sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Querida Avó

Na semana passada, como se recorda, celebramos a sua festa de aniversário. Talvez fosse devido ao calor ou ao agravamento da sua demência, a avó estava com alguns lapsos de memória.

Num lar de idosos onde trabalhava em Barcelona para ganhar alguns trocados, existia uma idosa muito senil que já não conhecia ninguém, era agressiva e, coitada, pouco ou nada se poderia esperar dela. Essa idosa fora em jovem uma excelente pianista. Num cantinho do salão-de-estar do lar havia um piano que estava lá apenas como mera decoração. Um dia, desafiei a filha dessa idosa a aproximar a idosa do piano para ver qual era a sua reacção. Assim o fizemos. A velhota começou a perguntar o que fazia ali, sem realmente olhar para o piano. Então eu comecei a quebrar o gelo e pus-me a tocar a tocar uma peça de Mozart que sabia de cabeça. Consegui assim chamar a atenção à idosa que olhava fixamente para o teclado. E devagarinho ela aproximou as mãos das teclas e começou a repetir a mesma peça que eu tocava mas numa oitava acima. Fui-me afastando do piano e ela ficou sozinha nele. E tocou durante uns bons dez minutos alguns trechos de obras de compositores famosos ou não que eu identifiquei de ouvido. 

E pouco antes de começar festa, depois de ter feito as tarefas que me foram atribuídas  pela organizadora, e como tinha levado o todo terreno, desafiei a avó e a mãe a irmos até à casa dos meus bisavós. 
E lá fomos as três de jipe por aquelas estradas muito más até à casa deles. Pelo caminho parámos num campo que a avó identificou muito bem. Quando chegamos à casa, a avó teve dificuldade em reconhecer, talvez por causa das casas novas que construíram em volta. Mas quando viu a capela que fazia paredes com a casa identificou logo logo. Então contou-me uma história muito engraçada sobre aquela capela e a minha trisavó que um dia escreverei noutra carta. 

De facto eu só fui umas duas vezes àquela casa há muitos muitos anos. Basicamente só restam as paredes. O telhado já não existe. Ainda se vislumbra vestígios da varanda minhota. Ainda existe um vestígio de uma espécie de jardim com jarros que sobreviveram quase quarenta anos. Ao fundo permanece um pomar que a minha mãe tanto fala das suas memórias de infância, cheio de laranjeiras e caules mortos de figueiras, macieiras e marmeleiros. Mas o mais impressionante para mim foi ter visto no muro exterior em granito a gravação 1785... Se a casa é mesmo de 1785, já passou por guerras civis, guerras em províncias ultramarinas, guerras mundiais. Viu as tropas francesas invadirem a aldeia para saquear tudo o que fosse precioso (facto confirmado!), viu a separação entre absolutistas e liberais, o declínio da monarquia. Viu fome e pobreza na década de trinta no século XX. Viu a entrada de Portugal na CEE,... Incrível...

Então a avó, com o dedo apontava para as zonas da casa: ali era a cozinha, ali era a sala, aqui o quarto dos meus pais... 

Seja como for, a avó ficou super entusiasmada. Tão entusiasmada que até pediu-me para ir descendo o jipe até ao fundo do lugar porque ela queria ir a caminhar com a minha mãe. Esqueceu-se que sofre de tonturas e que se cansa muito.

Chegamos a casa, e ouvi alguém criticar-me por ter levado a avó a passar lá porque achavam que poderia ter sido um duro golpe para ela ver ruínas no que foi a casa onde ela nasceu. Mas a avó ficou tão contente... e tão lúcida...

Alima

2 impressões:

S* disse...

E isso é tão bonito. Preocupar-se é bom, mas não devemos enfiar aqueles que amamos numa bolha. A avó ficou feliz!

capitão disse...

A demência é um processo que se acelera quando se perdem as referências.
A sua avó ainda as tinha, mas com a velocidade a que agora se vive, corremos o risco de passarmos por tudo e não integrarmos nada, e acabarmos sós num meio estranho.

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