sábado, 8 de junho de 2013

Cara R.

Conhece-mo-nos no secundário há muitos anos. Tu já lá estavas naquela escola desde criança, eu cheguei lá a meio do nosso 10º ano. Eras a filha do prof C., eu era a aluna transferida....
Não sei propriamente ao certo em que dia nos tornamos amigas. Mas quando nos tornamos amigas, rapidamente nos tornamos as melhores amigas.
Estudávamos juntas, saíamos muitas vezes juntas para tomar café, tínhamos o nosso ritual de almoçar no shopping às sextas feiras juntamente com as nossas colegas. Éramos muito complíces. 

E essa excelente amizade durou apenas quatro anos, até ao dia em que senti que traíste a minha amizade.
O facto de me sentir sozinha naquele que veio a ser um dos piores dias da minha vida, fez com que cortasse ligações contigo. Deveria dar-te alguma chance? Não sei... Nunca mais me procuraste. Nunca mais te dignaste a ligar-me a saber como eu estava. 
Confesso que não sofri muito com essa separação, talvez porque não estudávamos na mesmas universidade e porque se calhar nunca mais nos vimos. Vivemos na mesma cidade, mas eu fiz questão de não frequentar os mesmos sítios que frequentávamos juntas. Além disso, o meu coração estava demasiado sofrido com a terrível perda que tinha tido menos de 12 horas da última mensagem que trocamos. 
Recordo-me bem que enviei-te uma sms com o "o meu pai faleceu esta noite", e tu respondeste "lamento muito, estou no café X com não sei quem, se precisares de algo avisa"... Como é que é???? Eu, orfã de pai teria que ligar-te a dizer que precisava que me viesses dar um abraço, ou que me desses a mão enquanto estaria naquela maldita capela mortuária a ser cumprimentada por dezenas de pessoas que não conheço? Estavas num café a poucos metros onde eu estaria a velar do meu pai, porra! E não te dignaste de aparecer!
Nesse dia, bloqueei o teu contacto no msn. Ainda tive durante alguns dias o teu contacto de telefone até que depois apaguei-o.

Pouco tempo depois sei que te cruzaste com a minha mãe. Sei que falaste com ela. E sei disso porque a minha mãe discutiu comigo horrorizada porque eu nunca mais falei contigo, e que te queixaste a ela que  tu nunca mais falaste comigo porque tinhas medo do meu feitio. "Não entendo como deixaste de falar com a R., sabendo que vocês eram tão amigas...", dizia a minha mãe... Pois, R., mas a minha mãe nunca se apercebeu do quanto eu necessitava do teu apoio e do quanto tu mo negaste. 

Muitos anos se passaram, cruzei-me contigo duas ou três vezes na rua, e não senti nada. Nada mesmo, R. Fera ferida que fui, aprendi a lamber as minhas próprias feridas até as sarar...

E nove anos depois de termos acabado o secundário, o pessoal marcou um jantar de reencontro. Sem pensar se irias ou não, prontamente disse que sim. E fiquei chocada quando tu me enviaste um pedido de amizade no Facebook... Sete anos depois da última vez que trocamos palavras! Foi como se estivesse a mexer com fantasmas. Rapidamente enviei-te uma mensagem a dizer que não, não quero ser tu amiga, e tu vieste com o discurso sobre arrependimento, perdão, saudades, do quão estúpida eras e do quanto gostarias de voltar a ser minha amiga, tomar um café comigo para falarmos melhor... E quanto mais eu lia aquele texto, mais eu pensava no quão individualista és... Sim, porque estávamos naquele grupo do facebook há meses, tínhamos amigos em comum desde sempre no facebook e no momento em que digo que podiam contar com a minha presença no jantar, vieste logo tentar tornar-te minha amiga no facebook e vieste logo com o teu discurso de arrependimento.

Aceitei o teu pedido de amizade por misericórdia. E mal aceitei consegui ter acesso a tudo sobre o teu perfil: desde fotos, a frases, a comentários... E depois pensei que não é saudável para mim estar a mexer com o fantasma que agora és...foram sete anos que voaram e no qual eu não contei com a tua presença... Era impensável para mim sentar-mo-nos no café e falar no tempo que já-lá-vai contigo. Frases como "Que me contas, R.?" seriam impensáveis para mim....Vi pelas fotos que és feliz, que tens um namorado que tem uma tatuagem do Benfica. Sei que vocês os dois  devem-se dar mesmo bem, porque sei que eras doente pelo Benfica. Que até tinhas blogs sobre esse tema. Que na manhã depois do Feher ter falecido acusaste todos os Portistas (eu incluída) pela morte do fulano (e o jogo era Benfica-Guimarães)... E de que todos os portistas (eu incluída) deveriam ir para o Inferno quando morressem...
Mas cinco minutos depois eu apaguei-te dos meus contactos. Enviei-te uma mensagem a pedir desculpa por tal. Não quero mesmo saber o que fazes, não quero ver o meu Facebook com coisas que publicaste... No dia do funeral do meu pai, fiz também um funeral a nossa amizade...

Estava a contar ver-te no jantar. Não foste. Deduzo porque não tinhas coragem de olhar na minha cara porque fui sincera contigo ao dizer-te que te perdoava mas que não esperasse qualquer relação de amizade da tua parte. 
E no jantar apercebi-me que estamos a envelhecer a olhos vistos. Nove anos depois, os nossos antigos colegas de turma que na altura tinham as preocupações de tirar carta de condução, arranjar namorados, ter média para entrar em medicina, estão agora casados, carecas, com filhos, mais gordos ou mais magros, mas todos eles mais velhos!
Os anos passam, e o Mundo não pára!

Bem, despeço-me agora com os votos das maiores felicidades (porque não sou vingativa),
Alima

PS. Apesar de ter perdido grande parte da minha fé, continuo a rezar. Rezo sempre por ti.... como rezava desde a altura em que nos conhecemos

4 impressões:

Gonçalo disse...

Não sendo o típico advogado do diabo, mas vendo a situação numa outra perspectiva, já imaginaste se a fuga da tua amiga num momento tão delicado para ti não seria apenas uma fuga a ela própria como motivo de defesa pessoal?

S* disse...

Arrependo-me muito de ter tentado perdoar uma amiga, pois só sofri mais.

Alima das Cartas disse...

Possivelmente podes ter razão. O problema é que ela desde então nunca mais me contactou... até sete anos mais tarde quando sabia que iria estar comigo por causa do jantar de reencontro do liceu...Nem uma chamada, nem um email, nem uma sms...

Alima das Cartas disse...

E conseguiste realmente perdoa-la?

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