quinta-feira, 11 de julho de 2013

Querida B.,

Agora que voltei a Portugal depois de seis meses de intenso estudo, voltamos a ser as amigas que sempre fomos antes de eu ter partido. Temos tomado regularmente cafés e temos falado de tudo e mais alguma coisa. Esta noite quando tomamos café com um grupo de amigos teus, eu fiquei seriamente preocupada com o que um deles disse. Basicamente ele é mais novo que nós, mas já é casado e pai de uma filha. Pelos vistos ele está em pensar em separar-se da esposa. O motivo: quatro anos de casado implica uma relação rotineira e cansativa. Diz ele que perdeu o calor e a tesão dos primeiros meses de casado.  Eu não sou especialista em relações, mas eu fiquei seriamente surpreendida com uma revelação destas. Quatro anos de vida em comum implica cansaço???
Segundo ele isso é comum em todos os casais. Afirmou e reforçou essa ideia diversas vezes. E foi aí que cheguei à conclusão que ele tampouco percebe de relações. E então eu tive que dar o melhor exemplo de relação conjugal sem altos e baixos: os meus pais. Pelas minhas memórias, os meus pais sempre foram muito confidentes e tinham uma relação bestial. Pareciam sempre os eternos namorados. Gostavam de dar um passeio sozinhos para namorarem. O meu pai volta e meia oferecia flores e peças de ouro à minha mãe, iam lanchar só os dois. Ok, tinham a rotina das horas para comer e dormir e a rotina dos filhos. Tinham a rotina do domingo de manhã o meu pai sair cedo para ir à caça e a minha mãe ao sábado de manhã ir ao mercado.
Isso das rotinas que têm sempre de existir. Julgo que uma relação não implica constantemente sexo. Implica amor, compreensão, companheirismo. Implica ouvir as mesmas músicas e partilhar memórias semelhantes. Implica educar e, digamos, treiná-lo de acordo com as nossas necessidades. Casar com alguém e chegar ao quarto ano de casamento a pensar em divórcio é triste. Muito triste mesmo.

Dizia ele que ela tornou-se caseira e que ele não se sentia preparado para passar toda a noite em casa. Pudera, ela é mãe. Dizia ele que ela raramente quer fazer sexo. Pudera, é mãe e trabalha a 50km de casa pelos vistos. Não é uma máquina.
Depois eu perguntei-lhe se sabia o que era o síndrome do Peter Pan. Ele disse que não sabia. Então expliquei-lhe que era mais ou menos o medo de crescer. Toda a gente na mesa, maioritariamente malta com vinte e poucos anos e com poucos conhecimentos nessa área começou a rir-se. Ele ficou sério e até aborrecido. E tu B., deste-me um beliscão na perna. Foi então que lhe expliquei que se calhar, em vez de estar sentado connosco na esplanada, deveria saber o que a esposa estaria a fazer naquele momento. Que com certeza estaria a dar de comer ou a tentar a adormecer a pequena bebé que ele orgulhosamente tinha como imagem de fundo no telemóvel. E ele ficou parvo e mudo.

E é o tipo de relação que os meus pais tiveram que eu ambiciono. Podem dizer que é uma relação a la conto de fadas, mas eu sei que ela pode existir. Algures.


Alima

3 impressões:

S* disse...

Essas relações existem... temos de exigir isso mesmo para nós. nunca menos.

capitão disse...

É difícil para um rapaz assumir um Lar, principalmente quando viveu sem grandes pressões e se entende no mundo protegido por um circulo de afectos ilimitado que ele pode desbaratar.
Muitos dos nossos jovens actuais tomam por "certo" muita coisa que é "incerta". É fruto das últimas décadas quando o dinheiro "estava garantido".
A relação só irá cair na real quando sentir as dificuldades na pele. Até lá vai tentar todos os limites.

Continue a escrever. Escrever obriga a organizarmo-nos.

Lia disse...

É essa relação que eu quero ter um dia...

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