sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Querido L.

Durante aquele nosso café na esplanada junto à Sé recordamos também a senhora M.

A senhora M. foi uma das eternas criadas da casa dos avós. Não casou, não teve filhos, adoptou os nossos pais e a nós próprios como filhos e netos de coração. Era minhota de gema. Tinha o típico buço e a pele escura, fruto do trabalho de campo. Usava sempre um puxo no alto da cabeça.

A senhora M. cozinhava divinamente. Se a ambrósia é o nectar dos deuses, os cozinhados da senhora M era o nectar do mais consolado mortal. Talvez seja graças a ela que a minha mãe aprendeu a cozinhar tão bem, uma vez que a nossa avó nem fritar um ovo deve saber.

E por falar em fritar ovos, esse era um dos meus petiscos favoritos feitos pela senhora M. Adorava quando visitava os nossos avós, e a senhora M., sempre vestida de azul ou de negro, com o avental de flores estampadas me arrastava até à velha cozinha de estilo minhoto, onde me sentava à grande mesa com bancos de correr. E então ela punha uma toalha de linho, um prato de barro tosco e um copo de vidro grosso e uns talheres de aço. E no prato ela punha sempre um ovo estrelado com açúcar. Às vezes deitava umas gotas de vinho do porto e mel. E para mim, mesmo não tendo fome nenhuma, era um autentico pitéu saber que estava a comer ovos estrelados que em vez de ter sal, tinha açúcar...E sorria quando me via a comer com satisfação.

Que saudades tenho daquela cozinha minhota... O forno a lenha a um canto, completamente enegrecido; a lareira que era feita no chão de granito; o cheiro constante a enchidos no fumeiro; a taça já embeiçada onde tinha sempre maças e laranjas que repousava a meio da grande mesa; o cheiro a castanhas assadas e a pinhões que se sentia no outono e no inverno que ela tão cuidadosamente metia no borralho, aquele grande armário que escondia uma parede onde estavam guardadas as bolachas, as compotas caseiras e marmeladas; aquele beiral em cima da chaminé da cozinha cheio de loiça típica, o cheiro constante a limonete, cidreira e alecrim que estava sempre no beiral da janela a secar, pronto para ser usado para chás e temperos...

E lembras-te dos Natais que passávamos naquela casa? A pobre stressava bastante quando vinha a ajuda e trabalho extra, entrava em parafusos quando nos sentávamos à lareira para grelhar o bacalhau....

Um dia a senhora M. deixou de ser aquela mulher activa. Passou a ter lapsos de memória e a ter fraqueza nas pernas. Teve que se reformar. Voltou para a sua casinha lá na aldeia como reformada. Um dia deram com ela morta.

E a velha cozinha, por falta de obras deixou de ser usada à espera do futuro herdeiro.

1 impressões:

S* disse...

Cozinhas minhotas, antigas, cheias de detalhes.

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