sábado, 17 de agosto de 2013

Carta ao A.

Já nos conhecemos há alguns anos. Tu és o melhor amigo do agora marido da minha melhor amiga. E como tal, amigos da vida boémia, desde logo começamos a sair os quatro: eles, tu e eu.

No entanto por muito que todos os nossos amigos façam figas para que possamos um dia vir a ser um casal, acho que concordas comigo: como amigos que somos, sabemos divertir-nos a valer. Amo-te tanto como um amigo que um dia que a gente eventualmente possa vir a trocar um beijo a sério, receio que a nossa amizade saia lesada. E momentos para o tal beijo que nunca trocamos foram muitos e bons. E sinto-me feliz por saber que, solteiros e descomprometidos que somos, às vezes temos programas românticos a dois como ir ao cinema, jantar fora num restaurante exótico, terminar a noite abraçados ao som de um bar com música romântica de fundo e que realmente nada tenha acontecido. Falamos constantemente pelo skype. E mais e mais depois que nasceu a nossa sobrinha L., já que o casal está demasiado embevecido com a cachopa e já não tem grande pedalada para nos acompanhar para a farra. Aliás, tu ligaste de propósito para mim quando a nossa sobrinha nasceu para dar a boa nova. 
Volta e meia espicaço-te com a vontade de conhecer a tua namorada que sei muito bem que não existe. E tu dizes que ela ainda está no forno. És alguns anos mais velho que eu e todos os teus amigos já são casados e pais de filhos. E mesmo assim não te importas. 

Mal eu cheguei a Portugal e tu estavas de fim de semana em casa, fomos jantar juntos na nossa cervejaria favorita. Falaste-me sobre a tua pós graduação que estás a tirar e eu falei-te do meu curso e da minha vidinha no estrangeiro. Falei-te da falta que me fazias lá. E tu perguntaste-me o que me faltava. E eu em tom metafórico disse-te o que me faltava mesmo era saber ouvir o meu coração muitas vezes. E tu sorriste.

O teu melhor amigo fez anos e organizou um jantar em casa a quatro. E entramos ao mesmo tempo no elevador. E enquanto subíamos para o 15º andar, deste-me uma saca de papel com um embrulho. Fizeste-me prometer que abriria assim que chegasse à minha casa. Passei a noite toda a morrer de curiosidade para saber o que continha o embrulho. E assim que cheguei a casa, no meu quarto, abri o dito embrulho. Era um estetoscópio Litmann (caro como tudo, porque tinha pesquisado no Ebay semanas antes) com as minhas iniciais gravadas. Uma mensagem acompanhava o embrulho: Para a Dra, com o desejo de que saiba (realmente) ouvir o seu coração da mesma forma que deverá ouvir o coração de outros... Usa-o bem...A.

E pronto, eu tinha dito para mim própria que jamais nenhum homem me faria voltar chorar, mas essa promessa foi impossível...uma lágrima teimosa caiu...maldito sejas!

Obrigada A.!

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