terça-feira, 18 de junho de 2013

Querida família que está em França (II)...

...Neste caso, tia T.
Gosto muito de vez em quando ligar para saber de si. Se dependesse da tia, só teríamos notícias suas no Natal, nos aniversário ou quando morre alguém na aldeia. Sim, porque a tia gosta imenso de ligar de França para Portugal para avisar que fulano-vizinho morreu. Como se tivesse à espera que fizéssemos mais de 300Km para ir a um funeral de alguém que não temos grande relação.  Então, boa sobrinha que sou, volta e meia e faço uma chamadinha para saber como andam as coisas por aí.

A tia começa sempre com um discurso do quão mal está: é a ciatique que não a deixa dormir, é a dor de cabeça que a consome, é as varizes inchadas, é a ecografia a não sei quê, é a gripe/pneumonia que o marido tem desde Março e que não curou... é o desemprego, é a criminalidade na zona onde mora...

Depois da panóplia de doenças e de problemas sociais que tão bem a tia descreve, a tia começa o discurso que mais detesto e que eu mais acho cómico: filhos e casamento.
"-Ai, já sabes quem vai casar? O V.!!! E ele tem a tua idade, sabias? A noiva até é portuguesa, dos lados de não sei onde..."  "E lembras-te da R.? Vocês brincavam muito quando vocês eram pequenas... olha, já é mãe!"   "E a M.? vi-a no outro dia aqui na França... tinha um namorado muito bonito. Pelos vistos ele ganha muito como mecânico..."

Sim tia, sei bem que é essa malta toda. Essa malta seguiu precisamente as pegadas dos pais. Fizeram a escolaridade obrigatória, porque sabiam que se tornariam trolhas e faxineiras. E com esses não encontro grande tema de conversa a não ser para falar sobre o estado do tempo. Já não fazem parte do meu circulo de amigos. Porque apenas poucos, muito poucos filhos de emigrantes da aldeia quiseram seguir o ensino superior. E são esses muito pouco com quem tenho alguma empatia e alguma relação. Esses esforçam-se para falar português que eu consigo entender.
Porque acho que neste mundo existem dois tipos de pais: os que querem que os filhos tenham um futuro igual ao deles e os que querem que os filhos ainda consigam ir mais longe que eles próprios...
Esses são os que chegam aos trinta e ainda não estão casados. Prioridades diferentes, sabe? Nem todos podemos casar aos 18 anos nem ter filhos aos 20. E ser casado aos 18 não necessita necessariamente maturidade...

E nada me dá mais gozo quando chego ao tasco da aldeia e observo aqueles casais da minha idade ou um pouco mais velhos tipicamente emigrantes (e não, não estou a ser snob) já com um ou dois filhos, vestidos com a camisola da selecção nacional ou uma tshirt adidas ou nike, com o seu orgulhoso bólide de matrícula francesa e com a sua pronúncia francesa terrível (falo e escrevo muito bem francês, a minha mãe sempre me ensinou, como sabes) na qual eu pesco muito pouco do que eles dizem. Educadamente cumprimento e sou cumprimentada por todos. Então educadamente perguntamos-nos como temos andado e o que temos feito. 

E eles têm o discurso sobre o quão difícil a vida está em França, que as coisas já não são como eram antes. Mas que felizmente ainda vão tendo trabalho nas obras e elas nas limpezas ou na fábricas. Algumas delas até são porteiras o que faz com que tenham alojamento quase de graça a troco da manutenção do prédio... que a vidinha deles é casa-trabalho, trabalho-casa. Que os domingos são passados em casa a dormir porque fica caro sair. Que o carro muitas vezes só vê a luz do dia quando vão de férias para Portugal. 

E claro, o meu discurso é outro: estudei e estudo para ajudar a salvar vidas. Que estou optimista para arranjar trabalho. Que não sou mãe nem pretendo ser tão cedo, mas que sou a titia de uns quantos filhos de amigas que já deram o seguinte passo. Que não tão cedo procuro casar. Que viajo. Que já conheço quase toda a Europa de mochila às costas. Que já estive no Médio Oriente. Que gosto de  tomar um café na esplanada. Que só fico em casa aos Domingos quando está realmente muito mau tempo. 

Tia, isto resume-se a uma palavra: prioridades. Eles são felizes de uma maneira. Eu sou feliz à minha maneira. Não os crítico. Espero bem que eles não me critiquem. Se os invejo? De maneira nenhuma... Se eles me invejam? Às vezes acho que sim. Isto é, às vezes consigo detectar um bocadinho de desdém por parte deles sabendo eles neta de quem eu fui. Ainda tem alguém imagem do avô como um amigo da pinga. Aliás, ironia das ironias só da nossa família (digo a nossa casa e a casa da irmã do avô que era a mais  pobre da aldeia) é que tem todos os descendentes têm canudo.
E depois há aquele gozo que as pessoas dão a mim ou à minha irmã, em que insistem em chamar-me pelo nome próprio (até aqui tudo bem) mas quando eu pergunto pelo filho ou pelo neto  (que até sei que é professor ou que tirou o curso de contabilidade) usando o nome próprio ainda têm a lata de me corrigir com o "O meu filho professor Fulano? bla bla bla" ou "a minha neta neta que trabalha nas finanças Sicrana? bla bla bla"

Mas a tia ficou chateada comigo. Depois de me ter dito quem se casou e quem pariu, eu meti um bocado de fel na conversa:
- Então tia, sabe quem é que casou? A sua priminha favorita! Aquela que vivia em França e a quem a tia pagou uma ida à Disneylândia quando ela tinha 8 anos! Aquela que chegava a uma loja e lhe sabia como pedir uma Barbie... E que era mais inteligente que a sua sobrinha Alima? E a quem lhe ofereceu o seu único cordão de ouro quando ela acabou o curso enquanto à sua sobrinha-afilhada Alima nada? Não recebeu o convite, tia? Eu soube porque ela me adicionou ao Facebook e...
- Ai eu não sabia! Mas quando foi?
- Uiiii já há  algum tempo... já há uns meses para cá ela tem publicado fotos do quão prenha está! A não ser que tenha casado prenha...
- Ai... eu já não sei nada dela há algum tempo... desde que ela se ajuntou com aquele rapaz... um, um, um... enfermeiro...

E pronto, vi que ficou incomodada porque não foste convidada para a boda, quando ela sempre foi a menina dos teus olhos... Temos pena, temos pena.

Até Agosto,

Alima


P.S: Eu também nunca iria usar a porcaria do cordão. Mas sabendo que eu e a minha irmã somos as suas parentes mais próximas, já que não foi capaz de ter filhos, e sabendo que a tia adooooora comprar ouro, ainda pensamos que poderíamos receber alguma peça em ouro da sua parte. Um anel que a faça recordar, por exemplo. Mas pronto, como não sabemos ser pedinchonas também não estamos muito tristes. 
Mas a prima afastada a quem lhe deu um cordão só porque ela lho pediu (e depois ainda se foi gabar na festa de não sei quem de que ela recebe um cordão seu enquanto as sobrinhas nicles), ela que o meta bem no cú. Bem enfiadinho. 


2 impressões:

S* disse...

ahahah Todos temos uma tia que adora falar das suas mazelas.

Lia disse...

E vai na volta e a prima ainda vende o cordão de ouro para comprar uma roupa para o bebezinho. Enfim.

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