sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Querido Pai

Hoje assim do nada recordei-me das  tuas lições de mineralogia, geologia e história até.
Nasceste numa zona onde durante a Segunda Guerra Mundial, centenas senão milhares de pessoas trabalhavam nas minas de Volfrâmio. Segundo as tuas explicações e as do avô, aquela zona estava a ser explorada por alemães e ingleses. O avô trabalhou como guarda das minas dos alemães. A avó trabalhava nas minas dos ingleses a carregar cestas de volfrâmio à cabeça pelo monte acima e abaixo até juntarem tudo e ser posteriormente levado para onde faziam máquinas bélicas. No fundo, os dois trabalhavam e dormiam com o inimigo.
E apesar de já terem passado cerca de 70 anos, acho uma certa piada e fascinação até, ao saber que milhares dessas pessoas trabalhavam em condições péssimas para juntar meia dúzia de escudos a esburacar e a escarafunchar montanhas, a garimpar riachos e a transportar minério à cabeça ou a conduzir animais sem realmente saberem qual a verdadeira função daquele ouro negro. A guerra que atingia mais precisamente a Europa Central ainda era pouca divulgada na aldeia. Na vila. No país inteiro.
Morria-se nas minas em derrocadas, morria-se com uma bala no peito quando contrabandeavam. Muitos morreram anos depois de silicose e tuberculosos. Não havia higiene e segurança no trabalho, não havia capacetes, nem iluminação nem máscaras nem luvas. O avô, homem pouco culto mas fino como um rato aliou-se à companhia alemã porque pagavam mais. E como guarda, era facilmente subornado por colegas para fechar os olhos quando queriam trazer uns kilos nos bolsos para venderem posteriormente no mercado negro. Mas como o avô dizia, ele sobreviveu porque graças à sua astúcia conseguia dormir numa cama quente. Os outros dormiam nas minas, sujeitos ao clima agreste das montanhas e rapidamente pereceram.

Graças a essa febre do ouro negro, uma espécie de cidade foi construída no vale da montanha. Subindo a encosta a pé, num trilho já há muito esquecido, são 2km sensivelmente da freguesia. De carro são 30 minutos por estradas estreitas. Quando a visitei pela primeira vez há muitos anos, o avô foi connosco. E ele explicou-me detalhadamente onde era o quê.  Havia ruínas de uma escola, de uma capela em honra a Santa Barbara (padroeira dos mineiros), de um tasco, de uma espécie de hospital de campanha, de uma pensão até. As ruínas aparentavam ser de casas muito bonitas e mais acolhedoras do que a velha casa de xisto negro em que o avô vivia na freguesia 2km mais acima. Na rua em péssimo estado brincavam três miúdos com cabelos muito loiros, quase albinos. O avô percebeu o meu olhar aparvalhado e comentou-me que aquilo era fruto da semente germânica.

Muitos anos se passaram e voltei lá. A aldeia estava ainda mais deserta, os vestígios de onde foram casas eram cada vez menores. Pedras, vidros partidos e lixeira. Nunca fui a uma favela no Brasil, mas associei aquele lugar a uma favela/cidade fantasma.  Ainda existia um tasco onde me recordei que cerca de 12 anos antes o meu avô cumprimentou efusivamente os donos. Afinal, apesar de viverem num raio de 2km, já não se viam desde a década de 50. A velha, quando me entregou o sumol de laranja, olhou para mim a perguntar o que raio fazia eu naquele lugar. Sem meias medidas expliquei que era a neta do C. do C. que ela reconheceu automaticamente. Perguntou-me que era feito dele. E do filho que fez o exame da 4ª classe naquela escola porque era muito maior que a da freguesia. Expliquei-lhe que ambos morreram. Assim como a minha avó. A velha sem meias medidas disse "Que Deus conserve as suas almas. Mas que o seu avô era um putanheirozinho lá isso era". E porque é que o avô tinha essa fama e tirava proveito? Porque foi dos poucos homens que sobreviveu até aos 80 anos. E como tal ia consolando as viúvas, que tinham enviuvado aos 30- 40 anos.
O avô contava que muita gente ganhou dinheiro. Gastaram em vinho do Porto, em putas e em jantaradas nos hoteis do Porto. Nunca pensaram que um dia a guerra iria acabar. Porque um dia a guerra acabou, o volfrâmio perdeu todo o valor que tinha, a espécie de cidade mineira ficou abandonada a salteadores e à mercê da natureza, e aqueles que não juntaram dinheiro porque não tiveram cabeça para economizar acabaram por na década de 60 darem o salto para França.

E assim do nada recordo-me das vezes que visitamos as minas alemãs, pai. Lembro-me de ver fachadas de casas que antes eram escritórios e armazéns. Lembro-me que no cume de uma montanha, estava a estátua de um santo qualquer que o patrão alemão venerava. Recordo-me de me mostrares pedras com volfrâmio, pirite e estanho. Explicaste-me a como distinguir o volfrâmio do alcatrão ou de rochas com impurezas negras. Numa das minas que entramos, retiraste um pedaço de quartzo hialino muito pontiagudo. Lindo como se um cristal precioso se tratasse.
E nas minhas aulas de geologia, eu sentia-me em segurança porque basicamente eu adorava calhaus. Conhecia bem o granito, o basalto, o xisto, típico da tua aldeia. Tudo graças aos teus ensinamentos e aos do avô.

                                                                       (retirada da net)

PS. um dia tentei voltar às minas. Tive que desistir. As giestas que antes estavam perto do caminho ocuparam a estrada toda como de dragões se tratassem. Tenho pena mesmo. Muita pena.

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