segunda-feira, 1 de julho de 2013

Aos automóveis que fizeram parte da minha vida (I)

Muitos desses carros não cheguei sequer a entrar neles. Mas fazem parte de muitas histórias familiares. E quando passo por alguns desses carros, especialmente os mais antigos, tenho uma espécie de nostalgia de um tempo em que não vivi.
Escrevo esta carta porque há dias passou por mim na estrada um desse carros.
E cada vez mais é difícil de os restaurar: faltam peças, e as poucas de peças que existem são cada vez mais caras.


A minha mãe falava que no seu tempo de menina e moça foi a orgulhosa proprietária de um Citröen DS de 1972. O conhecido Boca de Sapo. Com esse carro fez milhares de km rumo a Chaves, onde estudou. Nos anos 70 eram poucas as mulheres que sabiam conduzir, mas os meus avós, modernos para o seu tempo, fizeram com que todos os seus filhos tirassem a carta. E aquela família foi proprietária de carros como o mítico VW Beetle (carocha), Renault 4cv (a quase extinta joaninha) e o velho Ford Anglia. Esses carros foram desaparecendo pouco após o 25 de Abril porque estavam em nome da empresa do meu avô que nessa altura foi nacionalizada. A empresa e tudo que estava em nome da empresa... E a partir daí começaram a andar a pé ou de transportes públicos até terem dinheiro para comprar outro carro.
A minha mãe sempre me disse que o 25 de Abril foi algo agridoce naquela família. Palavras como liberdade e fraternidade são muito bonitas na boca de quem sabe realmente o que é. E o problema é que qualquer analfabeto na altura que tivesse televisão já se achava um chico-esperto. E queimaram os tratores e arrasaram as vinhas e os milheirais dos meus avós só "porque a terra era se quem a trabalha"

No entanto houve um automóvel que sobreviveu aos dias de hoje: o carro dos meus avós. O velho mas ainda bonito Mercedes 200D de 1965.
No meu imaginário infantil, os avós deveriam ser como o avô da Heidi ou da minha avó paterna. Pessoas dóceis que de vez em quando davam 100 escudos para comprar caramelos. Que nos vestissem um casaco não porque nós tivéssemos frio, mas porque eles tinham frio. Que faziam aletria melhor que a nossa mãe. Mas a minha avó materna é um caso especial. As minhas amigas invejavam-me porque tinha uma avó que com 70's conduzia. Para elas era cool ter uma avó que  não dependesse de transportes públicos. O problema é que a minha avó não era lá muito cool para os netos. É mais do tipo cold. Volta e meia lá desaparecia para ir beber chá com as amigas e não dizia nada a ninguém. Demasiado independente, acho. 
E imagino que ela deve ter ficado arrasada porque o médico a proibiu de conduzir quando lhe detectaram alguns problemas de visão. O carro ainda lá está na garagem. O pó acumula-se. Ninguém se ousa a pegar no carro. Houve alguém que ainda mandou a boca de querer ficar com ele, mas a minha avó num berro disse que o carro pertence ao espólio daquela casa. 
No outro dia estava eu a lavar o meu carro na casa da avó e a avó pediu-me para que lavasse o dela. E que lhe visse o nível de óleo como se estivesse a fazer uma viagem com ele. E claro, tive que ligar o carro para o pôr no pátio. E o roncar barulhento do motor que no inicio estava engripado despertou em mim uma vontade enorme de dar uma volta com ele. No porta luvas jazia os óculos de sol que ela sempre usou para conduzir e um lenço em seda que ela durante anos usava no cabelo quando abria a janela. Parecia que regressava a um daqueles filmes dos anos 70´s com cores manhosas. Depois de ser lavado e verificado os níveis de água e de óleo, arrastei a avó e a mãe a dar um passeio com ele. Fomos comer um gelado ao pé do rio. Conduzir aquele carro foi das experiências mais espectaculares por qual eu passei. Em termos de segurança em comparação aos carros de agora talvez deixe um pouco a desejar. Mas que é um carro lindo, é. E estavam três mulheres sentadas nele. Três gerações: a dos 80's, a dos 50´s e a dos 20's. E as cabeças das pessoas voltavam-se quando passávamos por elas. E a minha avó estava com um brilhozinho nos olhos que tentou esconder com os óculos de Sol que estavam no porta luvas. Afinal o carro está em excelente estado de conservação apesar dos seus quase 50 anos. Trata-se de um  carro que neste momento provavelmente deve ter um bom valor comercial, mas nem tudo pode ser só dinheiro. Este carro tem uma história. Esteve presente em muitos funerais mas também em grande alegrias como o casamentos dos filhos dos donos e o nascimento dos netos e bisnetos.  Com ele rumou-se a Fátima, a peregrinações no Sameiro, à Póvoa de Varzim onde os meus avós sempre passavam o mês de Setembro, a alguns picnics e algumas festas. Toda essa história familiar que não vale alguns milhares de euros.

Haverá um dia que teremos que lhe dar um fim. Ate lá vou olhando para ele com um saudosismo de algo que não vivi.

Alima

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