quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta ao Cancro

Escrevo-te algumas linhas para te dizer o quanto te odeio e ao mesmo tempo o quanto te temo.
Tenho mais medo de ti do que de Deus, porque cheguei à conclusão que consegues ser mais imbatível que Ele. Deus é muitas vezes um falhado quando O invocamos para que seja possível lutar contra ti.... E quantas e quantas pessoas vi morrer por tua culpa. Poucas são as vitórias de pessoas que fui conhecendo ao longo da minha vida e que me disseram timidamente "sim, venci completamente". E refiro-me a pessoas com fé...

Eu própria já fui temente a Deus. Ia à missa porque além dos meus pais me obrigarem, a minha consciência me ditava também. E pouco a pouco fui dando razão àqueles que preferem a cama do domingo de manhã depois de uma noitada aos que iam à missa... Tornei-me uma não crente graças a ti. E além de não crente tornei-me uma rebelde e revoltada em tudo que respeita à religião. Olhar para uma cruz com Cristo crucificado dá-me repulsa. Cristo sofreu poucas horas naquela maldita cruz e a sua agonia transparece no seu rosto. E aqueles que morrem de cancro e passam dias e dias com o mesmo semblante? Não terão sofrido mais que Cristo? 

És mesquinho e cruel. Antes de matares as pessoas, trazes sofrimento, agonia e dor: a dor física que tu tão bem sabes; a dor psicológica de saberem que vão morrer e nada poderem fazer ou de olharem-se ao espelho e sentirem-se a desfigurar mais e mais, impotentes ao desenvolvimento da doença; a dor social, essa dor que mesmo sem querer uma pessoa não consegue disfarçar a compaixão que temos por alguém que padece o teu mal, ou mesmo a própria dor de quem sofre por um isolamento. E nem quero falar naquela dor que um filho ou uma mãe ou um neto ou um amigo quando olha para aquele que sofre e não poder fazer nada... Há dores que uma morfina ou qualquer opióde não podem ajudar!

És tu que aumentas as estatísticas de mortes em pessoas jovens. Matas reis, rainhas, jovens, crianças, adultos, mães, pais, avós, netos, maridos, esposas, amigos, vizinhos, tios, tias, primos e primas, escritores, actores... Ainda estou para conhecer alguém que possa afirmar que nunca conheceu ninguém que tivesse morrido de cancro.
Escrevem-se livros e realizam-se filmes sobre ti. A muitos deles falta-lhes a essência sobre o que realmente és. As personagens desses filmes nunca ficam realmente ictéricos, com confusos, cheios de edemas, com dores terriveis, com dispneias e anemias, em que se pode ver um jovem que há meses era saudável e quem em pouco tempo ficou confinado a uma cama e de fraldas...

Para mim és o inferno aqui na Terra. És um traidor e um mentiroso, porque no início dás a sensação que podes ser facilmente derrotado. Pensamos que uma cirurgia, um transplante ou uma quimioterapia ou radioterapia e uma ida a pé a Fátima e tudo se resolverá. Mas depois, depois voltas em força, tirando as forças à tua vítima. E aí já não rezamos para que ela esteja curada. Rezamos para que tu a mates o mais depressa possível com o menor sofrimento possível. E tu, maldoso ainda a deixas a sofrer mais dias e dias... e deduzo que não sabes o quão difícil é rezar para que este horror termine depressa, rezar para que o nosso pai ou nosso amigo parta em paz e sem sofrimento...

Muitas vezes as pessoas pedem-me opinião sobre um cancro em não sei quem não sei onde. Tenho algum faro nisso. E custa-me olhar para quem me pede opinião com olhar impotente e pensar "esquece, pelo que me estás a dizer ela está toda contaminada". Costumo mentir com o "há boas hipóteses", mas termino sempre com "...mas...". Maldito sejas que me obrigas a mentir! Maldito sejas porque por tua culpa deixei de acreditar em milagres!

E depois, coincidência das coincidências, todos os anos que costumo ir ao cemitério no dia de Todos-os-Santos, há sempre um grupo de escuteiros à porta do cemitério a pedir dinheiro para uma luta contra ti em troca de um autocolante! "Para ajudar os doentes do IPO", dizem. Muitos dos que põe uma moeda na caixa de latão foram por flores em alguém que morreu por tua causa!!!

Sabendo que quase todos os meus familiares directos morreram de cancro, supostamente por muito cuidado que eu tenha, por muitos exames que eu faça anualmente, sei que haverá um desses exames que me vai dizer para me preparar para o pior. Mas peço-te que seja daqui a muitos muitos anos, depois de eu ter salvo muitas vidas da merda que tu és...

Odeio-te,

Alima

8 impressões:

Gonçalo disse...

Não consegui desviar o olhar deste texto enquanto o lia. Tocaste num tema bastante delicado que nem razões profissionais me deixam mais adaptado perante este tema. Presumo que sejas uma colega da área da saúde. Senti-o nas tuas palavras. Apesar de alguma discordância na questão da fé, admiro a coragem que tiveste nestas palavras. Parabéns!

Alima das Cartas disse...

Sim, de facto sou da área da Saúde... grandes personalidades tornaram-se posteriormente ateus ao ver tamanha injustiça. Estou a lembrar-me assim de repente do Miguel Torga...

Gonçalo disse...

Serás minha colega profissional?

Alima das Cartas disse...

Se és profissional de Saúde, sim, somos colegas de profissão

Gonçalo disse...

Há várias profissões de saúde! :)

Alima das Cartas disse...

Sim... desconheço a tua profissão. Mas de qualquer forma somos colegas:)

Gonçalo disse...

Enfermeiro!

Alima das Cartas disse...

:) ok, sr enfermeiro

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