quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Querido Pai

No fim de semana que se passou foi a festa na sua aldeia.

Estive com a sua irmã, o seu cunhado e o seu punhado de primos e tios. Cumprimentei alguns dos seus amigos de infância. Dei até um beijinho à sua eterna ex-namorada. 

A mãe sempre me ensinou a agir como uma menina de boas maneiras, mas durante esse fim-de-semana ela fecha um bocadinho os olhos: ela sabe que gosto de estar na companhia dos nossos primos que tiveram que abandonar os estudos e emigrar muito novos. Não são primos directos, porque da sua parte não tenho. Eles são genuínos. Não sabem conjugar os verbos adequadamente. Volta e meia ficam encravados com o português. Mas no rosto deles está bem transparente a alegria de estarmos juntos porque tenho histórias diferentes das que eles sabem. Porque sei rir de anedotas mais brejeiras. Porque não recuso uma malga de vinho encostados aos pipos da adega. Porque não recuso um pezinho de dança ao som do Quim Barreiros com eles. Porque lá faço uma ginástica para ir comer o cabrito à casa de um e o café e sobremesas à casa doutro. E porque ao contrario dos meus tios e primos directos que tenho da parte da mãe, estes que são de 2ª ou 3ª geração sentem muito orgulho em nós e o dizem de boca cheia perante toda a aldeia (o que às vezes deixam-me envergonhada!!!). Afinal há laços bem mais sólidos que os de sangue. E sabe tão bem acarinhar e ser acarinhada por quem realmente merece.

Eles dizem constantemente que sou muito mais parecida consigo do que a minha irmã. Isso deixa-me radiante. 

Basicamente só nos vemos um fim-de-semana por ano. Mas é um fim de semana suficiente para repararmos que estamos a ficar cada vez mais velhos. Que apesar de teres ficado pelo caminho, a vida continua. Que as coisas já não são como quando o pai era miúdo. Ou então quando era miúda. 

A aldeia está cada vez mais deserta durante todo o ano. Quase todos os meses lá sabemos que fulano ou sicrana pereceram. Mas agora no mês de Agosto, a aldeia que durante todo o ano é constituída por meia dúzia de casais e quatro ou cinco viúvas, fica constituída por centenas de emigrantes. A aldeia deixa de cheirar a fumo das lareiras das tardes e noites de inverno ou a pó e mofo das casas fechadas e passa a cheirar a sardinha assada e a casas asseadas. Deixa-se de ouvir o silêncio e muitas vezes a vento agreste e passa-se a ouvir risos, músicas e conversas até às tantas da madrugada.

Mas o mês já vai a meio. 

E mais uma semana e o encanto começa a desaparecer.

E para o ano teremos outra festa na aldeia.

Sinto tanto a tua falta, pai,


Alima

2 impressões:

capitão disse...

Perfeito do Indicativo
eu reparei
tu reparaste
ele reparou
nós reparamos
vós reparastes
eles repararam

Alima das Cartas disse...

GRANDE ERRO CRASSO. Tem toda a razão...

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