terça-feira, 23 de julho de 2013

Querida J.

Se te recordas bem, fizemos o estágio de integração em Enfermagem juntas em 2008.
E ficamos juntas nesse estágio porque havia uma área que gostávamos em comum: Cardiologia.
Se te recordas bem, eu adorei o serviço e a dinâmica dele, mas tive um ódiozinho de estimação: o enfermeiro responsável por mim nesse estágio.
Fomos dois seres incompatíveis, tudo o que eu fazia estava sempre incorrecto, todas as perguntas que ele me fazia se eu vacilava em algumas respostas ele quase que me chamava burra, cometia pequenos erros típicos de alguma azelhice e ele via tudo como se de uma tragédia grega se tratasse. 
Pelos vistos o mal não era inteiramente meu, outros antigos estagiários sofreram nas mãos daquela personagem.

Seja como for, eu mal vi que a coisa não iria correr bem, imediatamente fui falar com o meu orientador de estágio. Comodista como ele era, disse que cabia a mim desenrascar-me, que não se ia meter nos nossos conflitos já que era amicíssimo do tal enfermeiro. Ou seja, orientação pelo orientador foi nicles. Então nos diários de aprendizagem que era a coisa mais fatela de fazer, eu descarregava as minhas frustrações, os meus receios e relatava os meus conflitos com aquele individuo nos malditos diários. E o orientador nunca me disse nada.

Um dia, estava eu a preparar a medicação sob a supervisão dele e ele diz-me "Sabes, eu não vou mesmo nada com a tua cara". Então eu, sem pensar, e já com a cabeça cheia e farta de humilhações por parte dele, disse-lhe "Tem graça, eu também não vou mesmo nada com a sua".

E pronto, ele escreveu uma cartinha ao orientador, o orientador falou com a coordenadora do 4º ano e de curso a avisar que a Alima era "uma aluna mal educada, desinteressada, chega sempre atrasada, que desconhece a teoria e era muito má na prática, que não respeita a hierarquia bla bla bla" drama, drama e drama.
E então fui convocada para uma reunião com esse pessoal todo para me dar uma lição de moral e de boas maneiras. E quanto mais eu dizia que desde logo eu tinha avisado o nosso orientador, mais eles me mandavam estar caladinha.
E pronto, até ao final do estágio fui sempre olhada com desconfiança por parte dos enfermeiros e professores e sempre com a supervisão opressiva do tal enfermeiro.
A minha nota final: 11. A pior nota que tive em todo o curso e todos os estágios. A nota tão contrastada com o teu 17 no mesmo estágio, com os mesmos pacientes, mas com a supervisão de uma enfermeira simpática que tu tiveste.

Agora em 2013, foi pedido pela minha actual faculdade para que eu fizesse um estágio de 15 dias no âmbito da cadeira que tenho que em português se intitula "Cuidados de Enfermagem" num hospital português para não perder o traquejo do português e para aprender (ou no meu caso reforçar) os conhecimentos e técnicas básicas inerentes a enfermagem e medicina, nomeadamente administração de injectáveis, algaliações, entubações nasogastricas, suturas etc etc.
Apesar de ter equivalência nessa cadeira, para ganhar créditos, deveria pelo menos receber uma assinatura num papel a dizer que fiz o tal estágio. Deveria pelo menos fazer um turno num serviço só para parecer bem e ir apalpando terreno para o meu estágio de Medicina Interna no 4º ano. 
E quando fui falar com os responsáveis dos recursos humanos do hospital, sugeriram-me alguns serviços para fazer esse turno. Eu escolhi um serviço que sempre foi o meu favorito e bem longe geográficamente daquele serviço onde fiz o meu último estágio como estudante de Enfermagem. Não queria sequer pensar que poderia cruzar-me com aquele enfermeiro.

Dia 1 e único do bendito estágio.
Entro no serviço que tinha escolhido, com a roupa do hospital que me concederam, cumprimento o pessoal de Enfermagem que estava a espera para passar o turno e a pouco e pouco começam a entrar os Enfermeiros do turno da manhã... Então a Enfermeira-Chefe fez uma espécie de apresentação, avisou o pessoal que eu só iria lá estar uma manhã, que eu também fui Enfermeira bla bla bla... Entretanto entrou uma personagem que fez parte dos meus terrores no tempo em que passava de uma estudante finalista de Enfermagem: o meu antigo supervisor!
 Pois, esqueci-me que volta e meia rodam os enfermeiros nos serviços... Fiz uma espécie de oração para ver se ele não me reconheceria, já que passaram cinco anos. Mas aquela figura tem uma boa memória... mal decorreu a passagem de turno, veio ter comigo quando eu estava a falar com um Enfermeiro: "- Então, sempre conseguiste arranjar trabalho aqui... Quem diria...Já te fartaste de Barcelona, foi?", disse-me.
E eu, dissimulada como consigo ser respondi-lhe "- Trabalhar aqui? Se começasse hoje ou daqui a um ano seria muito mau sinal, Sr. Enfermeiro"
Então o fulano que não ouvira a explicação da Enfermeira-Chefe, porque chegara atrasado: "Que raio estás aqui a  fazer então?"
Eu não lhe disse nada em concreto. Basicamente esfreguei-lhe o crachá da minha faculdade com o Medical Student no focinho nariz. "-Tenha  um excelente turno, sr Enfermeiro", disse-lhe piscando o olho. E tive um turno passado em paz. Foi bom para tirar ferrugem...

Senti-me como a personagem vivida pela Julia Roberts no filme Pretty Woman que quando ela entrou com a roupa de trabalho numa loja toda fancy, foi escorraçada pelas funcionárias, mas quando entrou um dia depois na mesma loja com roupas chiques acabou por receber toda a atenção das funcionárias... "You work with commission, right? hummm yes... Big mistake!Big! Huge!I need to make shopping now... "

Karma, J., é isso... sem vingança nem maldade... Ou então Deus tem realmente muito sentido de humor...


Não foi numa de gabar o que ando a fazer, atenção! Orgulho-me por tudo o que faço e por tudo que conquisto, como qualquer ser humano que se preze... Foi mais daquela do se eu fosse realmente burra como indirectamente chamava-me, talvez não estaria a fazer o que faço agora... 

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