sábado, 14 de dezembro de 2013

Peripécias psiquiátricas

O Fonseca (nome fictício) era um homem na casa dos quarentas anos institucionalizado na década de 80 com diagnóstico de esquizofrenia.

Era um homem alto, corpulento. Não obedecia a ordens. E quando era demasiado estimulado para obedecer a ordens como "ir para aquela cadeira" ou "ir para a sala de refeições", ele basicamente atirava-se ao chão como de um desmaio se tratasse. E quando caía ao chão, devido ao seu peso era uma barulheira tamanha.

E lá estavamos nós, estagiárias em enfermagem em 2007 a tentar acordar o homem num dos nossos primeiros dias naquele lugar. "Senhor Fonseca, acorde", palmadas na cara para aqui e para acolá, beliscões na axila ao qual ele reagia contraíndo-se, mas mesmo assim de olhos fechados como se estivesse a dormir. "Senhor Fonseca, Senhor Fonseca!", gritávamos.


Até que um dos auxiliares berra-lhe:
"OH FONSECA, BONITO SERVIÇO, O TEU IRMÃO ESTÁ ALI E TU AÍ DEITADO! Ele vai adorar saber que te andas a portar mal"


O homem abre os olhos, levanta-se com velocidade: "Onde? Onde? Onde?Mano? Mano? Mano?"

A primeira vez apanhou-nos. A segunda usamos a estratégia do auxiliar. O "irmão" ia lá todos dos dias sempre que ele mandava-se ao chão. (Por acaso o irmão dele ia lá frequentemente, algo que infelizmente era raro em muitos utentes)

O Fonseca era de poucas palavras. Mas uma frase dele marcou-me imenso: "Temos de ser duros", dizia ele.


E esta semana antes de voltar a Portugal vai ser do camandro. Sangue, suor e lágrimas. Dois exames e um teste importante para ir descansada, sem grandes coisas para estudar.


"Temos de ser duros", dizia o Fonseca. Ah pois temos...

Lareira acesa da cozinha, como sinto a tua falta.



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