segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Querida B.

A minha mãe nos tempos em que estudou no Porto, tinha como uma das suas melhores amigas, a S.
A minha mãe tornou-se professora e a S. tornou-se pediatra.
A amizade entre elas durou anos uma vez que a S. foi a minha pediatra e da minha irmã.
Por mera coincidência, eu estudava piano com o filho da S., o P., na mesma escola de música. Como tínhamos mais ou menos a mesma idade, ele era uma espécie de namoradinho nos meus tempos de catraia: brincávamos muito, ele volta e meia passava as tardes na minha casa ou eu na casa dele a ver cassetes de vídeo da Disney... enfim, coisas de crianças...

 Acontece que o P. foi viver para Famalicão com os pais e eu deixei-o de ver... E como ainda não estávamos na era dos telemóveis, as nossas mães perderam parcialmente o contacto, e típico das crianças, começamos a esquecer os amigos de infância... E apesar de estarmos geograficamente perto e (pelos vistos) de até termos frequentado a mesma universidade, nunca mais lhe pus a vista em cima. 

Quase vinte anos mais tarde, a minha mãe cruzou-se com a S. no Porto, em plena azáfama de saldos.
Conversa vai, conversa vem e elas ficaram a saber o que foi feito dos filhos uma da outra.
E sabendo que eu estou solteiríssima e o P. solteirissimo, resolveram juntar as crias, tal casamenteiras para ver no que ia dar.
A minha mãe, sabendo que eu não teria coragem para ir ter com o P. só porque fui mandada, tentou fazer com que esse encontro fosse um feliz acaso. O problema é que a minha irmã deu com a língua dos dentes. E claro, fiquei fula com as duas matrafonas casamenteiras. Mas mesmo assim apareci no café que a minha mãe tinha marcado.


E lá estava o P.: mais alto, os mesmos olhos com olheiras, o mesmo sorriso de garoto endiabrado. Ok OK, não era o P. de há vinte anos: tinha crescido imenso. E já não tinha o cabelo curto, tinha o cabelo ligeiramente comprido, com alguns caracóis. (quem diria que ele fosse homem  de caracóis!?)
Olhamos um para o outro e sorrimos como imbecis. Não foi preciso usar qualquer dress code: ainda soubemos reconhecer um ao outro. (e eu só pensava no quanto a mãe dele lhe deveria ter subornado para se meter numa destas...

Iniciar a conversa foi um tanto complicado. Armados em tímidos, olhávamos para as nossas respectivas mãos, assim numa de sem jeito. Não sabíamos propriamente como começar. Nem sabíamos como nos deveríamos cumprimentar. Sentamos-nos à frente um do outro naquela mesa de café completamente perdidos.
Tive que ser eu a quebrar o gelo. Pedi-lhe desculpa pela minha mãe, mesmo não sabendo se foi ela a grande mentora deste encontro. E ele sorriu...

Conversamos talvez durante horas naquele café. Falamos da nossa vida académica (ele é um salta-engenharias, com 29 anos ainda não acabou qualquer curso), de viagens, de momentos que passamos juntos. Falamos das nossas relações anteriores e dos nossos amigos. Falamos de piano e dos professores que tivemos de piano. Ele comentou-me que se tornou um pro em guitarra. Eu disse-lhe que aprendi acordeão e cavaquinho com o meu pai e o meu tio. E que fui uma autodidacta na guitarra. Falámos de coisas tão triviais que pareciam assuntos que tenho com amigos mais próximos.
Demos as mãos enquanto caminhávamos pela avenida fora. Tal como éramos crianças.
Conversamos, falámos, rimos e gesticulamos imenso.
Ficamos com o contacto um do outro. E desde então temos trocado imensas sms.

A minha mãe assim que cheguei a casa fartou-se de fazer-me perguntas... Como foi? Que tal está ele? etc etc... Eu sacana que consigo ser disse-lhe que o date foi pavoroso. Dei-lhe respostas evasivas. E rapidamente ela acabou com as perguntas. Ela já sabe que quando eu quero ela não consegue apanhar nenhuma informação...

E sim, B., estamos a falar do mesmo P. que estava na esplanada ontem a noite connosco e que te apresentei... porque o P. já faz parte da malta...

Alima


1 impressões:

Lia disse...

Olha aqui a Lia curiosíssima por acompanhar esta historia :D

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