terça-feira, 9 de julho de 2013

Caro A.,

...ou deveria ser Sr. A.....
Sim, porque desde o primeiro dia em que nos conhecemos, tratei-o sempre por sr. A. e o senhor sempre me tratou por menina.

Recordo-me bem as circunstâncias que o senhor foi acolhido na amizade da nossa família. O meu pai era um excelente caçador (não fosse ele ter um diploma de Mestre...) e conheceu-o num dia de caça numa bouça que pertence aos meus avós no nosso Minho. Você (desculpe lá tratar por você, mas quando escrevo esse termo fica mais fácil a redacção) tinha uma cassete que emitia sons de pássaros para atrair a passarada que queria matar. Então o meu pai foi falar consigo e lá lhe deu uma lição de moral. 
Você levava sempre consigo o seu enteado, um rapaz a quem você e a sua família desde o inicio lhe puseram o estigma de "ter uma pancada". Talvez ele tivesse algum distúrbio, mas penso que o facto de o sempre verem assim piorou ainda mais. Se ele fosse estimulado, talvez não fosse tanto assim. Aliás, eu até tirou a carta de condução, ele trabalha, como é que vocês podem dizer que ele um parafuso a menos?

Seja como for, você e o meu pai se tornaram amigos. Tão amigos que iam juntos para a caça aos domingos. Começou a frequentar a minha casa cada vez mais. Nós estávamos a mudar de casa naquela altura e você desde logo se prontificou a tornar-se o jardineiro oficial do novo jardim. E até nos ajudou com as mudanças.  
E começou a ir até à nossa casa na serra e ajudou o meu pai em pequenas bricolage que volta e meia lá eram necessárias fazer. Estorvava às vezes mais do que se não fizesse nada. Nós adoptamos-lo como um membro da família. Para nós, você tornou-se no avô que tinha falecido uns meses antes. Porque na família todos se ajudam uns aos outros: O Sr. A com essas pequenas tarefas do jardim (que nós até nem precisávamos muito uma vez que se mudamos de casa foi porque a minha mãe queria ter um pedaço de terra para tratar) e de bricolage e de acompanhar o meu pai até a caça; Nós em qualquer festa que organizávamos convidávamos a si e a sua família. 
Vamos dizer que o sr. A esteve mais presente nas nossas alegrias do que nas tristezas. Nós tivemos mais presentes nas suas tristezas.
Como você sabe perfeitamente, você sofre de stress pós traumático pós Guerra. Pelo que você me contou, durante a Guerra em Ultramar, estava você e os seus colegas juntos num camião quando ele explodiu. Se não estou em erro sobreviveram muito poucos nessa explosão. E o sr A. durante um longo período do ano entrava em depressão. E o que fazia? Pegava na sua espingarda e punha-se a dar tiros para o ar no meio da rua. Pegou num machado e destruiu o seu carro. Embebedava-se como se não houvesse amanhã. Vinha à nossa casa pedir dinheiro para o taxi para rumar ao Porto. E quem lhe ia defender no tribunal ou falar com a polícia ou mexer uns cordelinhos no hospital militar? O meu pai. O sr. Inspector, como você lhe chamava. 

Depois havia uma coisa que me fez zangar consigo: uma das plantas que eu sempre desejei ter no novo jardim era uma magnólia. Aos meus 14 anos consegui amealhar seis contos para ir a uma horticultura comprar uma magnólia de flor branca, a minha favorita. Com muito cuidado a plantei no jardim sob supervisão dos meus pais. Mas ao fim de algumas semanas a planta estava a morrer. E eu regava, punha adubo, falava com ela... E a magnólia murchava cada vez mais. Até que um dia, poucos minutos depois de você ter regado o jardim, eu notei uns cristais brancos perto da magnólia. Quando os toquei, passei a língua pelos dedos (eu sei, podia ser veneno!) e senti o sabor sal. Tive que ir contar ao meu pai. E você lá admitiu que estava a tentar matar a planta. Nunca soube realmente o porquê, mas deduzo que tenha sido pelo facto de não ser a única planta que você não plantou. Como se o jardim fosse só seu. 

Sei que não morria de amores pela minha irmã. Não sei porquê mas nenhum velhote que eu conheça grama a minha irmã... E numa daquelas fases maníaco depressivas que tinha, virou-se para a minha irmã, tinha ela uns dez- onze anos, e lhe disse que ela não valia nada, de que só era amigo do meu pai e não dela. Nunca entendemos bem o porquê. Mas sei que ouviu das boas do meu pai.

Sei que também é uma pessoa que tudo que o possa afectar, tenta cortar o mal pela raiz. Uma vez eu chego a casa e vejo umas sementes vermelhas em cima do muro. Eu perguntei-lhe o que era. E você disse-me que era veneno para matar os pássaros. Então eu corri para casa, liguei ao pai que estava em Lisboa e contei-lhe o que se passava. O pai, homem bom que era disse para retirar tudo aquilo e deitar ao lixo. O sr. A. nunca me disse nada sobre o aquilo.
Depois cismou que queria matar os gatos vadios que havia na rua só porque eles faziam necessidades no jardim. O que é certo é quem alguns dos gatos desapareceram, inclusivé o gato Persa da vizinha de três casas acima.
E os meus cães morriam de medo de si. Eles escondiam-se num buraco no portão de fole da garagem e só apareciam quando ouvissem alguma voz dos donos.
Quem não gosta de animais ou faz mal aos animais ou a quem os animais temem não deve ser boa pessoa.

Recordo-me que apesar dos seus sessenta e tal anos era um medricas de primeira. Tremia ao ouvir falar em bruxas e assustava-se com barulhos estranhos.
Típico de caçador, canta história que tinha era sempre levada para o exagero.
E ainda me rio quando me contou aquela vez em que você cortou a cabeça a um galo, e o que galo pôs-se a correr sem cabeça pelo jardim e que começou a cantar. E você ficou mudo quando lhe perguntou como é que ele ia cacarejar se já não tinha cabeça...
Enfim...
Escreverei outra carta mais tarde já que esta se está a alongar muito.

Alima

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