sexta-feira, 29 de novembro de 2013

E como estamos quase no Natal...

Essencialmente eu odeio o Natal.
As músicas natalícias deprimem-me, aquele ambiente de lusco fusco das luzinhas, Pais Natais e bolinhas coloridas irritam-me, sofro de claustrofobia sempre que entro num shopping por essa altura onde há aquela azafama de comprar tudo para a mesa, mais brinquedos e prendinhas para este e aquele. Detesto essa época porque todos parecem transpirar felicidade, a época em que parece que ninguém tem problemas de dinheiro porque os melhores brinquedos e os melhores bacalhaus desaparecem num ápice. 
Odeio aquele frio típico da época. Por norma as noites são tão frias que as magnólias e as buganvíleas que até então sobreviveram ao rigoroso frio bracarense, acabam por ficar queimadas.

Por azar, três familiares meus morreram na véspera de Natal, no dia de Natal e no ultimo dia do ano. Não há ano em que não pense neles e em como as coisas eram diferentes quando eram vivos. Como não há ano em que não pense naqueles que partiram e que contribuíram e muito para que os meus antigos natais fossem felizes.

A mesa de Natal que há muito tempo era constituída por mais de vinte e tal pessoas barulhentas, passou depois a ser constituída por oito e neste momento por três pessoas apenas acompanhadas por um cd do Fausto Papetti com o seu saxofone e da televisão ligada nas notícias. Não, a família não diminuiu muito de número. Simplesmente ficamos cada vez mais individualistas, ninguém quer ficar encarregado de grandes tachos de panelas, passa-se apenas o Natal com filhos e netos (os que já têm). 

Os bacalhaus que se deixavam de molho (sim, porque no Norte não é comum comer peru), passaram a ser duas postas apenas. As dezenas de pratos de aletria, de mexidos e de rabanadas e daquela doçaria toda foram reduzidas a um ou a nenhum prato porque somos poucos e queremos manter a linha. Bolo rei já não entra em casa há anos porque nenhuma de nós gosta. Já não se compra paté nem se fazem entradas só porque somos três. Jantamos na sala de jantar nesse dia. O único dia em que damos uso à sala de jantar. Sim, porque toda a boa família do Norte tem uma mesa de jantar para seis-oito pessoas que só é usada uma-duas vezes ao ano.

Alguns pratos e travessas do serviço da Vista Alegre dos anos 70 com cento e tal peças e os talheres prateados e dourados do enxoval de solteira da mãe só são usados no Natal. Depois de lavado e secado é religiosamente guardado na cristaleira e no faqueiro que tresanda a sacos de lavanda, sob a repreensão da mãe de que com a minha idade já estava casada, logo com oportunidades de usar mais vezes tais serviços.

E depois do jantar, deixamos a loiça suja na mesa e ficamos a ver tv até à meia noite, altura em que trocamos as prendas. Prendas simbólicas porque felizmente compramos ao longo do ano tudo que vamos precisando. Uma caixa de bombons, um livro, uns brincos e tal são normalmente as prendas. A mãe vai para cama cedo porque faz frio, a minha irmã iden, eu fico a jogar na Wii até os meus olhos ficarem cansados fruto das horas passadas a ver tv e do ambiente com fumo da lareira da sala que só é usada uma vez ao ano e como tal está entupida com os ninhos dos pássaros.

Quando era miúda e passava o Natal na casa dos avós, havia discussões, risos e brincadeiras. Havia fartura. Havia sempre alguém com conversas estúpidas. Havia sempre um frustrado que se gabava de que tem o carro mais caro da família ou de outro que negoceia antiguidades melhor que ninguém. E quando chegava a casa corria para a lareira onde tinha as minhas prendas. Uma boneca normalmente, ou um jogo. E no dia seguinte voltava-se à casa dos avós onde se comia roupa velha carregada de azeite e alho. Não havia problemas de colesterol nem diabetes. Havia conversas estúpidas e brincadeiras parvas...

Quando era miúda ficava excitada quando o pinheiro e as figuras do presepio e aquela quincalharia toda de Natal descia do sotão. Corria campos e muros à procura de musgo. O pinheiro, as figuras do presepio e a quincalharia estão no sotão cheios de pó há mais de sete anos. Todas as portas da rua tem uma coroa de Natal e umas luzinhas menos a nossa. Deixamos de ser crentes nessas coisas. O espírito de Natal deixou de cair sobre nós.

A minha mãe nessa altura recorda-nos sempre da importância de lhe dar-mos netos para ver se voltamos a ter Natais mais risonhos.
Mais um Natal passado. Mais um ano que se espera até ao próximo. Com a esperança de que continuemos juntas. 

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