quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Querida F.

Assim do nada recordei uma personagem da minha infância que faleceu tinha eu 10 anos.
Era irmão da minha avó paterna. Não sei o nome dele, mas sempre o conheci pelo o tio da Esperança (não é Esperança, é outro nome muito parecido que é o nome da aldeia onde ele vivia).
Lembro-me de me dizerem que ele se tinha casado com a mulher mais rica da zona (que tinha 1kilo em ouro, vejam só!), mas como ela era muito mais velha que ele, ele seria mais o enfermeiro dela que propriamente marido. Não tiveram filhos. E como ela não tinha mais família, os irmãos dele (inclusivé a minha avó, claro) puseram o casal como padrinhos de pelo menos um dos filhos. Portanto, aquele casal foi o padrinho de baptismo do meu pai. E como a miséria antes do meu avô dar o salto para França era tanta, a minha tia T. foi criada na casa dos tios da Esperança. Foi criada no sentido de ser educada e um tanto criada de empregada dos tios até atingir a maioridade. E quem diz a minha tia, diz um e outro sobrinho que também lá viveu.

Seja como for o meu pai gostava imenso dos padrinhos. E sempre que íamos visitar os meus avós a aldeia, íamos sempre dar um saltinho para os visitar.

A ideia que eu tinha da madrinha do meu pai: uma velha de olhos esbugalhados, pálida como a cal e toda curvada que tremelicava das mãos. Acho que ela tinha uma espécie de barba também. E lembro-me dela sempre sentada na cozinha em madeira. Parecia a bruxa da branca de neve. E tratava o meu pai como "o meu picheno".
O tio, visivelmente mais novo, era um tipo alegre. Sempre a rir-se. Sempre que lá íamos oferecia uma travessa ou um prato antigo ou um pote de ferro à minha mãe porque sabia da paixão que ela tinha (e tem) por antiguidades.

Seja como for, a velhota faleceu. E passado três meses dela quinar, o tio da Esperança perguntou aos meus pais o que achavam se ele se casasse de novo. Os meus pais não disseram que concordavam nem que discordavam. E no mês seguinte ele casou-se com uma mulher muito mais nova que ele. E perfilhou-lhe a filha da mulher. E claro, aí a família ficou um tanto zangada com ele pelo facto de ele não ter pensado nos sobrinhos e de dar tudo a uma estranha que tinha conhecido semanas antes.
O meu pai nunca mais o visitou pelo facto do velhote ter sido egoísta com os sobrinhos e principalmente pelo facto daquela casa ter uma nova patroa.
A nova esposa nova começou a obriga-lo a cultivar campos e a ter rebanho. E passado 10 meses após o casamento, o tio da Esperança que até então tinha uma saúde de ferro, foi encontrado morto num campo enquanto sachava.

Anos mais tarde fui tomar café na Esperança. Enquanto tomava café, assim como não quer a coisa perguntei o que foi feito da viúva do tio do meu pai. Sabia que mal o velhote morrera, ela pôs a casa e os terrenos à venda. O dono do café aproximou-se perto do meu ouvido e sussurrou que ela se mudara para uma aldeia vizinha. Que depois do tio já se tinha casado mais duas vezes com dois velhotes. Ela dá-lhes o Viagra, sabe menina? É o Viagra que os mata!

E desde então sempre que penso naquela mulher associo às viúvas negras...






1 impressões:

capitão disse...

Alima: Se ela cumprir! Morrem felizes!

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