segunda-feira, 24 de junho de 2013

Querido M.

A última vez que te vi foi na festa da aldeia em Agosto  de 2003. Soube da tua morte no último dia daquele ano. Que tinhas desaparecido. Que andavam à tua procura. E o nosso coração gelou tanto como aquela noite de Dezembro quando disseram-nos que te encontraram morto dentro do carro. Apareceu morto. Suicídio, disseram

Apesar de teres sido uns anos mais velho que eu, sei que foste como um filho para o meu pai. Os nossos pais, foram primos de sangue mas irmãos de coração. Foram criados juntos. A tua avó, tão pobre que era, teve que deixar aos cuidados da cunhada o teu pai. 
E os teus pais foram os padrinhos de casamento dos meus. O teu pai que muito novinho emigrou, ainda ajudou financeiramente o meu pai porque ele seguiu os estudos. 
E para que tivesses uma vida melhor, os teus pais, ainda eras pequenino, deixaram-te ao cuidado da avó materna em Portugal. Com muito esforço e sacrifício construíram um império só para ti. Não te faltava nada.
E já eras tu pré-adolescente quando eles regressaram definitivamente para Portugal. Foste o terceiro na família a entrar na faculdade. Querias ser juiz. O meu pai falava muito orgulhosamente de ti, chamando-te "o filho do meu primo que já é advogado".  Ele contou-me que comeste o teu primeiro gelado à pala dele num arraial. Pediste ao meu pai uma daquelas coisas que os outros miúdos estavam a comer. O meu pai ofereceu-te um. Meteste-o à boca e chamaste todos os nomes feios àquilo por ser demasiado frio. Não sabias o que era um gelado... Foste portanto um modelo de inspiração. Deste-me força para que eu  pensasse em seguir o curso de Direito também. 

A última vez que te vi, eras aquele gajo todo despenteado, com a camisa fora do lugar, as calças rotas nas pernas porque não te subiram a baínha adequadamente. Eras um tipo relaxado. Misturado no meio do povo da aldeia, estavas tu a contar e a ouvir anedotas javardonas, Mas eras o meu primo-advogado. O primo com quem tinha um laço próximo devido ao carinho que o meu pai tinha por ti.

Muito se especula sobre a tua morte... uns dizem que não aguentaste a pressão de um exame que te abriria as portas para ser juiz, outros dizem que foi um desgosto amoroso. Ficará sempre o mistério. O meu pai e os teus pais souberam o porquê, porque deixaste a tua razão escrita a caneta vermelha numa carta, mas nunca disseram nada...
Desculpa que te diga, mas foste um cobarde. Não deverias ter feito isso. Foste e continuas a ser a ponta do iceberg na nossa vida familiar que é uma tragédia. Morreste, mas não foste sozinho. Um ano mais tarde, o teu pai morreu de ataque cardíaco. Prefiro dizer que foi de desgosto. E como também não poderia ir sozinho, passado três meses, levou o meu tio F com quem tinha uma boa relação. E passado um ano foi o meu pai. 

E depois, com a morte do teu pai os interessados no império que deverias ter herdado começaram a rondar a tua mãe como abutres. E fraca de espírito que ela sempre foi (e mediante as circunstâncias), começaram a dizer que foi bruxedo, que deveria dar dinheiro a este e aquele...já transladou de cemitério a ti e ao teu pai... não te estão a deixar descansar em paz!!! E o teu império na terra continua a desmoronar! E tenho imensa pena da tua mãe. A minha mãe enviuvou mas tem duas filhas. A tua só tem a sua mãe e os sobrinhos por parte do marido de quem nunca sequer gostou. Ás vezes vejo-a na vila e gostaria de lhe dar um abraço. Mas temo que ela sinta repulsa porque eu ainda cá estou. Tenho exactamente a mesma idade da que tinhas quando morreste. Eu ainda cá estou... Ou então temo que ela pense que tenho segundas intenções... e juro que não as tenho! Sou uma vítima directa da tragédia que tu causaste... Então esboço-lhe um sorriso tímido e pergunto-lhe como vai. 

M, meu querido M... assume, foste cobarde e egoísta. Tinhas pais e uma avó que foi mais que uma mãe para ti. Tinhas uma inteira comunidade que te apoiava. Tinhas amigos, família...

Numa foto de casamento dos meus pais, alem dos noivos estão os padrinhos de casamento (ou seja, os teus pais, e os meus tios) e tu. Quase trinta anos mais tarde, a ironia existe no momento em que só as mulheres da foto é que estão vivas.... 

Infelizmente a morte é algo irreversível. Dizem que o suicídio é um pecado. Que quem se mata tem o inferno  garantido. A pessoa maravilhosa que foste não merece o inferno. E a tua mãe tem mandado rezar muitas missas pela tua alma.  Mas se pudesses mudar os teus cinco últimos minutos da tua vida antes de teres apontado aquela maldita arma, mudarias?

Alima...


PS. Estou numa situação limite. Vivo num enorme desespero. Dentro de dias o meu destino estará mais ou menos traçado. Protege-me de cometer alguma loucura. Peço-te. 

8 impressões:

Lia disse...

Em relação ao suicidio tenho uma opinião sempre contrária... não consigo ver tal acto como cobardia, mas sim como uma imensa coragem. É preciso, sim, muita coragem para nos tais últimos 5 minutos, não querer mudar nada e deixar-se levar. :/

Em relação a ti, seja o que for, força. Deste lado vai estar sempre alguém que quer ler o que tu escreves.

Beijinhos*

capitão disse...

Ei! ei! Ei!
Não gostei nada do P.S..

capitão disse...

Ei! Ei! Ei!
As soluções que hoje não são possíveis, amanhã são fáceis de implementar. Que tal parar um tempo.

S* disse...

Oh, pobre M... pobres daqueles que só são procurados pelos abutres do dinheiro. :(

Alima das Cartas disse...

Eu também sou das primeiras pessoas que pôr termo à vida, quer seja suicídio, quer eutanasia são actos de grande coragem.
No entanto tantos anos depois ainda não conseguimos entender o que se passou naquela cabeça. Não foi premeditado. Isso já os especialistas que analisaram a tal carta o confirmaram.
Mas a morte dele foi o principio de muitas outras tragédias familiares. E isso eu não consigo perdoar..

Alima das Cartas disse...

O tempo não pára. Está em constante avanço. Hà coisas que não se podem adiar. Mas tenho fé que vai tudo correr bem :)

Alima das Cartas disse...

É mesmo isso. E pobres daqueles que necessitam de ajuda moral para seguir em frente, e que deveriam receber mais carinho mas quem os quer ajudar são interpretados como alguem com segundas intenções....

capitão disse...

É difícil saber viver com a maldicencia. Mas ê assim a vida. Só temos que fazer o que o coração nos pede, e viver bem connosco.

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