terça-feira, 4 de junho de 2013

Caro Avô T.

Escrevo esta carta porque hoje recordei-me de si...
Sei que já vão alguns anos que o vi. Sei que não tenho as melhores memórias de si.
A minha mãe passado tantos anos culpabiliza-se um pouco pelo facto de não ter proporcionado melhores memória suas. O problema é que ela não tem razão de qualquer culpa. Eu era uma adolescente tonta, mas não assim tão tonta. O avô foi motivo de muitas discórdias em minha casa. Muitas discórdias séria, digo-lhe. Mas eu, que sou boa menina, perdoo-lhe. Depois que você fez a sua derradeira viagem, a tempestade acalmou. E nisso agradeço-lhe. Temia que o seu espírito ainda rondasse em cima de nós.

Quando me recordo de si, não consigo criar uma imagem de um bom avô para as suas netas. O avô foi muito egoísta para com elas, sabe bem disso. Sempre ouvi dizer que são as pequenas atitudes que marcam a diferença. E a diferença aqui tornou-se um bocado indiferença quando penso em si. Talvez se tivesse sido mais generoso comigo e com a sua outra neta, talvez se não fosse gerador de tantos conflitos, provavelmente eu conseguiria brotar uma lágrima de saudades suas... 

Mas uma coisa não posso negar: o avô foi um homem sábio. Foi um sábio ao transmitir a sua sabedoria para o seu filho. Porque o seu filho foi e será para mim um excelente pai. E como foi um excelente pai, fez todos os esforços para que as suas netas pudessem recordar o seu avô. Não, não duvido que você, nos poucos anos que conviveu com o seu filho (ora porque o avô emigrou, ora porque o seu filho teve que sair da aldeia para estudar e trabalhar) tenha sido um bom pai. Porque sabemos que em regra geral os nossos pais aprenderam a ser pais com os seus próprios pais.  Aliás o meu pai sempre se gabou que foi o primeiro a ter uma bicicleta na aldeia e de ter sido o primeiro não emigrante a ter carro graças a si... mas não foste um bom avô. 
Pessoalmente, não me posso queixar muito dos seus momentos de generosidade em que me ofereceu um par de argolas, de me querer oferecer um colar em ouro, de me querer pagar algumas aulas de piano... mas o avô tinha outra neta. Essa neta é a minha irmã. A neta que não sei porquê sempre foi discriminada em tudo. E como espera que ela tenha alguma recordação sua? Por exemplo,  o avô em vez de ter oferecido umas argolas, poderia ter oferecido mais coca colas e sumois de ananás na tasca da aldeia. São essas pequenas coisas que marcam uma criança. É inevitável, sempre que vou visita-lo ao cemitério por obrigação familiar, sinto-me obrigada emocionalmente em dizer um Olá a muitos dos seus compadres que repousam perto de si e que em vida me ofereciam as benditas coca colas e cem escudos para comprar chicletes gorila... 

Mas sim, avô há flashs na memória que ficam. Recordo-me de que apesar de velho, tu eras um homem lindìssmo. Olhos azuis e louro e com uma pele muito bem tratada para quem vivia num ambiente agreste de uma serra no interior de Portugal. Características que nenhum dos teus descendentes tem.
Recordo-me de me ter dito que foi o homem dos mil engenhos: Foi mineiro, guarda de minas, socorrista, parteiro, arrancou dentes, deu injecções, matou e esventrou animais, agricultor, tocou cavaquinho no rancho lá da terra, serralheiro, carpinteiro, engenheiro, arquitecto, deu o salto a pé para França onde alguns dos teus companheiros pereceram pelo caminho... Foi também personagem de muitas histórias caricatas... E foi  numa noite à lareira que aprendi consigo todos os ossos dos corpo humano...

E são essas histórias e a sabedoria que me transmitiu em muitas noites à lareira que ainda me fazem recordar de si... e quero um dia poder contar aos meus filhos o que meu avô dizia e o meu pai repetia...

Um pobre mesmo que venda tudo que tem nunca chegará a rico...
Mais vale ser invejado do que lastimado...
Devagar que temos tempo...
Mais vale um rico homem do que um homem rico... (mas se for as duas coisas ao mesmo tempo...)

Despeço-me até a uma próxima carta,
Alima

5 impressões:

S* disse...

Uma saudade tão bonita mas tão dolorosa. Os avós entranham-se em nós para sempre.

Gonçalo disse...

Uma carta bonita, fico a aguardar pela próxima com curiosidade. Desta retiro para ambos a lição de que devemos ser oportunistas de tudo o que nos acontece na vida, porque para o bem ou para o mal, a lição está sempre presente. Beijinhos :)

Alima das Cartas disse...

Sim S*... o problema é que não guardo as maiores saudades deste meu avô :(

Alima das Cartas disse...

Apesar de ele não ter sido o melhor avô do mundo, foi um homem sábio... E a sabedoria nunca fez mal a ninguém :)

Gonçalo disse...

Essa é a herança que ele te deixou. Goza-a e partilha-a! Beijinhos :)

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