sábado, 27 de julho de 2013

Querida Avó

Hoje é o seu aniversario. Parabéns.
Não é a avózinha mais fofinha do mundo, daquelas carinhosas e meigas com os netos. Sempre foi uma pessoa fria e um tanto insensível. Mas ganha muitos pontos a seu favor na minha consideração quando eu penso eu si como uma mulher de armas e lutadora.

A avó casou-se com o avô para ser no fundo para ser a perfeita dona de casa, a cuidadora de velhotes que ainda viviam em casa (o meu trisavô, bisavós e alguns tios seus e do avô que morreram solteiros), a governanta que geria as despesas, a máquina de fazer bebés, a perfeita esposa de um empresário que sabe se comportar em festas cosmopolitas. Para isso teve que abdicar do seu curso de Filosofia. Teve de abdicar da sua boa vida  no Porto para se enfiar numa aldeia do Minho. Substituiu os seus vestidos de tecido requintado para vestir um avental.

Tentou educar os filhos para o joie de vivre. Mas logo após o 25 de Abril viu-se sem grandes dinheiros e sem grandes amigos. E com os poucos recursos fez o esforço para que todos os seus filhos tivessem a oportunidade de terem estudos superiores. Não permitiu que nenhum deles emigrasse. E para isso começou a deixar de ser a senhora e passou a vender fruta e animais na feira.

A avó era uma excelente condutora. Mas nunca soube fritar um ovo. Não sabe matar uma galinha, mas sabe costurar como ninguém. A avó não sabe como tratar de uma horta, mas tem uma caligrafia muito elegante. E toca violino muito bem. É a avó que tem uma bilblioteca invejável de obras de Moliere, Diderot e Balzac. Mas obrigou todas as filhas a aprender mais do que própria aprendeu. E todas as filhas sabem fazer de tudo um pouco, nunca foram as dondocas que a avó sempre foi.

A avó sempre se vestiu de preto. Tem um sem número de casacos de veludo e de peles. Usa sempre alfinetes elegantes neles. Tem maravilhosas malas de pele de crocodilo que apesar de serem antígas estão sempre na moda. O chique nunca passa de moda, dizes-me. Aliás, a avó está sempre a insistir que mesmo que a gente esteja em casa nas lidas domésticas, temos de estar minimamente chiques... Não gosta do facto de ser bem pequena (1,45m) e usa sempre sapatos de salto alto, quer esteja em casa ou na rua. O seu maior desgosto foi quando lhe diagnosticaram eczema nas pernas o que a obrigaram a usar meia preta opaca.

A avó está bem velhinha agora. Apesar de ser muito activa, tem alguns lapsos de memória. Tem dias que já não sabe o nome das pessoas. Mas ainda está lúcida ao ponto de reconhecer que comete alguns lapsos. E zanga-se consigo própria. Quando puxo conversa consigo, as suas memórias vão sempre para o seu tempo da mocidade. Já pouco fala nos cinquenta anos que viveu na sua casa, mas fala sempre nos anos que viveu com a sua mãe e no colégio feminino no Porto. A avó fala mais na dureza que foi a II Grande Guerra e já pouco se recorda da Guerra de Ultramar.

A avó tem um medo enorme de morrer. Recusa-se a comer coisas que acha que lhe podem fazer mal à saúde. Só quer bolachas sem açúcar e leite magro de uma marca específica. Isso porque alguém no centro de Saúde lhe disse que provavelmente a avó é diabética (e não, a avó não é... está farta de fazer exames e até à data nada indica que avó seja diabética). O seu guilty pleasure é o chocolate. Típico de uma lady. Acha que se caminhar muito dar-lhe-à vida, mesmo que tenha algumas tonturas e fraquezas típicas do seu coração demasiado grande. A avó leu algures que a falecida rainha mãe de Inglaterra bebia um cálice de vodka por dia e que viveu até aos cem anos. E a avó começou a ter o mesmo ritual com o xerez ou vinho do porto. A avó reza todos os dias o terço. E ficou furiosa comigo porque a levei à missa ao Sameiro e recusei entrar na igreja porque ainda não fiz as pazes com Deus.

Feliz Aniversário Avó... que conte muitos e muitos anos.



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Querida B. (II)

Graças aos nossos cafés das noites de Verão pude reencontrar o T. Quem era o T.?
Conheci o T. nas praxes do meu primeiro curso. Fomos colegas de curso, onde havia fases em que nos dávamos bem e outras em que não trocávamos uma palavra. Julgo que só fiz um estágio com ele em que ficamos um mês juntos. A ideia que tinha do T.? Um baldas de primeiro. Fraco aluno. Faltava regularmente. Que só passava às cadeiras graças ao copianço e a colar-se a bons alunos para fazer trabalhos. Seja como for, acabamos ao mesmo tempo o curso.
Anos mais tarde, alguém me disse que ele no ultimo dia de estágio de curso teve uma síncope e exames mais exames e lhe diagnosticaram Esclerose Múltipla. Fiquei triste por ele, como é obvio.
E graças a ti, revi-o esta semana. Estava mais gordo e reparei que ele se arrastava um bocado ao andar. Tentei fazer-me de desentendida quando ele começou a explicar-me a panóplia de sintomas. Falava no "problema" para cá e "problema" para lá até que eu tive que disfarçar e perguntar o que ele tinha. Foi então que "soube" pela boca dele.
Ele então pôs-se a fazer-me mil e uma perguntas. Muitas delas reconheço que não sabia a resposta como é óbvio. Mas pelo que percebi ele tem esperança nas células estaminais...
Quando ele se ausentou para cumprimentar alguém noutra mesa tu começaste a cochichar comigo sobre o comportamento dele. De que ele às vezes parece bipolar. De que noutro dia começou a ter problemas a falar com vocês mas que falava normalmente com outras pessoas. Perguntaste-me sobre a normalidade disso tudo. Respondi-te que sei muito pouco sobre isso. Que eu sempre me lembrava do T. com os azeites. Que conheço algumas pessoas com essa doença mas que não sou tão próxima delas para saber tudo sobre a doença. Mas prometi-te que iria ler sobre isso. Provavelmente as mesmas coisas que o T. provavelmente já leu, sei lá.
Veremos, queria B. Veremos...

Um beijo,
Alima

terça-feira, 23 de julho de 2013

Querida J.

Se te recordas bem, fizemos o estágio de integração em Enfermagem juntas em 2008.
E ficamos juntas nesse estágio porque havia uma área que gostávamos em comum: Cardiologia.
Se te recordas bem, eu adorei o serviço e a dinâmica dele, mas tive um ódiozinho de estimação: o enfermeiro responsável por mim nesse estágio.
Fomos dois seres incompatíveis, tudo o que eu fazia estava sempre incorrecto, todas as perguntas que ele me fazia se eu vacilava em algumas respostas ele quase que me chamava burra, cometia pequenos erros típicos de alguma azelhice e ele via tudo como se de uma tragédia grega se tratasse. 
Pelos vistos o mal não era inteiramente meu, outros antigos estagiários sofreram nas mãos daquela personagem.

Seja como for, eu mal vi que a coisa não iria correr bem, imediatamente fui falar com o meu orientador de estágio. Comodista como ele era, disse que cabia a mim desenrascar-me, que não se ia meter nos nossos conflitos já que era amicíssimo do tal enfermeiro. Ou seja, orientação pelo orientador foi nicles. Então nos diários de aprendizagem que era a coisa mais fatela de fazer, eu descarregava as minhas frustrações, os meus receios e relatava os meus conflitos com aquele individuo nos malditos diários. E o orientador nunca me disse nada.

Um dia, estava eu a preparar a medicação sob a supervisão dele e ele diz-me "Sabes, eu não vou mesmo nada com a tua cara". Então eu, sem pensar, e já com a cabeça cheia e farta de humilhações por parte dele, disse-lhe "Tem graça, eu também não vou mesmo nada com a sua".

E pronto, ele escreveu uma cartinha ao orientador, o orientador falou com a coordenadora do 4º ano e de curso a avisar que a Alima era "uma aluna mal educada, desinteressada, chega sempre atrasada, que desconhece a teoria e era muito má na prática, que não respeita a hierarquia bla bla bla" drama, drama e drama.
E então fui convocada para uma reunião com esse pessoal todo para me dar uma lição de moral e de boas maneiras. E quanto mais eu dizia que desde logo eu tinha avisado o nosso orientador, mais eles me mandavam estar caladinha.
E pronto, até ao final do estágio fui sempre olhada com desconfiança por parte dos enfermeiros e professores e sempre com a supervisão opressiva do tal enfermeiro.
A minha nota final: 11. A pior nota que tive em todo o curso e todos os estágios. A nota tão contrastada com o teu 17 no mesmo estágio, com os mesmos pacientes, mas com a supervisão de uma enfermeira simpática que tu tiveste.

Agora em 2013, foi pedido pela minha actual faculdade para que eu fizesse um estágio de 15 dias no âmbito da cadeira que tenho que em português se intitula "Cuidados de Enfermagem" num hospital português para não perder o traquejo do português e para aprender (ou no meu caso reforçar) os conhecimentos e técnicas básicas inerentes a enfermagem e medicina, nomeadamente administração de injectáveis, algaliações, entubações nasogastricas, suturas etc etc.
Apesar de ter equivalência nessa cadeira, para ganhar créditos, deveria pelo menos receber uma assinatura num papel a dizer que fiz o tal estágio. Deveria pelo menos fazer um turno num serviço só para parecer bem e ir apalpando terreno para o meu estágio de Medicina Interna no 4º ano. 
E quando fui falar com os responsáveis dos recursos humanos do hospital, sugeriram-me alguns serviços para fazer esse turno. Eu escolhi um serviço que sempre foi o meu favorito e bem longe geográficamente daquele serviço onde fiz o meu último estágio como estudante de Enfermagem. Não queria sequer pensar que poderia cruzar-me com aquele enfermeiro.

Dia 1 e único do bendito estágio.
Entro no serviço que tinha escolhido, com a roupa do hospital que me concederam, cumprimento o pessoal de Enfermagem que estava a espera para passar o turno e a pouco e pouco começam a entrar os Enfermeiros do turno da manhã... Então a Enfermeira-Chefe fez uma espécie de apresentação, avisou o pessoal que eu só iria lá estar uma manhã, que eu também fui Enfermeira bla bla bla... Entretanto entrou uma personagem que fez parte dos meus terrores no tempo em que passava de uma estudante finalista de Enfermagem: o meu antigo supervisor!
 Pois, esqueci-me que volta e meia rodam os enfermeiros nos serviços... Fiz uma espécie de oração para ver se ele não me reconheceria, já que passaram cinco anos. Mas aquela figura tem uma boa memória... mal decorreu a passagem de turno, veio ter comigo quando eu estava a falar com um Enfermeiro: "- Então, sempre conseguiste arranjar trabalho aqui... Quem diria...Já te fartaste de Barcelona, foi?", disse-me.
E eu, dissimulada como consigo ser respondi-lhe "- Trabalhar aqui? Se começasse hoje ou daqui a um ano seria muito mau sinal, Sr. Enfermeiro"
Então o fulano que não ouvira a explicação da Enfermeira-Chefe, porque chegara atrasado: "Que raio estás aqui a  fazer então?"
Eu não lhe disse nada em concreto. Basicamente esfreguei-lhe o crachá da minha faculdade com o Medical Student no focinho nariz. "-Tenha  um excelente turno, sr Enfermeiro", disse-lhe piscando o olho. E tive um turno passado em paz. Foi bom para tirar ferrugem...

Senti-me como a personagem vivida pela Julia Roberts no filme Pretty Woman que quando ela entrou com a roupa de trabalho numa loja toda fancy, foi escorraçada pelas funcionárias, mas quando entrou um dia depois na mesma loja com roupas chiques acabou por receber toda a atenção das funcionárias... "You work with commission, right? hummm yes... Big mistake!Big! Huge!I need to make shopping now... "

Karma, J., é isso... sem vingança nem maldade... Ou então Deus tem realmente muito sentido de humor...


Não foi numa de gabar o que ando a fazer, atenção! Orgulho-me por tudo o que faço e por tudo que conquisto, como qualquer ser humano que se preze... Foi mais daquela do se eu fosse realmente burra como indirectamente chamava-me, talvez não estaria a fazer o que faço agora... 

domingo, 21 de julho de 2013

Os carros que fizeram parte da minha vida (III)

Umas das coisas que mais me marcou a minha infância nos tempos em que ia para a aldeia dos meus avós era a constante presença de brasileiros. 
Os brasileiros, como assim foram apelidados, era gente da terra que durante a década de 60 e 70 pegaram nas suas malas e emigraram para o Brasil. A principal causa da emigração naquele tempo foi essencialmente a falta de emprego que assombrava a região e o grande risco de terem que ir combater no Ultramar. Além disso, segundo relatos que me recordo, só os filhos das famílias mais ricas é que emigraram para o Brasil, os restantes emigraram para França. Não foram para França porque sabiam que à partida teriam trabalhos de pau e picareta. Não se queriam misturar com os outros. Foram para o Brasil, e pelo que sei quase todos eles se tornaram proprietários de lanchonetes e empresários da construção civil.

Um dos carros que me marcou foi um carro de um brasileiro.
Não recordo o seu nome mas recordo-me bem de que família (ou casa, como apelidamos) ele era.
Pelos vistos fez uma avultada fortuna nos anos 60 e 70 e quando veio a Portugal visitar a família comprou só para os levar a Fátima e às romarias do mês de Agosto nada mais nada menos que um Fusca. O Fusca é o nome que se dá ao VW Beetle (ou comummente chamado Carocha em Portugal) no Brasil. 
O Fusca, como toda a gente na aldeia o chamava debaixo da influência brasileira, tornou-se num dos primeiros carros que chegou à aldeia. Toda a gente conhecia o Fusca azul claro do brasileiro. No imaginário do povo, um brasileiro que tenha comprado um carro só para andar com ele no mês de férias deveria significar que o homem nadava em dinheiro como quem nadava nas praias de Copacabana. 

No entanto as férias acabaram e o Fusca ficou parado no palheiro dos pais do Brasileiro. E como precisavam do palheiro, o Fusca ficou soterrado em palha debaixo de um tolde de lona. 

Quase trinta anos passados e o Fusca desapareceu das memórias dos moradores da aldeia. Tudo isso porque afinal o tal brasileiro não estaria tanto assim a nadar em dinheiro, e como tal nunca mais voltou a Portugal.
Até que um dia, no tasco do velho T., o meu pai no meio de suecadas, dominó e de cerveja começou a falar das memórias de miúdo com os amigos de infância. E conversa vai, conversa vem e falou-se no Fusca do brasileiro. 
Então o meu pai resolveu que se calhar estava na altura de o tirar do palheiro e de lhe dar um novo dono. E quando retiraram a palha e a lona viram que o carro estava ainda impecável em termos estéticos. 

Sob ameaça de um possível divórcio, já que a minha mãe farta de carros velhos andava ela, o meu pai resolveu contactar o tal brasileiro para ver se ele queria vender o Fusca. E claro, o brasileiro como não tinha previsão de voltar a Portugal disse que sim, que seria um gosto desfazer-se do carrito. Mas para isso precisavam de tratar de documentos no notário e essas burocracias todas.

Então o meu pai, ingénuo que era, comentou com alguém na vila de que estava a tratar dos papeis para comprar o carro do brasileiro por um bom preço. No entanto essa compra só seria possível dali a um mês porque necessitava de accionar seguro, contratar um reboque e mecânico para o trazer para Braga e essas tretas todas, já que o carro estava parado há perto de 30 anos. 
E eu com os meus sete anos já imaginava que iria estar dentro de um carro igual ao da minha Barbie. Que se calhar dali a 10 anos eu conduziria um carro igual ao da Barbie.

Moral da História: alguém da vila soube da venda do carro, contactou o brasileiro e pagou um bocado mais pelo carro. E claro, ao brasileiro convinha mais dinheiro, que se lixasse a palavra de honra.  
Aprendi com essa história que quando estamos em vista um bom negócio que devemos ficar com a boca calada. Foi assim uma espécie de humilhação para o meu pai saber que tinha sido trapaceado. 

E claro, quando passo pelos poucos Carochas dos anos 60-70 azul bebé, tenho uma espécie de tristeza. Afinal ainda há quem possa conduzir o carro da Barbie.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Carta aos livros que ando a ler nas férias

Verão para mim sempre implicou ler e ler e ler.
Este ano resolvi pegar nos livros que fui coleccionando desde a minha adolescência e comecei a lê-los pela primeira vez. Os meus pais sempre nos induziram a coleccionar algo. Eu comecei a  coleccionar livros. Os clássicos da literatura com capa em couro e estampados a letras e desenhos dourados são os meus favoritos.

Comecei na segunda feira a ler "O Primo Basílio" do Eça de Queirós. Quando o comecei a ler senti que estava a ler outra vez Os Maias que li no Verão de 2002.

Se gostei do Primo Basílio? Não muito. A protagonista a meu ver era uma franganota. Volta e meia tinha os seus desmaios, as suas febres, as suas palidezes e acaba o livro com delírios e depois morta.

Para uma heroína, a Luiza é uma fraquinha. No entanto mereceu o amor de dois homens: o amor do marido e o do primo.

Começo a chegar à conclusão que toda a donzela mesmo nos dias de hoje, para ser amada, tem de ser muito sensível. Tem de ter maleitas e queixinhas estúpidas. Tem de ser fútil. Tem de amar sushi e roupinha fofinha. Tem de ser minimininimimi. Tem de ter um grupo de amigas futeis e tontinhas. Tem de admitir que não sabe fritar um ovo, apesar de frequentar workshops para saber cozinhar. Tem de saber tirar fotos com o seu telemovelzinho com um biquinho na boca.

Infelizmente eu sou do tipo robusta. Nunca tirei workshops para saber cozinhar. Simplesmente tive que aprender a improvisar para ver se não morro à fome. As minhas amigas são maioritariamente nortenhas. De gema. Somos umas descendentes da Maria da Fonte. Pomos sempre os pontos nos is. Sabemos berrar quando precisamos de berrar e até se for preciso sabemos mandar alguém a um certo sítio. Odeio sushi.
Não tenho maleitas porque as evito. Se sei que posso vir a ter dores nos pés, nem chego a comprar os tais sapatos. Sou uma autodidacta, sei fazer de tudo um pouco porque aprendi...se for preciso cortar relva, eu corto, se for preciso pintar uma parede, eu pinto. As nossas fotos são tiradas com grandes sorrisos na cara a mostrar todos os dentes. Somos anti Luizas que encornam maridos e que depois se acham as maiores vítimas...


E pensando bem, deve ser por isso que ainda estamos solteiras...

Próximo livro: A Brasileira de Prazins d' Camilo Castelo Branco

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Querida B.

Tão certo como fazer sol ou chuva, a minha mãe vai todos os sábados de manhã ao mercado. E nas suas idas ao mercado ela encontra sempre gente conhecida para dar duas de treta. Este sábado, perdida entre as lavradeiras e a marralhar o preço dos tomates e das alfaces, a minha mãe deu caras com uma senhora da terra dela. A novidade da senhora: As primas amaricanas da mãe estão em Portugal.
As primas amaricanas são primas directas da minha mãe e visitam Portugal de dois em dois anos. Sinceramente só me lembro delas no funeral do pai delas era eu catraia, mas a minha mãe sempre falou delas com um certo carinho. Eram as primas das festas e arraiais e cortaram as relações quando elas foram para a América. 

Posto isto, durante a tarde, fizemos-nos à estrada para ir visitá-las. A aldeia-natal delas situa-se perto  a poucos km do Gerês. Não é uma aldeia bonita, os acessos não são grande coisa. Mas ao fim de muitas curvas e contra-curvas e de "acho que é por aqui" mas que afinal-não-era por parte da minha mãe, lá demos com a casa da tia da mãe.
A casa, tipicamente minhota, foi restaurada há muito pouco tempo. Mantém a típica varanda minhota, a sequeira por perto, um tanque de água feito com quatro pedras de granito com água sempre a cair. Ao fundo do quintal encontra-se uma enorme oliveira que faziam sombra ao galinheiro. É uma aldeia idílica para fins-de-semana, nada mais.
E lá estavam elas, a amaricanas: todas elas bastante parecidas com a minha mãe, a mesma cor de olhos verdes, a mesma cor de pele de tão branca que se conseguem ver as veias na testa, o cabelo loiro encaracolado tipo carapinha e claro, o ligeiro peso a mais. Depois de muitos beijinhos e abraços, as primas arrastaram-nos para dentro da casa para conversar num local mais fresquinho, acompanhado por vinho verde e chouriço caseiro.

O que posso concluir sobre a conversa... Que na América é que se vive bem. Que vivem em brutas mansões com duas empregadas para limpar diariamente. Que a cozinha de uma delas é tão grande mas tão grande que tem dois fogões, e imagina cara B., dois microondas! E os frigoríficos, B? São enormes e até sai água ou sumo pela porta... Que nenhum dos filhos delas estudaram porque na América quase ninguém segue carreira universitária, mas que trabalham na Casa Branca ou no Capitólio. Ai e tal, aqui na Europa todos tem que ir para a Universidade... Está mal, está mal, isso é só para terem a mania,diziam elas. Que os carros que elas têm na América são grandes, tipo limusina. Que estão fartinhas de viajar. A Colômbia foi o último destino para uma delas. Achei piada, quando uma delas afirmava que os produtos que consumiam na América era do melhor e para comprovar isso, deram-me a provar um pedaço de chocolate. Quando me deu para virar a caixa do chocolate para ver que marca de chocolate era (porque de chocolates entendo eu!) consegui vislumbrar a marca americaníssima chamada Pingo Doce E aqueles sofás maravilhosos em que alapei o rabo? Vindos da América em contentores! Enfim, acho que a expressão à grande e à francesa esta a cair em desuso. É melhor dizer à grande e à Americana...

No caminho de volta para casa, a minha mãe comentou-me sobre o barrete que elas estavam a tentar meter-nos. Ninguém que se preze fala em quanto ganha e quanto gasta quer aqui quer na América, disse-me ela.
Foi então que tive que dar uma palmadinha no ombro da minha mãe. Comentei com ela em tom de gozo que se calhar estudar não compensa: É que nem a mãe nem nenhum dos seus irmãos que foram para a universidade têm dois microondas numa só cozinha, disse-lhe. 

Estou para ver a cara de horrorizada delas quando vierem à sardinhada cá em casa. Em toalha de plástico e pratos de barro tosco como sempre. Numa casa portuguesa, concerteza. 



sexta-feira, 12 de julho de 2013

Querido Pai,

Hoje fomos a aldeia para fazer limpezas à casa.
Por incrível que pareça, a casa, apesar de estar fechada há onze meses, estava praticamente limpa, sem grandes teias de aranhas, com pouco pó na mobília e no chão. O nosso maior medo quando vamos até lá são os ratos e as cobras e as enormes aranhas que vivem naquele ambiente agreste da serra. De qualquer forma não vimos qualquer vestígio desses animais quer dentro da casa quer no quintal. Umas pequenas teias de aranha apenas.

E hoje, limpamos, varremos, enceramos toda a casa. Limpamos todo o jardim, removendo qualquer erva daninha. Estive a passar uma demão de um produto para conservar as madeiras. Somos três habilidosas! Consegui retirar com todo o cuidado dois ninhos que os passaros fizeram entre as pedras da parede da casa. Da videira de uvas americanas já se vislumbram algumas tímidas uvas. Lamentavelmente não as vamos provar em Setembro, porque só vamos à aldeia em Julho para limpezas e em Agosto para estar com os nosso parentes emigrados em França e no Brasil. O mesmo digo do velho marmeleiro que está num canto. Esse tem alguns marmelos a nascer, mas a mãe já disse que não se vão vingar.

Uma vez alguém chamou-me parola e pobre quando disse que não vou de férias para o Algarve nem viajo de férias para o  estrangeiro... Tomara... As minhas férias são passadas no meu Portugal porque no estrangeiro estou o resto do ano e para quê ir para o Algarve se eu tenho uma segunda casa de férias?

Uma vez disseste-me que o dono só pode morrer quando a casa estiver acabada. E foi isso que fizeste. O problema é que a casa precisa também de ser conservada, coisa que muitas vezes nós as  três temos alguma dificuldade.

Estou realmente cansada. Tenho alguns calos nas mãos por andar com a enxada a arrasar as ervas daninhas. A minha pele até há bocado estava peganhenta por causa do verniz da madeira. Nada que diluente não ajudasse a remover. Mas estou realmente feliz. A casa está tão bonita como da última vez que lá entraste...
Um beijinho,

Alima

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Querida B.,

Agora que voltei a Portugal depois de seis meses de intenso estudo, voltamos a ser as amigas que sempre fomos antes de eu ter partido. Temos tomado regularmente cafés e temos falado de tudo e mais alguma coisa. Esta noite quando tomamos café com um grupo de amigos teus, eu fiquei seriamente preocupada com o que um deles disse. Basicamente ele é mais novo que nós, mas já é casado e pai de uma filha. Pelos vistos ele está em pensar em separar-se da esposa. O motivo: quatro anos de casado implica uma relação rotineira e cansativa. Diz ele que perdeu o calor e a tesão dos primeiros meses de casado.  Eu não sou especialista em relações, mas eu fiquei seriamente surpreendida com uma revelação destas. Quatro anos de vida em comum implica cansaço???
Segundo ele isso é comum em todos os casais. Afirmou e reforçou essa ideia diversas vezes. E foi aí que cheguei à conclusão que ele tampouco percebe de relações. E então eu tive que dar o melhor exemplo de relação conjugal sem altos e baixos: os meus pais. Pelas minhas memórias, os meus pais sempre foram muito confidentes e tinham uma relação bestial. Pareciam sempre os eternos namorados. Gostavam de dar um passeio sozinhos para namorarem. O meu pai volta e meia oferecia flores e peças de ouro à minha mãe, iam lanchar só os dois. Ok, tinham a rotina das horas para comer e dormir e a rotina dos filhos. Tinham a rotina do domingo de manhã o meu pai sair cedo para ir à caça e a minha mãe ao sábado de manhã ir ao mercado.
Isso das rotinas que têm sempre de existir. Julgo que uma relação não implica constantemente sexo. Implica amor, compreensão, companheirismo. Implica ouvir as mesmas músicas e partilhar memórias semelhantes. Implica educar e, digamos, treiná-lo de acordo com as nossas necessidades. Casar com alguém e chegar ao quarto ano de casamento a pensar em divórcio é triste. Muito triste mesmo.

Dizia ele que ela tornou-se caseira e que ele não se sentia preparado para passar toda a noite em casa. Pudera, ela é mãe. Dizia ele que ela raramente quer fazer sexo. Pudera, é mãe e trabalha a 50km de casa pelos vistos. Não é uma máquina.
Depois eu perguntei-lhe se sabia o que era o síndrome do Peter Pan. Ele disse que não sabia. Então expliquei-lhe que era mais ou menos o medo de crescer. Toda a gente na mesa, maioritariamente malta com vinte e poucos anos e com poucos conhecimentos nessa área começou a rir-se. Ele ficou sério e até aborrecido. E tu B., deste-me um beliscão na perna. Foi então que lhe expliquei que se calhar, em vez de estar sentado connosco na esplanada, deveria saber o que a esposa estaria a fazer naquele momento. Que com certeza estaria a dar de comer ou a tentar a adormecer a pequena bebé que ele orgulhosamente tinha como imagem de fundo no telemóvel. E ele ficou parvo e mudo.

E é o tipo de relação que os meus pais tiveram que eu ambiciono. Podem dizer que é uma relação a la conto de fadas, mas eu sei que ela pode existir. Algures.


Alima

terça-feira, 9 de julho de 2013

Caro A.,

...ou deveria ser Sr. A.....
Sim, porque desde o primeiro dia em que nos conhecemos, tratei-o sempre por sr. A. e o senhor sempre me tratou por menina.

Recordo-me bem as circunstâncias que o senhor foi acolhido na amizade da nossa família. O meu pai era um excelente caçador (não fosse ele ter um diploma de Mestre...) e conheceu-o num dia de caça numa bouça que pertence aos meus avós no nosso Minho. Você (desculpe lá tratar por você, mas quando escrevo esse termo fica mais fácil a redacção) tinha uma cassete que emitia sons de pássaros para atrair a passarada que queria matar. Então o meu pai foi falar consigo e lá lhe deu uma lição de moral. 
Você levava sempre consigo o seu enteado, um rapaz a quem você e a sua família desde o inicio lhe puseram o estigma de "ter uma pancada". Talvez ele tivesse algum distúrbio, mas penso que o facto de o sempre verem assim piorou ainda mais. Se ele fosse estimulado, talvez não fosse tanto assim. Aliás, eu até tirou a carta de condução, ele trabalha, como é que vocês podem dizer que ele um parafuso a menos?

Seja como for, você e o meu pai se tornaram amigos. Tão amigos que iam juntos para a caça aos domingos. Começou a frequentar a minha casa cada vez mais. Nós estávamos a mudar de casa naquela altura e você desde logo se prontificou a tornar-se o jardineiro oficial do novo jardim. E até nos ajudou com as mudanças.  
E começou a ir até à nossa casa na serra e ajudou o meu pai em pequenas bricolage que volta e meia lá eram necessárias fazer. Estorvava às vezes mais do que se não fizesse nada. Nós adoptamos-lo como um membro da família. Para nós, você tornou-se no avô que tinha falecido uns meses antes. Porque na família todos se ajudam uns aos outros: O Sr. A com essas pequenas tarefas do jardim (que nós até nem precisávamos muito uma vez que se mudamos de casa foi porque a minha mãe queria ter um pedaço de terra para tratar) e de bricolage e de acompanhar o meu pai até a caça; Nós em qualquer festa que organizávamos convidávamos a si e a sua família. 
Vamos dizer que o sr. A esteve mais presente nas nossas alegrias do que nas tristezas. Nós tivemos mais presentes nas suas tristezas.
Como você sabe perfeitamente, você sofre de stress pós traumático pós Guerra. Pelo que você me contou, durante a Guerra em Ultramar, estava você e os seus colegas juntos num camião quando ele explodiu. Se não estou em erro sobreviveram muito poucos nessa explosão. E o sr A. durante um longo período do ano entrava em depressão. E o que fazia? Pegava na sua espingarda e punha-se a dar tiros para o ar no meio da rua. Pegou num machado e destruiu o seu carro. Embebedava-se como se não houvesse amanhã. Vinha à nossa casa pedir dinheiro para o taxi para rumar ao Porto. E quem lhe ia defender no tribunal ou falar com a polícia ou mexer uns cordelinhos no hospital militar? O meu pai. O sr. Inspector, como você lhe chamava. 

Depois havia uma coisa que me fez zangar consigo: uma das plantas que eu sempre desejei ter no novo jardim era uma magnólia. Aos meus 14 anos consegui amealhar seis contos para ir a uma horticultura comprar uma magnólia de flor branca, a minha favorita. Com muito cuidado a plantei no jardim sob supervisão dos meus pais. Mas ao fim de algumas semanas a planta estava a morrer. E eu regava, punha adubo, falava com ela... E a magnólia murchava cada vez mais. Até que um dia, poucos minutos depois de você ter regado o jardim, eu notei uns cristais brancos perto da magnólia. Quando os toquei, passei a língua pelos dedos (eu sei, podia ser veneno!) e senti o sabor sal. Tive que ir contar ao meu pai. E você lá admitiu que estava a tentar matar a planta. Nunca soube realmente o porquê, mas deduzo que tenha sido pelo facto de não ser a única planta que você não plantou. Como se o jardim fosse só seu. 

Sei que não morria de amores pela minha irmã. Não sei porquê mas nenhum velhote que eu conheça grama a minha irmã... E numa daquelas fases maníaco depressivas que tinha, virou-se para a minha irmã, tinha ela uns dez- onze anos, e lhe disse que ela não valia nada, de que só era amigo do meu pai e não dela. Nunca entendemos bem o porquê. Mas sei que ouviu das boas do meu pai.

Sei que também é uma pessoa que tudo que o possa afectar, tenta cortar o mal pela raiz. Uma vez eu chego a casa e vejo umas sementes vermelhas em cima do muro. Eu perguntei-lhe o que era. E você disse-me que era veneno para matar os pássaros. Então eu corri para casa, liguei ao pai que estava em Lisboa e contei-lhe o que se passava. O pai, homem bom que era disse para retirar tudo aquilo e deitar ao lixo. O sr. A. nunca me disse nada sobre o aquilo.
Depois cismou que queria matar os gatos vadios que havia na rua só porque eles faziam necessidades no jardim. O que é certo é quem alguns dos gatos desapareceram, inclusivé o gato Persa da vizinha de três casas acima.
E os meus cães morriam de medo de si. Eles escondiam-se num buraco no portão de fole da garagem e só apareciam quando ouvissem alguma voz dos donos.
Quem não gosta de animais ou faz mal aos animais ou a quem os animais temem não deve ser boa pessoa.

Recordo-me que apesar dos seus sessenta e tal anos era um medricas de primeira. Tremia ao ouvir falar em bruxas e assustava-se com barulhos estranhos.
Típico de caçador, canta história que tinha era sempre levada para o exagero.
E ainda me rio quando me contou aquela vez em que você cortou a cabeça a um galo, e o que galo pôs-se a correr sem cabeça pelo jardim e que começou a cantar. E você ficou mudo quando lhe perguntou como é que ele ia cacarejar se já não tinha cabeça...
Enfim...
Escreverei outra carta mais tarde já que esta se está a alongar muito.

Alima

sábado, 6 de julho de 2013

Os automóveis que fizeram parte da minha vida (II)

O meu pai assim que tirou a carta de condução foi também dono de alguns automóveis.
Desconheço a cronologia da aquisição deles, mas recordo-me bem os relatos que ele me contava sobre cada bólide:

O meu pai foi dono de um Citröen Dyane. Segundo ele, foi o carro que menos tempo aguentou nas mãos dele: 15 dias apenas. Tudo porque sofreu um acidente no Porto graças à chuva e estradas esburacadas.
Pouco tempo depois comprou um Fiat 850. Lembro-me dele no parque de estacionamento do local onde o meu pai trabalhava. Era preto. Sei que o mandou para a sucata. Quando o meu pai faleceu, eu e a minha irmã ficamos encarregadas de mexer na papelada do meu pai. E numa gaveta encontrei o livrete do Fiat. Tinha o registo de Julho de 1969. No mesmo mês e no mesmo ano em que o Homem chegou à Lua.

Há um carro que não me recordo dele mas sei que fez parte da minha vida. Opel Manta. Sei que era Vermelho-Ferrari já com a tinta descascada (Nunca limpar vidros do carro com líquido limpa vidros! Nunca!). Sei que tinha umas riscas pretas. Era um carro assim para o desportivo. E que só havia dois iguais na minha cidade. E que o outro carro ainda circula e cujo dono vive na zona histórica. Há fotografias minhas de bebé de colo perto do carro. Julgo que o meu pai vendeu porque ficou difícil de arranjar peças para ele, uma vez que era um modelo pouco habitual nas estradas portuguesas.

Mas se há carro que me recordo bem é o Renault 12. O meu pai comprou-o assim que vendeu o Opel Manta. Era legalizado. No livrete que encontrei nos arquivos do meu pai, vi que a matrícula era anteriormente francesa e que o carro tinha registo de Abril de 1974. Ano e mês da Revolução dos Cravos. Sei que ele participou em alguns rallys em França porque o antigo dono encheu o vidro de autocolantes com as participações.
Foi o único carro de família até 1994, data em que os meus pais compraram o primeiro carro novinho em folha. Infelizmente as pessoas associam carros velhos a pobreza e volta e meia os meus pais ouviam bocas dos familiares sobre o facto de terem um único e carro velho. E então fartos de humilhações compraram o primeiro carro novinho em folha em 1994. Um Seat Ibiza, que foi vendido com poucos km poucos anos depois. E digo poucos km porque era o carro de fim de semana e de idas à aldeia. O meu pai sempre insistiu a usar o Renault para ir para o trabalho. E como tinha uma enorme bagageira era útil para levar as bicicletas para a praia. Não me recordo de ter entrado muitas mais vezes nele depois de 1998, altura em que o meu pai comprou o carro dos seus sonhos: um jipe. E como o jipe ocupava muito espaço na garagem, o meu pai levou o Renault para o parque de estacionamento do local de trabalho. E iniciou então a missão de o restaurar. Objectivo: levar as filhas no dia do casamento naquele carro. Durante os fins-de-semana, ele e alguns amigos, todos eles habilidosos iniciaram a tarefa de substituir peças já gastas do carro. Tornou-se um ponto de encontro aos fins-de-semana, acompanhados de finos de amendoins. Mas em 2001 o meu pai foi trabalhar Lisboa. E deixou o Renault semi restaurado na garagem de um apartamento à espera de continuar a trabalhar nele.
Mas os fins-de-semana são sempre demasiado curtos e ele nunca mais continuou o restauro.  E então eu comecei a pesquisar na Internet sobre a história deste modelo e sobre troca de ideias para o restauro e cheguei à conclusão que só havia cerca de dez Renault 12 com o modelo igual em Portugal. O restauro deveria ser feito em França onde supostamente ainda há peças. Mas o restauro nunca foi feito. O dono faleceu em 2006. Não haveria qualquer motivo para continuar o restauro. Afinal já não poderia levar as filhas à igreja.
E em 2007, quando finalmente conseguiu-se alugar o apartamento, tivemos que mandar o carro para a sucata. A minha mãe não foi capaz de ir despedir-se dele. Eu fui. Tal como fiz no funeral do meu pai, em que toquei no caixão poucos minutos antes de descer à terra, eu aproximei-me do velho Renault 12 e coloquei as mãos por um- dois minutos no capô. E juro que senti regressar à infância, àqueles dias em que o meu pai era um homem simpático e brincalhão, ou aquela ida a Viana do Castelo, mais precisamente a Santa Luzia em que eu usava um vestido de bombazine cor-de-rosa e que sabia que dali a uma semana eu deixaria de ser filha única. Tempos em que as minhas preocupações eram ver todas as cassetes VHS da Disney e ter marcadores que pintassem bem. Tempos em que eramos felizes e não sabíamos.
Dentro do carro ainda estava a cassete do Roberto Carlos metida no rádio. Guardei a cassete no bolso. Não me recordo agora de que ano era, mas tinha uma das músicas que mais gostava dele e daquelas que mais me fazem chorar “Meu querido, meu velho amigo”. E na mala ainda estava uma boneca minha que era feita de um plástico tão foleiro que me de deixou zonza na altura devido ao cheiro a plástico barato. Se não me engano, os meus pais deram-me essa boneca quando acabou-se os quinze dias de colónia de férias, tinha eu quatro anos e meio. “O ferro está todo podre por causa da humidade da garagem”, disseram-me quando fui à garagem despedir-me. Esquecemo-nos muitas vezes que as coisas têm uma alma e uma voz que não podemos muitas vezes ouvir. Sim, o ferro está realmente todo podre. Mas será sempre para mim o velhinho Renault 12 que me deveria levar à igreja no dia do meu casamento.
A boneca e o carro morreram naquele dia. Morreram de velhice e abandono. Paz às suas almas. Que tenham melhor sorte no céu das bonecas e dos velhos carros de família.

PS: Herdei o jipe. Já tem quinze anos, mas ainda o amo de coração. Todos podem conduzir um carro, mas nem todos um jipe. Talvez seja ele que me leve ao altar, um dia, quem sabe…

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Querida Alima que vejo no espelho,

Às vezes surpreendes-me com a frieza com que encaras as coisas. Dois dos exames mais difíceis de todo o curso que estás a tirar foram feitos no espaço de 22horas de diferença. E passaste nos dois. E um dos examinadores a fazer perguntas deve ter sido da PIDE ou membro de algum auto-de-fé noutra vida da maneira como nos deixa constrangidos.


Ficaste encavacada em algumas perguntas orais que te fizeram mas o que é certo é que te aprovaram. Às vezes mostrar demasiado confiança em algumas questões que sabes bem debater é mau, porque ficas trémula e nervosa quando te saem perguntas com que não tens tanta afinidade. O ideal é o meio meio. Calma e segura e não nervosa e muito segura. E deixa o teu sentido de humor em casa. Aqui para nós, os professores gostam que o ambiente seja pesado numa sala de exame. 

Tenho orgulho de ti (apesar de teres deitado umas três lágrimas mal acabaste o exame de hoje, sua lamechas...Ainda tentaste provocar uma lágrima durante os uns bons minutos durante o exame de hoje para ver se acabava o martirio... mas... nada... só quando mal saíste da sala é que te deu uma de Madalena.)


E bem vinda ao terceiro ano de medicina, c*r*lho caramba! Sejam bem-vindas senhoras Férias!



PS.: E como prometeste no ano passado, este verão vais ler escritores portugueses. A começar pelo Eça de Queiroz e a sua Brasileira de Prazins! Mas por agora, descansa bem os olhos. E desintoxica-te da cafeína.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Aos automóveis que fizeram parte da minha vida (I)

Muitos desses carros não cheguei sequer a entrar neles. Mas fazem parte de muitas histórias familiares. E quando passo por alguns desses carros, especialmente os mais antigos, tenho uma espécie de nostalgia de um tempo em que não vivi.
Escrevo esta carta porque há dias passou por mim na estrada um desse carros.
E cada vez mais é difícil de os restaurar: faltam peças, e as poucas de peças que existem são cada vez mais caras.


A minha mãe falava que no seu tempo de menina e moça foi a orgulhosa proprietária de um Citröen DS de 1972. O conhecido Boca de Sapo. Com esse carro fez milhares de km rumo a Chaves, onde estudou. Nos anos 70 eram poucas as mulheres que sabiam conduzir, mas os meus avós, modernos para o seu tempo, fizeram com que todos os seus filhos tirassem a carta. E aquela família foi proprietária de carros como o mítico VW Beetle (carocha), Renault 4cv (a quase extinta joaninha) e o velho Ford Anglia. Esses carros foram desaparecendo pouco após o 25 de Abril porque estavam em nome da empresa do meu avô que nessa altura foi nacionalizada. A empresa e tudo que estava em nome da empresa... E a partir daí começaram a andar a pé ou de transportes públicos até terem dinheiro para comprar outro carro.
A minha mãe sempre me disse que o 25 de Abril foi algo agridoce naquela família. Palavras como liberdade e fraternidade são muito bonitas na boca de quem sabe realmente o que é. E o problema é que qualquer analfabeto na altura que tivesse televisão já se achava um chico-esperto. E queimaram os tratores e arrasaram as vinhas e os milheirais dos meus avós só "porque a terra era se quem a trabalha"

No entanto houve um automóvel que sobreviveu aos dias de hoje: o carro dos meus avós. O velho mas ainda bonito Mercedes 200D de 1965.
No meu imaginário infantil, os avós deveriam ser como o avô da Heidi ou da minha avó paterna. Pessoas dóceis que de vez em quando davam 100 escudos para comprar caramelos. Que nos vestissem um casaco não porque nós tivéssemos frio, mas porque eles tinham frio. Que faziam aletria melhor que a nossa mãe. Mas a minha avó materna é um caso especial. As minhas amigas invejavam-me porque tinha uma avó que com 70's conduzia. Para elas era cool ter uma avó que  não dependesse de transportes públicos. O problema é que a minha avó não era lá muito cool para os netos. É mais do tipo cold. Volta e meia lá desaparecia para ir beber chá com as amigas e não dizia nada a ninguém. Demasiado independente, acho. 
E imagino que ela deve ter ficado arrasada porque o médico a proibiu de conduzir quando lhe detectaram alguns problemas de visão. O carro ainda lá está na garagem. O pó acumula-se. Ninguém se ousa a pegar no carro. Houve alguém que ainda mandou a boca de querer ficar com ele, mas a minha avó num berro disse que o carro pertence ao espólio daquela casa. 
No outro dia estava eu a lavar o meu carro na casa da avó e a avó pediu-me para que lavasse o dela. E que lhe visse o nível de óleo como se estivesse a fazer uma viagem com ele. E claro, tive que ligar o carro para o pôr no pátio. E o roncar barulhento do motor que no inicio estava engripado despertou em mim uma vontade enorme de dar uma volta com ele. No porta luvas jazia os óculos de sol que ela sempre usou para conduzir e um lenço em seda que ela durante anos usava no cabelo quando abria a janela. Parecia que regressava a um daqueles filmes dos anos 70´s com cores manhosas. Depois de ser lavado e verificado os níveis de água e de óleo, arrastei a avó e a mãe a dar um passeio com ele. Fomos comer um gelado ao pé do rio. Conduzir aquele carro foi das experiências mais espectaculares por qual eu passei. Em termos de segurança em comparação aos carros de agora talvez deixe um pouco a desejar. Mas que é um carro lindo, é. E estavam três mulheres sentadas nele. Três gerações: a dos 80's, a dos 50´s e a dos 20's. E as cabeças das pessoas voltavam-se quando passávamos por elas. E a minha avó estava com um brilhozinho nos olhos que tentou esconder com os óculos de Sol que estavam no porta luvas. Afinal o carro está em excelente estado de conservação apesar dos seus quase 50 anos. Trata-se de um  carro que neste momento provavelmente deve ter um bom valor comercial, mas nem tudo pode ser só dinheiro. Este carro tem uma história. Esteve presente em muitos funerais mas também em grande alegrias como o casamentos dos filhos dos donos e o nascimento dos netos e bisnetos.  Com ele rumou-se a Fátima, a peregrinações no Sameiro, à Póvoa de Varzim onde os meus avós sempre passavam o mês de Setembro, a alguns picnics e algumas festas. Toda essa história familiar que não vale alguns milhares de euros.

Haverá um dia que teremos que lhe dar um fim. Ate lá vou olhando para ele com um saudosismo de algo que não vivi.

Alima