segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Cartas a todas as Cosettes redigida por uma Éponine

Sinceramente eu nem deveria estar a dar-me ao trabalho em escrever-vos. Mas é mais uma forma para afirmar que estou com vocês até aos cabelos. Vocês na perspectiva masculina são umas fracas e sensíveis meninas cheias de uis e de ais, umas meninas que precisam de ser protegidas de todos os males quando vocês mesmas podem ser as principais transmissoras desses mesmos males.

A coisa ficaria bem se não andassem a estragar a vida a tantas Éponines que andam por aí.
Passo a explicar:
Homens que valem realmente a pena ter uma relação são poucos. Muito poucos. Esses homens têm bom coração, são altruístas, simpáticos, com dom de palavra e cultos.
O que acontece? Há sempre uma porra de uma Cosette com quem se embeiçam. As Éponines são as melhores amigas e confidentes. São uma espécie de irmazinhas queridas com quem nunca teriam uma relação sentimental. Mas admitem que as suas queridas Éponines são o seu maior porto de abrigo que jamais podem abandonar. Elas demonstram valentia e sabedoria, coisa que muitos Marius às vezes não têm. São também assexuadas. Os Marius até tremem só de pensar que a amiga Éponine até deu mais trela aos amigos do que ao próprio Márius.

A Cosette que estou a pensar no momento em que escrevo esta carta não passa de uma simplória com pouco mais que o 9º ano. Lá porque tem um corpo bonitinho acha que consegue conquistar todos os Marius da nação. E só porque tem alguns dramas familiares acha que estão no direito de ter uns fanicos. E o Marius que eu cá sei, qual cavalheiro, acha-se no dever de a proteger de todos os vilões. Paga-lhe cafés, jantares e viagens. Paga-lhe até consultas médicas e naturopatas. Vai com ela para o shopping e a Cosette com o 9º ano mal feito mas que de burra tem pouco, aproveita-se do bom coração e da boa carteira do Marius e sabe como pedir uma mala de senhora de 300 euros e um smartphone topo de gama. Depois o Marius acha-se no direito de se reaproximar mais e mais da Cosette e o que ela faz? Faz-se de difícil. De que não quer neste momento nenhuma relação. E em vez de lhe agradecer a bondade do pobre Marius ainda o ataca por causa dos defeitos que ele tem. Sim, todos os Marius também têm defeitos. E para piorar as coisas, alem de realçar que não quer nenhuma relação com o Marius, mete-se com outros homens assim à cara podre mesmo em frente ao pobre Marius.
E como quer manter preso o Marius o que faz? Faz piadinhas e graçolas sobre um possível casamento entre eles, alimentando a esperança do pobre. E pior: põe a irmã mais velha a ter uma conversa com o Marius sobre quais as perspectivas de futuro, sobre como é o casamento dos pais dele, de quantos filhos e quando os quer ter. Pergunta-lhe até como é a conta bancária.


E estas merdas todas fica a Éponine a saber numa esplanada à noite com vistas para a cidade. Porque o pobre Márius liga-lhe a dizer que precisava de conversar com alguém porque sente-se injustiçado com tamanha indiferença por parte da doce Cosette.
A Éponine desmarca com os amigos ir ter só como Marius. E depois do Márius contar-lhe a história, do há quantas noites não dorme à conta da paravolhona da Cosette, a Éponine fica boquiaberta. Ainda lhe diz: Não vês que ela está a usar-te? És burro ou fazes-te? Tens 30 anos, não 13 para andares nestas merdas! mas acaba por ouvir uma resposta que ainda a magoa mais do que a impossibilidade de fazer alguma coisa por ele: Mas eu gosto imenso dela...
E depois a Eponine ainda tenta mudar de tópico sobre outras coisas mais triviais, mas o assunto Cosette volta à baila uma e outra vez, quando o pobre Márius se queixa das arritmias que ela lhe tem causado.

E pronto, a Éponine ainda tenta explicar-lhe como funciona a mente de uma mulher mas a meio da conversa pensa que talvez o parvo do Marius esteja realmente perfeito para a Cosette. E quando pela milésima vez o Márius pergunta à Eponine o que deveria fazer em relação ao tema Cosette, a Éponine lá revira os olhos e lhe diz em tom dramático que o destino tomará conta do assunto. Mas achas que eu deveria mostrar mais directamente o meu afecto por ela?, pergunta Márius... Se tens amor a ti próprio e à tua carteira, dá tempo ao tempo, aconselha a Eponine...

E no último vislumbre que a Éponine tem a partir do seu carro ao ver o carro do Márius partir, a Éponine que de pobre e de vítima não tem nada diz baixinho: Adeus idiota... é bom que não me voltes a incomodar mais...

Mais um Marius enfeitiçado, mais um Marius perdido que uma Eponine resolveu esquecer...


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Querido A.

Tenho o professor de pato-fisiologia mais secante do mundo e arredores.
Como te vou explicar: demora meia hora a chamar o nome do meu grupo (somos nove ao todo), mais meia hora a tentar abrir site, mais site mais site. Meia hora a falar sobre que livros deveríamos comprar para a cadeira, abre e fecha Amazon umas cem vezes. E só que estamos realmente cansados de estar na aula é que começa a dar a aula propriamente dita.

Disseram-me os mais antigos alunos que o fulano é um observador nato. Fica logo atento ao nosso primeiro erro. Que chumba alunos só porque sim. E claro, desde logo tentamos criar uma boa impressão de maneira a tentar cativar o homem.

Logo na primeira aula ele berrou o meu apelido a perguntar quem era. Sim, porque onde estudo conta mais o apelido que o nome. Eu respondi. Então ordenou-me que teria de fazer uma apresentação para a aula seguinte. E tal como chamou o meu nome, outros colegas meus foram chamados para fazer a mesma coisa.
Uma semana passada, com o trabalhinho feito, cheia de medo de causar má impressão, lá fui eu à aula. Os outros nomes que foram chamados na semana anterior nem os pés puseram.

Fiz o meu trabalho em power point, tentei demonstrar uma segurança que realmente não tinha. Mostrei imagens, gráficos e tabelas, fiz uma apresentação com pouco texto de modo a que fosse fácil a leitura.
E quando terminei, olhei expectante para o professor e ele sorriu para mim e deu-me os parabéns pela minha exposição. Afirmou também que já era costume que os portugueses fizessem um trabalho bastante satisfatório uma vez que o nosso sistema de ensino já nos habitua a trabalhar com pesquisa bibliográfica desde o secundário.

Foi assim um pequeno passo para mim, um grande passo para passar na cadeira!!!


Alima

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Querida mana,

No Sábado passado foi a vindima na casa dos avós.
Pela noitinha, a mãe apareceu no Skype para ter dois dedos de conversa comigo.
Depois de ter falado sobre quantas pipas de vinho serão enchidas, quantas pessoas foram vindimar, quem foi vindimar, a mãe quase finalizou a conversa com:

- Sabes, estava eu perto da eira aos figos e vi um sapo. Não sei de onde é que ele vinha. Talvez viesse daquele riacho que passa no campo de não sei quem. O que é certo é que perto do sapo, nas pedras do muro estava uma cobra pequena. Pequenina mesmo. Pelo menos só vi a cabeça que era da grossura do meu polegar. E a  cobra produzia aquele som com a cauda e o sapinho  estava completamente hipnotizado. Então, eu com um pauzito afastei o sapo de perto do muro. Acho que salvei uma vida hoje. E senti-me tão bem com isso...!

Ainda bem mamã...


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Querido A.

Na semana passada começaram as minhas aulas. Logo no segundo dia de aulas tive aulas no hospital no serviço de Medicina e Cirurgia. Fiquei feliz por saber que o meu velho pijama branco do tempo em que estudava Enfermagem ainda me serve. Apenas retirei o bolso com o símbolo da antiga escola e pus um bolso branco. E felizmente eu não o queimei como tinha prometido na altura em que estava a acabar o curso porque senão teria de comprar outro pijama novo :)

Seja como for, usar pijama branco e ter um estetoscopio ao pescoço não é novidade para mim. Usei centenas de vezes quando era enfermeira. E por isso mesmo torci logo o nariz quando me tentaram tirar fotos para por no facebook com aquela indumentaria. Assim como torci o nariz ao ver toda a gente a publicar tais fotos nas redes sociais. Considerei uma atitude demasiado presumida por parte deles até. (Okok, tenho mais 6 anos que muitos deles...).

Seja como for, a primeira aula no hospital foi Interna. A professora mandou sentar o grupo na biblioteca do serviço e falou, falou, falou, gesticulou e gesticulou, mais trago de água, mais morder os lábios.
Falou na importância da Medicina Interna, que é nela que reside a arte da medicina bla bla bla. Pôs-se a explicar como deveríamos fazer uma anamnese mais-que-perfeita. Ameaçou-nos até de que se preferíssemos Cirurgia a Interna que estávamos literalmente chumbados a Interna.

Depois na aula da Cirurgia, o professor fez praticamente o mesmo discurso. Reforçou a ideia que só o cirurgião é que pode curar. Que a scum (escumalha) de Interna simplesmente aliviava sintomas e adiava a morte. E em vez de por-se a falar sobre anamnese e exame físico, pôs-nos a treinar suturas! Adiantou que se preferíssemos Interna a Cirurgia estaríamos chumbados também.

Apesar de eu ser sempre ter jurado que nunca olharia Cirurgia como um futuro, porque além de eu conhecer as minhas limitações em termos manuais admito que sou um bocado stressada para isso, juro que simpatizei mais com Cirurgia do que com Interna. Enquanto Interna falava em art, pathology, farmacology e help, Cirurgia falava em skills, cure, progresstechnology.

Acho que vou adorar isto mesmo....

domingo, 22 de setembro de 2013

Querida L.

No início deste mês fui convidada para o baptizado do filho do C. e da S.. Bem, neste caso, como eles optaram por uma cerimónia muito íntima, fui convidada para o pica pica após o baptizado. E lá cheguei eu, tu, os teus pais, o teu padrinho A. como assim manda a regra.
Como deves saber, um tio avô do C. é nada mais nada menos que o padre da aldeia-natal da minha mãe. É também muito amigo da minha avó. Quando a minha avó vivia na casa dela, volta e meia o Sr. Padre ia fazer-lhe uma visitinha e acabava quase sempre para um cházinho e bolos. 

Uma vez que o vi, fiz questão de o evitar, não fosse ele eventualmente reconhecer-me (não fosse eu uma espécie de fotocópia do meu avô)
A coisa estava a correr tão bem até que a sobrinha do padre o traz pelo braço até ao sofá onde eu estava sentada com a malta.
- Oh tio, a família desta menina é paroquiana na sua freguesia...- diz a mãe do C.

Oh bolas, fui apanhada...

- Ai sim? É de que família?- pergunta-me o padre.
- Sou da família dos ....(nome que a família é conhecida)- respondo-lhe.
- Dos ....!? Mas eu sou muito amigo da sua família! E olhando bem para a menina, você é a cara chapada do seu avô que-Deus-o-tenha! É o nariz, é o cabelo aos caracóis, é a robustez... oh até o sorriso! Só não tem os olhos azuis típicos da família...

Sim, precisava mesmo de um padre para me dizer que de toda a família, sou eu a mais parecida... Espera aí... ele chamou-me robusta! 
E continuou...

- Sabe, eu até já faço parte da vossa história familiar. Já estou na paróquia há quase cinquenta anos. - diz ele todo vaidoso- Fui eu que fiz o casamento a todos os seus tios... E baptizei alguns dos filhos deles... E funerais? tantos...Olhe, até já fiz o funeral a um genro da sua avó...
- Pois, esse genro da minha avó é por acaso o meu pai...- disse-lhe.
- Oh, não me digas que és filha da M.!!! Foi minha aluna na telescola! Olha lá, ela já arranjou alguém?

OK! Parou tudo... Ele quer saber se a minha mãe é uma viúva alegre ou não!  Uma resposta vaga deve servir:

- Oh sr. Padre... Se ela tem ou não, não me diz respeito!
- Pois bem, pois bem... Sabe, a sua família foi uma grande benemérita da nossa igreja... O sino da nossa igreja  tem o repique mais bonito da região porque a família da menina deu muito ouro para fundir com o bronze. E olhe, quando os franceses invadiram o Minho, foi a sua família que escondeu tudo o que era de valioso na paróquia no jazigo de família e em paredes falsas. Contribuíram tanto que os seus não sei quantos avós tiveram direito a um retrato a óleo na sacristia...

E quando ele dizia isso em voz alta (o homem deve ser mouquinho da silva porque ele falava tão alto que parecia que estava a dar o sermão), as cabeças dos meus amigos que estavam comigo no sofá se viraram para mim. 

- Ena pah... está na altura de ires buscar alguma contribuição do espólio lá da igreja para mudares de carro, não oh Alima?- diz o teu pai em tom de brincadeira. Puxa, o teu pai tem razão...

Então o padre vira-se para o teu pai e diz-lhe a alto e bom som:
- Sabe, eu não concordo que aqueles quadros estejam na sacristia. Não foram grandes pessoas em vida. Eles fizeram a fortuna a traficar escravos. Eram negreiros...!

Ok... isto é uma afronta para a minha pessoa. Mexer nos esqueletos que temos no armário??? Fala no quão beneméritos os meus antepassados foram para depois cuspir a palavra negreiro?Já não é a primeira vez que ele diz isto! Pode ser impressão minha, mas mais cabeças estavam voltadas para o sofá onde eu estou... A palavra negreiros só é bonita se tiver Almada antes...  Mas, espera aí...

- Tem razão, sr Padre. O problema é que se tirassem todos os quadros de pessoas que não foram boas pessoas em vida das sacristias, acho que as paredes ficariam bem pobrezinhas... Por exemplo, se retirarmos os retratos de todo o clero que fez parte dos Autos de Fé ou Santa Inquisição... queimar inocentes, gatos pretos, possíveis bruxas e tal... ou melhor, aqueles membros do clero que negaram protecção às vítimas do Holocausto... Ou então...

E não pude acabar a frase... o teu padrinho puxou-me pelo braço para outro lado da casa. Beato e menino de coro como ele é (ou melhor, menino que lê na missa ao domingo) lá achava que estava a tentar salvar a minha alma. Fiz frente a um padre, caramba! O padre que já faz parte da família, como ele disse. Vou parar ao Inferno...

O teu padrinho merece uma coça. Adorava saber como é que o padre se ia defender!





sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Querido P.

Uma semana se passou depois de ter partido de Portugal.
O tempo aqui está péssimo, as sandálias e tshirts que eu trouxe não vão ter uso nenhum até Junho, já que faz muito mau tempo por aqui. 

Como te prometi, continuo a fazer dieta. Já perdi 17kg desde Julho. Sinto-me mais bonita, mais ágil e mais sexy até. Quero ver se continuo a perder mais peso até ao Natal. Só mesmo para poder comprar mais trapinhos nos saldos assim que chegar a Portugal (já que onde vivo nenhuma loja de jeito).

Confesso que me habituei a ti este Verão. Fizemos tanta coisa juntos e esta separação brusca causou-me alguma tristeza. Sabes bem que eu adoro cá estar,  mas os primeiros dias em que aqui cheguei senti-me um bocadinho deprimida. E para piorar as coisas, foste a última pessoa que vi em Portugal, tu fizeste questão de me levar ao aeroporto. E antes de me levares ao aeroporto, fizeste questão de me oferecer um pequeno almoço à maneira numa esplanada em frente ao mar. Desfrutei contigo o último cheiro a maresia e o último vislumbre da nossa praia. A praia que eu tanto sinto saudade... A praia que neste país onde vivo jamais poderá existir.

Temos falado imenso por telefone. Mas não é a mesma coisa, claro. Não é como passávamos horas num bar perto da praia a conversar, ou mesmo quando começávamos a noite numa esplanada com amigos em Braga e acabávamos os dois a noite no Porto ou em Viana a ouvir Oceano Pacífico no carro.  Uma vez no carro perguntaste-me como é que era possível que nunca nos tivéssemos beijado como nos filmes. Afirmaste que tinhas tido mais momentos românticos comigo do que com muitas namoradas. Eu respondi-te que os amores mais ternos são os de infância. São aqueles amores de folhas perfumadas com ursos estampados, nada arrebatadores, sem ciúmes e sem joguinhos de sedução. E nós fomos uma espécie de namorados de infância.  São pequenos momentos como esses que me fizeram nascer algumas lágrimas nos olhos no momento em que nos abraçamos antes de eu embarcar. E as outras lágrimas caíram quando cheguei ao meu destino quando invés de ser recebida com um sol e calor, fui recebida com chuva, frio e um céu cinzento. E com a garantia da porteira da residência onde vivo de que este ano deve começar a nevar lá para Outubro. 

Obrigada por este Verão. E por tudo. 
Até Dezembro. 

Alima

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Julho de 2013

Paro o carro em frente à capela mortuária da aldeia-natal da mãe.
Mesmo em frente à capela, está um busto em bronze do padre da freguesia para celebrar os quarenta e tais anos como pároco naquela freguesia.
Diz a minha mãe:

- Hum... o padre já tem direito a estátua... E olha que está bem bronzeada.

Digo-lhe:
- Deve ser humilhante estar vivo e ter uma estátua em praça pública...

- Não digas disparates, Alima... o homem até merece...- responde a mãe em tom de zangado.

Respondo-lhe: 
- Não deve ser fácil estar vivo, ter uma estátua e ver os pássaros a cagar-lhe em cima... 

Ok... vou para o Inferno...

domingo, 8 de setembro de 2013

Querida L.

Não temos qualquer relação de sangue, mas podes considerar-me como uma tia.
Não tenho sobrinhos  e estando a anos de luz de ter filhos, adoptei-te como minha sobrinha. Da última vez que te vi, consegui-te ensinar a fazer o hi-five e a fazer som quando mexes com o dedo na boca. 

Este mundo não está fácil para os adultos como eu e os teus pais. Oxalá que quando tiveres a minha idade as coisas estejam muito melhores. A palavra crise sai das bocas dos portugueses diariamente. Tem sido a culpa de todo o mal. Já não se culpa Deus por todo o desemprego e as carências a todos os níveis que acontecem no nosso país. Culpa-se a crise. 

Quando eu era criança pouco me tinha que preocupar com a palavra fome. Na minha imaginação a fome era uma coisa que só havia em África, porque de vez em quando lá surgia uma ou outra imagem na televisão. A Internet  nas nossas casas não existia (aliás só tive Internet em casa uns dois anos antes de ir para a universidade). Pouco ou nada sabia o que era a pobreza. Tive uma infância modesta, sem excessos nem carências. Não me faltava nada, mas também não tive tudo. Infelizmente os casos de miséria aumentaram muito... Terás que amadurecer mais depressa que eu...

Julgo que tive o primeiro contacto com a miséria, tinha eu sete anos. Fui visitar o meu avô ao hospital no Porto. Sei que estávamos na altura do Natal, porque lembro-me de ter um Pai Natal de chocolate. Estava eu e a minha mãe à porta do hospital quando um rapaz com os seus vinte e poucos anos mostrou um papel qualquer à minha mãe a dizer que tinha SIDA e que precisava de dinheiro para os tratamentos. A minha mãe deu-lhe alguns escudos. Eu dei-lhe metade do Pai Natal de chocolate, porque ele pôs-se a olhar fixamente para ele. Acho que terá sido a primeira vez que ouvi falar em SIDA. Isto em finais de 1994, tinha eu sete/oito anos.

Outra situação que me marcou também foi num sábado de manhã em que íamos para a aldeia. Mal tínhamos saído da autoestrada, começou a fazer-se uma fila de carros . O motivo: alguém tinha sido atropelado. Os condutores paravam, viam o que se passava e arrancavam de novo. O meu pai, boa alma e bom militar que foi, imediatamente parou o carro para tentar socorrer a vítima. O meu pai e mais duas/três pessoas. Lembro-me que a vítima era um rapaz também com uns seus vinte e poucos anos. Pela cor da pele, parecia cigano. Estava todo ensanguentado e inconsciente. Não me recordo todos os pormenores, mas recordo-me que veio a ambulância,  e algum tempo depois o meu pai entrou no carro, pôs o cinto de segurança e disse para a minha mãe: 
- Overdose. Pelos vistos ia tão grogue que atravessou a estrada e...
- Esta juventude com os excessos não sabe onde vai parar- disse a minha mãe

Então o meu pai, virou-se para mim e para a minha irmã (que na altura eu deveria ter também uns oito anos porque me recordo que a minha irmã que é cinco anos mais nova que eu ainda estava numa cadeirinha) e disse:
- Vocês as duas, antes de fumarem ou de meterem para a veia o quer que seja, lembrem-se sempre deste rapaz, estamos de acordo!?

Seja como for, a primeira (e única vez) que pus um charro na boca, lembrei-me daquele rapaz. Um flash da minha memória voltou de novo àquele sábado de manhã. Senti logo repulsa por aquilo que me tinham passado para a mão.
Sabes L., eu sou apologista que para não cometermos erros devemos acima de tudo aprender primeiro com as consequências dos outros. É tudo muito bonito chegarmos à escola e ouvirmos falar em drogas e no mal que elas fazem, mas tudo não passa de histórias tristes na nossa cabeça. 

O mesmo digo de certas doenças, e vamos por exemplo falar no HIV. Eu admito que eu só aprendi realmente as consequências destes dois problemas em estágios que fiz. Eu e a tua mãe fizemos juntas um estágio em Psiquiatria. E ambas senti-mo-nos de mãos atadas quando encontramos dois diferentes colegas do tempo de liceu numa ala de agudos de psiquiatria. Por consequência das drogas estavam ambos com esquizofrenia. O rapaz que eu conhecia (e que toda a gente o achava o mais bonito da EB2/3) além de esquizofrenia tinha também HIV. E quando comecei a conversar com ele sobre se ele se lembrava das raparigas com quem tinha namoriscado e que lhe enviavam cartas de amor no dia dos Namorados, ele pôs-se a falar nos planetas. No Deus. Na complexidade que era o Universo. Que tinha sido raptado por um ovni. Pôs-se a falar nos pássaros e nas borboletas. Não, não era o velho A. que eu conhecia que arrancava tantos suspiros às raparigas tontas da escola como aquele loiro da boysband. E temi pela saúde daquelas que chegaram a vias de facto com ele.

Para aprenderes bem o flagelo das drogas e destas doenças terríveis que poderiam ter sido facilmente evitadas, sugiro-te querida L. que faças uma visita de estudo e que possas contactar com estas pessoas. Terás uma imensa pena por elas. As suas ideias estão distorcidas. Tomam dezenas de medicamentos por dia... Mas acho que aprenderás com os erros delas.  Tal como eu aprendi com aquele rapaz a quem dei o meu chocolate e aquele que vi estendido no meio da estrada com uma overdose...  E isso agradeço aos meus pais: eles nunca me esconderam nada sobre as desgraças da vida. Obrigaram-me a olhar para aqueles dois seres humanos e fizeram deles mote de lição. Ensinaram-me desde logo a conviver com a morte.  E tu, L., aprende. Aprende muito. Evita errares. E aprende principalmente com as desgraças dos outros. Não estás nunca imune a elas.

Um beijo do tamanho do Mundo,
A tua tia,
Alima



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Querida F.

Assim do nada recordei uma personagem da minha infância que faleceu tinha eu 10 anos.
Era irmão da minha avó paterna. Não sei o nome dele, mas sempre o conheci pelo o tio da Esperança (não é Esperança, é outro nome muito parecido que é o nome da aldeia onde ele vivia).
Lembro-me de me dizerem que ele se tinha casado com a mulher mais rica da zona (que tinha 1kilo em ouro, vejam só!), mas como ela era muito mais velha que ele, ele seria mais o enfermeiro dela que propriamente marido. Não tiveram filhos. E como ela não tinha mais família, os irmãos dele (inclusivé a minha avó, claro) puseram o casal como padrinhos de pelo menos um dos filhos. Portanto, aquele casal foi o padrinho de baptismo do meu pai. E como a miséria antes do meu avô dar o salto para França era tanta, a minha tia T. foi criada na casa dos tios da Esperança. Foi criada no sentido de ser educada e um tanto criada de empregada dos tios até atingir a maioridade. E quem diz a minha tia, diz um e outro sobrinho que também lá viveu.

Seja como for o meu pai gostava imenso dos padrinhos. E sempre que íamos visitar os meus avós a aldeia, íamos sempre dar um saltinho para os visitar.

A ideia que eu tinha da madrinha do meu pai: uma velha de olhos esbugalhados, pálida como a cal e toda curvada que tremelicava das mãos. Acho que ela tinha uma espécie de barba também. E lembro-me dela sempre sentada na cozinha em madeira. Parecia a bruxa da branca de neve. E tratava o meu pai como "o meu picheno".
O tio, visivelmente mais novo, era um tipo alegre. Sempre a rir-se. Sempre que lá íamos oferecia uma travessa ou um prato antigo ou um pote de ferro à minha mãe porque sabia da paixão que ela tinha (e tem) por antiguidades.

Seja como for, a velhota faleceu. E passado três meses dela quinar, o tio da Esperança perguntou aos meus pais o que achavam se ele se casasse de novo. Os meus pais não disseram que concordavam nem que discordavam. E no mês seguinte ele casou-se com uma mulher muito mais nova que ele. E perfilhou-lhe a filha da mulher. E claro, aí a família ficou um tanto zangada com ele pelo facto de ele não ter pensado nos sobrinhos e de dar tudo a uma estranha que tinha conhecido semanas antes.
O meu pai nunca mais o visitou pelo facto do velhote ter sido egoísta com os sobrinhos e principalmente pelo facto daquela casa ter uma nova patroa.
A nova esposa nova começou a obriga-lo a cultivar campos e a ter rebanho. E passado 10 meses após o casamento, o tio da Esperança que até então tinha uma saúde de ferro, foi encontrado morto num campo enquanto sachava.

Anos mais tarde fui tomar café na Esperança. Enquanto tomava café, assim como não quer a coisa perguntei o que foi feito da viúva do tio do meu pai. Sabia que mal o velhote morrera, ela pôs a casa e os terrenos à venda. O dono do café aproximou-se perto do meu ouvido e sussurrou que ela se mudara para uma aldeia vizinha. Que depois do tio já se tinha casado mais duas vezes com dois velhotes. Ela dá-lhes o Viagra, sabe menina? É o Viagra que os mata!

E desde então sempre que penso naquela mulher associo às viúvas negras...






domingo, 1 de setembro de 2013

Querida F.

Na quinta-feira quando eu liguei para ti, tu rejeitaste a chamada. Mas enviaste uma sms ao estilo de um telegrama: FAZ MALA. AMANHA VAMOS PRAIA DA TOCHA.
Bem, eu não tinha grande ideia onde ficava a praia da Tocha. Perguntei à minha irmã e ela depois de ter dito um dahhh, lá me explicou que ficava entre Mira e Figueira da Foz.
Sabes perfeitamente que eu numa fase inicial sou um bocadinho tímida. Mas assim que ganho confiança com a malta sou bastante comunicativa. E tu sabes bem que só te conhecia a ti e ao teu parceiro.

E pronto, na sexta feira lá nos fizemos à estrada. Graças a ti, tive a oportunidade de conhecer mais pessoal e de aumentar a minha lista de amigos na rede social, assim como ficar um bocadinho mais morena com o tempo que passamos na esplanada.

Foi um fim de semana mais-que-perfeito. Agradeço-te por isso. E aproveita e agradece aos teus amigos também.

Se tudo correr bem, vou cumprir o que prometi à mãe do dono da casa: eu voltarei para o ano à Tocha.


Alima