quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Querido L.

Ontem à noite reencontramo-nos numa esplanada em frente à Sé.
És dos meus primos favoritos e por uma questão geográfica e de pertencermos a grupos de amigos diferentes fez com que nos separássemos um do outro. Ontem sentámo-nos na mesma mesa com o meu grupo de amigos. Falamos das nossas aventuras do passado, das nossas brincadeiras de infância. E sem mais nem menos, conseguiste invocar uma personagem que fez parte da minha infância mas que a pouco e pouco fui esquecendo: o tio H.

O tio H. era casado com uma tia da nossa avó. Uma vez que eles não tiveram filhos, em velhos ficaram ao cuidado da nossa avó. Não me recordo bem quando ele faleceu. Talvez eu tivesse uns seis anos de idade. Mas lembro-me daquele senhor que foi uma espécie de bisavô para nós. Se fechar os olhos ainda consigo recordar-me dele, sentado num cadeirão na varanda minhota na casa dos nossos avós. Recordo-me que antes daquela varanda ser restaurada, era feita de tabuinhas vermelhas. O chão era também feito de madeira. Ao fundo da varanda havia um quarto que era usado pelos criados da casa mas que posteriormente tornou-se o quarto do tear. A varanda, do comprimento da casa velha, tinha duas enormes caixas de madeira, onde numa estavam guardadas as carpetes de trapos e linhos e noutra, tipo masseira, tinha frutos secos, normalmente nozes rançosas.
A meio da varanda, repousavam dois cadeirões de palha. E para cobrir o chão esburacado pelo tempo, estava uma carpete deita de corda. E é só nessa varanda que me recordo do tio H. sentado nesses cadeirões de palha. Era um velhinho sempre muito aprumado. Sempre usava gravata e estava sempre acompanhado por uma bengalinha e uma boina. Não era um homem de muitas falas.
Lembro-me que ainda não andava na escola e de ter passado um fim de semana na casa dos nossos avós porque os meus pais tinham feito uma viagem qualquer. E recordo-me que morria de tédio na casa deles sem nada para fazer. E para matar esse tédio sentava-me na varanda com livros de colorir e lápis de cor. E o tio H. que permanecia lá sempre sentado, calado e mudo, começou a contar-me histórias da vida dele. Muitos desses relatos só fizeram realmente sentido quando aprendi História muitos anos mais tarde. Mas lembro-me da doçura com que ele contava as coisas.
Lembro-me de ele me dizer (e tu confirmaste) que  foi um dos muitos portugueses que combateu durante a I Guerra Mundial. Foi um dos prisioneiros da Batalha de La Lys. Que os tempos foram tão difíceis como prisioneiro em que a sua alimentação se resumia em troços de couves e mesmo lavadura dos porcos. Uma prova viva que existia lá por casa era a máscara de gás que ele tão religiosamente conservava no quarto. E que o nosso bisavô, que era um companheiro de farra do tio H., escapou a essa guerra porque provocou feridas nas pernas e lhes pôs vinha d'alho para que não se cicatrizassem. E bem que morreu com essas feridas muitos anos mais tarde.
Recordo-me de ele me contar que se casou com a  esposa, tinham já mais de quarenta anos. Que no período de namoro, ele teve a audácia de lhe roubar um beijo, e ela esbaforida, correu para casa para lavar a boca com sabão. Que sempre dormiram em camas separadas. Que comiam na mesma mesa cada um à cabeceira. Deduzo que a velha tia R. que morreu sem antes a podermos conhecer, pensasse que os bebés vinham das couves, uma vez que não teve qualquer intimidade com o marido.

Seja como for, não me recordo da morte do tio H. Mas pelos meus cálculos ele morreu com cerca de noventa anos. Não faço ideia onde ele estará sepultado. E sim, primo L., as minhas recordações sobre esta personagem estavam já bem enterradas na minha memória, tal como de uma tempestade no deserto se tratasse. Foi bom desenterrá-las contigo. Tal como foi bom desenterrar outras recordações que falamos ontem e que escreverei posteriormente noutras cartas.

Um beijo da tua prima,
Alima

1 impressões:

S* disse...

Às vezes faz falta recordar os que já partiram para que sintamos de forma mais real o presente.

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