terça-feira, 29 de outubro de 2013

Das músicas...

Daquele tempo muito remoto em que se comprava CDs e em que me eram oferecidos quando eu tirava Excelente nos testes, guardo algumas memórias um tanto curiosas.

Recordo-me que cresci a ouvir pop rock dos anos 70 e 80 e alguns cantores brasileiros uma vez que a única altura em que basicamente ouvia música era no carro. E claro, nesse tempo que mandava no rádio era o meu pai.
Então adolescente parva que era, assim que tirava um excelente num teste, no fim de semana seguinte arrastava os meus pais à  Valentim de Carvalho ou ao Hipermercado mais próximo (sim, porque Fnac é uma coisa tãaaao 2000 e tal) para que me comprassem aquele cd daquela banda que aparecia nas revistas Super Pop e Bravo.

Acontece que num Natal os meus pais ofereceram-me o cd do Roberto Carlos. Que seria o meu cd e o cd deles já agora. E quando abri tal prenda perante o olhar atento dos meus primos, fui altamente gozada por terem uns pais brega que me queriam tornar brega e antiquada. E a mesma coisa se passou quando dias depois contei às minhas amigas sobre a minha prenda de Natal. Ah e tal, tens de ouvir Britney Spears e BackStreetBoys e não Roberto Carlos, disseram-me.

Confesso que Roberto Carlos foi indubitavelmente um dos cantores que acompanhou a minha infância. Há letras de músicas que as sei de cor não por gostar delas mas porque numa idade mais pequena, como é normal  nas crianças, tive a capacidade de assimilar tudo. E quem diz Roberto Carlos diz Carlos Paião ou José Cid. Ou então Elton John, Queen, Rolling Stones, Simon and Garfunkel. Algumas bandas/canções deixei de ouvir, outras ainda as oiço. E acho fantástico quando me perco pelo youtube, ligo uma música daquelas que há mais de vinte anos que não ouvia e ainda sei a letra de cor.

E este texto está a ser escrito porque esta manhã quando estava na cozinha com um companheiro de casa, ele ligou no youtube uma música que ele tinha descoberto graças a uma novela e que era fantástica. Disse-me que no Brasil ainda se faziam boas músicas. E quando ele a ligou, para espanto dele e meu, comecei a cantá-la como se a ouvisse todos os dias. A música era interpretada por Lulu Santos. Intitula-se as "Curvas da Estrada de Santos". Original do Roberto Carlos. Aquele que quem ouvisse fazia da pessoa brega.


As dezenas de Cds que coleccionei graças aos meus Excelentes estão parados numa prateleira algures. Mas os clássicos velhinhos, volta e meia são levados para o carro para serem usados. E porque? Porque grandes canções duram para sempre.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Porque acho que vou para o Inferno...

Vivo com quatro muçulmanos que gosto muito muito muito. O texto que vai a seguir regista algumas das particularidades deles pelas quais eu tenho uma espécie de ódio de estimação. E afirmo e reafirmo que sou muito tolerante. Às vezes até acho que demais.

- Os muçulmanos não me deixam meter nada no frigorífico que contenha carne de porco.
- Os muçulmanos só deixam eu beber álcool se eu utilizar os meus copos (e mesmo assim fazem má cara quando uma garrafinha é consumida)
- Os muçulmanos fazem uma dieta quase quase vegetariana, porque só podem comer carne Hallal (que na cidade onde estudamos não existe e só podem comprar carne Hallal a... 350km daqui)! Ou seja, fazem má cara quando eu como chicha  não Hallal. E se tiverem uma deficiência de vitamina B12 foi porque Alá assim o quis.
- Os muçulmanos podem até estar a morrer de dores de estômago, mas são capazes de recusar uma canja só porque pus knorr de galinha não Hallal (Knorr de galinha Hallal existe?)
Os muçulmanos fazem as suas orações várias vezes ao dia, não importa se acordam meio prédio durante a noite ao andar de sapatos pelo corredor e a abrir e a fechar portas.
- Os muçulmanos com quem vivo, nasceram e cresceram na Europa, seus pais são de origem Iraniana e Paquistanesa e conseguem ser mais fanáticos do que muitos dos nossos colegas que são realmente originários desses países.
- Os muçulmanos com quem vivo dizem que eu sou uma leviana quando digo que Religião não impõe regras. O que impõe é a religiosidade das pessoas com a mania de impor regras. E é a religiosidade que a meu ver lixa tudo o que há de melhor numa religião.
- Para eles, a religião Islâmica é a melhor de todas. Mesmo não sabendo nada de nada sobre as outras. E o pior de tudo é que muitas vezes não sabem como defender a sua ideia. Mas as suas ideias são as melhores, porque foram ensinadas pelos seus pais cujos seus pais as transmitiram também. As mulheres na Arábia Saudita não podem conduzir? A homossexualidade é pecado? Está no Corão!!!
- Os meus amigos muçulmanos dizem que eu deveria abraçar a religião deles. Que não há nada melhor que casar-se com um muçulmano. Mas fazem ar de horror quando lhes repito e repito aquilo que um cardeal português disse "Casar com muçulmano dá má sorte todo o ano".
- Os muçulmanos lêem e voltam a ler os ingredientes de qualquer coisa que compram. Pelos vistos há croissants de chocolate que contêm álcool. E o puré congelado de castanhas que se vende no supermercado contém Brandy. E sempre que se vai a um restaurante fazem questão de perguntar se saltearam os legumes ou temperaram o peixe com álcool. E tudo porque o consumo de álcool é proibido. Mesmo na porra do puré de castanhas.
- Os meus amigos muçulmanos são amigos de todos os muçulmanos da faculdade, dão likes em tudo que tenha a ver com Alá. As fotos das meninas no perfil do facebook são personagens da Disney ou fotos do tempo em que eram bebés.


Os muçulmanos que vivem comigo convidaram-me para uma viagem no fim de semana passado. Eles são preguiçosos para preparar uma merenda que seja e gostam imenso de cravar a merenda dos outros.
O que é que a Alima vai de levou de merenda? Umas sandes com tomate, alface, queijo... e (uma coisa que não aprecio muito mas lá tive de fazer o sacrifício) fiambre! Conclusão: passaram larica.

E se continuarem a lixar-me o juízo, a próxima mousse de chocolate que eu meter no frigorífico (e que rapidamente desaparece antes de eu sequer a ter provado), vai conter Brandy!!!

E sim, meus amigos, aqueles brigadeiros lindos e saborosos que vocês enfardaram em poucos minutos continha licor. Esse era o segredo da receita que não vos contei. E vocês enfardaram como se fosse a sobremesa dos deuses. Estúpidos. 


Ok. Vou parar ao Inferno.


Aliás, segundo eles, como consumidora de álcool, porco e especialmente infiel já tenho o lugar garantido.

domingo, 13 de outubro de 2013

Querido Pai

...custa-me tanto pensar que tu estivesses aqui a nossa vida seria tão diferente. Talvez não estaria a fazer o que estou a fazer hoje, talvez não consentisses o meu espírito aventureiro. Como pai galinha que sempre foste, dizias que davas a chance de que eu e a mana voássemos mas não sei até que ponto não estarias sempre por perto com a tua asa sempre protectora. Quando me ensinaste a andar de bicicleta disseste que iria cair muitas vezes nela, mesmo depois de ser perita. Mas que o segredo é levantar, sacudir poeira e não desatar a chorar com as primeiras tentativas. Puseste até duas rodas laterais de apoio mas a pouco e pouco foste pondo-as de maneira a que nem tocassem no chão.

Mas a vida encarrega-se de mudar as coisas. Dizias que estarias reformado lá para os 55 anos. E que assim que te reformasses e sabendo que não eras homem de ficar por casa, irias passar a semana na aldeia nas tuas bricolages e a trabalhar na horta e só voltarias a casa ao fim-de-semana. Ou então irias restaurar o teu Renault 12 na garagem. Mas que as tuas quintas feiras e domingos iriam ser passados na caça. Mas isso nunca chegou a acontecer. Tantos sonhos em vão. Puta de vida. Puta de vida mesmo.

Sinto a tua falta. Sempre.

Alima

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Querida mãe

Apesar de não morrer de amores pela área da Cirurgia, acho que tenho o melhor professor do mundo.

Quarta feira, 09h da matina, serviço de cirurgia do Hospital Universitário.
Entra para internamento uma mulher nos seus 40 anos, com dores abdominais (hipocondrio direito) e episódios de vómitos. Na anamnese ela refere que tinha uma dieta à base salsichas (sim, ela era economicamente desfavorecida), que fumava como uma chaminé (2maços por dia)

O professor chama-nos ao gabinete, senta-se no seu cadeirão enquanto nós, quatro marmanjos e marmanjas ficamos especados de pé com o nosso caderno e caneta em riste.

- O que acham que pode ser? Caso cirúrgico ou caso para dar alta?

E pronto, cada um deu o seu ponto de vista. Ele questionava as nossas ideias, nós lá tentávamos defender a nossa causa. 
Sabíamos que ela é uma 4F (female, fourty, fertile e fat), o que pode ser sinal de "pedras na vesícula". E pelo que ela descreveu primeiro teve episódios de dor e só depois vómitos. Portanto, caso cirúrgico quase na certa.

Ao fim da aula chegou-se a tal consenso, com a limitada hipótese de poder ser ulcera duodenal (cuja endoscopia digestiva alta seria feita naquela tarde)

Gostei imenso da abordagem do professor. Obrigou-nos a reflectir e a usar as armas que temos para nos defender. Gostei do debate. Foi possível fazer relações com a patologia e farmacologia que ainda são cadeiras novas para nós. 

Praxis. Gosto disto. 

Alima



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Agosto de 2013- Praia com a mãe e irmã


Ligo a B.
B. não atende.
B. liga-me passado cinco minutos:
- Porra Alima, estava a trabalhar! Que queres?
- Só trabalhas B.!!! Sempre com a meter os dedos na boca de alguém!

Mãe pára de ler o jornal e diz:
- Então Alima? Isso são coisas que se diga à tua amiga????
- OHHH MÃAAAAAAAE! A B. é dentista!!!!

domingo, 6 de outubro de 2013

Querida mana,

Uma das vantagens de viver na Europa Central reside no facto do nível de vida ser um bocado mais acessível que no nosso país.
E quando no fim-de-semana passado, o meu velho amigo H. bateu à porta do meu carro para darmos um passeio, eu não pude dizer que não.
O nosso destino: Ucrânia. Trata-se de um país que não há muito tempo eu considerava, digamos, exótico demais para mim. O meu conhecimento sobre a Ucrânia quando vivia em Portugal resumia-se a saber a capital do país, alguns conhecimentos de geografia do país e claro, algumas noções sobre as gentes da Ucrânia que residem em Portugal.

Gosto imenso dos ucranianos. De uma maneira geral, são excelentes pessoas. Tenho a ideia de serem pessoas muito metódicas e trabalhadoras. E devido a essas qualidades, são pessoas que rapidamente adoptaram a cultura e a língua portuguesa como suas novas culturas (coisa que muitos imigrantes de outros países que já vivem há anos em Portugal mal português sabem falar). Recordo-me de no meu 10º ano ter participado nas Olimpíadas da Matemática no Liceu e quem ganhou o 1º prémio foi um rapaz ucraniano que nem uma calculadora levou para a prova. Seja como for, nutro um grande carinho por esse povo.

Passada a fronteira, depois de um bom dia  e obrigado em português por parte de um guarda da fronteira quando me entregou o passaporte, percorremos alguns kilometros até chegar à nossa cidade-destino.

Porque gosto tanto de viajar na Ucrânia? Lembras-te daquela vez em que nos fizemos à estrada no Gerês, andamos e andamos sem ver viva alma em Portugal e mal cruzamos a fronteira chegamos a uma vilazinha espanhola com uma piscina natural de água quente, cafés, restaurantes, multibanco e um supermercado Dia até? Lá está. Percorremos dezenas de km até chegar à Ucrânia com paisagens bonitas mas apenas isso. E mal cruzamos a fronteira estávamos numa cidade quase tão evoluída como aquela em que vivo.

Porque gosto da Ucrânia? Um país com um custo de vida muito baixo. Há notas que equivalem a 10 cêntimos. Quando me deu para contar o dinheiro daquele maço de notas que o H. me entregou para guardar, achei cómico porque aquele enorme maço valia 5 euros. Almoçamos num restaurante muito chique, com música de fundo, cascatas de água e essas criquices de ar de restaurante de luxo e acabei por pagar dois euros apenas. E nem vou comentar o preço que paguei por um casaco pele de coelho pelo qual fiquei perdidamente apaixonada...nem pelas garrafas de vodka. Nem pelo tabaco que se fuma em situações de stress. Nem pelo preço do combustível em que ainda se mete gasolina no carro por 1 euro o litro.

Porque gosto tanto da Ucrânia? Quase toda a gente fala inglês. Fluentemente. Eu e o H. arranhamos no russo (quer dizer eu arranho, ele é quase fluente!), mas claro há palavras que não sabemos mesmo. E as próprias pessoas lá nos respondiam em inglês com toda a naturalidade do mundo. Para não falar que são pessoas extremamente acolhedoras. E faziam um ar de espanto quando nos perguntavam qual era a nossa nacionalidade e de nós lá dizíamos que eu sou portuguesa e o H.  iraniano.

Porque gosto tanto da Ucrânia? Porque é uma mistura de culturas. Vivem lá Hungaros, Polacos, Russos, Eslovacos, Turcos, Judeus. E como tal ir ao supermercado é uma autentica aventura. Comprar Baklava do Irão, Lokum turco, romãs do Azerbeijão e sabonetes do Mar Negro é uma coisa normalíssima para eles mas para mim é exotismo puro e duro.

O que admiro na Ucrânia? Ao contrario da cidade onde vivo onde há muitos mendigos (coisa que detesto, porque tratam-se de romenos como todos os direitos e nenhum dever) não me apercebi de ninguém a pedir dinheiro na rua. Infelizmente vi alguns animais abandonados que me aperta sempre o coração.

O que não gosto quando vou à Ucrânia? As duas horas que se passa para cruzar a fronteira. Afinal de contas, o carro é praticamente revirado para evitar contrabando...

Aguarda pela minha chegada no Natal para veres as coisas que comprei para ti. Até lá vai rezando para que o H. me convide de novo antes de regressar a Portugal. :)

Um beijinho de muitas saudades,
Alima

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Agosto 2013

Conheci pessoas novas, algumas das quais começaram a fazer parte do meu circuito de amigos.
Um dia comentei algo sobre um desses meus novos amigos (neste caso um velho amigo que reapareceu na minha vida ao fim de quinze anos): o P.
A minha mãe, sem saber quem ele era realmente, pôs-se a perguntar o que eu sabia sobre ele: o que ele fazia da vida, onde ele estudara...
- Já agora, de onde ele é?- pergunta-me.
- Ele apesar de viver aqui perto, nasceu em Angola.- disse-lhe vagamente, mas com um retoquezinho de malvadez.

Ok. A minha mãe ficou um bocadinho desconfortável com a resposta. Apesar de saber que ela não é racista, nem longe que se pareça, sei que ela não veria com bons olhos o facto da filha namorar eventualmente com um negro. Porque este Verão a sua filha Alima andou com um P. angolano para cá e para lá.


Uns dias mais tarde, disse à mãe que iria sair. E que o P. angolano iria buscar-me a casa. Disse-lhe até que até era menina de apresentar-lhe o P. angolano. A mãe entrou em pânico. Oh, não vale a pena, filha..., disse-me ela.
E quando ele chegou, chamei a minha mãe. Ela apareceu no jardim. Ele permaneceu no carro.
-Mãe, este é o P. que nasceu em Angola!

A minha mãe lá se inclina para ver quem estava dentro do carro e vê o filho da amiga dela. Ele faz-lhe um sorriso com os dentes todos, e acena-lhe. Ele sabia o que tinha aprontado.
Depois de um breve suspiro sonoro, a mãe diz para mim tentado controlar o riso:
-Oh Alima, vai te lixar!