sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Querido L.

Durante aquele nosso café na esplanada junto à Sé recordamos também a senhora M.

A senhora M. foi uma das eternas criadas da casa dos avós. Não casou, não teve filhos, adoptou os nossos pais e a nós próprios como filhos e netos de coração. Era minhota de gema. Tinha o típico buço e a pele escura, fruto do trabalho de campo. Usava sempre um puxo no alto da cabeça.

A senhora M. cozinhava divinamente. Se a ambrósia é o nectar dos deuses, os cozinhados da senhora M era o nectar do mais consolado mortal. Talvez seja graças a ela que a minha mãe aprendeu a cozinhar tão bem, uma vez que a nossa avó nem fritar um ovo deve saber.

E por falar em fritar ovos, esse era um dos meus petiscos favoritos feitos pela senhora M. Adorava quando visitava os nossos avós, e a senhora M., sempre vestida de azul ou de negro, com o avental de flores estampadas me arrastava até à velha cozinha de estilo minhoto, onde me sentava à grande mesa com bancos de correr. E então ela punha uma toalha de linho, um prato de barro tosco e um copo de vidro grosso e uns talheres de aço. E no prato ela punha sempre um ovo estrelado com açúcar. Às vezes deitava umas gotas de vinho do porto e mel. E para mim, mesmo não tendo fome nenhuma, era um autentico pitéu saber que estava a comer ovos estrelados que em vez de ter sal, tinha açúcar...E sorria quando me via a comer com satisfação.

Que saudades tenho daquela cozinha minhota... O forno a lenha a um canto, completamente enegrecido; a lareira que era feita no chão de granito; o cheiro constante a enchidos no fumeiro; a taça já embeiçada onde tinha sempre maças e laranjas que repousava a meio da grande mesa; o cheiro a castanhas assadas e a pinhões que se sentia no outono e no inverno que ela tão cuidadosamente metia no borralho, aquele grande armário que escondia uma parede onde estavam guardadas as bolachas, as compotas caseiras e marmeladas; aquele beiral em cima da chaminé da cozinha cheio de loiça típica, o cheiro constante a limonete, cidreira e alecrim que estava sempre no beiral da janela a secar, pronto para ser usado para chás e temperos...

E lembras-te dos Natais que passávamos naquela casa? A pobre stressava bastante quando vinha a ajuda e trabalho extra, entrava em parafusos quando nos sentávamos à lareira para grelhar o bacalhau....

Um dia a senhora M. deixou de ser aquela mulher activa. Passou a ter lapsos de memória e a ter fraqueza nas pernas. Teve que se reformar. Voltou para a sua casinha lá na aldeia como reformada. Um dia deram com ela morta.

E a velha cozinha, por falta de obras deixou de ser usada à espera do futuro herdeiro.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ao P.

Voltamos a ser amigos há meia dúzia de semanas. E desde então trocamos centenas de sms.
No outro dia apareceste na praia onde eu e a minha mãe estávamos instaladas.
A mãe não te reconheceu à primeira vista porque a ultima vez que te viu foi há quase vinte anos. E a ultima vez que falamos em ti, foi após aquele nosso café organizado pelas nossas mães no qual eu descrevi-o à minha mãe como desastroso. Menti-lhe.

E sentados na minha toalha a escassos metros da minha mãe conversamos imenso.
Confidenciaste-me algo que eu desde então desconhecia: nasceste em África. E eu no meu intimo sorri com essa revelação tua, uma vez que é sonhara duas noites antes com África. E contigo. Afinal sempre foi o meu continente favorito mesmo nunca o tendo visitado. E tu o meu amigo de infância com quem vi n de vezes o Rei Leão e Os Deuses devem estar Loucos.

E confidenciaste também que te envolveras sentimentalmente com uma rapariga há uns anos.
E quando falaste sobre ela descobri que ela estudou comigo no meu curso. No meu ano. Que partimos juntas para Barcelona. Que trabalhamos juntas no mesmo hospital. E que durante uns meses dividimos o mesmo tecto. E que até passaste duas noites na nossa casa em Barcelona justamente numa fase em que eu dobrava turnos e tinha mais de um emprego. E que só viste a companheira de casa dessa rapariga uma vez de roupante quando ela entrou em casa, disse-te "olá" e se enfiou no quarto para dormir.

A companheira de casa dessa rapariga era eu.

Estivemos tão perto um do outro e não sabíamos. Provavelmente não seriamos capazes de reconhecermos um ao outro.

E quando penso nisso faz-me pensar no quanto se diverte Deus com estes joguinhos. Tal e qual como nos filmes indianos...

Quando te foste embora a minha mãe perguntou-me quem tu eras. Respondi-lhe um velho amigo de infãncia. O velho P. com quem via o Rei Leão.

A mãe pouco tempo depois organizou jantar entre todos nós como sabes... :)

Alima

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Querido L.

Ontem à noite reencontramo-nos numa esplanada em frente à Sé.
És dos meus primos favoritos e por uma questão geográfica e de pertencermos a grupos de amigos diferentes fez com que nos separássemos um do outro. Ontem sentámo-nos na mesma mesa com o meu grupo de amigos. Falamos das nossas aventuras do passado, das nossas brincadeiras de infância. E sem mais nem menos, conseguiste invocar uma personagem que fez parte da minha infância mas que a pouco e pouco fui esquecendo: o tio H.

O tio H. era casado com uma tia da nossa avó. Uma vez que eles não tiveram filhos, em velhos ficaram ao cuidado da nossa avó. Não me recordo bem quando ele faleceu. Talvez eu tivesse uns seis anos de idade. Mas lembro-me daquele senhor que foi uma espécie de bisavô para nós. Se fechar os olhos ainda consigo recordar-me dele, sentado num cadeirão na varanda minhota na casa dos nossos avós. Recordo-me que antes daquela varanda ser restaurada, era feita de tabuinhas vermelhas. O chão era também feito de madeira. Ao fundo da varanda havia um quarto que era usado pelos criados da casa mas que posteriormente tornou-se o quarto do tear. A varanda, do comprimento da casa velha, tinha duas enormes caixas de madeira, onde numa estavam guardadas as carpetes de trapos e linhos e noutra, tipo masseira, tinha frutos secos, normalmente nozes rançosas.
A meio da varanda, repousavam dois cadeirões de palha. E para cobrir o chão esburacado pelo tempo, estava uma carpete deita de corda. E é só nessa varanda que me recordo do tio H. sentado nesses cadeirões de palha. Era um velhinho sempre muito aprumado. Sempre usava gravata e estava sempre acompanhado por uma bengalinha e uma boina. Não era um homem de muitas falas.
Lembro-me que ainda não andava na escola e de ter passado um fim de semana na casa dos nossos avós porque os meus pais tinham feito uma viagem qualquer. E recordo-me que morria de tédio na casa deles sem nada para fazer. E para matar esse tédio sentava-me na varanda com livros de colorir e lápis de cor. E o tio H. que permanecia lá sempre sentado, calado e mudo, começou a contar-me histórias da vida dele. Muitos desses relatos só fizeram realmente sentido quando aprendi História muitos anos mais tarde. Mas lembro-me da doçura com que ele contava as coisas.
Lembro-me de ele me dizer (e tu confirmaste) que  foi um dos muitos portugueses que combateu durante a I Guerra Mundial. Foi um dos prisioneiros da Batalha de La Lys. Que os tempos foram tão difíceis como prisioneiro em que a sua alimentação se resumia em troços de couves e mesmo lavadura dos porcos. Uma prova viva que existia lá por casa era a máscara de gás que ele tão religiosamente conservava no quarto. E que o nosso bisavô, que era um companheiro de farra do tio H., escapou a essa guerra porque provocou feridas nas pernas e lhes pôs vinha d'alho para que não se cicatrizassem. E bem que morreu com essas feridas muitos anos mais tarde.
Recordo-me de ele me contar que se casou com a  esposa, tinham já mais de quarenta anos. Que no período de namoro, ele teve a audácia de lhe roubar um beijo, e ela esbaforida, correu para casa para lavar a boca com sabão. Que sempre dormiram em camas separadas. Que comiam na mesma mesa cada um à cabeceira. Deduzo que a velha tia R. que morreu sem antes a podermos conhecer, pensasse que os bebés vinham das couves, uma vez que não teve qualquer intimidade com o marido.

Seja como for, não me recordo da morte do tio H. Mas pelos meus cálculos ele morreu com cerca de noventa anos. Não faço ideia onde ele estará sepultado. E sim, primo L., as minhas recordações sobre esta personagem estavam já bem enterradas na minha memória, tal como de uma tempestade no deserto se tratasse. Foi bom desenterrá-las contigo. Tal como foi bom desenterrar outras recordações que falamos ontem e que escreverei posteriormente noutras cartas.

Um beijo da tua prima,
Alima

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Querido Pai,

Há uns três anos a madrinha de baptismo da mãe quinou. Não houve grande choradeira porque a velha era má como as cobras e estava a caminho dos cem anos. Era um poço de ressabiamento que até metia aflição. É graças a ela que sei que não quero morrer solteira.

Seja como for, velha e sem filhos, há cerca de quarenta anos comprou uma casa contígua a outra. A casa que anteriormente era uma só, foi dividida em duas partes por motivos de herança. E na câmara ao fazer o registo da nova propriedade dela fez com que, por erro, as duas casas fizessem parte de um único artigo.
Acontece que a velha quinou, e deixou em testamento que a casa fosse para os três afilhados que amadrinhou. Como a casa está resumida a quatro paredes a desmoronar numa aldeia minhota, os afilhados que graças a eles não estão assim tão mal de vida, ainda não quiseram fazer partilhas da casa uma vez que implicaria impostos.


Acontece que a casa ao lado entrou em partilhas. E quem herdou a casa ao lado resolveu restaurar a casa. Foi então à Câmara Municipal para levantar licenças e não sei quê e constatou que a casa dos pais estava no mesmo artigo que a casa da madrinha da mãe. Que é impossível dividir as duas casas em dois artigos a não ser que as duas casas tenham o mesmo proprietário.

E armados em chicos espertos e cheios de graveto resolveram falar com os herdeiros da casa ao lado.

Souberam que a mãe estava na aldeia de visita à casa da avó.

Eles apareceram no quintal da avó. Eu estava com as calças e a tshirt mais velha que tinha em casa, minha indumentária favorita para lavar e aspirar o carro.
Educadamente cumprimentaram-me e pediram-me para que fosse possível falar com a mãe.
Chamei a mãe e ela rapidamente os instalou no salão de visitas da casa da avó. Pediu-me para que eu permanecesse com ela lado a lado.

Pai, o discurso dos fulanos foi das coisas mais hilariantes que eu ouvi. Topei logo à distância que eles eram emigrantes pelo tipo de roupa que usavam e pelo carro que tinham estacionado perto do portão da casa.
Então cheios de salamaneques puseram-se com um discurso carérrimo perante mim e a mãe. Muitas palavras terminadas em mente foram ditas. Palavras como evidentemente, certamente, exuastivamente. Palavras como idónea, ténue e implícito. Expressões como solucionar o problema e o problema será solucionado. E lá me mordia toda para não rir na cara deles pelo esforço que eles tiveram em descrever todo aquele vocabulário.

Basicamente o que eles queriam era explicar a situação complexa em que se encontravam e que queriam solucionar sem grandes conflitos nem tumultos a situação da casa.
Disseram que falaram com um advogado que lhes deu duas soluções:
"Ou vendemos a nossa casa, ou compramos a vossa casa", disseram eles com um arzinho de riso do tipo "Vocês não têm hipótese, vão ter mesmo que vender a casa!!!!"

A mãe que apesar de ser um ser humano inteligente, bloqueia em situações destas, nada disse.
Eu olhei para a mãe à espera que ela reagisse, mas como em três segundos depois ela não tinha aberto a boca, virei-me para eles e disse:
"Pois muito bem, quanto é que vocês querem pela vossa casa?"

Ora por essa pergunta eles não estavam à espera. O discurso caro que eles tinham aplicado começou a embaratecer. Pigarrearam q.b. até que um:
- Oh menina, mas a nossa casa não está a venda!
- Tem graça que a da minha mãe e dos outros também não!- digo-lhe
- Oh menina, mas você está interessada na casa, quer comprá-la, é?
- Diga-me o preço!- respondo-lhe. Como é obvio não estamos interessadas. Foi mais para os assustar.
- Não digo porque não está à venda!- grita-me o fulano. 
- Como já lhe disse a do lado também não. - respondo-lhe.
- Mas se os herdeiros da velha a quiserem vender, quanto é que vocês vão pedir? Digam um número. - Diz o outro fulano.
- Oh chefe, se o futuro da casa ainda não foi discutido entre os afilhados, eu não lhe posso dar nenhum número!- disse a mãe que (finalmente) reagiu.

Então os dois fulanos vieram com o discurso do quanto trabalham em França bla bla bla, de que gostariam de finalmente restaurar a casinha. E a minha mãe por momentos apiedou-se. Esquecera-se de que eles vieram com um discurso do tipo ah e tal nós até sabemos algum vocabulário caro e de que percebemos desta merda apesar de trabalharmos de pau e picareta em França e que eles vieram com o discurso do "Ou vendem ou compram!"

Posto isto foram-se embora com o rabinho entre as pernas. Mas levaram do recado de que se querem tratar realmente bem do assunto terão que contactar os três afilhados ao mesmo tempo para que seja possível dar uma solução à coisa. 

Pai, realmente eu compreendo o problema que eles estão a ter mas tira-me do sério cruzar-me com pessoas que se acham realmente mais espertas que os outros. Especialmente que se acham mais esperta que eu. Reconheço que existem pessoas mais inteligentes que eu. Mas essas normalmente agem com humildade. Uma humildade que eu reconheço que muitas vezes que não consigo ter. Agora que penso nisso, seguramente eles lá acharam que eu, com a roupa-mais-velha-de sempre e a mãe que estava toda suja e desgrenhada após de ter ido apanhar fruta, lá pensaram que éramos umas parolitas autênticas. Do tipo "estas duas saloias com duas de treta e são enganadinhas". 

Como daquela vez em que uns estudantes de engenharia foram pedir informações ao tasco na sua aldeia natal. O pai estava com a roupa mais velha que tinha porque na altura estávamos a restaurar a casa. Recordo-me que eles queriam chegar à barragem através de uma carta topográfica. E o pai pediu a carta e esteve-lhes a explicar como chegar lá com o auxilio da carta. Falou em altitude e longitude. Falou em zénites, meridianos e paralelos. Explicou o significado daqueles símbolos todos. E até pediu um compasso a um dos alunos para explicar como calcular a distância entre um ponto ao outro.
E no fim de uma explicação fantástica da sua parte, que eu com os meus sete anos ouvi, o professor que estava com os estudantes de engenharia perguntou-lhe de forma altiva: "Mas como caralho você percebe desta merda?". E o pai sorriu e disse-lhe que não passava de um mero pastor com a 4ª classe mal feita...Um pastor mal vestido, com barba de três dias que percebia de cartas topográficas militares.

Alima


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Querido Pai,

Ontem de manhã rumamos a Viana do Castelo.
Confesso que foi a primeira vez que recordo-me em ir a Viana no dia com mais afluência das festas da Sra da Agonia. E como este ano estamos numa de passear lá fomos nós até norte. Saímos bem cedo para arranjar estacionamento. E como sabíamos que iríamos estar muito tempo de pé fomos com calçado beeeem confortável. Ainda pensamos em ir de comboio mas no nosso Portugal andar de comboio em termos de preço realmente não compensa.

Pessoalmente não sou grande fã da cidade de Viana. Enquanto que em Braga, Guimarães e outras cidades e vilas do Alto Minho as pessoas e as autarquias têm um grande cuidado para preservar as fachadas no centro histórico, julgo que em Viana esse cuidado não é assim tão grande. Além disso
é uma cidade que apresenta uma arquitectura com pouca ostentação. Faz falta uns edifícios e umas praças que nos faça suspirar.
No entanto gosto de ir a Viana pelas recordações que me traz. Íamos com alguma frequência quando eras vivo para almoçar ou jantar numa marisqueira perto da cidade em festas familiares. Ou então quando fazíamos picnics no monte de Sta Luzia. Ou então quando eu e um namorado que tive que volta e meia fugíamos para Viana...
Seja como for, toda a festa em si fez com que eu esquecesse a minha perspectiva crítica em relação à arquitectura da cidade. Apesar da confusão, amei todas as horas que passamos lá. Absorvi por completo toda a tradição do meu Minho que tanto amo e que tanto sinto falta quando estou fora do país.
Quando era miúda achava parolo alguém estar vestido com o traje de rancho folclórico e que até ouvisse e dançasse as músicas de ranchos. O problema é que cresci e agora acho lindíssimo ver esses trajes. E que apesar de continuar a não ser adepta de ranchos folclóricos, sei que sei muitas modinhas. E reconheço que ainda bem que haja pessoas que continuam a seguir estas tradições. Porque são elas que contam a história de um país. E de um povo.

A mãe ofereceu-me uns brincos estilo filigrana em metal dourado. Gosto imenso deles. E como grande parte das mulheres tinham brincos de filigrana postos, eu fiz o mesmo também.

Cantou Amália e outros tantos que

"...Se o meu sangue náo me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana..."


Nós já fomos a Viana. E voltaremos.

sábado, 17 de agosto de 2013

Carta ao A.

Já nos conhecemos há alguns anos. Tu és o melhor amigo do agora marido da minha melhor amiga. E como tal, amigos da vida boémia, desde logo começamos a sair os quatro: eles, tu e eu.

No entanto por muito que todos os nossos amigos façam figas para que possamos um dia vir a ser um casal, acho que concordas comigo: como amigos que somos, sabemos divertir-nos a valer. Amo-te tanto como um amigo que um dia que a gente eventualmente possa vir a trocar um beijo a sério, receio que a nossa amizade saia lesada. E momentos para o tal beijo que nunca trocamos foram muitos e bons. E sinto-me feliz por saber que, solteiros e descomprometidos que somos, às vezes temos programas românticos a dois como ir ao cinema, jantar fora num restaurante exótico, terminar a noite abraçados ao som de um bar com música romântica de fundo e que realmente nada tenha acontecido. Falamos constantemente pelo skype. E mais e mais depois que nasceu a nossa sobrinha L., já que o casal está demasiado embevecido com a cachopa e já não tem grande pedalada para nos acompanhar para a farra. Aliás, tu ligaste de propósito para mim quando a nossa sobrinha nasceu para dar a boa nova. 
Volta e meia espicaço-te com a vontade de conhecer a tua namorada que sei muito bem que não existe. E tu dizes que ela ainda está no forno. És alguns anos mais velho que eu e todos os teus amigos já são casados e pais de filhos. E mesmo assim não te importas. 

Mal eu cheguei a Portugal e tu estavas de fim de semana em casa, fomos jantar juntos na nossa cervejaria favorita. Falaste-me sobre a tua pós graduação que estás a tirar e eu falei-te do meu curso e da minha vidinha no estrangeiro. Falei-te da falta que me fazias lá. E tu perguntaste-me o que me faltava. E eu em tom metafórico disse-te o que me faltava mesmo era saber ouvir o meu coração muitas vezes. E tu sorriste.

O teu melhor amigo fez anos e organizou um jantar em casa a quatro. E entramos ao mesmo tempo no elevador. E enquanto subíamos para o 15º andar, deste-me uma saca de papel com um embrulho. Fizeste-me prometer que abriria assim que chegasse à minha casa. Passei a noite toda a morrer de curiosidade para saber o que continha o embrulho. E assim que cheguei a casa, no meu quarto, abri o dito embrulho. Era um estetoscópio Litmann (caro como tudo, porque tinha pesquisado no Ebay semanas antes) com as minhas iniciais gravadas. Uma mensagem acompanhava o embrulho: Para a Dra, com o desejo de que saiba (realmente) ouvir o seu coração da mesma forma que deverá ouvir o coração de outros... Usa-o bem...A.

E pronto, eu tinha dito para mim própria que jamais nenhum homem me faria voltar chorar, mas essa promessa foi impossível...uma lágrima teimosa caiu...maldito sejas!

Obrigada A.!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Querido Pai

No fim de semana que se passou foi a festa na sua aldeia.

Estive com a sua irmã, o seu cunhado e o seu punhado de primos e tios. Cumprimentei alguns dos seus amigos de infância. Dei até um beijinho à sua eterna ex-namorada. 

A mãe sempre me ensinou a agir como uma menina de boas maneiras, mas durante esse fim-de-semana ela fecha um bocadinho os olhos: ela sabe que gosto de estar na companhia dos nossos primos que tiveram que abandonar os estudos e emigrar muito novos. Não são primos directos, porque da sua parte não tenho. Eles são genuínos. Não sabem conjugar os verbos adequadamente. Volta e meia ficam encravados com o português. Mas no rosto deles está bem transparente a alegria de estarmos juntos porque tenho histórias diferentes das que eles sabem. Porque sei rir de anedotas mais brejeiras. Porque não recuso uma malga de vinho encostados aos pipos da adega. Porque não recuso um pezinho de dança ao som do Quim Barreiros com eles. Porque lá faço uma ginástica para ir comer o cabrito à casa de um e o café e sobremesas à casa doutro. E porque ao contrario dos meus tios e primos directos que tenho da parte da mãe, estes que são de 2ª ou 3ª geração sentem muito orgulho em nós e o dizem de boca cheia perante toda a aldeia (o que às vezes deixam-me envergonhada!!!). Afinal há laços bem mais sólidos que os de sangue. E sabe tão bem acarinhar e ser acarinhada por quem realmente merece.

Eles dizem constantemente que sou muito mais parecida consigo do que a minha irmã. Isso deixa-me radiante. 

Basicamente só nos vemos um fim-de-semana por ano. Mas é um fim de semana suficiente para repararmos que estamos a ficar cada vez mais velhos. Que apesar de teres ficado pelo caminho, a vida continua. Que as coisas já não são como quando o pai era miúdo. Ou então quando era miúda. 

A aldeia está cada vez mais deserta durante todo o ano. Quase todos os meses lá sabemos que fulano ou sicrana pereceram. Mas agora no mês de Agosto, a aldeia que durante todo o ano é constituída por meia dúzia de casais e quatro ou cinco viúvas, fica constituída por centenas de emigrantes. A aldeia deixa de cheirar a fumo das lareiras das tardes e noites de inverno ou a pó e mofo das casas fechadas e passa a cheirar a sardinha assada e a casas asseadas. Deixa-se de ouvir o silêncio e muitas vezes a vento agreste e passa-se a ouvir risos, músicas e conversas até às tantas da madrugada.

Mas o mês já vai a meio. 

E mais uma semana e o encanto começa a desaparecer.

E para o ano teremos outra festa na aldeia.

Sinto tanto a tua falta, pai,


Alima

sábado, 10 de agosto de 2013

Querida avó C.

Faz hoje 16 anos que partiste.
Sempre foste a avózinha querida que tanto contrastava com a minha avó materna.
Apesar de teres morrido relativamente nova, para mim sempre foste uma autêntica velhinha. Por causa dos ares da serra, tinhas muitas rugas, usavas sempre azul escuro ou preto. Tinhas sempre um lenço na cabeça, típico das mulheres mais velhas da tua zona do país. Sinceramente conto pelos dedos de uma mão as vezes que vi o teu cabelo branquinho: uma em que estávamos sentados à lareira em que eu na brincadeira te tirei o lenço, outra em que te vi de camisa de noite pronta para ir dormir, outra em que te vi a entrançar o cabelo no dia em que faleceu o teu irmão e estavas a arranjar-te para ir ao funeral e a última, na derradeira despedida, quando estavas no caixão...

Pensar em ti e na pessoa que foste faz-me pensar em algo místico. Falavas muito em anjos e em santos. Disseste uma vez que tinhas visto perdidas no meio do monte quatro crianças com túnicas brancas a brincar. Dizias que eram os teus quatro filhos que pereceram com menos de três anos de idade. Dizias que a Natureza dava-te sinal quando as coisas iriam correr bem. Como daquela vez em que a tua filha que com menos de trinta anos estava hospitalizada com um AVC hemorrágico e já nas mãos de Deus, e tu disseste que uma borboleta branca te veio incomodar quando rezavas na capela. E que a tia T. a partir desse dia teve francas melhorias até ficar quase completamente recuperada.
Actualmente, quando penso no que dizias e como descrente que me tornei, julgo que talvez padecesses algo como uma esquizofrenia. Mas de uma coisa é certa: dizias que querias morrer no dia da festa da tua terra. De preferência cercada de anjos.  E Deus fez-te a vontade.
Trabalhaste como uma escrava a carregar à cabeça cestos e cestos de volfrâmio das minhas. Foste um bom testemunho sobre os horrores que se passavam no tempo das minas.
Não sabias ler nem escrever. Mas sabias todas as rezas de cor e salteado. E contavas a história da Cabacinha e do Lobo melhor que ninguém.
Tu tinhas um vocabulário que eu nunca usava. Três palavras recordo-me assim de momento: Melete para mim é pão, riba para mim era cima, bota para mim era deita.
Ainda me lembro das malgas de leite com Ricoré que me levavas à cama quando eu era pequena. O leite tinha acabado de ser ordenhado das vacas. E o Ricoré era das caixas que os emigrantes te traziam sempre de França. E era sagrado: sempre que íamos almoçar na tua casa, no primeiro dia servias massa esparguete com frango e aletria.


No dia antes de partires, estiveste a temperar o cabrito, a descascar batatas que deveriam ser cozinhados no dia da festa. À noite, já cansada, sentaste-te connosco e estivemos em família a contar anedotas e em amena cavaqueira. Foste dormir cedo na tua casa. E começaste a meio da noite a ter dificuldade respiratória. Então os vizinhos foram a correr chamar o meu pai que dormia na nossa casa ainda longe da tua para chamar uma ambulância e acudir-te (1997, não havia rede nos telemóveis na aldeia!). Cerca de meia hora levou a ambulância da vila a chegar até ti. Uma hora levou para te levar ao hospital mais próximo. com o mínimo de condições nas Urgências (e com o actual encerramento das Urgências, o Hospital mais próximo fica a duas horas em curva e contra curva!). Ainda chegaste viva ao hospital mas morreste minutos depois, afogada pelos teu próprio pulmões. Embolia Pulmonar, foi o que me disseram na altura. E eu não sabia o que significa isso.
Recordo-me muito bem que mal o carro entrava em andamento enjoavas. Parecia que morrias com as náuseas. E recordo-me que quando seguimos a carrinha funerária para a tua derradeira viagem eu pensava para os meus botões que desta vez já que estavas morta não irias enjoar mesmo...
Foste a primeira pessoa que vi morta. E depois de ti que me recordo, acho que foi o teu filho nove anos depois... Como é possível????

Da tua cachopita,
Alima

terça-feira, 6 de agosto de 2013

À Miúda,

Todos os anos faço uma espécie de lista de desejos para o Ano Novo.
E desde há alguns anos o desejo de salvar uma vida está incluído na lista.
Foste o meu desejo concretizado de 2012. Eras mais um dos muitos animais abandonados. Tinhas algumas peladas no teu corpo e algumas carraças. O teu pêlo estava muito mal tratado. Trouxe-te para casa. Na viagem até casa, eu meti-te na mala do carro e tu conseguiste passar para o banco de trás. Sentaste-te no banco de trás perto da janela e ficaste muito quieta. Isso fez-me pensar que provavelmente já estavas habituada a andar de carro.

Antes da mãe chegar dei-te um banho, pus-te uma coleira e escovei bem o teu pêlo. Passei na farmácia e comprei-te um vermífugo que te meti a contragosto na boca. Ficaste com um aspecto muito mais sadio. Quando a mãe chegou e viu que não eras assim tão pequena como eu te descrevi pelo telefone ameaçou que te poria no canil, porque não queria um cão assim tão grande em casa. Na verdade até és pequena, claro que comparando com os cães que já lá viviam em casa eras uma gigante.

Ganhaste lanço perto do muro e lá o conseguiste saltar. Eu não sabia como te chamar para entrares de novo jardim, afinal ainda não tinhas nome. E a minha mãe da varanda da sala disse-me "esquece, ela é vadia" e acrescentou " Podes tirar as meninas à Brandoa mas nunca a Brandoa às meninas... já não a consegues domesticar". O que é certo é que ao fim de uma hora, depois de teres corrido à fartazana na rua, deitaste-te em frente ao portão à espera de entrares. E quando te abrimos o portão, entraste calada e muda. E o facto de seres uma eterna rebelde faz com que a tua alimentação não possa ser à base de ração, porque simplesmente não comes. Gostas de sopa e de restos de comida apenas. E quando estamos a comer uma bolacha, tu tentas hipnotizar-nos para ver se cai a bolacha ao chão ou umas migalhas dela. Tonta.

Uma vez mordeste a mãe num braço. E a mãe ligou-me a contar o sucedido. Chegamos à conclusão que não te podemos contrariar. És dona do teu próprio focinho. Mas apesar de tudo és uma fonte de meiguice e brincadeira. Pegas na bola de ténis que te dei e vens com ela para junto de nós como se estivesses a chamar-nos para brincar. Adoras deitar-te de barriga pra cima e adoras festas. A tua forma de pedir mimos é a morder-nos a mão de mansinho. Não gostas que te mexamos nas orelhas. Quando me mordeste a sério, aprendi isso. Não gostas que te peguemos ao colo. A trinca que deste à mãe fez com que aprendêssemos isso.

Uma coisa que fez com que te adoptássemos como nossa foi o teu sentido de lealdade e protecção que invocas. Pobre daquele que abra o portão sem que a gente não esteja por perto. Ficas uma fera com desconhecidos e só acalmas quando alguém da casa te diz que está tudo bem, para não te enervares. E lembras-te quando um tio da mãe entrou pelo portão adentro sem antes de tocar a campainha e tu deste-lhe duas dentadas? Tive que lhe fazer um curativo na mão. Ele estava super aborrecido contigo. Tive que lhe mostrar todos os documentos de que eras nossa cadela legalmente, assim como o registo de vacinas. E tive que lhe avisar que para uma próxima vez antes de entrar pelo portão de alguém sem tocar a campainha que pense duas vezes porque a placa de cuidado com o cão estava bem legível.
Gostas de te estender ao sol sob a relva. Adoras ficar de barriga para cima. Adoras bonecos que façam ruído. Ou então bolas. Adoras as nossas caminhadas ao final da tarde: eu de mp3 e tu a apreciar cada momento do nosso passeio. Adoras quando uma de nós chega a casa com sacos de compras e ao caminhar pelo jardim vens atrás de nós dando pequenas dentadas no nosso traseiro.

Todos os dias pergunto por ti. Às vezes a mãe até mostra a câmara para onde estás deitada. Adoras deitar-te no sofá da cozinha. E quando estamos todos em casa e queremos ir para o sofá ver tv, tu ficas toda estendida e não deixas sentar ninguém. E quando alguém se senta perto de ti e tu queres mais espaço, começas a morder-nos as coxas.
Como sabes estás interdita ao resto da casa. Mas mesmo assim volta e meia tentas aventurar-te.

Gosto imenso de ti.
Cuida-te,
Alima

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Querida B.

A minha mãe nos tempos em que estudou no Porto, tinha como uma das suas melhores amigas, a S.
A minha mãe tornou-se professora e a S. tornou-se pediatra.
A amizade entre elas durou anos uma vez que a S. foi a minha pediatra e da minha irmã.
Por mera coincidência, eu estudava piano com o filho da S., o P., na mesma escola de música. Como tínhamos mais ou menos a mesma idade, ele era uma espécie de namoradinho nos meus tempos de catraia: brincávamos muito, ele volta e meia passava as tardes na minha casa ou eu na casa dele a ver cassetes de vídeo da Disney... enfim, coisas de crianças...

 Acontece que o P. foi viver para Famalicão com os pais e eu deixei-o de ver... E como ainda não estávamos na era dos telemóveis, as nossas mães perderam parcialmente o contacto, e típico das crianças, começamos a esquecer os amigos de infância... E apesar de estarmos geograficamente perto e (pelos vistos) de até termos frequentado a mesma universidade, nunca mais lhe pus a vista em cima. 

Quase vinte anos mais tarde, a minha mãe cruzou-se com a S. no Porto, em plena azáfama de saldos.
Conversa vai, conversa vem e elas ficaram a saber o que foi feito dos filhos uma da outra.
E sabendo que eu estou solteiríssima e o P. solteirissimo, resolveram juntar as crias, tal casamenteiras para ver no que ia dar.
A minha mãe, sabendo que eu não teria coragem para ir ter com o P. só porque fui mandada, tentou fazer com que esse encontro fosse um feliz acaso. O problema é que a minha irmã deu com a língua dos dentes. E claro, fiquei fula com as duas matrafonas casamenteiras. Mas mesmo assim apareci no café que a minha mãe tinha marcado.


E lá estava o P.: mais alto, os mesmos olhos com olheiras, o mesmo sorriso de garoto endiabrado. Ok OK, não era o P. de há vinte anos: tinha crescido imenso. E já não tinha o cabelo curto, tinha o cabelo ligeiramente comprido, com alguns caracóis. (quem diria que ele fosse homem  de caracóis!?)
Olhamos um para o outro e sorrimos como imbecis. Não foi preciso usar qualquer dress code: ainda soubemos reconhecer um ao outro. (e eu só pensava no quanto a mãe dele lhe deveria ter subornado para se meter numa destas...

Iniciar a conversa foi um tanto complicado. Armados em tímidos, olhávamos para as nossas respectivas mãos, assim numa de sem jeito. Não sabíamos propriamente como começar. Nem sabíamos como nos deveríamos cumprimentar. Sentamos-nos à frente um do outro naquela mesa de café completamente perdidos.
Tive que ser eu a quebrar o gelo. Pedi-lhe desculpa pela minha mãe, mesmo não sabendo se foi ela a grande mentora deste encontro. E ele sorriu...

Conversamos talvez durante horas naquele café. Falamos da nossa vida académica (ele é um salta-engenharias, com 29 anos ainda não acabou qualquer curso), de viagens, de momentos que passamos juntos. Falamos das nossas relações anteriores e dos nossos amigos. Falamos de piano e dos professores que tivemos de piano. Ele comentou-me que se tornou um pro em guitarra. Eu disse-lhe que aprendi acordeão e cavaquinho com o meu pai e o meu tio. E que fui uma autodidacta na guitarra. Falámos de coisas tão triviais que pareciam assuntos que tenho com amigos mais próximos.
Demos as mãos enquanto caminhávamos pela avenida fora. Tal como éramos crianças.
Conversamos, falámos, rimos e gesticulamos imenso.
Ficamos com o contacto um do outro. E desde então temos trocado imensas sms.

A minha mãe assim que cheguei a casa fartou-se de fazer-me perguntas... Como foi? Que tal está ele? etc etc... Eu sacana que consigo ser disse-lhe que o date foi pavoroso. Dei-lhe respostas evasivas. E rapidamente ela acabou com as perguntas. Ela já sabe que quando eu quero ela não consegue apanhar nenhuma informação...

E sim, B., estamos a falar do mesmo P. que estava na esplanada ontem a noite connosco e que te apresentei... porque o P. já faz parte da malta...

Alima


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Querida Avó

Na semana passada, como se recorda, celebramos a sua festa de aniversário. Talvez fosse devido ao calor ou ao agravamento da sua demência, a avó estava com alguns lapsos de memória.

Num lar de idosos onde trabalhava em Barcelona para ganhar alguns trocados, existia uma idosa muito senil que já não conhecia ninguém, era agressiva e, coitada, pouco ou nada se poderia esperar dela. Essa idosa fora em jovem uma excelente pianista. Num cantinho do salão-de-estar do lar havia um piano que estava lá apenas como mera decoração. Um dia, desafiei a filha dessa idosa a aproximar a idosa do piano para ver qual era a sua reacção. Assim o fizemos. A velhota começou a perguntar o que fazia ali, sem realmente olhar para o piano. Então eu comecei a quebrar o gelo e pus-me a tocar a tocar uma peça de Mozart que sabia de cabeça. Consegui assim chamar a atenção à idosa que olhava fixamente para o teclado. E devagarinho ela aproximou as mãos das teclas e começou a repetir a mesma peça que eu tocava mas numa oitava acima. Fui-me afastando do piano e ela ficou sozinha nele. E tocou durante uns bons dez minutos alguns trechos de obras de compositores famosos ou não que eu identifiquei de ouvido. 

E pouco antes de começar festa, depois de ter feito as tarefas que me foram atribuídas  pela organizadora, e como tinha levado o todo terreno, desafiei a avó e a mãe a irmos até à casa dos meus bisavós. 
E lá fomos as três de jipe por aquelas estradas muito más até à casa deles. Pelo caminho parámos num campo que a avó identificou muito bem. Quando chegamos à casa, a avó teve dificuldade em reconhecer, talvez por causa das casas novas que construíram em volta. Mas quando viu a capela que fazia paredes com a casa identificou logo logo. Então contou-me uma história muito engraçada sobre aquela capela e a minha trisavó que um dia escreverei noutra carta. 

De facto eu só fui umas duas vezes àquela casa há muitos muitos anos. Basicamente só restam as paredes. O telhado já não existe. Ainda se vislumbra vestígios da varanda minhota. Ainda existe um vestígio de uma espécie de jardim com jarros que sobreviveram quase quarenta anos. Ao fundo permanece um pomar que a minha mãe tanto fala das suas memórias de infância, cheio de laranjeiras e caules mortos de figueiras, macieiras e marmeleiros. Mas o mais impressionante para mim foi ter visto no muro exterior em granito a gravação 1785... Se a casa é mesmo de 1785, já passou por guerras civis, guerras em províncias ultramarinas, guerras mundiais. Viu as tropas francesas invadirem a aldeia para saquear tudo o que fosse precioso (facto confirmado!), viu a separação entre absolutistas e liberais, o declínio da monarquia. Viu fome e pobreza na década de trinta no século XX. Viu a entrada de Portugal na CEE,... Incrível...

Então a avó, com o dedo apontava para as zonas da casa: ali era a cozinha, ali era a sala, aqui o quarto dos meus pais... 

Seja como for, a avó ficou super entusiasmada. Tão entusiasmada que até pediu-me para ir descendo o jipe até ao fundo do lugar porque ela queria ir a caminhar com a minha mãe. Esqueceu-se que sofre de tonturas e que se cansa muito.

Chegamos a casa, e ouvi alguém criticar-me por ter levado a avó a passar lá porque achavam que poderia ter sido um duro golpe para ela ver ruínas no que foi a casa onde ela nasceu. Mas a avó ficou tão contente... e tão lúcida...

Alima

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Caro A. (II)

Continuando a carta de 09/07/2013

Você foi um amigo da família, mas deixou de ser nosso amigo quando o meu pai adoeceu.
Sim, foi uma ou outra vez ao hospital.

Passava pela nossa casa, ia tratar dos jardins dos vizinho, uma vez que se ofereceu para isso, mas não passava não parava para dizer um ola ao meu pai que durante as poucas semanas que permaneceu em casa, ficava quase sempre na varanda do quarto. 

Na minha opinião se há algo que me assusta além da morte é o isolamento. Grande parte do dia eu e a minha irmã estávamos em aulas, a minha mãe a trabalhar e o meu pai, pessoa activa e dinâmica que era estava confinado a ficar em casa com o risco de ter alguma infecção. Você poderia perfeitamente falar um bocado com ele durante cinco minutos. Mas não. Ignorava o meu pai por completo.
Um dia alguém tinha que levar o meu pai à quimioterapia. Eu tinha um exame à primeira hora da manhã. E pedi-lhe por favor para o levar ao hospital. E você lá muito relutantemente disse que sim. Quando mais tarde eu agradeci-lhe você disse-me que não queria mais fazer esse favor. Perguntei-lhe porquê à espera que me desse a resposta de que não queria ver o meu pai a sofrer. Mas você disse-me que tinha medo de pegar o cancro. Que podia ser contagioso. De que tinha medo que a quimioterapia pudesse ter radiações que pudesse atingi-lo quando estão os dois no carro. Ignorante! Além do medo de bruxas e de ruídos estranhos você é ignorante e covarde! Prontamente lhe respondi que as únicas que poderiam pegar o cancro seria eu e a minha irmã, assim como ele o pegou do meu avô e de outros familiares. Maldita genética. 
O meu pai faleceu alguns meses depois. Você passava por nós e nem um bom dia dizia. Um dia a minha mãe lhe perguntou porquê essa sua atitude. Você teve o descaramento de dizer à viúva de que agora que o Sr. Inspector se fora, ela não valia nada. Avisou que como estava a ficar velho que não queria tomar conta do nosso jardim. Mas tomava conta dos jardins dos Srs. Engs, do Srs. Drs. que viviam mesmo lado.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe para simplesmente o ignorar. E a partir daí eu tomei a atitude de bom dia e boa tarde e mais nada. Muitas vezes você lá respondia em surdina, muitas vezes nem respondia sequer. Acabei o curso, emigrei para Espanha e cheirou-lhe a dinheiro. E começou o menina Alima para aqui e menina Alima para acolá. Mas à minha mãe e irmã nem um aceno. E eu educadamente lá lhe respondia sem dar mais azo de conversa. 

Há quando estava eu de férias com a minha mãe, estávamos as duas estendidas nos cadeirões do jardim e sugeri-lhe acabar com a relva que você já tinha plantado há muitos anos e usar alguma área para fazer uma horta. Couves, alfaces, mirtilos, morangos, pessegueiros, figueiras, diospireiros, o que seja. A mãe concordou comigo. E dedicamos uns valentes dias a arrasar grande parte do seu antigo jardim perante o seu ar de horror. Tudo isso sob a supervisão e dicas de um dos meu melhores amigos que é Eng Agrónomo. E a pouco e pouco nasceram cabaças, colhemos tomates, pimentos, rabanetes alfaces e couve galega. Das árvores de fruto que vingaram começamos a colher frutos também. O jardim onde outrora só tinha roseiras  e relva passou a ser uma horta e um campo com árvores de fruto. Se tudo correr bem voltarei a comprar uma magnólia branca. 
Esta reconstrução do jardim foi um bom argumento de estar junto com a minha mãe. Fizemos este trabalho juntas. Ambos gostamos de mexer na terra. E não sentíamos antes aquela área como nossa mas como sua porque estava personalizada à sua maneira. 

Você voltou a aproximar-se da minha mãe para dar palpites sobre a horta. Como vê que estamos a produzir com bastante quantidade, e da maneira como eu o conheço, deduzo que está à espera de levar alguns vegetais e frutos para casa. Mas prefiro dar aos amigos do que a si. Sei que já entrou no jardim para ir colher alguns frutos pela calada. O problema é que a cadela sabe dar sinal o que fez com que a mulher-a-dias que estava em casa o visse pela janela com um pau para afastar a cadela. 

Amigo da onça é uma boa definição que tenho quando penso em pessoas como você. 

E agora quando me viu que cheguei para férias veio com toda a amabilidade do mundo para mim. Até de doutora me chamou. Mas insensível e cabra como sou não lhe consigo sequer dar um sorriso. Bom dia e boa tarde bastam-lhe. Seguramente devem ser efeitos da radiação da quimioterapia que apanhei do meu pai.


Alima