domingo, 21 de julho de 2013

Os carros que fizeram parte da minha vida (III)

Umas das coisas que mais me marcou a minha infância nos tempos em que ia para a aldeia dos meus avós era a constante presença de brasileiros. 
Os brasileiros, como assim foram apelidados, era gente da terra que durante a década de 60 e 70 pegaram nas suas malas e emigraram para o Brasil. A principal causa da emigração naquele tempo foi essencialmente a falta de emprego que assombrava a região e o grande risco de terem que ir combater no Ultramar. Além disso, segundo relatos que me recordo, só os filhos das famílias mais ricas é que emigraram para o Brasil, os restantes emigraram para França. Não foram para França porque sabiam que à partida teriam trabalhos de pau e picareta. Não se queriam misturar com os outros. Foram para o Brasil, e pelo que sei quase todos eles se tornaram proprietários de lanchonetes e empresários da construção civil.

Um dos carros que me marcou foi um carro de um brasileiro.
Não recordo o seu nome mas recordo-me bem de que família (ou casa, como apelidamos) ele era.
Pelos vistos fez uma avultada fortuna nos anos 60 e 70 e quando veio a Portugal visitar a família comprou só para os levar a Fátima e às romarias do mês de Agosto nada mais nada menos que um Fusca. O Fusca é o nome que se dá ao VW Beetle (ou comummente chamado Carocha em Portugal) no Brasil. 
O Fusca, como toda a gente na aldeia o chamava debaixo da influência brasileira, tornou-se num dos primeiros carros que chegou à aldeia. Toda a gente conhecia o Fusca azul claro do brasileiro. No imaginário do povo, um brasileiro que tenha comprado um carro só para andar com ele no mês de férias deveria significar que o homem nadava em dinheiro como quem nadava nas praias de Copacabana. 

No entanto as férias acabaram e o Fusca ficou parado no palheiro dos pais do Brasileiro. E como precisavam do palheiro, o Fusca ficou soterrado em palha debaixo de um tolde de lona. 

Quase trinta anos passados e o Fusca desapareceu das memórias dos moradores da aldeia. Tudo isso porque afinal o tal brasileiro não estaria tanto assim a nadar em dinheiro, e como tal nunca mais voltou a Portugal.
Até que um dia, no tasco do velho T., o meu pai no meio de suecadas, dominó e de cerveja começou a falar das memórias de miúdo com os amigos de infância. E conversa vai, conversa vem e falou-se no Fusca do brasileiro. 
Então o meu pai resolveu que se calhar estava na altura de o tirar do palheiro e de lhe dar um novo dono. E quando retiraram a palha e a lona viram que o carro estava ainda impecável em termos estéticos. 

Sob ameaça de um possível divórcio, já que a minha mãe farta de carros velhos andava ela, o meu pai resolveu contactar o tal brasileiro para ver se ele queria vender o Fusca. E claro, o brasileiro como não tinha previsão de voltar a Portugal disse que sim, que seria um gosto desfazer-se do carrito. Mas para isso precisavam de tratar de documentos no notário e essas burocracias todas.

Então o meu pai, ingénuo que era, comentou com alguém na vila de que estava a tratar dos papeis para comprar o carro do brasileiro por um bom preço. No entanto essa compra só seria possível dali a um mês porque necessitava de accionar seguro, contratar um reboque e mecânico para o trazer para Braga e essas tretas todas, já que o carro estava parado há perto de 30 anos. 
E eu com os meus sete anos já imaginava que iria estar dentro de um carro igual ao da minha Barbie. Que se calhar dali a 10 anos eu conduziria um carro igual ao da Barbie.

Moral da História: alguém da vila soube da venda do carro, contactou o brasileiro e pagou um bocado mais pelo carro. E claro, ao brasileiro convinha mais dinheiro, que se lixasse a palavra de honra.  
Aprendi com essa história que quando estamos em vista um bom negócio que devemos ficar com a boca calada. Foi assim uma espécie de humilhação para o meu pai saber que tinha sido trapaceado. 

E claro, quando passo pelos poucos Carochas dos anos 60-70 azul bebé, tenho uma espécie de tristeza. Afinal ainda há quem possa conduzir o carro da Barbie.

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