sábado, 6 de julho de 2013

Os automóveis que fizeram parte da minha vida (II)

O meu pai assim que tirou a carta de condução foi também dono de alguns automóveis.
Desconheço a cronologia da aquisição deles, mas recordo-me bem os relatos que ele me contava sobre cada bólide:

O meu pai foi dono de um Citröen Dyane. Segundo ele, foi o carro que menos tempo aguentou nas mãos dele: 15 dias apenas. Tudo porque sofreu um acidente no Porto graças à chuva e estradas esburacadas.
Pouco tempo depois comprou um Fiat 850. Lembro-me dele no parque de estacionamento do local onde o meu pai trabalhava. Era preto. Sei que o mandou para a sucata. Quando o meu pai faleceu, eu e a minha irmã ficamos encarregadas de mexer na papelada do meu pai. E numa gaveta encontrei o livrete do Fiat. Tinha o registo de Julho de 1969. No mesmo mês e no mesmo ano em que o Homem chegou à Lua.

Há um carro que não me recordo dele mas sei que fez parte da minha vida. Opel Manta. Sei que era Vermelho-Ferrari já com a tinta descascada (Nunca limpar vidros do carro com líquido limpa vidros! Nunca!). Sei que tinha umas riscas pretas. Era um carro assim para o desportivo. E que só havia dois iguais na minha cidade. E que o outro carro ainda circula e cujo dono vive na zona histórica. Há fotografias minhas de bebé de colo perto do carro. Julgo que o meu pai vendeu porque ficou difícil de arranjar peças para ele, uma vez que era um modelo pouco habitual nas estradas portuguesas.

Mas se há carro que me recordo bem é o Renault 12. O meu pai comprou-o assim que vendeu o Opel Manta. Era legalizado. No livrete que encontrei nos arquivos do meu pai, vi que a matrícula era anteriormente francesa e que o carro tinha registo de Abril de 1974. Ano e mês da Revolução dos Cravos. Sei que ele participou em alguns rallys em França porque o antigo dono encheu o vidro de autocolantes com as participações.
Foi o único carro de família até 1994, data em que os meus pais compraram o primeiro carro novinho em folha. Infelizmente as pessoas associam carros velhos a pobreza e volta e meia os meus pais ouviam bocas dos familiares sobre o facto de terem um único e carro velho. E então fartos de humilhações compraram o primeiro carro novinho em folha em 1994. Um Seat Ibiza, que foi vendido com poucos km poucos anos depois. E digo poucos km porque era o carro de fim de semana e de idas à aldeia. O meu pai sempre insistiu a usar o Renault para ir para o trabalho. E como tinha uma enorme bagageira era útil para levar as bicicletas para a praia. Não me recordo de ter entrado muitas mais vezes nele depois de 1998, altura em que o meu pai comprou o carro dos seus sonhos: um jipe. E como o jipe ocupava muito espaço na garagem, o meu pai levou o Renault para o parque de estacionamento do local de trabalho. E iniciou então a missão de o restaurar. Objectivo: levar as filhas no dia do casamento naquele carro. Durante os fins-de-semana, ele e alguns amigos, todos eles habilidosos iniciaram a tarefa de substituir peças já gastas do carro. Tornou-se um ponto de encontro aos fins-de-semana, acompanhados de finos de amendoins. Mas em 2001 o meu pai foi trabalhar Lisboa. E deixou o Renault semi restaurado na garagem de um apartamento à espera de continuar a trabalhar nele.
Mas os fins-de-semana são sempre demasiado curtos e ele nunca mais continuou o restauro.  E então eu comecei a pesquisar na Internet sobre a história deste modelo e sobre troca de ideias para o restauro e cheguei à conclusão que só havia cerca de dez Renault 12 com o modelo igual em Portugal. O restauro deveria ser feito em França onde supostamente ainda há peças. Mas o restauro nunca foi feito. O dono faleceu em 2006. Não haveria qualquer motivo para continuar o restauro. Afinal já não poderia levar as filhas à igreja.
E em 2007, quando finalmente conseguiu-se alugar o apartamento, tivemos que mandar o carro para a sucata. A minha mãe não foi capaz de ir despedir-se dele. Eu fui. Tal como fiz no funeral do meu pai, em que toquei no caixão poucos minutos antes de descer à terra, eu aproximei-me do velho Renault 12 e coloquei as mãos por um- dois minutos no capô. E juro que senti regressar à infância, àqueles dias em que o meu pai era um homem simpático e brincalhão, ou aquela ida a Viana do Castelo, mais precisamente a Santa Luzia em que eu usava um vestido de bombazine cor-de-rosa e que sabia que dali a uma semana eu deixaria de ser filha única. Tempos em que as minhas preocupações eram ver todas as cassetes VHS da Disney e ter marcadores que pintassem bem. Tempos em que eramos felizes e não sabíamos.
Dentro do carro ainda estava a cassete do Roberto Carlos metida no rádio. Guardei a cassete no bolso. Não me recordo agora de que ano era, mas tinha uma das músicas que mais gostava dele e daquelas que mais me fazem chorar “Meu querido, meu velho amigo”. E na mala ainda estava uma boneca minha que era feita de um plástico tão foleiro que me de deixou zonza na altura devido ao cheiro a plástico barato. Se não me engano, os meus pais deram-me essa boneca quando acabou-se os quinze dias de colónia de férias, tinha eu quatro anos e meio. “O ferro está todo podre por causa da humidade da garagem”, disseram-me quando fui à garagem despedir-me. Esquecemo-nos muitas vezes que as coisas têm uma alma e uma voz que não podemos muitas vezes ouvir. Sim, o ferro está realmente todo podre. Mas será sempre para mim o velhinho Renault 12 que me deveria levar à igreja no dia do meu casamento.
A boneca e o carro morreram naquele dia. Morreram de velhice e abandono. Paz às suas almas. Que tenham melhor sorte no céu das bonecas e dos velhos carros de família.

PS: Herdei o jipe. Já tem quinze anos, mas ainda o amo de coração. Todos podem conduzir um carro, mas nem todos um jipe. Talvez seja ele que me leve ao altar, um dia, quem sabe…

1 impressões:

S* disse...

Gosto tanto dessas recordações. Há carros que associamos a a pessoas e a momentos felizes.

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