domingo, 8 de setembro de 2013

Querida L.

Não temos qualquer relação de sangue, mas podes considerar-me como uma tia.
Não tenho sobrinhos  e estando a anos de luz de ter filhos, adoptei-te como minha sobrinha. Da última vez que te vi, consegui-te ensinar a fazer o hi-five e a fazer som quando mexes com o dedo na boca. 

Este mundo não está fácil para os adultos como eu e os teus pais. Oxalá que quando tiveres a minha idade as coisas estejam muito melhores. A palavra crise sai das bocas dos portugueses diariamente. Tem sido a culpa de todo o mal. Já não se culpa Deus por todo o desemprego e as carências a todos os níveis que acontecem no nosso país. Culpa-se a crise. 

Quando eu era criança pouco me tinha que preocupar com a palavra fome. Na minha imaginação a fome era uma coisa que só havia em África, porque de vez em quando lá surgia uma ou outra imagem na televisão. A Internet  nas nossas casas não existia (aliás só tive Internet em casa uns dois anos antes de ir para a universidade). Pouco ou nada sabia o que era a pobreza. Tive uma infância modesta, sem excessos nem carências. Não me faltava nada, mas também não tive tudo. Infelizmente os casos de miséria aumentaram muito... Terás que amadurecer mais depressa que eu...

Julgo que tive o primeiro contacto com a miséria, tinha eu sete anos. Fui visitar o meu avô ao hospital no Porto. Sei que estávamos na altura do Natal, porque lembro-me de ter um Pai Natal de chocolate. Estava eu e a minha mãe à porta do hospital quando um rapaz com os seus vinte e poucos anos mostrou um papel qualquer à minha mãe a dizer que tinha SIDA e que precisava de dinheiro para os tratamentos. A minha mãe deu-lhe alguns escudos. Eu dei-lhe metade do Pai Natal de chocolate, porque ele pôs-se a olhar fixamente para ele. Acho que terá sido a primeira vez que ouvi falar em SIDA. Isto em finais de 1994, tinha eu sete/oito anos.

Outra situação que me marcou também foi num sábado de manhã em que íamos para a aldeia. Mal tínhamos saído da autoestrada, começou a fazer-se uma fila de carros . O motivo: alguém tinha sido atropelado. Os condutores paravam, viam o que se passava e arrancavam de novo. O meu pai, boa alma e bom militar que foi, imediatamente parou o carro para tentar socorrer a vítima. O meu pai e mais duas/três pessoas. Lembro-me que a vítima era um rapaz também com uns seus vinte e poucos anos. Pela cor da pele, parecia cigano. Estava todo ensanguentado e inconsciente. Não me recordo todos os pormenores, mas recordo-me que veio a ambulância,  e algum tempo depois o meu pai entrou no carro, pôs o cinto de segurança e disse para a minha mãe: 
- Overdose. Pelos vistos ia tão grogue que atravessou a estrada e...
- Esta juventude com os excessos não sabe onde vai parar- disse a minha mãe

Então o meu pai, virou-se para mim e para a minha irmã (que na altura eu deveria ter também uns oito anos porque me recordo que a minha irmã que é cinco anos mais nova que eu ainda estava numa cadeirinha) e disse:
- Vocês as duas, antes de fumarem ou de meterem para a veia o quer que seja, lembrem-se sempre deste rapaz, estamos de acordo!?

Seja como for, a primeira (e única vez) que pus um charro na boca, lembrei-me daquele rapaz. Um flash da minha memória voltou de novo àquele sábado de manhã. Senti logo repulsa por aquilo que me tinham passado para a mão.
Sabes L., eu sou apologista que para não cometermos erros devemos acima de tudo aprender primeiro com as consequências dos outros. É tudo muito bonito chegarmos à escola e ouvirmos falar em drogas e no mal que elas fazem, mas tudo não passa de histórias tristes na nossa cabeça. 

O mesmo digo de certas doenças, e vamos por exemplo falar no HIV. Eu admito que eu só aprendi realmente as consequências destes dois problemas em estágios que fiz. Eu e a tua mãe fizemos juntas um estágio em Psiquiatria. E ambas senti-mo-nos de mãos atadas quando encontramos dois diferentes colegas do tempo de liceu numa ala de agudos de psiquiatria. Por consequência das drogas estavam ambos com esquizofrenia. O rapaz que eu conhecia (e que toda a gente o achava o mais bonito da EB2/3) além de esquizofrenia tinha também HIV. E quando comecei a conversar com ele sobre se ele se lembrava das raparigas com quem tinha namoriscado e que lhe enviavam cartas de amor no dia dos Namorados, ele pôs-se a falar nos planetas. No Deus. Na complexidade que era o Universo. Que tinha sido raptado por um ovni. Pôs-se a falar nos pássaros e nas borboletas. Não, não era o velho A. que eu conhecia que arrancava tantos suspiros às raparigas tontas da escola como aquele loiro da boysband. E temi pela saúde daquelas que chegaram a vias de facto com ele.

Para aprenderes bem o flagelo das drogas e destas doenças terríveis que poderiam ter sido facilmente evitadas, sugiro-te querida L. que faças uma visita de estudo e que possas contactar com estas pessoas. Terás uma imensa pena por elas. As suas ideias estão distorcidas. Tomam dezenas de medicamentos por dia... Mas acho que aprenderás com os erros delas.  Tal como eu aprendi com aquele rapaz a quem dei o meu chocolate e aquele que vi estendido no meio da estrada com uma overdose...  E isso agradeço aos meus pais: eles nunca me esconderam nada sobre as desgraças da vida. Obrigaram-me a olhar para aqueles dois seres humanos e fizeram deles mote de lição. Ensinaram-me desde logo a conviver com a morte.  E tu, L., aprende. Aprende muito. Evita errares. E aprende principalmente com as desgraças dos outros. Não estás nunca imune a elas.

Um beijo do tamanho do Mundo,
A tua tia,
Alima



1 impressões:

Lia disse...

Eu também aprendi muito acerca de drogas, sem nunca as ter experimentado... E se é muito bonito dizer "nunca digas nunca", no assunto drogas não hesito: nunca lhes hei-de tocar.

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