domingo, 22 de setembro de 2013

Querida L.

No início deste mês fui convidada para o baptizado do filho do C. e da S.. Bem, neste caso, como eles optaram por uma cerimónia muito íntima, fui convidada para o pica pica após o baptizado. E lá cheguei eu, tu, os teus pais, o teu padrinho A. como assim manda a regra.
Como deves saber, um tio avô do C. é nada mais nada menos que o padre da aldeia-natal da minha mãe. É também muito amigo da minha avó. Quando a minha avó vivia na casa dela, volta e meia o Sr. Padre ia fazer-lhe uma visitinha e acabava quase sempre para um cházinho e bolos. 

Uma vez que o vi, fiz questão de o evitar, não fosse ele eventualmente reconhecer-me (não fosse eu uma espécie de fotocópia do meu avô)
A coisa estava a correr tão bem até que a sobrinha do padre o traz pelo braço até ao sofá onde eu estava sentada com a malta.
- Oh tio, a família desta menina é paroquiana na sua freguesia...- diz a mãe do C.

Oh bolas, fui apanhada...

- Ai sim? É de que família?- pergunta-me o padre.
- Sou da família dos ....(nome que a família é conhecida)- respondo-lhe.
- Dos ....!? Mas eu sou muito amigo da sua família! E olhando bem para a menina, você é a cara chapada do seu avô que-Deus-o-tenha! É o nariz, é o cabelo aos caracóis, é a robustez... oh até o sorriso! Só não tem os olhos azuis típicos da família...

Sim, precisava mesmo de um padre para me dizer que de toda a família, sou eu a mais parecida... Espera aí... ele chamou-me robusta! 
E continuou...

- Sabe, eu até já faço parte da vossa história familiar. Já estou na paróquia há quase cinquenta anos. - diz ele todo vaidoso- Fui eu que fiz o casamento a todos os seus tios... E baptizei alguns dos filhos deles... E funerais? tantos...Olhe, até já fiz o funeral a um genro da sua avó...
- Pois, esse genro da minha avó é por acaso o meu pai...- disse-lhe.
- Oh, não me digas que és filha da M.!!! Foi minha aluna na telescola! Olha lá, ela já arranjou alguém?

OK! Parou tudo... Ele quer saber se a minha mãe é uma viúva alegre ou não!  Uma resposta vaga deve servir:

- Oh sr. Padre... Se ela tem ou não, não me diz respeito!
- Pois bem, pois bem... Sabe, a sua família foi uma grande benemérita da nossa igreja... O sino da nossa igreja  tem o repique mais bonito da região porque a família da menina deu muito ouro para fundir com o bronze. E olhe, quando os franceses invadiram o Minho, foi a sua família que escondeu tudo o que era de valioso na paróquia no jazigo de família e em paredes falsas. Contribuíram tanto que os seus não sei quantos avós tiveram direito a um retrato a óleo na sacristia...

E quando ele dizia isso em voz alta (o homem deve ser mouquinho da silva porque ele falava tão alto que parecia que estava a dar o sermão), as cabeças dos meus amigos que estavam comigo no sofá se viraram para mim. 

- Ena pah... está na altura de ires buscar alguma contribuição do espólio lá da igreja para mudares de carro, não oh Alima?- diz o teu pai em tom de brincadeira. Puxa, o teu pai tem razão...

Então o padre vira-se para o teu pai e diz-lhe a alto e bom som:
- Sabe, eu não concordo que aqueles quadros estejam na sacristia. Não foram grandes pessoas em vida. Eles fizeram a fortuna a traficar escravos. Eram negreiros...!

Ok... isto é uma afronta para a minha pessoa. Mexer nos esqueletos que temos no armário??? Fala no quão beneméritos os meus antepassados foram para depois cuspir a palavra negreiro?Já não é a primeira vez que ele diz isto! Pode ser impressão minha, mas mais cabeças estavam voltadas para o sofá onde eu estou... A palavra negreiros só é bonita se tiver Almada antes...  Mas, espera aí...

- Tem razão, sr Padre. O problema é que se tirassem todos os quadros de pessoas que não foram boas pessoas em vida das sacristias, acho que as paredes ficariam bem pobrezinhas... Por exemplo, se retirarmos os retratos de todo o clero que fez parte dos Autos de Fé ou Santa Inquisição... queimar inocentes, gatos pretos, possíveis bruxas e tal... ou melhor, aqueles membros do clero que negaram protecção às vítimas do Holocausto... Ou então...

E não pude acabar a frase... o teu padrinho puxou-me pelo braço para outro lado da casa. Beato e menino de coro como ele é (ou melhor, menino que lê na missa ao domingo) lá achava que estava a tentar salvar a minha alma. Fiz frente a um padre, caramba! O padre que já faz parte da família, como ele disse. Vou parar ao Inferno...

O teu padrinho merece uma coça. Adorava saber como é que o padre se ia defender!





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