segunda-feira, 15 de julho de 2013

Querida B.

Tão certo como fazer sol ou chuva, a minha mãe vai todos os sábados de manhã ao mercado. E nas suas idas ao mercado ela encontra sempre gente conhecida para dar duas de treta. Este sábado, perdida entre as lavradeiras e a marralhar o preço dos tomates e das alfaces, a minha mãe deu caras com uma senhora da terra dela. A novidade da senhora: As primas amaricanas da mãe estão em Portugal.
As primas amaricanas são primas directas da minha mãe e visitam Portugal de dois em dois anos. Sinceramente só me lembro delas no funeral do pai delas era eu catraia, mas a minha mãe sempre falou delas com um certo carinho. Eram as primas das festas e arraiais e cortaram as relações quando elas foram para a América. 

Posto isto, durante a tarde, fizemos-nos à estrada para ir visitá-las. A aldeia-natal delas situa-se perto  a poucos km do Gerês. Não é uma aldeia bonita, os acessos não são grande coisa. Mas ao fim de muitas curvas e contra-curvas e de "acho que é por aqui" mas que afinal-não-era por parte da minha mãe, lá demos com a casa da tia da mãe.
A casa, tipicamente minhota, foi restaurada há muito pouco tempo. Mantém a típica varanda minhota, a sequeira por perto, um tanque de água feito com quatro pedras de granito com água sempre a cair. Ao fundo do quintal encontra-se uma enorme oliveira que faziam sombra ao galinheiro. É uma aldeia idílica para fins-de-semana, nada mais.
E lá estavam elas, a amaricanas: todas elas bastante parecidas com a minha mãe, a mesma cor de olhos verdes, a mesma cor de pele de tão branca que se conseguem ver as veias na testa, o cabelo loiro encaracolado tipo carapinha e claro, o ligeiro peso a mais. Depois de muitos beijinhos e abraços, as primas arrastaram-nos para dentro da casa para conversar num local mais fresquinho, acompanhado por vinho verde e chouriço caseiro.

O que posso concluir sobre a conversa... Que na América é que se vive bem. Que vivem em brutas mansões com duas empregadas para limpar diariamente. Que a cozinha de uma delas é tão grande mas tão grande que tem dois fogões, e imagina cara B., dois microondas! E os frigoríficos, B? São enormes e até sai água ou sumo pela porta... Que nenhum dos filhos delas estudaram porque na América quase ninguém segue carreira universitária, mas que trabalham na Casa Branca ou no Capitólio. Ai e tal, aqui na Europa todos tem que ir para a Universidade... Está mal, está mal, isso é só para terem a mania,diziam elas. Que os carros que elas têm na América são grandes, tipo limusina. Que estão fartinhas de viajar. A Colômbia foi o último destino para uma delas. Achei piada, quando uma delas afirmava que os produtos que consumiam na América era do melhor e para comprovar isso, deram-me a provar um pedaço de chocolate. Quando me deu para virar a caixa do chocolate para ver que marca de chocolate era (porque de chocolates entendo eu!) consegui vislumbrar a marca americaníssima chamada Pingo Doce E aqueles sofás maravilhosos em que alapei o rabo? Vindos da América em contentores! Enfim, acho que a expressão à grande e à francesa esta a cair em desuso. É melhor dizer à grande e à Americana...

No caminho de volta para casa, a minha mãe comentou-me sobre o barrete que elas estavam a tentar meter-nos. Ninguém que se preze fala em quanto ganha e quanto gasta quer aqui quer na América, disse-me ela.
Foi então que tive que dar uma palmadinha no ombro da minha mãe. Comentei com ela em tom de gozo que se calhar estudar não compensa: É que nem a mãe nem nenhum dos seus irmãos que foram para a universidade têm dois microondas numa só cozinha, disse-lhe. 

Estou para ver a cara de horrorizada delas quando vierem à sardinhada cá em casa. Em toalha de plástico e pratos de barro tosco como sempre. Numa casa portuguesa, concerteza. 



4 impressões:

capitão disse...

Ai os "à" em vez de "há"!

Lia disse...

"A casa, tipicamente minhota, foi restaurada à muito pouco tempo" - troca o à por há.
Uma dica: sempre que fores falar de expressões de tempo (muito tempo, 1 mês, três semanas...) leva sempre H. :)

Alima das Cartas disse...

Outra vez a assassinar o português? Damn it!

S* disse...

ahahah

É tão bom saber desfrutar das coisas simples e grátis da vida.

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