sábado, 15 de junho de 2013

Querida família que está em França (carta I)

No Domingo passado deu-me vontade de falar com vocês. Normalmente só entramos em contacto em ocasiões especiais e no Domingo, sem qualquer motivo especial, resolvi ligar-vos.

Faço uma chamada ao primo G. O primo G. é meu primo em segundo grau. Não tendo primos directos da parte do meu pai, adoptei os primos directos dele como meus primos de coração. 

Querido G:
És um dos meus primos favoritos. Apesar de já estares nos teus quarenta anos ainda consegues manter o espírito jovem que sempre gostei.
Lembro-me de seres o orgulhoso dono do Toyota Celica branco. Continua a ser para mim dos carros mais cool alguma vez fabricados. Era o carro que transportava as noivas na aldeia a caminho do altar e a caminho do restaurante já depois da cerimonia religiosa.
Adorava aquele carro pelo seu estilo desportivo e pelo aroma a baunilha que punhas sempre como ambientador.
Eras o primo que levavas a Alima ao café da freguesia próxima, o meu café favorito porque era o único que vendia gelados nas redondezas. E então perguntavas-me que gelado eu queria. E eu escolhia sempre o cornetto de morango, o meu favorito. E antes de voltarmos à nossa aldeia, compravas mais uns quantos cornettos de morango para comer à sobremesa. E quando chegava a casa, fazia questão de distribuir os cornettos pela minha irmã, avós, mãe e pai.
Fiquei triste quando me disseste que te roubaram o maravilhoso Celica para destruirem uma vitrine de uma loja. 
Todos os anos na festa da aldeia dançamos ao som da música do conjunto músical. Já dançamos ao som de Quim Barreiros, José Malhoa, Emanuel e o típico Apita O Combóio...

És das pessoas que mais gosto. Tens um coração de ouro. Infelizmente na tua vidinha amorosa as coisas nunca correram muito bem: Estiveste a três dias de te casares e não te casaste, arranjaste namoradas que aproveitaram-se do teu bom coração e que fizeram perder milhares de euros. Casaste-te à pouco tempo. Gosto dela. Ela é super amorosa. Mas fico triste por saber que não serás pai. Darias um excelente pai, primo G.

Há dois anos quando nos vimos em Agosto estavas muito pálido. Soube que estiveste muito doente em França. Estiveste de dieta todo o maldito verão. Nem um fino, nem um vinho, nem um bocado de presunto e chouriço...

Mas no ano passado estavas pior. Fui visitar-te à casa dos teus pais. Cumprimentei-te e tu perguntaste-me quem eu era. Eu pensei que estavas a brincar. Mas logo logo o teu irmão me arrastou para um canto e me disse que tinhas um tumor no cérebro. Benigno. Mas que fez perder a visão e a memória durante umas semanas até ele ser praticamente removido. Que depois da cirurgia ainda terias  resquícios que deveriam ser posteriormente removidos. Eu chorei. Como eu chorei... Ali estavas tu como se tivesses Alzheimer a sorrir para mim e sem conseguir identificar-me. Como se estivesses senil..

Fui falando com a tua esposa pelo msn. E ela deixou de falar comigo também. E com trocas e destrocas de telemovel perdi o teu contacto telefónico.
Hoje encontrei o teu número numa agenda velha. 
Liguei-te. Atendeste. 
-Ça va mon chére? - disse-te em francês em tom de gozo.
-Alima, és tu?
- Puxa, como sabias que sou eu?
- Saberia distinguir a tua voz mesmo que estivesses na América...

Estivemos ao telefone uns bons quinze minutos. Estás melhor.Ainda continuas a fazer tratamentos. Em principio serás operado em breve. Queres obter a cidadania brasileira. Queres acabar de pagar a casa e ir viver para o Brasil...

Estou tão feliz por saber que estás melhor... 
Vai dando notícias.
Até Agosto. 

Alima

2 impressões:

S* disse...

É muito bom ter esta proximidade da nossa família... é bom termos orgulho dos "nossos".

Alima das Cartas disse...

Sem dúvida, S*... sem dúvida...

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