas, que assim foi a vontade Dele e que o ser humano não tem legitimidade de ficar ofendido com os joguinhos fatídicos de um Ser Supremo mesquinho. 

O lugar de uma mãe é junto ao filho recém-nascido e não prostrada num caixão, vítima de uma fatalidade. O lugar de uma mãe é junto à família que tem desde sempre e que há pouco tempo constituiu.
Porque foste mãe, filha, neta, prima, amiga, colega de trabalho, vizinha e agora não passas de uma recordação.
Aposto que as horas que em estiveste viva após o parto, foste à tua maneira, uma excelente mãe. Serias ainda melhor mãe se tivesses tido oportunidade. Tal como aposto que o teu desaparecimento precoce e dramático seja motivo para que pensemos que nós neste mundo não passámos de pó.
Sabias das consequências de levar esta gravidez adiante. E mesmo assim a levaste. O milagre de sobreviveres não aconteceu, mas o nascimento do teu filho é meio milagre. Não é um milagre inteiro porque tiveste que abdicar da tua vida. 

Espero que o lugar onde estás agora seja bem melhor que o lugar de onde acabas de partir. Espero que desse lugar possas velar por aqueles que te amaram em vida e que sentirão a tua falta... e se não existe esse lugar, qual foi realmente o objectivo da tua partida tão abrupta?

Alima 


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Como convidar, desconvidando uma pessoa

11 de Novembro, dia de S. Martinho

Digo para uma amiga:

- Comprei umas castanhas para hoje  à noite. S.Martinho sem jeropiga é naquela, mas S. Martinho sem castanhas não dá com nada. Sempre gostei de celebrar este dia. Não queres vir comer castanhas para comemorar o dia?

A amiga, tira os óculos e diz muito séria para mim:
- Sabes bem que não vou comemorar isso, porque eu não acredito em santos.


As castanhas estavam óptimas, miga :)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A pólvora e as castanhas

O meu primo Artur é dos meus primos favoritos. Tenho um carinho fraternal por ele. Talvez por ter sido dos primos favoritos do meu pai. Aquela figura sabe-me encher o ego. Se alguém na aldeia ainda não sabe que sou estudante de Medicina e a minha irmã Farmacêutica, ele é menino para berrar a altos pulmões o orgulho que tem nas priminhas. Facto que já nos deixou em situações... constrangedoras... nas férias passadas.


O Artur sempre foi um marialva de primeira. Partidas é com ele. Já levei algumas mangueiradas de água fria e farinha nas brincadeiras às vezes parvas dele. Mas esta história que te tenho para contar foi mesmo hilariante.

O Artur, andava ele a guardar vaquinhas na cavada perto das minas já desativadas quando encontrou pólvora.
Todo contente, meteu alguma pólvora no bolso do casaco e foi para casa. Antes de chegar a casa, ao passar na casa da tia não-sei-quê e sentiu o cheirinho maravilhoso a castanha assada. Com  toda a vontade do mundo, entrou na casa da velha, que estava de pernas afastadas (sem cuecas por sinal) e de saias levantadas a tentar atiçar o fogo, abanando com um abanador.

- Ai cachopo, esta madeira ainda está verde e não arde...e tenho aqui umas castanhinhas que não vão assar bem- disse-lhe a velha.
- Oh tia, eu tenho aqui um pozinho que se meter no lume, isso vai atiçar...
- Olha... bota aí um bocado para ver como vai ficar.

E o Artur meteu a pólvora. Conclusão: explosão na cozinha, umas telhas de ardósia voaram, os vidrinhos da janela partiram e um panelo de ferro que estava junto ao fogo rebentou.


Perguntei ao Artur:
- E as castanhas assaram?

Ele disse-me:
- Então não assaram? E nem queiras saber como ficou a castanha que a velha tinha no meio das pernas!
A casa beirã da velha que queimou a castanha :)
True story

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Querida S.,

Se há coisa que respeito é religião. Mas se há coisa que me tira do sério são pessoas cegas por religião, em que a religião é a pedra basilar para tudo. Se as coisas correm bem, foi Deus que assim o fez, se as coisas correm mal, foi Deus que assim o quis.

Ás vezes este tipo de afirmações irritam-me imenso. Parece que os seres humanos não têm livre arbítrio de fazer o quer que seja de bom: tudo é vontade de Deus.

Isto faz-me recordar aquela piada que se conta no hospital em que um paciente com uma doença lixada está a morrer, os médicos fazem tudo para o salvar, acabam por o salvar, explicam a situação à família que lhes diz: "Vou imediatamente correr para a igreja, acender uma velinha para agradecer a Deus".

Portanto, querida S., agradeço que não me convide para cultos, orações e leitura/interpretação de Bíblia. Agradeço que sempre que vou visitar-te não tenha constantemente o canal da tua igreja em altos berros com pessoas a falar e a cantar em português brasileiro que Deus é amor e tudo o resto.  Aliás, sabes muito bem a opinião que tenho sobre tais igrejas...

Agradeço que não me cites a Bíblia para me dizeres que vou para o Inferno. Aliás, a tua teoria do anti-cristo e apocalipse, chips e bestas deram-me vontade de rir. Nem parece que és uma mulher das ciências, caramba!

Agradeço que não me digas que conheces Fulano, Sicrano e Beltrano que a) era homossexual, abraçou a tua igreja e tornou-se hetero; b) tinha uma doença incurável que ficou curada graças ao teu pastor; c) estava com problemas conjugais e monetários e diabo ao quatro e tudo se resolveu graças ao poder da oração assim que se converteu.

Agradeço que não enchas o meu facebook com actualizações tuas que são exclusivamente de trechos da bíblia ou de citações de uns bispos da tua igreja sobre Deus, Amor, Família, Casamento e condenação de quem pratica sexo anal até!

Como sabes não sou de modas, logo dificilmente me conseguirás cativar para essas coisas. Respeito quem seja cativado como respeito quem quer tentar cativar (se bem que detesto abordagens na rua de velhotas que querem falar sobre a palavra de Deus), mas eu cá, como já te disse, sou de personalidade difícil para estes assuntos.

A sério S.,não te dês tanto ao trabalho para salvar a minha alma...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Budacoiso


Fui lá passar mais um fim-de-semana para a passeata e farra... Budapeste é para mim das cidades mais bonitas da Europa. Segundo os meus companheiros de viagem, Budapeste é uma espécie de Paris de Leste, algo que não posso afirmar ainda porque apesar de já ter ido a capitais do mundo um pouco mais...exóticas, ainda não pus os pés em Paris. Estive em Kiev, em Moscovo, em Riga, em Telaviv ou até mesmo em Bogotá... mas nunca na badalada Paris  :)

O que me faz gostar tanto de Budapeste é o facto de ser uma cidade histórica, com história e causadora de boas histórias.
Visitar Budapeste é tão corriqueiro para mim como fazer compras a Vigo: mudo de país, mudo de cultura, mudo de ares e posso sempre voltar no mesmo dia. E depois tem aquela vantagem de ser o florint húngaro como moeda, o que faz com passear por lá seja baratinho... Além disso, os melhores kebabs de sempre são comidos em Budapeste (gregos e turcos foram e continuam a ser uma influência brutal na cidade, segundo a História Húngara ).

E por ser uma cidade barata, faz com que pense duas vezes antes de explorar Viena, outra capital que ainda não fui por restrições de tempo e económicas. Mas tenho a certeza que até ao Natal vou lá dar um pulinho... 




 Cemitério de Karepesi: tanto tem de assustador como de bonito :) Aquilo demora 1 h a ser visitado por ser tão grande. Sei que o Dr. Semmelweis está por lá mas não encontrei a campa dele...



 Memorial às vítima Húngaras do Holocausto. Trata-se de estátuas de sapatos de tamanho real em memória aos judeus que foram fuzilados e lançados ao rio Danúbio  pelos Nazis, em que antes do seu ultimo suspiro, teriam que tirar o calçado.

Muitas fotos se tiraram... pena o blogger estar a tentar meter nojo e não mas deixar públicar..

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Das Amizades

Há muitos anos atrás, um antigo colega de liceu do meu pai foi transferido para a mesma repartição do exército onde o meu pai trabalhava. E como duas pessoas de oriundas de uma terriola distante, consolidaram um forte laço de amizade.

Cervejas pós-fim do serviço para aqui, jantares e almoços para acoli, o colega do meu pai começou a frequentar amiúde a nossa casa... enfim... pareciam dois irmãozinhos.

Até que chegou o dia em que todos os elementos da repartição teriam que se avaliar uns aos outros para obterem Louvores. O meu pai, por amizade e porque foi na cantiga do amigo do "já que somos da mesma terra, temos de nos ajudar um ao outro", deu nota máxima (Muito Bom ou Excelente, não me recordo qual a máxima) ao amigo, enaltecendo em meia dúzia de linhas as qualidades que o amigo tinha... 

O amigo do meu pai, aquele que tinha sido transferido para a mesma repartição algumas semanas antes, o mesmo que andou no mesmo liceu e que frequentava a nossa casa avaliou-lhe com um simples Satisfaz, escrevendo na meia dúzia de linhas que o meu pai era preguiçoso, que se baldava do serviço, que provavelmente teria problemas de alcoolismo que poderiam ameaçar a sua conduta. 

Quando o meu pai soube desta avaliação do seu amiguinho ficou seriamente triste, como é de esperar, com a atitude dele. Julgo que nunca se dignou de confrontá-lo perante aquela avaliação,. 

Perante as avaliações Muito Boas ou Excelentes de todas as patentes, o meu pai recebeu mais um louvor nesse mesmo ano. Portanto, aquela avaliação de Satisfaz foi apenas uma pequena areia na bota da tropa dele. 

Sei que o amigo ainda se tentou justificar com "Tu estás sempre a receber Louvores, está na altura dos outros também receberem".

Esta história foi-me contada pela minha mãe poucos anos depois do meu pai falecer, enquanto eu estava a tirar os quadros dos Louvores da parede para os limpar. 

Imediatamente comecei a pensar que o meu pai, para um homem adulto, foi muito muito ingénuo. Uma ingenuidade de um garoto de doze anos que espera que o amigo lhe dê todas as respostas do teste de Matemática. No meu pensamento, achei que não cairia numa destas. Ou pelo menos com esta lição nunca irei cair. 

Adoro ler e reler os Louvores que estão expostos pela casa. A minha palavra favorita neles escrita é ALTRUÍSMO. Linda palavra, não é?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma quinta feira é sempre uma boa quinta feira...

... quando a professora de Estomatologia, essa víbora disfarçada de mulher, fica adoentada e é substituída por um professor de Cirurgia Maxilo-facial, que além de ser a cara chapada do Anthony Hopkins no tempo em que ele fez de Dr. Hannibal Lecter em "O silêncio dos inocentes", foi capaz de dar uma aula à maneira... melhor uma senhora dona aula.



Fique mais vezes doentinha, sô professora. Nada que a deixe muito combalida, sff.

Os seus alunos agradecem.

Alima

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Quase ébola

A P. é das minhas melhores amigas aqui da parvónia. Apesar de ser bem mais nova que eu, vejo-a como se fosse a minha irmã mais nova. E como tal, tento protege-la de todos os males.

E quando no fim-se-semana passado a vejo a bater à minha porta com ar abatido e pálido, curvada e com ar de esgar de dor na cara, eu pensei logo: vamos ter chatices.

Cházinho para aqui, balde para vomitar ali, a miúda vomitava e chorava de dores abdominais. Jactos de vómito à filmes tipo Exorcista. Tudo fazia lembrar uma apendicite se ela ainda tivesse apêndice. Assustada perguntava-me o que poderia ser. Discutimos a possibilidade de ovários poliquísticos, cuja sintomatologia pode ser semelhante a uma apendicite, mas não pusemos fora de questão que fosse uma gastroenterite lixada porque a diarreia era cada vez mais frequente. 
Nem Buscopan nem Primperans aguentavam no estômago, porque ela simplesmente não tolerava nada. 
Recordou-se que tinha comido cogumelos à hora do almoço. Começou a entrar em pânico quando por momentos suspeitou que fossem cogumelos venenos, algo que desmistifiquei porque eram cogumelos  comuns comprados num hipermercado e não daqueles colhidos no campo.

Contrariada, foi arrastada por mim até às urgências, porque deduzi logo que aquilo iria ser uma noite mal passada e que talvez uma injecçãozita no traseiro com primperan e algo para as dores à mistura pudessem ajuda-la.

Na triagem, a médica e a enfermeira que nem inglês arranhavam, quando lhes expliquei com o meu checo arranhado que éramos portuguesas (a P. não dá uma para a caixa de checo), correram de imediato a pôr as máscaras e perguntavam assustadas "Spanielsko? Spanielko?" (Espanha?Espanholas?) ao qual eu respondi em português "Oh minhas burras... PORTUGUESAS enfiadas neste país há UM MÊS!"antes de responder educadamente que NÃO em checo. 

A médica diz-me que a P. terá de ir para o serviço de infecciologia, ao qual eu como "irmã mais velha" concordei sem explicar à P. o que andava eu e a médica a conspirar.
Entrega-me um papel para entregar posteriormente no serviço para fazer a admissão da P..

E lá fomos nós pelo hospital fora, sem máscara, nem com nada a mostrar que se calhar somos portadoras de Ébola. Chegadas ao serviço, uma enfermeira, toda protegida, com ar ensonado acolhe-nos. Começa a falar de uma forma rápida e agressiva até que lhe digo que não entendemos bem o que ela está para ali a ladrar, ao qual ela ainda ladra ainda mais agressiva e mais rápida. A P., pálida e meia prostrada susurra um "Grande filha da p***", coisa que a mulher ouviu mas não entendeu. Chega a médica do serviço com ar de poucos amigos, com uma postura insolente, também toda protegida, agressiva que só ela. Ainda tive a esperança que ela falasse inglês mas qual quê??? Nicles. Expliquei que iria ligar para uma pessoa que dominasse o checo para perceber o que realmente andavam as duas a ladrar, mas ela ladrou ainda mais alto e mais agressivo, o que não me demoveu de ligar a um colega que sabia que estava a fazer noite no mesmo hospital.

Assim, que o meu colega chegou para saber quais as intenções da médica, a P. ficou internada em isolamento no serviço de infecciologia para descarte de uma infecção séria, eu, possível portadora de Ébola, vim para casa de metro como se nada fosse.

A P. ficou internada durante 3 dias. A única forma que tinha para a contactar era através da janela de vidro do quarto dela que só era aberta duas horas por dia. Depois disso, fechavam as cortinas e acabava-se o espectáculo. O nosso astral estava muito baixo: ela ictérica, assustada e deprimida, eu assustada e a tentar armar-me em forte.

Diagnóstico final: gastroenterite viral lixada.. que talvez pudesse ser tratada bem em casa sem tanto alarido.

Aqui fica a experiência de duas portuguesas na Europa de Leste, num país em que poucos são os enfermeiros e médicos que entendem inglês e de geografia :)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O morto e as castanhas

Contou-me o meu avô paterno que no seu tempo de cachopo, quando morria alguém na aldeia, o velório era feito na própria casa do morto.

Ora numa altura, morreu alguém da aldeia no tempo das castanhas. E como a pobreza era tanta e a cama do defunto era necessária, resolveram colocar o defunto no chão da cozinha, chão que era feito de tabuinhas não pregadas a traves.
No andar de baixo das casas, existia ou a adega, ou um galinheiro ou o curral.

O meu avô, um mariola de primeira, queria participar no velório que decorria durante a noite, não pelo respeito ao morto, mas porque estavam a assar e a comer castanhas assadas junto ao defunto. Mas como era um puto, os mais velhos correram-no da cozinha para fora.
O meu avô teve uma ideia brilhante: calculou mais ou menos o local onde estava o morto prostrado no chão e no andar de baixo, com o auxilio de um pau, levantava as tábuas. E ao levantar as tábuas, levantou a cabeça ao morto várias vezes. As pessoas que viram o morto a mexer a cabeça assustaram-se de tal maneira que fugiram da cozinha como se estivessem a fugir do diabo.


No dia seguinte, pela manhã, constataram que os ratos tinham ruído uma orelha ao morto.


True story.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Da fonte da juventude

Se há coisa que me posso orgulhar em mim própria é a idade que me dão, que realmente eu não a tenho.

Quando era criança/adolescente, toda a gente achava que eu era mais velha, talvez porque entrei na puberdade muito precocemente.

Fiquei uma vez amuada com um amigo do meu pai, quando ele insinuou que eu tinha 16 anos, quando na realidade eu tinha 12 anos mal feitos.

Fui daquelas adolescentes que sofreu a sério com o problema do acne. Mas como os meus pais nunca foram pessoas muito preocupadas sobre o assunto, porque para eles, isso incha, desincha e passa, nunca consultei qualquer dermatologista para me ajudar nesse problema. 
Fiz alguns tratamentos caseiros como lavar a cara com sabonetes de argila, alcatrão ou de glicerina, cheguei a colocar pasta dos dentes nas borbulhas, durante uns tempos passava uma rodela de batata na cara "porque absorvia a gordura"... mezinhas, mezinhas, mezinhas...

O que é certo é que já por volta dos meus 23 anos nunca mais tive problemas de acne e a minha pele ficou tão macia como quando eu era criança... E a partir daí as pessoas começaram a dar menos idade à que realmente eu tenho...E a minha irmã, que sempre pareceu mais  nova do que realmente é, por causa dos tratamentos tiro e queda e nocivos anti acne, ficou com um aspecto bem mais envelhecido, tendo já rugas profundas no cantos dos olhos. 

E hoje, estava eu num café com mais malta portuguesa, sendo eu a mais velha, e um colega grego infiltrou-se no grupo. Conversa vai, conversa vem, e o rapaz assegurou que eu tinha 22 anos, e garantia que eu tinha essa idade por causa do meu ano académico porque senão dar-me-ia menos idade. Tal afirmação deixou-me nas nuvens :) Deu até oito anos mais a uma das raparigas que lá estava por causa do seu ar trigueiro e pele dourada, fruto de uso excessivo de solário...

Perguntaram-me qual era o segredo para a minha fonte de juventude. Talvez seja o facto de ter uns bons genes pela parte da minha mãe, talvez porque eu como sou gorda faz com que eu tenha um ar mais bonacheirão e de menina por causa dos meus olhos enormes, nariz pequeno e ter bochechas proeminentes, talvez porque nunca tenha usado qualquer tipo de creme hidratante na cara, lavando-a apenas com água e sabão... tão simples quanto isso :)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Regras da Sensatez

Noutros tempos, quando alguém fazia uma crítica sobre alguém, eu costuma concordar com essa pessoa, porque sem querer via exclusivamente o lado negativo sobre esse alguém...

Acontece que este Verão, gastei uns míseros cinco euros num livro chamado "Regras para o Sucesso Profissional" e num dos capítulos falava que alguém ponderado nas críticas tem tendência a ter melhor sorte que aquele que está sempre de arco e flecha, pronto para apontar em alguém. Falava também que aquele que quando ouve uma crítica sobre alguém, deve SEMPRE apontar os aspectos positivos sobre essa pessoa, sim porque todos nós temos qualidades.


Achei piada quando li tais capítulos porque isto não é novidade nenhuma... mas muitas vezes esquecemos-nos destas regras de ouro.

Na semana passada, estava eu sentada num banco com uma colega portuguesa, perita a destilar fel sobre todos:

- Sabes Alima, não vou com a cara daquela grega que veio de transferência para o nosso grupo... é tão pãozinho sem sal. Deve ser uma falsa!
- Hummmm eu até à data não tenho nada contra ela- respondi.
- Pah... como te vou explicar... é esquisita... veste-se de negro, não fala com ninguém. Que anti-social que ela é.
- Ela sempre foi amável comigo. E eu também tento ser simpática com ela.- disse.
- Cá para mim é mais uma grega burra corrida da universidade X! Viste que ela não sabia aquilo sobre Cirurgia que era tão fácil!?
- Talvez seja um bocadinho limitada... mas já fiz a minha boa acção: emprestei-lhe os meus apontamentos e a minha pendrive com o material das cadeiras. Se depender de mim, ela não vai chumbar.

A portuguesa olhou para mim com cara de aparvalhada, já que eu não sou pessoa de passar material a ninguém.
- Não gosto da grega. - insistiu.
- Olha, eu acho-a uma fofinha. E se lhe deres um tempo, vais ter a mesma opinião que eu.

A portuguesa apaga o cigarro e pergunta-me:
- Olha lá... hoje deu-te para seres 100% do contra do que eu digo?



terça-feira, 14 de outubro de 2014

Peripécias da farmácia

Ontem foi dia de risota via skype com my sister sobre uma peripécia que se passou na farmácia onde ela trabalha.

Entra um rapaz na farmácia e dirige-se à minha irmã:
- Queria uma caixa de pilulas para a minha namorada sff.
- E como se chama?- perguntou a minha irmã.
- Andreia Catarina.


Ahahahahahahha

sábado, 11 de outubro de 2014

Da dermatologia

Dermatologia é das minhas áreas favoritas na área da Medicina. Tem o seu je ne sais quoi de importância extrema devido ao acne da juventude, das ruguinhas e liftings daqui e dali das cotas (coisinhas de gente vaidosa), para não falar dos sinais no corpo que volta e meia pregam um susto a quem os tem.

Sendo a pele (e os dentes) um dos melhores cartões de visita de qualquer ser humano e sendo a pele o maior orgão do corpo humano bem como o local em que melhor se detecta alguma irregularidade patológica,  é uma das áreas que gostaria de me dedicar num futuro próximo. 

O que é certo é que os meus professores de dermatologia são uns ases no assunto. Contudo um deles tem claramente cicatrizes antigas de acne e a outra tem a pele bem bem flácida, o que me faz pensar que mais uma vez "Em casa de ferreiro, espeto de pau".

E pronto, estávamos todos nas primeiras semanas a esfregar as mãos a pensar que iríamos descobrir a essência de mezinhas e tratamentos fantásticos a aconselhar aos amigos e familiares a leste do tema de maneira que eles pensassem que "Sim senhora... afinal ela não foi para lá apenas para passear livros".
O problema é que no serviço de dermatologia não há acnes no internamento: há dermatites e eczemas horrorosos, psoríases e tíneas com um aspecto nojento e urticárias generalizadas. E o cheiro intenso às 8h da matina na hora dos tratamentos? Muito agressivo após um pequeno almoço tomado a correr vinte minutos antes.


O serviço ocupa um piso inteiro do hospital. Tem três alas: Uma de mulheres, outra de homens e outra mista, sendo local de internamento exclusivamente para os ciganos.
Perguntei à prof., o porquê de haver uma aula só para ciganos. 
- Porque todos eles chegam cá com as mesmas doenças: piolhos, sarna, herpes zoster... e Louis...

- Louis? que doença é essa?- perguntamos quase em unissono.

- Louis é um código usado aqui... SÍFILIS! (respondeu baixinho). E agora, vou-vos mostrar alguns pacientes com Louis. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Da professora depravada

Cara C.,

Hoje arrisquei a minha paciência e fui a uma teórica de uma cadeira chata como tudo. Quantas mais vezes comparecerem às teóricas, melhor nota terão no exame final, disse a prof. na primeira aula.

A professora ao abrir o seu power point sobre a aula que deveria ser sobre qualquer treta sobre a Organização Mundial de Saúde, equivocou-se no power point e passou uns dez slides descontraidamente. Os (poucos) alunos que foram à aula riram-se perdidamente da distracção da professora que não estava a reparar no que estava a projectar...

... Em grande projecção estava um power point dedicado ao kamasutra, onde se via casais em posições sexuais assim para o artístico/erotismo...

A mulher, ficou meia aparvalhada, corou e esboçou um sorriso de embaraço. Sorry, sorry, dizia ela enquanto procurava o Esc no portátil, enquanto a posição do Enroscar da Trepadeira estava em grande plano.

Ainda fui confirmar o meu horário para saber se me tinha escrito em sexologia ou sei lá o quê... mas nãaaaao... estava mesmo numa aula de Medicina Social.

Pergunto-me eu para que raio tinha ela aquilo no computador... não fosse ela uma velha jarreta assim para o sexagenária.









quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Dos filmes que me deixam com duas (ou mais) lágrimas nos olhos

Decorria o ano mil novecentos e noventa e troca o passo quando vi pela primeira vez o filme "ET, o Extraterrestre". Vi-o pela primeira vez numa noite de consoada acompanhada pelos meus primos, na tv ainda a preto e branco da cozinha da casa da avó para que estivéssemos afastados do barulho que se fazia à mesa da sala.  

E sim, talvez pelo filme ou pelo fumo da lareira minhota que em dias de vento não trabalha como deve ser ou então pelas duas coisas, toda a canalhada que tão atentamente assistia o filme ficou com os olhos vermelhos. 


Noutro Natal lembro-me de ter visto "Todos os cães merecem o céu". E eu, defensora acérrima dos quatro patas, recordo-me que também me comoveu de tal modo que tive de surripiar um guardanapo para limpar toda a minha angústia.  


Há cerca de catorze anos atrás, numa altura em que fazia mudanças da minha antiga casa para aquela que actualmente habito, lembro-me de ter sentado no sofá e ver um filme que dava na SIC num sábado à tarde (naquela altura ainda davam filmes de jeito na tv, nada de programas de música apimbalhada) e ter ficado seriamente comovida com o filme "A Princesinha", principalmente quando ela tenta tudo para que o pai a reconheça pois ele tinha sofrido uma amnésia. Aí sei que chorei mesmo, estava a borrifar-me para a minha irmã que estava comigo que também chorava.


Ultimamente, tenho visto alguns filmes mais já para público adulto. O tema "cancro" é dos temas que mais mexe comigo por mil e uma razões. E quando há umas semanas atrás vi o filme "A Culpa é das Estrelas", antes que começasse, pus um pacote de kleenex em cima da mesa de centro. E sim, dei uso a eles.  Muito uso.


Tudo isto para mostrar que apesar de ter ar de valentona e de dura, sou uma pessoa sensível a extraterrestres, animais, meninas orfãs e adolescentes com cancro...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Da procriação

Estes dias num hipermercado fui abordada por uma senhora que lá trabalhava:

- Olá Alima...
- Hummmm... Olá!?
- Não me estás a conhecer...?- perguntou-me.
- Peço imenso desculpa, mas não...
- Sou a mãe da Cristina... uma que frequentou o infantário contigo!!! Andei contigo muitas vezes ao colo... e levei-te muitas vezes ao infantário com a minha filha! Reconheci-te por causa da tua mãe que há bocadinho estava à tua beira.
- Cristina... Cristina... Ah, a Cristina! Já não a vejo há muitos anos... que é feito dela?- perguntei-lhe com alguma curiosidade.
- Olha, está casada, vive em Inglaterra e está muito feliz por lá! E já tem três meninos e vem um quarto a caminho!!! Que é feito de ti?

Pensei durante cinco segundos no que iria responder... pensei em dizer-lhe que tinha tirado uma licenciatura, que tinha trabalhado na área durante três anos até que depois resolvi meter-me noutro curso assim que descobri que provavelmente vou ser uma solteirona cheia de estrias e mau feitio que provavelmente só vai viver para o trabalho e para os sobrinhos.

- Olhe... cá ando... solteira...e também pelo estrangeiro- respondi com uma certa dissimulação enquanto ela fazia uma cara de oh... pobrezinha.



"Três filhos e um quarto a caminho? A Cristina abusou no quarto, caramba!!!!"


Há pouco mais de vinte anos eu e a Cristina brincávamos às mães e às filhas com Nenucos... Há cerca de quinze anos ela passou a ser uma galdéria de primeira que dava beijos de língua atrás dos balneários da escola. Há dez anos ela optou por fazer os seus próprios Nenucos enquanto eu marrava para entrar na faculdade.

Awesome!

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dos vizinhos (II)

Como já disse anteriormente, a prenda de aniversário da minha irmã foi um casal de porquinhos da Índia. E como bons comedores de praticamente tudo que seja vegetal, e bons defecadores, resolvemos deixa-los durante o dia no quintal a comer a relvinha para a noite dormirem na sua gaiola.
Ao passar por eles, numa tarde, viro-me para eles e digo-lhes:

- Como estão, fedorentos?

A minha mãe, em pânico, faz-me um sinal para me calar....

A minha vizinha alemã, que estava no seu jardim, levanta o pescoço com  ares de Oi? essa do fedorentos foi comigo?



Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dos vizinhos

Vivo num bairro exclusivamente constituído por vivendas a 2km do centro. O contacto que tenho com os vizinhos da minha rua é quase nulo, uma vez que fazemos muito vida de casa-trabalho-casa, onde se estaciona o carro na garagem sem sequer sair do carro, já que os portões eléctricos facilitam todo o trabalho.

Durante o Verão, sei que a casa mesmo ao lado da minha é ocupada por um casal emigrante na Alemanha. Pessoalmente não sou muito de dar confiança aos meus vizinhos, coisa que já não posso dizer da minha mãe que se desfaz em simpatia com toda a gente, especialmente com a canalhada que brinca na rua (sim, ainda é um bairro muito tranquilo em que as crianças podem brincar na rua com toda a segurança).

Estes dias estava eu na minha jardinagem a cortar umas plantas. Do outro lado do muro está a tal vizinha alemã com ares de que queria paleio comigo.
Abordagem dela:

- Ai... vocês têm um jardim tão feio...  Acabaram com as roseiras que estavam junto ao muro e puseram-se a plantar tomates e pimentos... que horror... por meia duzia de cêntimos vão ao supermercado e compram isso... ora agora plantar...

Eu fiquei aparvalhada a olhar para ela e saiu-me isto:
- Nós não temos jardim... nós temos um quintal!

Ela não se fez de rogada:
-Oh... mas ter um espaço tão grande com estas árvores? Pessegueiros? Limoeiros? Figueiras? Laranjeira? Vocês até couves plantaram! Para quê? Por meia dúzia de cêntimos?

Respondi-lhe:
- Nós gostamos de dar utilidade ao quintal que temos... é um bom desenrasque... Se eu quiser fazer uma omolete, não ponho rosas nela... Ponho salsa, manjericão, alho francês...

- Oh... mas tem um jardim tão feio... nós na Alemanha...

Nem a deixei falar mais. Respondi-lhe de forma a terminar o assunto.
- Com o devido respeito, nós cá em casa não nos damos ao trabalho de olhar para o seu jardim. Temos mais coisas com que nos entretermos. Nada que temos deste lado a está a incomodar, portanto não tem nada que dar bitaites de como devemos nós zelar pelo que é nosso.

Passado uns dias a vejo aganchada no muro a tentar roubar tomates como se nada fosse... Parva

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Da higiene

Pelos vistos, existe essa cadeira no curso de medicina e como todas as cadeiras deve ter o seu quê de utilidade. Pelo menos pensei assim quando fiz o esforço para frequentá-la.

E lá fui eu toda galifona à primeira aula. A sala que na aula anterior estava completamente cheia porque a exigência e a dificuldade da aula assim o exige, ficou com meia vazia na aula de higiene.

A professora de higiene, uma avozinha com os seus 60 e poucos anos, vestida com fatinho de saia e casaco típico de uma sô dotora de meia idade aqui da zona, revelou-se uma queridinha. Perguntou a nacionalidade do pessoal que estava presente na aula ao qual respondia um UAU de interesse fingido.

E começou então a aula... abriu o powerpoint e leu, leu, leu todo o seu conteúdo. O assunto até era interessante, era sobre a potabilidade da água, mas a sua voz monocórdica de quem lia o powerpoint fez com que eu passasse pelas brasas em dois tempos. Procurei rapidamente a minha caixa de chicletes para que me ajudasse de alguma forma a manter-me acordada. Duas filas à minha frente, alguém roncava RUIDOSAMENTE, apanhando um susto valente quando o colega do lado lhe deu uma palmadinha no ombro.

E a professora falava e falava. Falava dos tipos de água engarrafada, qual devemos nós consumir, o que é a poluição, que tipos de poluição se conhecem... coisas que aprendi algures em Ciências Naturais no Ciclo.


Acordei para a vida quando ela disse que não existia vulcanismo activo na Europa. Imediatamente levantei o braço e disse-lhe que não concordava com o que ela tinha dito. Exemplifiquei o geisers dos Fiordes e dos Açores, falei dos vulcões mais especificamente na ilha do Pico que volta e meia prega um susto, das águas quentes termais na Hungria... não quis alargar-me muito para não dar uma de sabichona.


A mulher, retira os óculos, olha para mim e pergunta-me num sorriso:
- Portugal na Europa? Onde mesmo, minha querida?


Vemos-nos no dia do exame, professora!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Praia na Póvoa de Varzim, Agosto 2014

Estava eu e a minha mãe na praia a trabalhar para o bronze, quando liguei a internet do tablet para ver as novidades do facebook.
O facebook da minha mãe estava ligado no tablet e assim como não quer a coisa, estive a dar uma vista de olhos no que os amigos da minha mãe publicaram.
A minha mãe tem uma amiga que pelos vistos é conhecida na minha cidade como (mais uma) poetiza já com algumas obras publicadas, convidada para saraus de poesia e feiras do livro. Comecei a ler um poema da sua autoria no facebook em voz alta e achei-o mauzinho, com poucas figuras de estilo, figuras de estilo essas que normalmente caracterizam um poema que eventualmente nos possa marcar. Além disso parecia que tinha sido formado por versos pegados daqui e dali e que não eram capazes de transmitir qualquer emoção... Oco, oco, oco.

Comentei com a minha mãe que não tinha gostado assim que terminei de o ler. A minha mãe concordou comigo... assumiu que nenhum dos poemas da amiga lhe cativava... Mas que lhe punha gosto num e noutro poema numa de "ah e tal, ponho-te um gosto só porque parece mal não fazer nada...".  E continuei a ler outro e outro poema dela em voz alta e nenhum deles me despertou qualquer sentimento.

A minha mãe comentou que provavelmente nós somos umas parolas em termos culturais porque não sabíamos apreciar aqueles poemas, porque todos eles tinham gostos de muita gentinha... e que nem todos esses gostos significariam gostos de caridade.

Declamei um poema que decorei no secundário enquanto olhava para o tablet num site onde ele estava escrito, não com o medo de me esquecer de algum verso, mas mais numa de me guiar de verso a verso:



Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.


A minha mãe, que estava entretida a fazer sudoku enquanto me ouvia, fechou a revista, arregalou os olhos e disse-me:
- Acho que é sem dúvida o melhor poema dela...


Olhei para a minha mãe e comecei a rir...
- Este poema não é dela!!! É do Miguel Torga!


"Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar..."

Tenho esta frase emoldurada no meu quarto...  Miguel Torga não é de todo o meu escritor favorito, mas é o autor desta frase que me fez pensar na aventura que é a minha vida...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dos termos carinhosos

Este Verão comecei a frequentar uma esplanada muito in na minha cidade porque simplesmente os meus amigos in começaram a frequentá-la. Segundo eles é considerada uma das melhores esplanadas da zona Norte. E talvez pela piscina no meio da esplanada acompanhada pelos claustros que outrora fora um convento e talvez pela musiquinha , realmente valha a pena essa distinção


Na primeira vez que lá fui, sentei-me com o pessoal e pedi o cardápio.
- Nós não temos cardápio. A menina diz o que lhe apetece e nós preparamos.

Naquele momento apetecia-me beber uma tequilla sunrise ou um white russian ou um cosmopolitan mas optei por uma simples cerveja, não fosse eu pagar os olhos da cara por um cocktail onde em lugar algum aparece o preço.

E lá veio a cerveja.
E volta e meia uma empregada passava por nós e perguntava:
- Está tudo bem? Não necessitam de mais nada?

Alguém pediu não sei o quê...

- Com certeza minha jóia, é para já!- responde a empregada extremamente simpática.

Muito sinceramente olhei para ela com cara de aparvalhada com os termos carinhosos com que se dirigia ao clientes. Minha flor, minha jóia, coração etc etc... este tipo de termos utiliza a sra. Emília no seu cafézinho na aldeia, mas nunca nunca uma empregada com a minha idade numa das melhores esplanadas a nível nacional...

Mais tarde, alguém pediu sangria enquanto eu bebericava a minha cerveja.
- A querida não quer mais nada?- pergunta-me enquanto põe a mão nas minhas costas.

Assim que ela foi buscar a sangria, eu comentei em tom divertido:
- É de mim ou ela acabou de me passar a mão nas costas?

Muito sinceramente não tenho nada contra este excesso de gentileza mas também não tenho nada a favor. Se ela assumisse uma atitude mais sóbria e mais profissional, de certeza que ficaria a ganhar um bocadinho mais. Ou pelo menos eu não estranharia tanta gentileza- Estamos a falar de uma esplanada dedicada a pessoal jovem adulto que não se importa de pedir uma bebida sem saber o preço e não na padaria do bairro...


E sim... paguei 4 euros por uma SuperBock...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Dos casamentos

Estes dois últimos sábados foram assustadores para mim.
Cinco colegas meus que tiraram o meu primeiro curso comigo deram o nó em igrejas diferentes e chaparam fotos no próprio dia de quão linda festa está a ser e de quão apaixonados andam os noivinhos e futuros noivinhos. Para adicionar à sopa, uma prima e uma vizinha minha também se casaram. Segundo parece, casar em Setembro é mais barato que casar em Agosto. Perfeito.

Apesar de ter sido convidada para três dessas bodas, optei por declinar todas elas com o pretexto de que tinha já confirmado a minha presença num casamento. Mentirinha simpática... Nada tenho contra sobre tais rituais... tenho contra o dinheirão que se gasta em prenda, sapatos, vestido, acessórios e penteado. Sou uma sovina! 

À noite, em conversa na esplanada com malta que não foi convidada para nenhum desses casamentos e que também tinham visto as mesmas fotos que eu, na brincadeira ainda comentamos "Como é que aquela/e serrana/parola/feioso se casa primeiro que eu?" 


E depois surgiu à baila o tema "Sou solteiro e descomprometido e detesto ir sozinho a uma boda debaixo dos olhares piedosos dos outros convidados" e "Sou solteiro e descomprometido e detesto gente que se meta comigo nos casamentos a perguntar quando é a minha vez".


Bem, vou fazer as malas... Um ano lectivo está prestes a começar a 3500km de Portugal. Mais um ano como medical student in a foreign country. Fingers crossed

Até breve, Portugal :)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dos velhos da aldeia

O senhor Emílio (nome fictício) é mais um habitante da aldeia-natal do meu pai.
Durante muitos anos emigrado na França, sempre muito supersticioso com bruxas, mortes e bruxedos.
De uma maneira estranha, abraçou a religião muçulmana cumprindo o Ramadão e não comendo carne de porco nem tocando em gota de álcool, mas mesmo assim cumpria escrupulosamente a ida às romarias e procissões pela serra.
Solteiro, sem filhos sempre levou uma vida solitária, especialmente quando começou a cismar que as irmãs lhe tinham tentado envenenar uma vez.

Desde pequena que nutro um grande carinho pelo sr. Emílio. Levantava sempre o chapéu que tanto o caracteriza sempre que os meus pais ou mesmo eu e a minha irmã passávamos por ele, sempre com palavras amigáveis.
Sempre que estava de férias em Portugal, o meu pai convidava-o para um churrasco em nossa casa, em que a minha mãe entrava em pânico já que como o senhor era tão desconfiado, tinha receio que caso o jantar não lhe caísse bem e ele pensasse que lhe tivéssemos posto veneno na comida ou algo do gênero.

E como homem educado, sempre que ia jantar a nossa casa, trazia para mim e para a minha irmã, embalagens ainda lacradas, de 100 unidades de molhos de chicletes "Hollywoood" de mentol. Cada molho continha cinco chicletes, o que fazia com que cada embalagem contivesse 500 chicletes. Isto significava que passava todo o Verão a mascar chicletes até a mandíbula doer. Oferecia também um saco cheio de amostras de perfumes, shampoos e loções que não faço a mínima ideia de onde ele desencantava aquilo.


Aparentemente já se reformou há cinco anos e desde então tem vivido em Portugal na aldeia. E no outro dia, enquanto fui fazer umas compras, reencontrei-o na vila sentado numa das esplanadas centrais, com o seu chapéu americano. Perguntei-lhe se precisava de boleia para a aldeia já que o único meio para lá chegar é apenas o taxi. Prontamente respondeu-me que sim mas que tinha medo.

- Medo da minha condução?- perguntei-lhe.
- Não menina... das más línguas... sabe-se lá o que os outros possam dizer... um velho e a menina no carro...- respondeu-me.
- Olhe, fazemos o seguinte... vamos deixar falar as más línguas e o sr. poupa o dinheiro do taxi e faz-me companhia.

Deduzo que deve ter sido das viagens mais emocionantes que o velho sr. Emílio deve ter feito no trajeto vila-aldeia. O homem estava fascinado pelo facto de viajar num jipe, cuja altura é melhor para observar a paisagem "Isto é que é uma categoria, menina... carros baixos não prestam". Pelo caminho parei num tasco em que a praxe dos mais velhos é beber a taça de vinho antes de subir a serra (da vila à aldeia são ainda 20 minutos numa estrada com curvas e contracurvas,  buracos e rebanhos no meio da estrada). O sr. Emílio, claro, optou pelo sumo de laranja.

Ao deixá-lo em casa ele perguntou-me porque é que eu lhe fiz o favor de lhe dar boleia até à aldeia ao qual respondi que como boa menina tenho de ajudar os outros especialmente aos que em miúda foram responsáveis por dores na mandíbula de tanta chiclete que me ofereciam.

Uns dias depois, preso ao portão, estava um saco plástico com uma embalagem de chicletes Gorila.  :)


Obrigada sr. Emílio por mais umas semanas a mascar.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Das crianças

Nunca fui apaixonada por crianças. Apesar de ter um enorme carinho pela minha pseudo-sobrinha com dois anos e três meses, prefiro ter uma postura de tu lá e eu cá. O problema é que ela é terrivelmente mimalha e amorosa, sempre a pedir beijinhos e a dar abraços. Tal facto faz com o meu gélido coração de cabra insensível de vez em quando amoleça.


E quando a mãe dela disse-me que estava sozinha com a miúda porque o marido tinha feito uma viagem, prontamente fui busca-las para dar uma voltinha no shopping depois do jantar.

E pronto arrependi-me. Levar uma criança com pouco mais de dois anos para um shopping é das coisas mais stressantes. É o xi-xi de dez em dez minutos, é o parque infantil insuflavel do piso 0 que ela quer passar aos saltos mais de dez minutos mais o parque das bolas do piso 1, é a correria pelo shopping, o sujar-se com o gelado, o fazer birrinha só porque sim.

A coisa acalmou não com a palmada da mãe, mas com a cara de má que fiz à miúda quando vi que ela tinha se esticado demais.


Serei eu má pessoa?


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Agosto 2014

Fomos passar a noite a uma famosa discoteca na zona de Esposende. Com a graças de não-sei-quem (ok, de um azeiteiro que anda pelo beicinho pela D.) ficamos na ala Vip, local porreiro anti encontrões, anti queimadelas de cigarros e perfeito para cravar bebidas ao barman, meu namoradinho do tempo do Jardim de Infância.

Saio por alguns minutos da pista de dança onde estava com a malta. Sento-me um bocado nos puffs para o aliviar os pés dos saltos altos e para aliviar as dores da coluna (a idade não perdoa mesmo). 

Senta-se um sujeito todo bem parecido à minha beira que esboça um sorriso para mim ao qual eu educadamente repeti o mesmo gesto.

Diz-me ele:
- Sabes, há muita gente que está aqui a curtir isto porque está sob efeito de drogas. 
- Acredito- respondo-lhe.
- Pois, olha, eu sou psiquiatra no hospital X em Viana e estou habituado a ver este tipo de comportamentos. E sabes uma maneira de reparar se a pessoa está sob o efeito de ecstasy e outras drogas?
- Não, conte-me lá... - finjo-me de interessada e de leiga no assunto e mortinha para ver a onde ele quer chegar.
- Pela reactividade das pupilas! Por exemplo, aquela rapariga ali, de vestido vermelho (aponta para alguém que está na pista) ela está claramente sob o efeito de alguma substância. Observa os movimentos dela  do tipo Tónico- Clónico- Mioclónico bla bla bla. E se eu observar as pupilas dela ela deve miose, que significa que...

Eu já não ouvia o homem. Estava a ver quem era a rapariga de vermelho. E ao fim de segundos constato que a rapariga de vermelho é do meu grupo de amigos... Aliás... é... a... minha... irmã!!!
E todos sabem menos o fulano que estava ao meu lado do puff que a minha irmã quando vai para a pista de dança, ela ocupa uma grande área com os seus movimentos todos malucos...

Esbocei um sorriso para ele enquanto ele falava e falava e eu não estava nem aí para lhe cortar a conversa. Mas poucos segundo mais tarde, a rapariga de vermelho, minha irmã, aproxima-se de nós e grita:
- Alima, preciso de mijar, acompanha-me ao WC... já!

Levantei-me do puff e para grande tristeza minha não vi a cara (concerteza de parvo) do sujeito. Pena.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Das misérias do passado

Tinha eu me infiltrado na casa dos meus primos durante o banquete no dia da romaria, quando assim do nada se falou na pobreza e miséria que muitos dos presentes à mesa sofreram na sua infância e mocidade.

O tema veio à tona porque alguém leu numa revista que o famosérrimo Tony Carreira tinha passado dificuldades na sua juventude e que na mesma revista o próprio irmão do Tony afirmou que a primeira vez comeu uma banana na sua vida simplesmente não a comeu: lambeu a casca.

O tio H., homem que sempre foi de poucas falas mas de ouvido sempre muito apurado para a tv e conversas à mesa (e principalmente ultimamente devido ao Parkinson que padece raramente abre a boca porque tem muita dificuldade em articular palavras), afirmou que a primeira vez que tinha provado uma banana foi no Brasil para onde emigrou com vinte anos.

- Passou-se muita fominha e miséria aqui- diz a esposa do tio H, enquanto olhava distraidamente para o copo. -A irmã do teu avô (uma das famílias mais pobres da aldeia) teve seis filhos, onde quatro dormiam numa cama, sabe-Deus-como e os mais novitos dormiam com os pais. E não havia dinheiro para cobertores! Usava-se mantas de trapos! Muitas vezes ouvia-se eles a gritar porque havia pulgas na cama e nas mantas. E sabes, para que não passasem frio na cama, porque havia sempre alguém que ficava mais tapado, o teu avô pregava as mantas de um lado da cama para que ela não fugisse. A tua avó praticamente criou aqueles cachopos da cunhada graças a carne em banha e sardinhas rançosas...e batata com batata! Olha, criou os filhos da cunhada e deixou morrer os dela novitos.
Depois os homens foram para França e as coisas melhoraram muito. Apareceram os iogurtes e os frigoríficos. Agora não há tanta miséria. Chimpa-se tudo agora (Chimpar é um termo comummente usado na zona que significa deitar fora).  Vão para a televisão dizer que a casa não tem condições porque tem ratos e baratas e que querem uma casa nova... Olha que a minha casinha é limpinha e tem ratos também e não me vou queixar para a televisão! Os pobres agora querem tudo dado e arregaçado. Mas ninguém quer os sapatos e a roupa dos todos. Sei de gente daqui que naquele tempo ia aos hospitais buscar a roupa de quem lá morresse! Muitas vezes até crostas de pele ainda tinha. Roupa de gente desconhecida com doenças! Puta miséria, puta miséria, meu Deus!