sexta-feira, 29 de novembro de 2013

E como estamos quase no Natal...

Essencialmente eu odeio o Natal.
As músicas natalícias deprimem-me, aquele ambiente de lusco fusco das luzinhas, Pais Natais e bolinhas coloridas irritam-me, sofro de claustrofobia sempre que entro num shopping por essa altura onde há aquela azafama de comprar tudo para a mesa, mais brinquedos e prendinhas para este e aquele. Detesto essa época porque todos parecem transpirar felicidade, a época em que parece que ninguém tem problemas de dinheiro porque os melhores brinquedos e os melhores bacalhaus desaparecem num ápice. 
Odeio aquele frio típico da época. Por norma as noites são tão frias que as magnólias e as buganvíleas que até então sobreviveram ao rigoroso frio bracarense, acabam por ficar queimadas.

Por azar, três familiares meus morreram na véspera de Natal, no dia de Natal e no ultimo dia do ano. Não há ano em que não pense neles e em como as coisas eram diferentes quando eram vivos. Como não há ano em que não pense naqueles que partiram e que contribuíram e muito para que os meus antigos natais fossem felizes.

A mesa de Natal que há muito tempo era constituída por mais de vinte e tal pessoas barulhentas, passou depois a ser constituída por oito e neste momento por três pessoas apenas acompanhadas por um cd do Fausto Papetti com o seu saxofone e da televisão ligada nas notícias. Não, a família não diminuiu muito de número. Simplesmente ficamos cada vez mais individualistas, ninguém quer ficar encarregado de grandes tachos de panelas, passa-se apenas o Natal com filhos e netos (os que já têm). 

Os bacalhaus que se deixavam de molho (sim, porque no Norte não é comum comer peru), passaram a ser duas postas apenas. As dezenas de pratos de aletria, de mexidos e de rabanadas e daquela doçaria toda foram reduzidas a um ou a nenhum prato porque somos poucos e queremos manter a linha. Bolo rei já não entra em casa há anos porque nenhuma de nós gosta. Já não se compra paté nem se fazem entradas só porque somos três. Jantamos na sala de jantar nesse dia. O único dia em que damos uso à sala de jantar. Sim, porque toda a boa família do Norte tem uma mesa de jantar para seis-oito pessoas que só é usada uma-duas vezes ao ano.

Alguns pratos e travessas do serviço da Vista Alegre dos anos 70 com cento e tal peças e os talheres prateados e dourados do enxoval de solteira da mãe só são usados no Natal. Depois de lavado e secado é religiosamente guardado na cristaleira e no faqueiro que tresanda a sacos de lavanda, sob a repreensão da mãe de que com a minha idade já estava casada, logo com oportunidades de usar mais vezes tais serviços.

E depois do jantar, deixamos a loiça suja na mesa e ficamos a ver tv até à meia noite, altura em que trocamos as prendas. Prendas simbólicas porque felizmente compramos ao longo do ano tudo que vamos precisando. Uma caixa de bombons, um livro, uns brincos e tal são normalmente as prendas. A mãe vai para cama cedo porque faz frio, a minha irmã iden, eu fico a jogar na Wii até os meus olhos ficarem cansados fruto das horas passadas a ver tv e do ambiente com fumo da lareira da sala que só é usada uma vez ao ano e como tal está entupida com os ninhos dos pássaros.

Quando era miúda e passava o Natal na casa dos avós, havia discussões, risos e brincadeiras. Havia fartura. Havia sempre alguém com conversas estúpidas. Havia sempre um frustrado que se gabava de que tem o carro mais caro da família ou de outro que negoceia antiguidades melhor que ninguém. E quando chegava a casa corria para a lareira onde tinha as minhas prendas. Uma boneca normalmente, ou um jogo. E no dia seguinte voltava-se à casa dos avós onde se comia roupa velha carregada de azeite e alho. Não havia problemas de colesterol nem diabetes. Havia conversas estúpidas e brincadeiras parvas...

Quando era miúda ficava excitada quando o pinheiro e as figuras do presepio e aquela quincalharia toda de Natal descia do sotão. Corria campos e muros à procura de musgo. O pinheiro, as figuras do presepio e a quincalharia estão no sotão cheios de pó há mais de sete anos. Todas as portas da rua tem uma coroa de Natal e umas luzinhas menos a nossa. Deixamos de ser crentes nessas coisas. O espírito de Natal deixou de cair sobre nós.

A minha mãe nessa altura recorda-nos sempre da importância de lhe dar-mos netos para ver se voltamos a ter Natais mais risonhos.
Mais um Natal passado. Mais um ano que se espera até ao próximo. Com a esperança de que continuemos juntas. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os que se casam...

No intervalo entre uma aula e outra no hospital é costume eu e o D. irmos tomar café e comer uma sandes no bar do hospital. Achei-o um bocado em baixo. Perguntei-lhe o que se passava. Ele respondeu:
-Ontem, vi pelo facebook que a minha ex está noiva.

Perguntei-lhe há quanto tempo ela passou a ser a sua ex e durante quanto tempo tiveram uma relação.
Ele respondeu-me que acabaram há ano e pico e que mantiveram uma relação por três anos. E que acabaram porque 3500 km de distância e 6 semanas por ano juntos é demasiado tempo sem se poderem ver. Pus-lhe a mão no ombro em gesto de solidariedade. E lembrei-me automaticamente o porquê de não querer qualquer relação em Portugal. Dizem que que o amor ultrapassa barreiras (neste caso distância) mas eu discordo. A monotonia e as saudades induzem o stress de não podermos estar com o outro e isso resulta na minha opinião em conflito. E o conflito leva a separação.

E lembrei-me também de uma conversa que eu tive com esse meu amigo duas semanas antes, em que nos questionava-mos se quando acabássemos o curso e especialidade (isto aos 35-38 anos na melhor das hipóteses) ainda teríamos alguém que realmente valesse a pena à nossa espera. Chegamos à conclusão que será difícil.


Sempre que abro o meu facebook e observo as fotos dos meus antigos colegas de curso, consigo separa-los em três grupos: os que se casaram (alguns já tem filhos) normalmente põe fotos de barrigas de gravida, seus petizes ou fotos dos seus casamentos, os que ainda namoram e enchem-se de fotos deles abraçados ou a beijarem-se. O terceiro grupo (no qual eu me incluo orgulhosamente e que sei que está a ficar cada vez mais pequeno), resume-se àqueles que não namoram, estão solteiríssimos da silva. Esses põe fotos sozinhos, normalmente fotos de experiências de vida loucas (na minha foto de perfil eu estou numa muralha de um castelo na Roménia, local que muito provavelmente nuca iria visitar na minha vida se me incluísse no grupo 1 ou 2).

Muitas vezes em conversa com elementos do grupo 1, eles já me disseram que devo sofrer do síndrome do Peter Pan. Segundo eles, quem sofre desse síndrome têm um enorme medo de crescer, quer manter-se para sempre criança. Se sofro ou não, não sei. Só sei que sou pessoa de usar todas as armas que possuo. Não sou bonita fisicamente mas gosto de me sentir a pessoa mais inteligente e aventureira que alguma vez conheci. E segundo a minha inteligência, nem todas as mulheres são boas donas de casa ou parideiras. Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Mas atrás de uma grande mulher poucas vezes existe atrás um grande homem. Toda a gente sabe quem foi a Margaret Tatcher. Mas poucos são os que sabem o nome do marido dela.  Se um homem enviúva é um pobre coitado que não tem grande capacidade de fazer as tarefas domésticas e que normalmente procura arranjar outra companheira, se uma mulher enviúva torna-se para todos os efeitos uma grande guerreira, uma guerreira que tem de lidar com filhos, mecânicos, picheleiros e electricistas. Uma guerreira que com o passar do tempo e com as limitações que a sociedade impõe se torna fria e calculista. Uma cabra muitas vezes.

E pronto, gostei daquela frase que o Barney Stinson do How I met your mother disse num episódio:

"Everyone I know is getting married or pregnant. I'm just getting more awesome"

e já agora desta:

"Sometimes I wish everybody could be as awesome as I am"

True story



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Porque às vezes me surpreendo com as minhas saídas

Vivo numa residência universitária. Vivo lá porque além de ser a solução mais económica, é também o melhor remédio contra a solidão. Viver sozinha fica caro, viver com alguém que até então desconhecíamos e dividir tarefas mais cedo ou mais tarde dá raia.

O facto de viver numa residência permite que possa jogar monopoly com alguém que esteja disposto a jogar (e perder, como sempre) comigo, a experimentar e deixar experimentar experiências gastronómicas dos nossos países de origem, a poder sair à noite em grupo, a estudar em grupo, a cravar apontamentos e livros mais facilmente.

Mas sim, o meu maior problema é saber gerir o budget que posso gastar mensalmente. Vivendo na residência poupo mais de metade se vivesse num apartamento. E como não sou de copos e noitadas, o dinheiro que poupo gasto num dos meus maiores prazeres: viajar.

Poucos são os portugueses que vivem na mesma residência que eu. Se bem que de ano para ano, o número está a aumentar (será a crise?). Infelizmente existe o preconceito de muita gente que vive em apartamentos de que quem vive em residências universitárias é economicamente carenciado. E é lamentável que muito  desse preconceito vem mesmo de portugueses, malta que não chegam aos calcanhares em termos económicos dos estudantes dos países árabes, por exemplo, já que eles recebem  cerca de 2000 euros mensais por parte do governo para que estudem no estrangeiro. Muitos desses meus colegas disseram-me que não seriam capazes de viver numa residência só por causa da cozinha. Sim, a cozinha é o maior dos nossos problemas porque apesar de ser limpa diariamente, há muita gente que não tem qualquer cuidado de deixa-la limpa.
A conversa que se segue tem o seu toque de preconceito por parte de alguns tugas e que achei no mínimo deliciosa:

Uma polaca estaciona o seu Volvo todo desportivo no recinto da faculdade. Um português comenta o quão bestial é aquele carro e de que deve ser de polacos de graveto. Eu comento que aquele carro é de alguém que vive na mesma residência que eu.
O tuga vira-se para mim e diz de uma forma muito altiva e prepotente de que quem tem aquele carro não pode viver numa residência porque tem demasiado carcanhol para viver lá. Eu chamo a dona do carro. Ela confirma que vive no mesmo andar que eu.
Tuga armado em rico 0- Alima 1

O português fica todo amuado comigo. Passado uns minutos, outro polaco de quem somos amigos chega ao recinto com um jipe Mercedes. Ele vive na residência.
Tuga armado em rico 0 - Alima 2

Entretanto azar dos azares para o tuga, chega o H., o meu amigo iraniano com quem faço as minhas viagens. Vem no seu (e meu para todas ocasiões e passeios) BMW.
Tuga armado em rico e inchado de ódio 0- Alima 3.

Entretanto fomos para a aula de microbiologia. O tema era doenças tropicais que são associadas a infecções. Surgiu o tema viagens, quem foi a África e tal. O tuga armado em rico, inchado de ódio e de um modo sarcástico gaba-se que foi passar férias a Cabo Verde este Verão. Numa de afronta, pergunta-me em voz alta no meio da aula se já lá estive. Disse-lhe que não, mas que primeiro gostaria de visitar Angola.
Tuga armado em rico, inchado de ódio e sarcástico 1- Alima 3.

Ele pergunta-me se eu não costumo passar férias no estrangeiro. E aí dei uma resposta improvisada de que me orgulho:

"Para quê passar férias no estrangeiro se eu vivo no estrangeiro todo ano? Quero Portugal, o nosso Sol, a nossa francesinha, bacalhau e Super Bock. Para quê ir para o estrangeiro se os meus pais restauraram casa na montanha e um compraram apartamento na praia"

Tuga armando em rico, inchado de ódio e sarcástico 1- Alima 4

Acho que o snobei um pouco. Que se lixe. Não gosto que me snobem. Detesto gabar-me do que tenho. Mas detesto ainda mais quando me vêm como a parente pobre. Viena, tu e eu num fim de semana juntas... em breve!




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Querida L.

Ultimamente tenho conhecido muita gente que me têm dito que andam a tomar medicação para dormir. E calmantes. E anti depressivos. E quando pergunto o motivo para andarem a meter porcarias para o bucho, dizem-me que andam cansados e não conseguem dormir. Que se sentem demasiado apáticos e que o médico prescreveu umas coisas para melhorar o humor. Mas o que mais me impressionou mesmo foi dizerem-me que por causa de um desgosto amoroso, andam a tomar anti depressivos.

Houve uma fase na minha vida, em que estava tão cansada que tomei um único e simples diazepam 5mg roubado da caixa avó e que me fez dormir umas 10h seguidas. Mas foram 10h com sonhos muito estranhos. E jurei pra nunca mais. E houve também aquela fase em que o médico de família me prescreveu uma coisinha fraquinha para melhorar o meu animo, já que estava num processo de luto. Essa coisinha fraquinha deram 7kg a mais para o meu corpo.

Mas tomar merdas por causa de um desgosto amoroso? Quem sou eu para criticar alguém, mas eu na minha (in)sanidade mental, quando estou mais em baixo, vingo-me em duas coisas: doces e salgados. E milagre dos milagres cada pedaço de chocolate ou cada fatia de queijo que se derreta na minha boca faz com que eu fique um bocadinho melhor. E quando estou em fase de exames, o senhor stress ronda sobre mim, e é combatido por um maço de cigarros que rapidamente é metido na gaveta até aos próximo exame. 

Uma vez, numa saída entre raparigas, tentamos ajudar uma colega nossa porque ela tinha acabado com o namorado naquela tarde. Para a ajudar, abriu-se uma garrafinha de vodka cujo líquido foi distribuído irmãmente entre as quatro. Chegou-se à conclusão que o nosso estado emocional influencia o nosso nível de alcoolemia, uma vez que a nossa amiga, que sempre teve fama de esponja, acabou por ficar numa espécie de estupor comatoso, que lhe valeu um valente galo na  testa com a queda que deu ao sair do carro, cabelo vomitado e uns beliscões nas axilas para ver se ela reagia a estímulos dolorosos (Escala Coma de Glasgow Rula!). Seis horas depois a moça acordou mais fresca que uma alface (qual gurosan qual quê?) enquanto nós acordamos com cara de aziadas com a péssima noite que passamos.

E pronto, na minha perspectiva parva, a melhor solução para um desgosto amoroso resume-se a uma tablete de chocolate, a uma barra de queijo e tostas, a um bom vinho frutado e a uns cigarros. E em bloquear a pessoa das redes sociais. E em apagar foto por foto todas aquelas que o estupor mostra os dentes. E já agora a um bom grupo de amigos parvos que nos arrastem para todos os bares da cidade e que saibam dar um par de estalos quando ficamos mais tristes. 

E para dormir bem, o segredo está no copo de leite com mel e canela. E consciência limpa já agora.

E RIR. RIR MUITO. RIR ATÉ DOER A BARRIGA E A MANDÍBULA. RIR ATÉ CHORAR. RIR ATÉ À ÁGUA QUE ESTAMOS A BEBER  (ou coca-cola, ou cerveja, ou etc) SAIA PELO NARIZ.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Querido Pai

Hoje assim do nada recordei-me das  tuas lições de mineralogia, geologia e história até.
Nasceste numa zona onde durante a Segunda Guerra Mundial, centenas senão milhares de pessoas trabalhavam nas minas de Volfrâmio. Segundo as tuas explicações e as do avô, aquela zona estava a ser explorada por alemães e ingleses. O avô trabalhou como guarda das minas dos alemães. A avó trabalhava nas minas dos ingleses a carregar cestas de volfrâmio à cabeça pelo monte acima e abaixo até juntarem tudo e ser posteriormente levado para onde faziam máquinas bélicas. No fundo, os dois trabalhavam e dormiam com o inimigo.
E apesar de já terem passado cerca de 70 anos, acho uma certa piada e fascinação até, ao saber que milhares dessas pessoas trabalhavam em condições péssimas para juntar meia dúzia de escudos a esburacar e a escarafunchar montanhas, a garimpar riachos e a transportar minério à cabeça ou a conduzir animais sem realmente saberem qual a verdadeira função daquele ouro negro. A guerra que atingia mais precisamente a Europa Central ainda era pouca divulgada na aldeia. Na vila. No país inteiro.
Morria-se nas minas em derrocadas, morria-se com uma bala no peito quando contrabandeavam. Muitos morreram anos depois de silicose e tuberculosos. Não havia higiene e segurança no trabalho, não havia capacetes, nem iluminação nem máscaras nem luvas. O avô, homem pouco culto mas fino como um rato aliou-se à companhia alemã porque pagavam mais. E como guarda, era facilmente subornado por colegas para fechar os olhos quando queriam trazer uns kilos nos bolsos para venderem posteriormente no mercado negro. Mas como o avô dizia, ele sobreviveu porque graças à sua astúcia conseguia dormir numa cama quente. Os outros dormiam nas minas, sujeitos ao clima agreste das montanhas e rapidamente pereceram.

Graças a essa febre do ouro negro, uma espécie de cidade foi construída no vale da montanha. Subindo a encosta a pé, num trilho já há muito esquecido, são 2km sensivelmente da freguesia. De carro são 30 minutos por estradas estreitas. Quando a visitei pela primeira vez há muitos anos, o avô foi connosco. E ele explicou-me detalhadamente onde era o quê.  Havia ruínas de uma escola, de uma capela em honra a Santa Barbara (padroeira dos mineiros), de um tasco, de uma espécie de hospital de campanha, de uma pensão até. As ruínas aparentavam ser de casas muito bonitas e mais acolhedoras do que a velha casa de xisto negro em que o avô vivia na freguesia 2km mais acima. Na rua em péssimo estado brincavam três miúdos com cabelos muito loiros, quase albinos. O avô percebeu o meu olhar aparvalhado e comentou-me que aquilo era fruto da semente germânica.

Muitos anos se passaram e voltei lá. A aldeia estava ainda mais deserta, os vestígios de onde foram casas eram cada vez menores. Pedras, vidros partidos e lixeira. Nunca fui a uma favela no Brasil, mas associei aquele lugar a uma favela/cidade fantasma.  Ainda existia um tasco onde me recordei que cerca de 12 anos antes o meu avô cumprimentou efusivamente os donos. Afinal, apesar de viverem num raio de 2km, já não se viam desde a década de 50. A velha, quando me entregou o sumol de laranja, olhou para mim a perguntar o que raio fazia eu naquele lugar. Sem meias medidas expliquei que era a neta do C. do C. que ela reconheceu automaticamente. Perguntou-me que era feito dele. E do filho que fez o exame da 4ª classe naquela escola porque era muito maior que a da freguesia. Expliquei-lhe que ambos morreram. Assim como a minha avó. A velha sem meias medidas disse "Que Deus conserve as suas almas. Mas que o seu avô era um putanheirozinho lá isso era". E porque é que o avô tinha essa fama e tirava proveito? Porque foi dos poucos homens que sobreviveu até aos 80 anos. E como tal ia consolando as viúvas, que tinham enviuvado aos 30- 40 anos.
O avô contava que muita gente ganhou dinheiro. Gastaram em vinho do Porto, em putas e em jantaradas nos hoteis do Porto. Nunca pensaram que um dia a guerra iria acabar. Porque um dia a guerra acabou, o volfrâmio perdeu todo o valor que tinha, a espécie de cidade mineira ficou abandonada a salteadores e à mercê da natureza, e aqueles que não juntaram dinheiro porque não tiveram cabeça para economizar acabaram por na década de 60 darem o salto para França.

E assim do nada recordo-me das vezes que visitamos as minas alemãs, pai. Lembro-me de ver fachadas de casas que antes eram escritórios e armazéns. Lembro-me que no cume de uma montanha, estava a estátua de um santo qualquer que o patrão alemão venerava. Recordo-me de me mostrares pedras com volfrâmio, pirite e estanho. Explicaste-me a como distinguir o volfrâmio do alcatrão ou de rochas com impurezas negras. Numa das minas que entramos, retiraste um pedaço de quartzo hialino muito pontiagudo. Lindo como se um cristal precioso se tratasse.
E nas minhas aulas de geologia, eu sentia-me em segurança porque basicamente eu adorava calhaus. Conhecia bem o granito, o basalto, o xisto, típico da tua aldeia. Tudo graças aos teus ensinamentos e aos do avô.

                                                                       (retirada da net)

PS. um dia tentei voltar às minas. Tive que desistir. As giestas que antes estavam perto do caminho ocuparam a estrada toda como de dragões se tratassem. Tenho pena mesmo. Muita pena.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quem tem um amigo tem tudo

Tenho amigos que são meus amigos há anos e que os deixei de os ver;
E amigos que conheci há poucos dias e de mansinho passaram a ser meus amigos;
Tenho amigos que vejo poucas vezes por ano, mas graças às redes sociais temos conversas longas como se estivéssemos no café;
Tenho amigos que deixaram de ser amigos pelas atitudes mais estúpidas. Há amigos a quem sou capaz de perdoar tudo. Outros que a mínima falha me tornam fria e distante. E a amizade não volta a ser como antes.

Tenho amigos que no início odiei mas que a pouco e pouco me foram conquistando. Outros que eu pensei que eram bons amigos e afinal não passavam de colegas apenas.

Tenho amigos a quem sei que posso procurar conforto. E amigos que sabem que podem procurar conforto em mim.

E esta noite ri e chorei de rir com um grupo deles à mesa. Contamos piadas, histórias divertidas, discutiu-se futebol e religião e até amores também. Fez-se barulho, bateu-se com a mão no tampo da mesa, bebeu-se vinho e a comida desapareceu toda.


Quem tem saúde tem tudo. Quem tem um punhado de bons amigos tem muito mais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Daqueles indivíduos que parecem que têm sete vidas

Homem, na casa dos 60-70 anos foi admitido no serviço de cirurgia para ser submetido a uma colescistectomia. O professor pediu-nos para que fizéssemos a admissão ao paciente com tudo a que ele tem direito: entrevista e exame físico.

Bem, não me vou  dar como é óbvio a grandes pormenores. Mas para mim este sujeito é o rei das maleitas. E um rei a escapar à morte. Senão vejamos:
- Foi piloto da força aérea na década de 70 e enquanto pilotava o seu F qualquer coisa sofre um acidente. Resultado: um pulso partido apenas.
- Cancro de língua (com radioterapia), extracção dos dentes e desaparecimento das glândulas salivares.
- Tumor nas adenoides;
- Cancro de tiróide
- Quatro enfartes de miocárdio, com direito a colocação de stents;
- Hipertrofia prostática
- Pancreatite que culminou numa peritonite (Resultado 3 dias em coma, 2 meses hospitalizado)
- Obstrução intestinal


Para não dizer que ele é hipertenso e diabético.

E quando ele relatava a sua história, todos nós ficamos completamente aparvalhados. Quem olhasse para ele, via nele um homem comum como qualquer outro homem. Um homem com uma postura descontraída, com alguns cabelos brancos, óculos e jornal na mão. Nunca um individuo que parece que teve alguns dos problemas de saúde mais letais.

Lembrei-me logo daquela anedota (sem piada nenhuma) do miúdo tetraplégico, todo penteado, que lança piropos na rua. E que uma mulher muito ofendida diz-lhe para parar de lançar piropos porque Deus podia castiga-lo. Ao que o miúdo lhe diz :"como? só se me despentear!"

Na mesma noite sonhei com o senhor. Sonhei que ele estava num avião e que o avião se despenhava. Ele sai ileso e ainda tem o cuidado de sacudir o pó da roupa. Impecável....


PS. E neste Natal, quando a minha tia desbobinar à mesa a quantidade de cirurgias que fez e da quantidade de médicos, naturopatas e fisioterapeutas que visitou, vou-lhe fazer ver que uma merdinha de cirurgia ao túnel carpal é coisa de meninas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Agosto de 2013

Alima passeia com a S. pela avenida.
Tia da Alima encontra a Alima e conhece a S.

Alima reecontra a tia dias mais tarde. Tia da Alima pergunta-lhe:
-Oh Alima, aquela tua amiga tem tatuagens e piercings... Ela não anda metida na droga por acaso?
- Nada disso titia... Ela anda metida num doutoramento. Na Alemanha. Na área da na-no-te-cno-lo-gia.
Coisa que o seu filhinho vestido de Gant e Sacoor nem sabe o que é.



 Corpo de adulta, mente de canalha...

OkOk eu não falei do filhinho....

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Querida M.

Hoje celebra-se o dia dos Finados.

Antes de mais deixa-me dizer-te que este dia só começou realmente a ter significado desde que a minha avó paterna faleceu. Até então eu ia ao cemitério com a minha mãe para dar um arranjo à campa do meu avô materno só porque sim. Mas nunca no dia dos Finados. 

Por falar em mortos, sabes bem que tenho um grande respeito por eles. No entanto, nunca fui de grandes sofrimentos e de esgares de nojo ou pena quando via cadáveres. (Ok, já fiquei um bocado mal dispostinha numa aula de anatomia patológica quando o professor ao abrir um corpo e foi libertado um odor extremamente desagradável típico da decomposição do cadáver). Corpo é corpo e está ali. Mas a alma, a alma que não a podemos ver mas podemos sentir, essa sim, tenho um enorme respeito.


No final do Verão quando fui passar um fim de semana à praia da Tocha, estava eu com os meus amigos a jantar e na risota, quando a avó do dono da casa, aproximou-se de mim assim do nada. A minha amiga e o neto tinham-me dito que a velhota era assim um bocadinho para o mística. E erradamente associei ao um bocadinho bruxa.
O pessoal parou todo com o ruído e começou a observar-nos.
A senhora pousou as mãos no meu rosto e observou-me atentamente. Assim do nada, enquanto ela olhava-me fixamente ela disse-me numa voz muito calma de que eu tinha uma espécie de aura de uma cor muito florescente. De que eu tinha uma capacidade fora do normal de obter tudo que eu desejava. De que sentia que eu era protegida por espíritos muito bons e que faziam com que eu transmitisse uma espécie de boas vibrações.
Eu sorri para ela. Não sabia o que lhe dizer. Senti-me encavacada. 

Então ela, enquanto tinha as mãos pousadas no meu rosto disse-me que nos meus olhos transbordavam uma tristeza por perdas de pessoas muito próximas a mim. E o que ela disse depois, deixou-me completamente arrepiada: "Avisa a família dos teus parentes que se mataram para pararem de gastar dinheiro em bruxas. Eles só vão poder comunicar com os vivos na data em que eles deveriam realmente morrer. Até lá estão a sofrer porque ainda estão neste mundo mas não conseguem comunicar com ninguém." E automaticamente pensei naqueles primos dos meu pai que se mataram e que sei que alem dos familiares andarem a gastar dinheiro em advogados, andam também a gastar em bruxas. Como em tom de brincadeira disse a minha irmã: suicídio deve ser doença de família na família. 


Seja como for, o A. no dia seguinte, enquanto estávamos a trabalhar para o bronze, disse-me que a sua avó lhe tinha dito que estava a contar que eu lhe pedisse para fazer uma espécie de chamadinha para o Além. Eu sorri e neguei com a cabeça. Não, não tinha qualquer intenção de fazer tal chamada. Quando quero falar com os mortos, eu rezo a eles, eu sonho com eles, eu penso neles. Às vezes sinto a presença deles o que não me assusta.  Durante meses evitei locais com velas aromáticas porque volta e meia sentia o cheiro à capela mortuária onde velei o meu pai, mesmo eu sabendo que naquele local era impossível sentir aquele determinado cheiro. Talvez fosse a forma dele se comunicar comigo. Gosto de pensar dessa maneira, pelo menos.

E portanto, não me sentia tentada a fazer essa chamada para o Além. Iria perguntar o que? Iriam dizer-me o que? Que estão bem? Que estão mal? Que sentem saudades nossas como nós sentimos deles? Prefiro não saber... Às vezes as pessoas mais ignorantes são as mais felizes. Prefiro viver na ignorância nesse assunto do que saber uma resposta que me deixe eternamente triste. Já vi dezenas de pessoas a morrer: umas morrem com um sorriso nos lábios como se estivessem em paz, outras fazem esgares de horror e de sofrimento minutos antes de partir. E gosto de pensar que aqueles que morreram tenham a capacidade de nos porem a mão no ombro e de uma forma ou outra nos dizerem sem palavras. Ei, tem calma... tudo vai dar certo...estou aqui para te proteger. 


E pronto, qual é a minha opinião sobre o Dia de Todos os Santos? É aquele dia em que dias antes o preço das flores inflaciona e em que o cemitério é uma feira de vaidades: os mais ricos põem flores mais caras, os mais pobres flores mais baratas e os mais pobres de espírito deixam fiado na florista para comprarem flores caras. 
É aquele dia em que se olha para a campa de família do vizinho e se vê que só é ornamentada naquele dia. Ou então que lamentamos porque aquela campa não foi ornamentada porque ninguém a foi visitar.
É aquele dia em que as gentes do Minho (pelo menos) vestem as suas melhores indumentarias para serem exibidas no cemitério, aquele dia em que encontramos aquelas pessoas que só vemos em ocasiões festivas.
É aquele dia em que encho com alguns euros as caixas de lata dos escuteiros  que ficam à porta do cemitério para peditórios para a Liga Portuguesa contra o Cancro e em que fico a matutar nas centenas de pessoas que repousam por causa daquele mal no outro lado do portão. 
É aquele dia em que anoitece depressa, faz frio, quase sempre chove em que se fica sentada à lareira a comer castanhas como se não houvesse amanhã e a contar os dias que falta para a próxima festividade: o Natal. 
É aquele dia em que se acorda ressacada depois de uma noitada na discoteca para celebrar o Halloween.
É aquele dia em que uma lágrima teimosa cai sempre quando se pensa naquela pessoa que amamos já partiu. E naquele que pensamos que será o próximo.