sábado, 27 de julho de 2013

Querida Avó

Hoje é o seu aniversario. Parabéns.
Não é a avózinha mais fofinha do mundo, daquelas carinhosas e meigas com os netos. Sempre foi uma pessoa fria e um tanto insensível. Mas ganha muitos pontos a seu favor na minha consideração quando eu penso eu si como uma mulher de armas e lutadora.

A avó casou-se com o avô para ser no fundo para ser a perfeita dona de casa, a cuidadora de velhotes que ainda viviam em casa (o meu trisavô, bisavós e alguns tios seus e do avô que morreram solteiros), a governanta que geria as despesas, a máquina de fazer bebés, a perfeita esposa de um empresário que sabe se comportar em festas cosmopolitas. Para isso teve que abdicar do seu curso de Filosofia. Teve de abdicar da sua boa vida  no Porto para se enfiar numa aldeia do Minho. Substituiu os seus vestidos de tecido requintado para vestir um avental.

Tentou educar os filhos para o joie de vivre. Mas logo após o 25 de Abril viu-se sem grandes dinheiros e sem grandes amigos. E com os poucos recursos fez o esforço para que todos os seus filhos tivessem a oportunidade de terem estudos superiores. Não permitiu que nenhum deles emigrasse. E para isso começou a deixar de ser a senhora e passou a vender fruta e animais na feira.

A avó era uma excelente condutora. Mas nunca soube fritar um ovo. Não sabe matar uma galinha, mas sabe costurar como ninguém. A avó não sabe como tratar de uma horta, mas tem uma caligrafia muito elegante. E toca violino muito bem. É a avó que tem uma bilblioteca invejável de obras de Moliere, Diderot e Balzac. Mas obrigou todas as filhas a aprender mais do que própria aprendeu. E todas as filhas sabem fazer de tudo um pouco, nunca foram as dondocas que a avó sempre foi.

A avó sempre se vestiu de preto. Tem um sem número de casacos de veludo e de peles. Usa sempre alfinetes elegantes neles. Tem maravilhosas malas de pele de crocodilo que apesar de serem antígas estão sempre na moda. O chique nunca passa de moda, dizes-me. Aliás, a avó está sempre a insistir que mesmo que a gente esteja em casa nas lidas domésticas, temos de estar minimamente chiques... Não gosta do facto de ser bem pequena (1,45m) e usa sempre sapatos de salto alto, quer esteja em casa ou na rua. O seu maior desgosto foi quando lhe diagnosticaram eczema nas pernas o que a obrigaram a usar meia preta opaca.

A avó está bem velhinha agora. Apesar de ser muito activa, tem alguns lapsos de memória. Tem dias que já não sabe o nome das pessoas. Mas ainda está lúcida ao ponto de reconhecer que comete alguns lapsos. E zanga-se consigo própria. Quando puxo conversa consigo, as suas memórias vão sempre para o seu tempo da mocidade. Já pouco fala nos cinquenta anos que viveu na sua casa, mas fala sempre nos anos que viveu com a sua mãe e no colégio feminino no Porto. A avó fala mais na dureza que foi a II Grande Guerra e já pouco se recorda da Guerra de Ultramar.

A avó tem um medo enorme de morrer. Recusa-se a comer coisas que acha que lhe podem fazer mal à saúde. Só quer bolachas sem açúcar e leite magro de uma marca específica. Isso porque alguém no centro de Saúde lhe disse que provavelmente a avó é diabética (e não, a avó não é... está farta de fazer exames e até à data nada indica que avó seja diabética). O seu guilty pleasure é o chocolate. Típico de uma lady. Acha que se caminhar muito dar-lhe-à vida, mesmo que tenha algumas tonturas e fraquezas típicas do seu coração demasiado grande. A avó leu algures que a falecida rainha mãe de Inglaterra bebia um cálice de vodka por dia e que viveu até aos cem anos. E a avó começou a ter o mesmo ritual com o xerez ou vinho do porto. A avó reza todos os dias o terço. E ficou furiosa comigo porque a levei à missa ao Sameiro e recusei entrar na igreja porque ainda não fiz as pazes com Deus.

Feliz Aniversário Avó... que conte muitos e muitos anos.



1 impressões:

S* disse...

Oh, tantas parecenças entre a tua e a minha avó. A minha avó também foi/é uma grande dona-de-casa e adorava cuidar do marido. Ficou viúva há 27 anos e continua de negro.

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