sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque é que a Alima não é adepta de certas campanhas de solidariedade...

Houve um tempo em que trabalhava num Centro Social comparticipado pelo Estado. Além de receber imenso dinheiro do estado Português, recebia imenso dinheiro e donativos de empresas e de pessoas singulares. E mesmo assim sempre se queixavam que não tinham grandes recursos.

Uma vez, pediram-me para acompanhar uns utentes a um dentista que lhes cobrou por uma consulta dentária a módica quantia de cinquenta euritos que seria desembolsado dos cofres do centro social. Ora, eu no meu dentista pagava metade, tinha a certeza que ele faria um desconto se levasse um grupo, e assim que cheguei ao Centro Social expliquei-lhes que estavam a fazer mal negócio. Com o meu espírito de empreendedora, mostrei que poderiam poupar imenso dinheiro se trocassem de dentista e com o dinheiro que poupavam poderiam investir em consultas de oftamologia e de podologia (sim, porque a diabetes existe e as cataratas também, e sempre que eu dizia "o sr X anda a ver pior, diziam-me que não havia dinheiro para consultas"). Disse que poderiam investir algum desse dinheiro em pensos medicalizados que eu necessitava para alguns utentes (pensos hidrocoloides, carvao activado, hidrocelulares). A resposta da assistente social foi: SRA ENFERMEIRA, NÃO SE META ONDE NÃO É CHAMADA.

Fiquei seriamente chocada. Punham voluntárias a pedir no centro comercial ou a mendigar de porta em porta e depois não se importavam em esbanjar dinheiro em situações em que poderiam ser poupadas. Nesse ano, eu e a minha turma de guitarra demos um concerto de Natal, o meu professor propôs dar um donativo para a instituição onde eu trabalhava e eu opus-me firmemente, tendo feito um manguito. Acabamos por doar a uma instituição de apoio ao autismo na nossa cidade (que pelo que sei está a fazer um magnifico trabalho).

Durante a minha infância e parte da adolescência, vivi num bairro onde havia gente que trabalhava e recebia e havia gente que recebia e não trabalhava. Tinha uma vizinha na casa dos trintas que lhe arranjaram um emprego a varrer o chão das ruas e ela recusou porque achava que a vassoura era muito pesada. Essa mesma vizinha que nunca trabalhou na vida porque sei lá como se esquivava, recebia varias vezes ao ano donativos alimentares. E ela por varias vezes ofereceu muitos desses géneros à minha mãe pelo simples facto de não beber leite de marca branca (catxitxa, dizia a puta) e de só gastar azeite Galo e salsichas Nobre. Ou seja, azeite marca Dia ou salsichas marca É, jamais! Lembro-me de uma vez estar a brincar na rua e sentir muita sede. Fui ao supermercado do bairro e comprei uma garrafa de água das mais baratinhas. Essa vizinha estava também lá no supermercado e disse-me "Não compres essa água. Nem sabes onde fica essa serra! A Luso é melhor"

E este tipo de comportamento revoltava toda a gente lá em casa. Anda meio Portugal a contribuir para que a outra metade não passe fome e muitos pobres que fui conhecendo ao longo da vida recusam ou aceitam e deitam fora essas contribuições só porque só usam produtos de marca. São chic demais para usar produtos de marca branca. Como me contou uma amiga minha que trabalha num hipermercado, uma vez uma velhinha com aspecto pobre foi às compras e comprou só produtos de marca, que como se sabe, são muito mais caros. Quando estava a efectuar o pagamento, ela queixou-se à minha amiga de que a vida estava mesmo cara. Então essa minha amiga perguntou-lhe porque é que não optava por marcas brancas que pouparia imenso dinheiro. A velha respondeu: "Oh menina, o que gasto aqui neste produtos mais caros, pouparei na farmácia"

A partir daí torço sempre o bico quando alguma pessoa me aborda para dar um donativo monetário para a instituição X ou Y. Talvez os únicos donativos que dou ao longo do ano é para a Liga Portuguesa da Luta contra o Cancro quando fazemos os papeis do IRS. Ou quando vou todos os anos contribuir em géneros para o Canil da minha cidade. Ou quando de vez em quando me lembro que Deus talvez exista e vá pôr uma moedinha na caixa de esmola do São Judas Tadeu, advogado das coisas impossíveis. 

Contribuições a pobrezinhos? Pobrezinha sou eu!

1 impressões:

capitão disse...

Uma andorinha não faz a primavera mas, infelizmente, há muitas andorinhas no bando da solidariedade social, ... e muito esquema. Tal é verdade mesmo nos países mais organizados, mas neste o fenómeno multiplica-se. Mesmo assim eu estou em crer que esse grupo, se bem que grande, é minoritário. Dinheiro só dou quando conheço muito bem a instituição. Alimentos ofereço marca branca nas campanhas.

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