quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Querido Pai,

Há uns três anos a madrinha de baptismo da mãe quinou. Não houve grande choradeira porque a velha era má como as cobras e estava a caminho dos cem anos. Era um poço de ressabiamento que até metia aflição. É graças a ela que sei que não quero morrer solteira.

Seja como for, velha e sem filhos, há cerca de quarenta anos comprou uma casa contígua a outra. A casa que anteriormente era uma só, foi dividida em duas partes por motivos de herança. E na câmara ao fazer o registo da nova propriedade dela fez com que, por erro, as duas casas fizessem parte de um único artigo.
Acontece que a velha quinou, e deixou em testamento que a casa fosse para os três afilhados que amadrinhou. Como a casa está resumida a quatro paredes a desmoronar numa aldeia minhota, os afilhados que graças a eles não estão assim tão mal de vida, ainda não quiseram fazer partilhas da casa uma vez que implicaria impostos.


Acontece que a casa ao lado entrou em partilhas. E quem herdou a casa ao lado resolveu restaurar a casa. Foi então à Câmara Municipal para levantar licenças e não sei quê e constatou que a casa dos pais estava no mesmo artigo que a casa da madrinha da mãe. Que é impossível dividir as duas casas em dois artigos a não ser que as duas casas tenham o mesmo proprietário.

E armados em chicos espertos e cheios de graveto resolveram falar com os herdeiros da casa ao lado.

Souberam que a mãe estava na aldeia de visita à casa da avó.

Eles apareceram no quintal da avó. Eu estava com as calças e a tshirt mais velha que tinha em casa, minha indumentária favorita para lavar e aspirar o carro.
Educadamente cumprimentaram-me e pediram-me para que fosse possível falar com a mãe.
Chamei a mãe e ela rapidamente os instalou no salão de visitas da casa da avó. Pediu-me para que eu permanecesse com ela lado a lado.

Pai, o discurso dos fulanos foi das coisas mais hilariantes que eu ouvi. Topei logo à distância que eles eram emigrantes pelo tipo de roupa que usavam e pelo carro que tinham estacionado perto do portão da casa.
Então cheios de salamaneques puseram-se com um discurso carérrimo perante mim e a mãe. Muitas palavras terminadas em mente foram ditas. Palavras como evidentemente, certamente, exuastivamente. Palavras como idónea, ténue e implícito. Expressões como solucionar o problema e o problema será solucionado. E lá me mordia toda para não rir na cara deles pelo esforço que eles tiveram em descrever todo aquele vocabulário.

Basicamente o que eles queriam era explicar a situação complexa em que se encontravam e que queriam solucionar sem grandes conflitos nem tumultos a situação da casa.
Disseram que falaram com um advogado que lhes deu duas soluções:
"Ou vendemos a nossa casa, ou compramos a vossa casa", disseram eles com um arzinho de riso do tipo "Vocês não têm hipótese, vão ter mesmo que vender a casa!!!!"

A mãe que apesar de ser um ser humano inteligente, bloqueia em situações destas, nada disse.
Eu olhei para a mãe à espera que ela reagisse, mas como em três segundos depois ela não tinha aberto a boca, virei-me para eles e disse:
"Pois muito bem, quanto é que vocês querem pela vossa casa?"

Ora por essa pergunta eles não estavam à espera. O discurso caro que eles tinham aplicado começou a embaratecer. Pigarrearam q.b. até que um:
- Oh menina, mas a nossa casa não está a venda!
- Tem graça que a da minha mãe e dos outros também não!- digo-lhe
- Oh menina, mas você está interessada na casa, quer comprá-la, é?
- Diga-me o preço!- respondo-lhe. Como é obvio não estamos interessadas. Foi mais para os assustar.
- Não digo porque não está à venda!- grita-me o fulano. 
- Como já lhe disse a do lado também não. - respondo-lhe.
- Mas se os herdeiros da velha a quiserem vender, quanto é que vocês vão pedir? Digam um número. - Diz o outro fulano.
- Oh chefe, se o futuro da casa ainda não foi discutido entre os afilhados, eu não lhe posso dar nenhum número!- disse a mãe que (finalmente) reagiu.

Então os dois fulanos vieram com o discurso do quanto trabalham em França bla bla bla, de que gostariam de finalmente restaurar a casinha. E a minha mãe por momentos apiedou-se. Esquecera-se de que eles vieram com um discurso do tipo ah e tal nós até sabemos algum vocabulário caro e de que percebemos desta merda apesar de trabalharmos de pau e picareta em França e que eles vieram com o discurso do "Ou vendem ou compram!"

Posto isto foram-se embora com o rabinho entre as pernas. Mas levaram do recado de que se querem tratar realmente bem do assunto terão que contactar os três afilhados ao mesmo tempo para que seja possível dar uma solução à coisa. 

Pai, realmente eu compreendo o problema que eles estão a ter mas tira-me do sério cruzar-me com pessoas que se acham realmente mais espertas que os outros. Especialmente que se acham mais esperta que eu. Reconheço que existem pessoas mais inteligentes que eu. Mas essas normalmente agem com humildade. Uma humildade que eu reconheço que muitas vezes que não consigo ter. Agora que penso nisso, seguramente eles lá acharam que eu, com a roupa-mais-velha-de sempre e a mãe que estava toda suja e desgrenhada após de ter ido apanhar fruta, lá pensaram que éramos umas parolitas autênticas. Do tipo "estas duas saloias com duas de treta e são enganadinhas". 

Como daquela vez em que uns estudantes de engenharia foram pedir informações ao tasco na sua aldeia natal. O pai estava com a roupa mais velha que tinha porque na altura estávamos a restaurar a casa. Recordo-me que eles queriam chegar à barragem através de uma carta topográfica. E o pai pediu a carta e esteve-lhes a explicar como chegar lá com o auxilio da carta. Falou em altitude e longitude. Falou em zénites, meridianos e paralelos. Explicou o significado daqueles símbolos todos. E até pediu um compasso a um dos alunos para explicar como calcular a distância entre um ponto ao outro.
E no fim de uma explicação fantástica da sua parte, que eu com os meus sete anos ouvi, o professor que estava com os estudantes de engenharia perguntou-lhe de forma altiva: "Mas como caralho você percebe desta merda?". E o pai sorriu e disse-lhe que não passava de um mero pastor com a 4ª classe mal feita...Um pastor mal vestido, com barba de três dias que percebia de cartas topográficas militares.

Alima


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