sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Querida L.

Visto que sou uma boa aluna e gosto de ajudar os outros, andei a dar explicações de Patologia a uns amigos. Como estávamos perto do Natal, eles agradeceram-me com um cesto todo fofinho cheio de latinhas e de caixas de bombons. Tinha latinhas de trufas, de merdinhas gourmet e...caviar!

Os bombons marcharam quase todos numa semana, o caviar e as merdinhas gourmet guardei para levar para Portugal. Se é trés chic, que seja comido em família! Mas antes disso perguntei-lhe como é que se deve comer realmente o caviar. Nunca tinha provado, alguém já me tinha dito que era uma porcaria e tal. Então eles me explicaram que deveria por uma taça de gelo, depois rodelas de limão em cima do gelo e só depois o caviar. Explicaram-me que deveria ser servido com uma colher de madrepérola (onde raio arranjo eu isso mesmo?) porque as colheres de metal cortam o sabor.

Cheguei a casa com as latinhas, obriguei a minha mãe a esperar mais uns dias para provar a porra do caviar.


Noite da consoada. cumpri religiosamente tudo que a malta me explicou. Esfregou-se as mãos. Usou-se um botão de madre pérola para ser servido o caviar. Meteu-se à boca. Degustou-se.
A primeira a dar o seu parecer foi a minha irmã: ESTA MERDA SABE A PEIXE COM KILOS DE SAL.
Eu e a mãe concordamos. Fechou-se a lata do caviar para o jantar no dia seguinte na casa da minha tia.

Eu adoro a minha tia. É a pessoa mais genuina que conheço. Diz txouriça e nós foi e nós semos, mas eu adoro-a mesmo. Pus na mesa o caviar. A irmã dela (que não é minha tia) gaba a textura e o sabor, o paladar (trabalhas numa fábrica, que caraças sabes tu disso, perguntava a mim própria!). A minha tia, pega num pedaço de broa, mete caviar em cima, mastiga e diz:
- Pu*a que pariu a isto! Andas a trazer destas merdas da Rússia ou lá o que é que não valem um cara***o? Vou pôr masé mais txouriça e fritar mais uns bolinhos de bacalhau!

Adoro-te tia...


PS. Tenho mais 3 latas iguais no frigorífico, para quem quiser...

domingo, 22 de dezembro de 2013

Querido Pai Natal

Já há muito tempo que não lhe envio nenhuma carta. Possivelmente porque tenho cartão multibanco o que faz com que tudo o que quero a pouco e pouco vou comprando. Já não preciso de ter a pachorra de lhe escrever...


Uma coisa que nunca percebi muito bem foi a diferença entre ti e o Menino Jesus. Em casa és tu que dás as prendas. Na casa da avó é o Menino Jesus. Espero bem que tu e o Menino Jesus não discutam muito por causa disso, já que na casa da avó, a mesa é sempre mais cheia, sobra sempre mais coisas. E nessa mesa quem se aproveita das migalhas e das bolachas é o Menino Jesus. Na minha casa, a mesa fica praticamente vazia porque somos pouquinhos. Ficam umas migalhitas para comeres.

Outra coisa que não percebo muito bem é como é que estás em toda a parte: estás nos shoppings, nas ruas, nas vitrinas a aturar putos. Pensei que fosses só um e que só te davas ao trabalho de apareceres na noite de Natal.

Muito obrigada pela casa da Barbie que nunca cheguei a receber. Tive muita fé que um dia iria ter uma casa da Barbie igual à da minha prima. Em contrapartida, o meu pai, habilidoso fez uma cama em madeira para a minha Barbie e a minha mãe fez um vestido de noiva para ela também.
Muito obrigada pelas caixas de Ferrero Rocher que me ofereceste. Elas não chegavam até ao inicio das aulas, acredita. Ainda vou perceber qual foi a tua de me dares uma caixa de Mon Cheri sabendo que era uma garota de 7 anos que não deveria beber álcool.

Ainda vou perceber também como é que eu recebi um saco de carvão naquela noite de Natal em que eu passei a tentar salvar vidas após acidentes de viação, ossos de peru entalados na garganta, enfartes cardíacos e tentativas de suicido num hospital espanhol quando eu deveria mesmo era estar em casa de pijama a fazer zapping e a enfardar tudo que fosse de chocolate e empurrar tudo com uma garrafa de cidra. Pensei que o carvão era para os meninos maus. E acho que nunca fui uma menina má.

Bem, Pai Natal, este ano não quero coisas materialistas. Felizmente descobri que no Amazon consigo comprar livros de medicina a preços de chuva, logo não te vou pedinchar livros de Cirurgia nem dessas coisas. Além disso o meu velhinho leitor de ebooks é mais que perfeito para ler livros sacados da net (sou pobre para comprar tudo o que leio). Vou-te pedir essencialmente uma coisa que o Rei Salomão pediu à muito: sabedoria. Sabedoria em tomar decisões, em distinguir o trigo do joio, sabedoria em escolher os meus amigos, em como, quando e em que circunstâncias devo amar. Sabedoria para me tornar uma pessoa melhor e para saber manter e fazer cada vez mais amigos. Sabedoria para aguentar mais uma semaninha e aí as 12 badaladas vão ser passadas com a boca cheia de uvas passas e de mais desejos!

Não é pedir muito, pois não?

Alima

P.S. Sim, a nossa porta de casa não tem qualquer enfeite nem luz nem merdinha alguma. Mas continuamos a viver lá, ok? A cadela ladra imenso mas é mansinha. E desculpa se a chaminé estiver com muita fuligem...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Querida mãe,

Hoje é o seu aniversário. Parabéns.

Sei que às vezes não me porto como a melhor filha do mundo. No entanto nada e ninguém é perfeito (à excepção da sua filha mais nova que faz merdas do arco da velha e mesmo assim a perdoa porque ainda a vê como aquela bebé de poucos meses).

No entanto, apesar das nossas muitas incompatibilidades, posso achar que somos muito parecidas. E não refiro em termos físicos. Afinal de contas herdei o seu cabelo seco, grosso, african style, herdei a sua tendência a apanhar escaldões com um bocadinho de sol. Felizmente não sou baixota como a mãe. Nem baixota como todos na família.
Herdei também o seu mau feitio. Sou muito boa pessoa até provarem o contrário. Tal como a mãe, consigo ser tão dramática como uma novela mexicana. A grande diferença entre a mãe e eu é que eu dou o braço a torcer e sei pedir desculpas quando estou errada. A mãe limitas-se a esperar que os outros  venham pedir desculpas mesmo que não estejam errados (só para a manutenção da paz em casa) só porque não é capaz de pedir perdão a quem quer que seja.
É o tipo de pessoa que adora causar escândalo mesmo à hora de sair de casa por merdinhas. E depois o que faz? Mete-se na cama, como uma cobarde à espera que a gente lhe venha pedir por favor para sairmos. O problema é que apanhou-me mil vezes desta forma. A mil e uma vez já não aconteceu comigo. "Ai já não quer sair, mãe? Óptimo, ficamos por casa e eu ponho a leitura em dia...". A mãe é aquele tipo de pessoa que não pede nada: sugere. E se não seguirmos a sua sugestão, o caldo entorna-se de novo.

De qualquer forma, deixe-me que lhe diga que a admiro muito. A mãe é uma sobrevivente e uma lutadora neste ciclo de tragédias que é a nossa família. A mãe ao contrario dos seus irmãos, preferiu investir nas filhas para que pudessem ter um futuro melhor em vez de investir em viagens e em coisas mais vãs. O que é certo é que por milagre, por muito sacrifício que fazemos, somos felizes à nossa maneira. Privamos-nos e mesmo assim nunca nos falta nada. O que é extraordinário.

Apesar de não ser a melhor filha do mundo, espero que se orgulhe de mim da mesma forma como me orgulho de si.

Feliz aniversário mãe. Infelizmente não lhe poderei dar um beijinho de parabéns ainda hoje. Mas se Deus quiser amanhã já nos sentaremos à mesma mesa.


Alima

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da Medicina Interna...

Ontem tive um teste de crédito a Medicina Interna. Não é que eu não estude para este cadeirão (pelo contrário), mas fui a este teste já sabendo as respostas correctas. Tudo porque os grupos anteriores fizeram exactamente o mesmo teste e lá conseguiram tirar uma fotografia ao teste já com as respostas feitas.

Acontece que nenhum de nós para não dar cana de que tínhamos o teste, entre todos combinamos por duas ou três respostas erradas.

Fomos fazer o teste. Resolvi tentar errar em respostas que poderiam deixar o aluno na duvida. Uma das perguntas era o que era a caput medusa. Havia como várias opções de que era causado por vasodilatação das ramificações da Veia Cava Inferior e havia a opção da hipertensão portal. Ora, a resposta que segundo me tinham dado como correcta era a da vasodilação das ramificações da Veia Cava Inferior e eu estava 90% mais inclinada para a hipertensão portal. Pus essa opção.

Outra das perguntas era sobre o edema pulmonar como consequência entre várias opções de Insuficiência cardíaca à direita ou à esquerda. Como resposta correcta eles tinham lado direito. Mas eu achei novamente a resposta muito estranha porque quase ia jurar que era do lado esquerdo. E pus como correcta a opção do lado esquerdo.


Vamos a saber os resultados. A professora chama o grupo todo. Diz ela que acha extraordinariamente estranho o facto de toda a gente ter errado na pergunta do caput medusa e do edema pulmunar. À excepção de mim.


E foi assim que só errei uma resposta quando na verdade queria errar propositadamente mais.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Peripécias psiquiátricas

O Fonseca (nome fictício) era um homem na casa dos quarentas anos institucionalizado na década de 80 com diagnóstico de esquizofrenia.

Era um homem alto, corpulento. Não obedecia a ordens. E quando era demasiado estimulado para obedecer a ordens como "ir para aquela cadeira" ou "ir para a sala de refeições", ele basicamente atirava-se ao chão como de um desmaio se tratasse. E quando caía ao chão, devido ao seu peso era uma barulheira tamanha.

E lá estavamos nós, estagiárias em enfermagem em 2007 a tentar acordar o homem num dos nossos primeiros dias naquele lugar. "Senhor Fonseca, acorde", palmadas na cara para aqui e para acolá, beliscões na axila ao qual ele reagia contraíndo-se, mas mesmo assim de olhos fechados como se estivesse a dormir. "Senhor Fonseca, Senhor Fonseca!", gritávamos.


Até que um dos auxiliares berra-lhe:
"OH FONSECA, BONITO SERVIÇO, O TEU IRMÃO ESTÁ ALI E TU AÍ DEITADO! Ele vai adorar saber que te andas a portar mal"


O homem abre os olhos, levanta-se com velocidade: "Onde? Onde? Onde?Mano? Mano? Mano?"

A primeira vez apanhou-nos. A segunda usamos a estratégia do auxiliar. O "irmão" ia lá todos dos dias sempre que ele mandava-se ao chão. (Por acaso o irmão dele ia lá frequentemente, algo que infelizmente era raro em muitos utentes)

O Fonseca era de poucas palavras. Mas uma frase dele marcou-me imenso: "Temos de ser duros", dizia ele.


E esta semana antes de voltar a Portugal vai ser do camandro. Sangue, suor e lágrimas. Dois exames e um teste importante para ir descansada, sem grandes coisas para estudar.


"Temos de ser duros", dizia o Fonseca. Ah pois temos...

Lareira acesa da cozinha, como sinto a tua falta.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Poema que declamei na festa de Natal da escola primária em 1996 e que ainda o tenho na memória



Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
mas há pouco, há poucochinho, 
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu, 
branca e leve, branca e fria... 
- Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança, 
e noto, por entre os mais, 
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los, 
primeiro, bem definidos, 
depois, em sulcos compridos, 
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
- e cai no meu coração.


AUGUSTO GIL

Dedicado a todas as crianças, adultos e velhos que tal como eu, sofrem com as investidas da neve, vento e gelo na Europa Central e de Leste.
É que estou como o outro "Não faz chuva, nem faz orvalho, faz um frio do ca**lho!"

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A avó e as nozes

Um dia, a minha mãe ofereceu um cesto de nozes ao meu pai, depois de lhe ter explicado em como partir nozes com a porta de casa. O meu pai, que nunca tinha visto um fruto assim, uma vez que na serra onde nasceu e cresceu, as nogueiras nunca vingavam, foi todo contente com a cesta de nozes para a casa dos meus avós paternos para mostrar a iguaria que a namorada lhe tinha dado.

Passado uns tempos a minha mãe perguntou-lhe o que é que tinha achado das nozes.
O meu pai disse que eram deliciosas. Mas que a mãe dele achou-as muito amargas. E o meu avô um pouco duras

Posto isto, a minha mãe ficou com três teorias:
1- O meu avô comeu as nozes com casca;
2- A minha avó comeu aquela casquinha preta que reveste a noz.
3- O meu pai não teve o cuidado para explicar aos seus pais de que o miolo é que interessa.



Fica o mistério por resolver....


sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque é que a Alima não é adepta de certas campanhas de solidariedade...

Houve um tempo em que trabalhava num Centro Social comparticipado pelo Estado. Além de receber imenso dinheiro do estado Português, recebia imenso dinheiro e donativos de empresas e de pessoas singulares. E mesmo assim sempre se queixavam que não tinham grandes recursos.

Uma vez, pediram-me para acompanhar uns utentes a um dentista que lhes cobrou por uma consulta dentária a módica quantia de cinquenta euritos que seria desembolsado dos cofres do centro social. Ora, eu no meu dentista pagava metade, tinha a certeza que ele faria um desconto se levasse um grupo, e assim que cheguei ao Centro Social expliquei-lhes que estavam a fazer mal negócio. Com o meu espírito de empreendedora, mostrei que poderiam poupar imenso dinheiro se trocassem de dentista e com o dinheiro que poupavam poderiam investir em consultas de oftamologia e de podologia (sim, porque a diabetes existe e as cataratas também, e sempre que eu dizia "o sr X anda a ver pior, diziam-me que não havia dinheiro para consultas"). Disse que poderiam investir algum desse dinheiro em pensos medicalizados que eu necessitava para alguns utentes (pensos hidrocoloides, carvao activado, hidrocelulares). A resposta da assistente social foi: SRA ENFERMEIRA, NÃO SE META ONDE NÃO É CHAMADA.

Fiquei seriamente chocada. Punham voluntárias a pedir no centro comercial ou a mendigar de porta em porta e depois não se importavam em esbanjar dinheiro em situações em que poderiam ser poupadas. Nesse ano, eu e a minha turma de guitarra demos um concerto de Natal, o meu professor propôs dar um donativo para a instituição onde eu trabalhava e eu opus-me firmemente, tendo feito um manguito. Acabamos por doar a uma instituição de apoio ao autismo na nossa cidade (que pelo que sei está a fazer um magnifico trabalho).

Durante a minha infância e parte da adolescência, vivi num bairro onde havia gente que trabalhava e recebia e havia gente que recebia e não trabalhava. Tinha uma vizinha na casa dos trintas que lhe arranjaram um emprego a varrer o chão das ruas e ela recusou porque achava que a vassoura era muito pesada. Essa mesma vizinha que nunca trabalhou na vida porque sei lá como se esquivava, recebia varias vezes ao ano donativos alimentares. E ela por varias vezes ofereceu muitos desses géneros à minha mãe pelo simples facto de não beber leite de marca branca (catxitxa, dizia a puta) e de só gastar azeite Galo e salsichas Nobre. Ou seja, azeite marca Dia ou salsichas marca É, jamais! Lembro-me de uma vez estar a brincar na rua e sentir muita sede. Fui ao supermercado do bairro e comprei uma garrafa de água das mais baratinhas. Essa vizinha estava também lá no supermercado e disse-me "Não compres essa água. Nem sabes onde fica essa serra! A Luso é melhor"

E este tipo de comportamento revoltava toda a gente lá em casa. Anda meio Portugal a contribuir para que a outra metade não passe fome e muitos pobres que fui conhecendo ao longo da vida recusam ou aceitam e deitam fora essas contribuições só porque só usam produtos de marca. São chic demais para usar produtos de marca branca. Como me contou uma amiga minha que trabalha num hipermercado, uma vez uma velhinha com aspecto pobre foi às compras e comprou só produtos de marca, que como se sabe, são muito mais caros. Quando estava a efectuar o pagamento, ela queixou-se à minha amiga de que a vida estava mesmo cara. Então essa minha amiga perguntou-lhe porque é que não optava por marcas brancas que pouparia imenso dinheiro. A velha respondeu: "Oh menina, o que gasto aqui neste produtos mais caros, pouparei na farmácia"

A partir daí torço sempre o bico quando alguma pessoa me aborda para dar um donativo monetário para a instituição X ou Y. Talvez os únicos donativos que dou ao longo do ano é para a Liga Portuguesa da Luta contra o Cancro quando fazemos os papeis do IRS. Ou quando vou todos os anos contribuir em géneros para o Canil da minha cidade. Ou quando de vez em quando me lembro que Deus talvez exista e vá pôr uma moedinha na caixa de esmola do São Judas Tadeu, advogado das coisas impossíveis. 

Contribuições a pobrezinhos? Pobrezinha sou eu!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Feliz Aniversário

Hoje é o teu aniversário. Parabéns.
Não te vou desejar pessoalmente. Primeiro porque geograficamente não posso. Em segundo porque realmente não quero.


Infelizmente a tua data de aniversário jamais a poderei esquecer: é a mesma data de aniversário que a minha. E num tempo em que éramos felizes juntos festejamos-la juntos. Uns anos rodeados dos teus amigos, outros com os meus amigos, outros anos com a orelha colada ao telefone. Às vezes desejo que o nosso cérebro fosse como este computador em que te escrevo: quando está com problemas de memória, mando formatar. E o problema desaparece assim como qualquer memória. Mas depois lembro-me que se calhar é bom ter um cérebro com memória: é sinal que estou viva. E as memórias vão desaparecendo com o passar do tempo. Mas a experiência permanece.
Alguém escreveu que Experience is a hard teacher because gives the test first, the lesson afterwards. E de ti, só quero guardar algumas memórias e toda a experiência que adquiri contigo. Porque as lições foram bem duras. Mas felizmente acho que foram devidamente superadas.
E sim, aquela lágrima que parece brotar dos meus olhos não é de humilhação pelo facto de te ver de mãos dadas com a tua nova namorada (bem feiinha digo-te já, ao menos trocavas-me por algo bem melhor, caramba Ela se for tirar todos aqueles sinais da cara, vai parecer um campo de golf). É uma lágrima que não chega a cair por causa do tempo que de facto perdi contigo e pelo facto de lutar tanto por alguém como tu que fez de mim a pessoa com menos interesse em procurar alguém neste mundo. Por não seres a metade da minha laranja, acabei por me tornar um limão. Tornei-me insensível aos afectos. Vejo todos os homens como amigos apenas, sem o mínimo de atracção. Lutei contra marés e dragões, lutei contra o tempo e acabei por me cansar de lutar. Como disse a alguém ainda estes dias, agora é a minha vez de lutarem por mim, eu tenho os braços cruzados a partir de agora.

Feliz Aniversário a ti. E a mim já agora.

Vai-te encher de moscas.