sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Querida M.

Hoje celebra-se o dia dos Finados.

Antes de mais deixa-me dizer-te que este dia só começou realmente a ter significado desde que a minha avó paterna faleceu. Até então eu ia ao cemitério com a minha mãe para dar um arranjo à campa do meu avô materno só porque sim. Mas nunca no dia dos Finados. 

Por falar em mortos, sabes bem que tenho um grande respeito por eles. No entanto, nunca fui de grandes sofrimentos e de esgares de nojo ou pena quando via cadáveres. (Ok, já fiquei um bocado mal dispostinha numa aula de anatomia patológica quando o professor ao abrir um corpo e foi libertado um odor extremamente desagradável típico da decomposição do cadáver). Corpo é corpo e está ali. Mas a alma, a alma que não a podemos ver mas podemos sentir, essa sim, tenho um enorme respeito.


No final do Verão quando fui passar um fim de semana à praia da Tocha, estava eu com os meus amigos a jantar e na risota, quando a avó do dono da casa, aproximou-se de mim assim do nada. A minha amiga e o neto tinham-me dito que a velhota era assim um bocadinho para o mística. E erradamente associei ao um bocadinho bruxa.
O pessoal parou todo com o ruído e começou a observar-nos.
A senhora pousou as mãos no meu rosto e observou-me atentamente. Assim do nada, enquanto ela olhava-me fixamente ela disse-me numa voz muito calma de que eu tinha uma espécie de aura de uma cor muito florescente. De que eu tinha uma capacidade fora do normal de obter tudo que eu desejava. De que sentia que eu era protegida por espíritos muito bons e que faziam com que eu transmitisse uma espécie de boas vibrações.
Eu sorri para ela. Não sabia o que lhe dizer. Senti-me encavacada. 

Então ela, enquanto tinha as mãos pousadas no meu rosto disse-me que nos meus olhos transbordavam uma tristeza por perdas de pessoas muito próximas a mim. E o que ela disse depois, deixou-me completamente arrepiada: "Avisa a família dos teus parentes que se mataram para pararem de gastar dinheiro em bruxas. Eles só vão poder comunicar com os vivos na data em que eles deveriam realmente morrer. Até lá estão a sofrer porque ainda estão neste mundo mas não conseguem comunicar com ninguém." E automaticamente pensei naqueles primos dos meu pai que se mataram e que sei que alem dos familiares andarem a gastar dinheiro em advogados, andam também a gastar em bruxas. Como em tom de brincadeira disse a minha irmã: suicídio deve ser doença de família na família. 


Seja como for, o A. no dia seguinte, enquanto estávamos a trabalhar para o bronze, disse-me que a sua avó lhe tinha dito que estava a contar que eu lhe pedisse para fazer uma espécie de chamadinha para o Além. Eu sorri e neguei com a cabeça. Não, não tinha qualquer intenção de fazer tal chamada. Quando quero falar com os mortos, eu rezo a eles, eu sonho com eles, eu penso neles. Às vezes sinto a presença deles o que não me assusta.  Durante meses evitei locais com velas aromáticas porque volta e meia sentia o cheiro à capela mortuária onde velei o meu pai, mesmo eu sabendo que naquele local era impossível sentir aquele determinado cheiro. Talvez fosse a forma dele se comunicar comigo. Gosto de pensar dessa maneira, pelo menos.

E portanto, não me sentia tentada a fazer essa chamada para o Além. Iria perguntar o que? Iriam dizer-me o que? Que estão bem? Que estão mal? Que sentem saudades nossas como nós sentimos deles? Prefiro não saber... Às vezes as pessoas mais ignorantes são as mais felizes. Prefiro viver na ignorância nesse assunto do que saber uma resposta que me deixe eternamente triste. Já vi dezenas de pessoas a morrer: umas morrem com um sorriso nos lábios como se estivessem em paz, outras fazem esgares de horror e de sofrimento minutos antes de partir. E gosto de pensar que aqueles que morreram tenham a capacidade de nos porem a mão no ombro e de uma forma ou outra nos dizerem sem palavras. Ei, tem calma... tudo vai dar certo...estou aqui para te proteger. 


E pronto, qual é a minha opinião sobre o Dia de Todos os Santos? É aquele dia em que dias antes o preço das flores inflaciona e em que o cemitério é uma feira de vaidades: os mais ricos põem flores mais caras, os mais pobres flores mais baratas e os mais pobres de espírito deixam fiado na florista para comprarem flores caras. 
É aquele dia em que se olha para a campa de família do vizinho e se vê que só é ornamentada naquele dia. Ou então que lamentamos porque aquela campa não foi ornamentada porque ninguém a foi visitar.
É aquele dia em que as gentes do Minho (pelo menos) vestem as suas melhores indumentarias para serem exibidas no cemitério, aquele dia em que encontramos aquelas pessoas que só vemos em ocasiões festivas.
É aquele dia em que encho com alguns euros as caixas de lata dos escuteiros  que ficam à porta do cemitério para peditórios para a Liga Portuguesa contra o Cancro e em que fico a matutar nas centenas de pessoas que repousam por causa daquele mal no outro lado do portão. 
É aquele dia em que anoitece depressa, faz frio, quase sempre chove em que se fica sentada à lareira a comer castanhas como se não houvesse amanhã e a contar os dias que falta para a próxima festividade: o Natal. 
É aquele dia em que se acorda ressacada depois de uma noitada na discoteca para celebrar o Halloween.
É aquele dia em que uma lágrima teimosa cai sempre quando se pensa naquela pessoa que amamos já partiu. E naquele que pensamos que será o próximo. 

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