quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Caro A. (II)

Continuando a carta de 09/07/2013

Você foi um amigo da família, mas deixou de ser nosso amigo quando o meu pai adoeceu.
Sim, foi uma ou outra vez ao hospital.

Passava pela nossa casa, ia tratar dos jardins dos vizinho, uma vez que se ofereceu para isso, mas não passava não parava para dizer um ola ao meu pai que durante as poucas semanas que permaneceu em casa, ficava quase sempre na varanda do quarto. 

Na minha opinião se há algo que me assusta além da morte é o isolamento. Grande parte do dia eu e a minha irmã estávamos em aulas, a minha mãe a trabalhar e o meu pai, pessoa activa e dinâmica que era estava confinado a ficar em casa com o risco de ter alguma infecção. Você poderia perfeitamente falar um bocado com ele durante cinco minutos. Mas não. Ignorava o meu pai por completo.
Um dia alguém tinha que levar o meu pai à quimioterapia. Eu tinha um exame à primeira hora da manhã. E pedi-lhe por favor para o levar ao hospital. E você lá muito relutantemente disse que sim. Quando mais tarde eu agradeci-lhe você disse-me que não queria mais fazer esse favor. Perguntei-lhe porquê à espera que me desse a resposta de que não queria ver o meu pai a sofrer. Mas você disse-me que tinha medo de pegar o cancro. Que podia ser contagioso. De que tinha medo que a quimioterapia pudesse ter radiações que pudesse atingi-lo quando estão os dois no carro. Ignorante! Além do medo de bruxas e de ruídos estranhos você é ignorante e covarde! Prontamente lhe respondi que as únicas que poderiam pegar o cancro seria eu e a minha irmã, assim como ele o pegou do meu avô e de outros familiares. Maldita genética. 
O meu pai faleceu alguns meses depois. Você passava por nós e nem um bom dia dizia. Um dia a minha mãe lhe perguntou porquê essa sua atitude. Você teve o descaramento de dizer à viúva de que agora que o Sr. Inspector se fora, ela não valia nada. Avisou que como estava a ficar velho que não queria tomar conta do nosso jardim. Mas tomava conta dos jardins dos Srs. Engs, do Srs. Drs. que viviam mesmo lado.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe para simplesmente o ignorar. E a partir daí eu tomei a atitude de bom dia e boa tarde e mais nada. Muitas vezes você lá respondia em surdina, muitas vezes nem respondia sequer. Acabei o curso, emigrei para Espanha e cheirou-lhe a dinheiro. E começou o menina Alima para aqui e menina Alima para acolá. Mas à minha mãe e irmã nem um aceno. E eu educadamente lá lhe respondia sem dar mais azo de conversa. 

Há quando estava eu de férias com a minha mãe, estávamos as duas estendidas nos cadeirões do jardim e sugeri-lhe acabar com a relva que você já tinha plantado há muitos anos e usar alguma área para fazer uma horta. Couves, alfaces, mirtilos, morangos, pessegueiros, figueiras, diospireiros, o que seja. A mãe concordou comigo. E dedicamos uns valentes dias a arrasar grande parte do seu antigo jardim perante o seu ar de horror. Tudo isso sob a supervisão e dicas de um dos meu melhores amigos que é Eng Agrónomo. E a pouco e pouco nasceram cabaças, colhemos tomates, pimentos, rabanetes alfaces e couve galega. Das árvores de fruto que vingaram começamos a colher frutos também. O jardim onde outrora só tinha roseiras  e relva passou a ser uma horta e um campo com árvores de fruto. Se tudo correr bem voltarei a comprar uma magnólia branca. 
Esta reconstrução do jardim foi um bom argumento de estar junto com a minha mãe. Fizemos este trabalho juntas. Ambos gostamos de mexer na terra. E não sentíamos antes aquela área como nossa mas como sua porque estava personalizada à sua maneira. 

Você voltou a aproximar-se da minha mãe para dar palpites sobre a horta. Como vê que estamos a produzir com bastante quantidade, e da maneira como eu o conheço, deduzo que está à espera de levar alguns vegetais e frutos para casa. Mas prefiro dar aos amigos do que a si. Sei que já entrou no jardim para ir colher alguns frutos pela calada. O problema é que a cadela sabe dar sinal o que fez com que a mulher-a-dias que estava em casa o visse pela janela com um pau para afastar a cadela. 

Amigo da onça é uma boa definição que tenho quando penso em pessoas como você. 

E agora quando me viu que cheguei para férias veio com toda a amabilidade do mundo para mim. Até de doutora me chamou. Mas insensível e cabra como sou não lhe consigo sequer dar um sorriso. Bom dia e boa tarde bastam-lhe. Seguramente devem ser efeitos da radiação da quimioterapia que apanhei do meu pai.


Alima

1 impressões:

S* disse...

É tão triste quando aqueles que julgamos nossos amigos se afastam quando mais precisamos.

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