sábado, 10 de agosto de 2013

Querida avó C.

Faz hoje 16 anos que partiste.
Sempre foste a avózinha querida que tanto contrastava com a minha avó materna.
Apesar de teres morrido relativamente nova, para mim sempre foste uma autêntica velhinha. Por causa dos ares da serra, tinhas muitas rugas, usavas sempre azul escuro ou preto. Tinhas sempre um lenço na cabeça, típico das mulheres mais velhas da tua zona do país. Sinceramente conto pelos dedos de uma mão as vezes que vi o teu cabelo branquinho: uma em que estávamos sentados à lareira em que eu na brincadeira te tirei o lenço, outra em que te vi de camisa de noite pronta para ir dormir, outra em que te vi a entrançar o cabelo no dia em que faleceu o teu irmão e estavas a arranjar-te para ir ao funeral e a última, na derradeira despedida, quando estavas no caixão...

Pensar em ti e na pessoa que foste faz-me pensar em algo místico. Falavas muito em anjos e em santos. Disseste uma vez que tinhas visto perdidas no meio do monte quatro crianças com túnicas brancas a brincar. Dizias que eram os teus quatro filhos que pereceram com menos de três anos de idade. Dizias que a Natureza dava-te sinal quando as coisas iriam correr bem. Como daquela vez em que a tua filha que com menos de trinta anos estava hospitalizada com um AVC hemorrágico e já nas mãos de Deus, e tu disseste que uma borboleta branca te veio incomodar quando rezavas na capela. E que a tia T. a partir desse dia teve francas melhorias até ficar quase completamente recuperada.
Actualmente, quando penso no que dizias e como descrente que me tornei, julgo que talvez padecesses algo como uma esquizofrenia. Mas de uma coisa é certa: dizias que querias morrer no dia da festa da tua terra. De preferência cercada de anjos.  E Deus fez-te a vontade.
Trabalhaste como uma escrava a carregar à cabeça cestos e cestos de volfrâmio das minhas. Foste um bom testemunho sobre os horrores que se passavam no tempo das minas.
Não sabias ler nem escrever. Mas sabias todas as rezas de cor e salteado. E contavas a história da Cabacinha e do Lobo melhor que ninguém.
Tu tinhas um vocabulário que eu nunca usava. Três palavras recordo-me assim de momento: Melete para mim é pão, riba para mim era cima, bota para mim era deita.
Ainda me lembro das malgas de leite com Ricoré que me levavas à cama quando eu era pequena. O leite tinha acabado de ser ordenhado das vacas. E o Ricoré era das caixas que os emigrantes te traziam sempre de França. E era sagrado: sempre que íamos almoçar na tua casa, no primeiro dia servias massa esparguete com frango e aletria.


No dia antes de partires, estiveste a temperar o cabrito, a descascar batatas que deveriam ser cozinhados no dia da festa. À noite, já cansada, sentaste-te connosco e estivemos em família a contar anedotas e em amena cavaqueira. Foste dormir cedo na tua casa. E começaste a meio da noite a ter dificuldade respiratória. Então os vizinhos foram a correr chamar o meu pai que dormia na nossa casa ainda longe da tua para chamar uma ambulância e acudir-te (1997, não havia rede nos telemóveis na aldeia!). Cerca de meia hora levou a ambulância da vila a chegar até ti. Uma hora levou para te levar ao hospital mais próximo. com o mínimo de condições nas Urgências (e com o actual encerramento das Urgências, o Hospital mais próximo fica a duas horas em curva e contra curva!). Ainda chegaste viva ao hospital mas morreste minutos depois, afogada pelos teu próprio pulmões. Embolia Pulmonar, foi o que me disseram na altura. E eu não sabia o que significa isso.
Recordo-me muito bem que mal o carro entrava em andamento enjoavas. Parecia que morrias com as náuseas. E recordo-me que quando seguimos a carrinha funerária para a tua derradeira viagem eu pensava para os meus botões que desta vez já que estavas morta não irias enjoar mesmo...
Foste a primeira pessoa que vi morta. E depois de ti que me recordo, acho que foi o teu filho nove anos depois... Como é possível????

Da tua cachopita,
Alima

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