sábado, 29 de junho de 2013

Querida Irmã...

Hoje é o dia do teu aniversário. Parabéns. 
Sabes bem que apesar dos nossos conflitos e chatices gosto imenso de ti. Afinal tu existes porque eu quase fiz greve de fome para que os nosso pais me dessem uma irmã. Aliás, até acho que preferia um irmão. Os irmãos (normalmente) não roubam as sandálias favoritas à irmã nem a maquilhagem só porque sim. E como normalmente gostam de carros não se importam de o lavar ao fim de semana.

Tu és bem mais feminina que eu. Eu sou adepta de sapatos baixos (ok, tenho quase 1.70m só mais alta que a média feminina portuguesa e sou do estilo bem entroncada), mas tu adoras saltos altos. Quanto mais altos melhor. E claro, a mãe faz sempre comparações entre tu e eu. Para ela és o modelo de virtudes. Deveria seguir o teu estilo e a tua filosofia de vida. Não demonstras emoções. Ás vezes até tenho medo de pensar que és um bocadinho para o fútil e para oca. Aprendes o que te convém. E sabes bem que és mais inteligente que eu. 

Raramente conversamos. Basicamente porque eu desisti de conversar contigo. Falamos, mas não conversamos. Não temos grande tema de conversa. E nisso sei que ganho alguns pontos em relação a ti no que respeita à relação com a mãe. Tu não falas de banalidades. Falas só de coisas ligadas à ciência. Sabes o ciclo de Krebs de trás para a frente, podes saber tudo sobre farmacogenética e de farmacognosia (não fosses tu quase farmacêutica...) mas não tens paciência nem pachorra para explicar as coisas básicas a pessoas mais ignorantes nesses assuntos tipo a mãe. Não sabes fazer analogias. Lembras-te quando estivemos as duas a explicar à tia C. o que era realmente um enfarte de miocárdio e tu puseste-te com termos dispneia, pacemaker cateterismo cardíaco, stunt, artéria radialangiografia e nodo sinoatrial? A tia, com poucos estudos, no seu sotaque vimaranese  virou-se para ti e disse-te: "Mas que c*****lho estás tu p'ra aí a dizer?" Então eu tive que intervir. Tive que lhe explicar todos esses termos num português corriqueiro e com analogia do é do tipo, é como. E então ela entendeu perfeitamente. E soube explicar às irmãs dela como se fosse uma entedida na matéria. 

Não te convém dizer que sabes fazer tudo para simplesmente não o fazeres. Um bom exemplo: Chego eu a casa, a lâmpada da cozinha está fundida. Tu e a mãe estão na cozinha com a luz do exaustor. Da mãe não posso esperar muito que de desenrasque a mudar aquela lâmpada, porque como é para o baixa não mesmo que se ponha em cima da mesa não chega a lâmpada. Então eu pergunto-te se pelo menos já compraste a lâmpada. E tu dizes que não sabes qual deves compra-la. Então eu vou à loja, compro a lâmpada. Compro uns arrancadores porque tenho uma suspeita que pode ser por isso que não funcione. Chego a casa e eu e a mãe empurramos a mesa para debaixo do candeeiro. Pergunto à mãe porque é que não a ajudaste a trazer a mesa. "Oh, ela é novinha, não tem força para isso!", responde a mãe.
Então eu lá me empoleiro  na mesa, enquanto a mãe vai desligar a corrente eléctrica, retiro as grelhas do candeeiro, rodo para cá e para lá a lâmpada, coloco a lâmpada e verifico se funciona a luz assim que ligada a corrente. Não há luz. Coloco os novos arrancadores e a velha lâmpada. Funciona. O problema estava nos arrancadores. 

-Então mana, não achas que está na altura de aprenderes a fazer qualquer coisa útil cá em casa?,- pergunto-te...
- Oh... ela ainda é novita, deixa-te de coisas!- diz a mãe.

Pois é mana, fazes hoje 22 anos. Está na altura de deixares de ser o bebé cá em casa. Para mãe serás sempre o bebé. Tens que te impor. Eu com a tua idade já tinha ido de avião sozinha para outro país trabalhar. Há coisas que o teu canudo não te vai ensinar. Aprende por ti própria. Vais gostar. Tens de deixar de ser tão dependente das pessoas. Já não és aqueles 4 kg de gente, todo cabeludo e vermelho que vi pela primeira vez na maternidade há 22 anos. Tornaste uma menina bonita e delicada. E eu tive que me tornar numa espécie de homem entendido em mecânica, em pedir orçamentos, em electricidade, pichelaria e canalização. Mas agora tens que começar a pensar em deixar os teus stilettos e a passar a usar de vez em quando umas havaianas, ou pior umas crocs. 

Sim, porque faz agora vinte e dois anos em que a mãe ficou de trombas e gravidérrima em casa na noite de S. João enquanto eu e o pai fomos até à avenida com os tios com os martelos em riste. E sei que levamos farturas e pão com chouriço para a mãe comer não fosses tu nascer com cara disso. E como nasceste no dia 29 de Junho, lembro-me do tio F. dizer ao pai quando ele lhe contou a boa nova: "F***-se, apartir de agora, além das sardinhas e vou de comprar sempre bolo!"

Feliz aniversário, mana. Que disfrutes bem o teu dia. E que cresças!

A tua old sister,
Alima

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quem é a Alima

Aproveitei o desafio da Lia para poder caracterizar melhor a Alima. Basicamente todas as frases que estão a negrito são as que estão em concordância com a minha pessoa:



Tenho menos de 1.65m.
Tenho uma cicatriz.
Gostava que o meu cabelo tivesse uma cor diferente.
Já pintei o cabelo.
Tenho uma tatuagem.
Eu nunca usei suspensórios.
Um estranho já me disse que era bonito/a.
Tenho mais de 2 piercings (brincos)
Já jurei algo aos meus pais.
Já fugi de casa.
Quero ter filhos no futuro.
Tenho um emprego.
Já adormeci numa aula (várias vezes...)
Faço quase sempre os trabalhos de casa.
Já estive no quadro de honra da escola.
Já disse "LOL" durante uma conversa.
Ainda choro a ver filmes da Disney.
Já rasguei as calças em público.
Tenho uma doença de nascença.
Já tive que levar pontos. 
Já parti um osso.
Já fiz uma cirurgia.
Já andei de avião.
Já fui a Itália.
Já fui à América.
Já fui ao México.
Já fui ao Japão.
Já fui à Suíça.
Já fui a África.
Já me perdi na minha própria cidade.
Já fui à rua de pijama. (praxe académica)
Dei um pontapé a um rapaz onde dói mesmo.
Estive num casino.
Gostava de jogar verdade ou consequência.
Já tive um acidente de carro.
Já entrei numa peça de teatro.
Já me sentei num telhado à noite.
Costumo pregar partidas às pessoas.
Já andei de táxi.
Já comi sushi.
Já tive um encontro às cegas.
Sinto falta de alguém neste momento.
Já beijei uma pessoa com mais 8 anos do que eu.
Já me divorciei.
Já gostei de alguém que não sentia o mesmo por mim. 
Já disse a alguém que o/a amava, quando não era verdade.
Já disse a alguém que o/a odiava quando na verdade o/a amava.
Já tive uma paixão por alguém do mesmo sexo.
Já me apaixonei por um/a professor/a. 
Já me beijaram à chuva. 
Já beijei um estranho.
Fiz algo que prometi não fazer.
Já saí sem os meus pais saberem.
Já menti aos meus pais acerca do sítio onde estava.
Tenho um segredo que ninguém pode saber. 
Já fiz batota.
Copiei num teste.
Passei um semáforo vermelho.
Já fui suspenso na escola.
Já testemunhei um crime.
Estive preso/a.
Já consumi álcool.
Bebo regularmente.
Já desmaiei de tanto beber.
Estive bêbado/a pelo menos uma vez nos últimos 6 meses. (Natal e vodka de avelã, ai ai ai ai)
Já fumei ganza.
Já tomei drogas fortes.
Consigo engolir 5 comprimidos de uma vez sem problemas.
Já me diagnosticaram uma depressão.
Tenho problemas de ansiedade diagnosticados.
Grito com os outros quando estou enervado.
Sofro/sofri de anorexia ou bulimia.
Já me aleijei de propósito.
Já acordei a chorar.
Tenho medo de morrer.
Odeio funerais.
Já vi alguém morrer. (tantos, tantos...)
Alguém que me era querido suicidou-se.
Já pensei em suicidar-me.
Tenho pelo menos 5 CD’s.
Tenho um iPod ou um mp3. 
Sou obcecada por animes.
Já comprei alguma coisa pela Net. 
Já roubei um tabuleiro de um restaurante de fast-food.
Eu vejo o noticiário.
Não mato insectos.
Canto no duche.
Já fingi estar doente para não ir à escola.
Acedo à net pelo meu telemóvel.
Ando no ginásio.
Sou fanático/a por desporto.
Cozinho bem.
Já fui de pijama para a escola. (praxes académicas)
Sou capaz de disparar uma arma.
Amo amar.
Eu ja exkrevi axim.
Eu riu-me das minhas próprias piadas.
Todas as semanas como fast-food.
Acredito em espíritos.
Já fui para um teste sem estudar e tive boa nota. (Fisiologia médica- 19!!!!)
Sou muito sensível. 
Adoro chocolate branco.(e preto,  e com amendoas, e com tudo desde que não tenha menta)
Tenho o hábito de roer as unhas.
Associo músicas a pessoas/momentos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Querido M.

A última vez que te vi foi na festa da aldeia em Agosto  de 2003. Soube da tua morte no último dia daquele ano. Que tinhas desaparecido. Que andavam à tua procura. E o nosso coração gelou tanto como aquela noite de Dezembro quando disseram-nos que te encontraram morto dentro do carro. Apareceu morto. Suicídio, disseram

Apesar de teres sido uns anos mais velho que eu, sei que foste como um filho para o meu pai. Os nossos pais, foram primos de sangue mas irmãos de coração. Foram criados juntos. A tua avó, tão pobre que era, teve que deixar aos cuidados da cunhada o teu pai. 
E os teus pais foram os padrinhos de casamento dos meus. O teu pai que muito novinho emigrou, ainda ajudou financeiramente o meu pai porque ele seguiu os estudos. 
E para que tivesses uma vida melhor, os teus pais, ainda eras pequenino, deixaram-te ao cuidado da avó materna em Portugal. Com muito esforço e sacrifício construíram um império só para ti. Não te faltava nada.
E já eras tu pré-adolescente quando eles regressaram definitivamente para Portugal. Foste o terceiro na família a entrar na faculdade. Querias ser juiz. O meu pai falava muito orgulhosamente de ti, chamando-te "o filho do meu primo que já é advogado".  Ele contou-me que comeste o teu primeiro gelado à pala dele num arraial. Pediste ao meu pai uma daquelas coisas que os outros miúdos estavam a comer. O meu pai ofereceu-te um. Meteste-o à boca e chamaste todos os nomes feios àquilo por ser demasiado frio. Não sabias o que era um gelado... Foste portanto um modelo de inspiração. Deste-me força para que eu  pensasse em seguir o curso de Direito também. 

A última vez que te vi, eras aquele gajo todo despenteado, com a camisa fora do lugar, as calças rotas nas pernas porque não te subiram a baínha adequadamente. Eras um tipo relaxado. Misturado no meio do povo da aldeia, estavas tu a contar e a ouvir anedotas javardonas, Mas eras o meu primo-advogado. O primo com quem tinha um laço próximo devido ao carinho que o meu pai tinha por ti.

Muito se especula sobre a tua morte... uns dizem que não aguentaste a pressão de um exame que te abriria as portas para ser juiz, outros dizem que foi um desgosto amoroso. Ficará sempre o mistério. O meu pai e os teus pais souberam o porquê, porque deixaste a tua razão escrita a caneta vermelha numa carta, mas nunca disseram nada...
Desculpa que te diga, mas foste um cobarde. Não deverias ter feito isso. Foste e continuas a ser a ponta do iceberg na nossa vida familiar que é uma tragédia. Morreste, mas não foste sozinho. Um ano mais tarde, o teu pai morreu de ataque cardíaco. Prefiro dizer que foi de desgosto. E como também não poderia ir sozinho, passado três meses, levou o meu tio F com quem tinha uma boa relação. E passado um ano foi o meu pai. 

E depois, com a morte do teu pai os interessados no império que deverias ter herdado começaram a rondar a tua mãe como abutres. E fraca de espírito que ela sempre foi (e mediante as circunstâncias), começaram a dizer que foi bruxedo, que deveria dar dinheiro a este e aquele...já transladou de cemitério a ti e ao teu pai... não te estão a deixar descansar em paz!!! E o teu império na terra continua a desmoronar! E tenho imensa pena da tua mãe. A minha mãe enviuvou mas tem duas filhas. A tua só tem a sua mãe e os sobrinhos por parte do marido de quem nunca sequer gostou. Ás vezes vejo-a na vila e gostaria de lhe dar um abraço. Mas temo que ela sinta repulsa porque eu ainda cá estou. Tenho exactamente a mesma idade da que tinhas quando morreste. Eu ainda cá estou... Ou então temo que ela pense que tenho segundas intenções... e juro que não as tenho! Sou uma vítima directa da tragédia que tu causaste... Então esboço-lhe um sorriso tímido e pergunto-lhe como vai. 

M, meu querido M... assume, foste cobarde e egoísta. Tinhas pais e uma avó que foi mais que uma mãe para ti. Tinhas uma inteira comunidade que te apoiava. Tinhas amigos, família...

Numa foto de casamento dos meus pais, alem dos noivos estão os padrinhos de casamento (ou seja, os teus pais, e os meus tios) e tu. Quase trinta anos mais tarde, a ironia existe no momento em que só as mulheres da foto é que estão vivas.... 

Infelizmente a morte é algo irreversível. Dizem que o suicídio é um pecado. Que quem se mata tem o inferno  garantido. A pessoa maravilhosa que foste não merece o inferno. E a tua mãe tem mandado rezar muitas missas pela tua alma.  Mas se pudesses mudar os teus cinco últimos minutos da tua vida antes de teres apontado aquela maldita arma, mudarias?

Alima...


PS. Estou numa situação limite. Vivo num enorme desespero. Dentro de dias o meu destino estará mais ou menos traçado. Protege-me de cometer alguma loucura. Peço-te. 

sábado, 22 de junho de 2013

Caro amigo C.

Somos amigos há alguns anos. Somos mais amigos virtuais do que propriamente amigos físicos. A distância assim o obriga. No entanto sinto que temos uma grande empatia um pelo outro. Nunca tivemos qualquer discussão. Não duvido que tenhas dito alguma vez para ti próprio que eu era estúpida. Mas nunca o assumiste.

No entanto fica sabendo que adoro conversar contigo. Não temos conversas sobre metafísica e filosofia clássica mas temos muitas conversas sobre relações e a nossa filosofia. Sim, porque eu aprendi que qualquer individuo pode ser filosofo. E tu para mim és um filosofo com retoques de poeta.

Eu sou a mulher do agir sem pensar, tu és o homem do pensar  antes do agir. Eu arrisco todos os trunfos, tu ponderas bem antes de os deitar. Eu dou o corpo ao manifesto quando vejo que algo está errado, tu calas-te e esperas que haja mudanças. Somos um pouco opostos nesse sentido. E nenhum de nós está correcto.
És uma boa âncora para mim. Não devo ser assim tão linear. Precise que alguém como tu me diga "Calma Alima". 

E escrevo-te esta carta para te dizer que provavelmente és demasiado ponderado. Se calhar é devido à tua timidez. Arrisca um pouco, meu caro! Deixa de acreditar que vais ainda conhecer a tua princesa. As princesas dos contos de fadas da Disney são todas umas vadias que falam com desconhecidos, desobedecem às ordens dos pais, só querem cantar e dançar, vestidos bonitos, tem sempre a ajuda da magia das fadas madrinhas, passarinhos, ratinhos e anões (preguiçosas!), não se querem envolver com os mortais mais comuns (só querem príncipes, as putas). Não esperes sempre que uma princesa encantada te vá cair aos teus pés. Faz mostrar que nenhuma delas te merece. Homens comuns são muito mainstream para elas. E tu, C., não és nenhum príncipe encantado. Não usas coroa, nem tens cavalo, nem vives num castelo. Tens um carro que precisas de atestar e levar à inspecção, tens um T2, trabalhas como um desalmado, vais à Zara, tens de fazer compras no supermercado e usas cartões de desconto.
Não queiras ser um joguete aos caprichos dessas princesas ou de qualquer mulher comum. Sê firme. Agarra-a pelo braço e pergunta-lhe: Como é? Em que ficamos? Decide-te... ou é agora ou nunca!

Que nenhuma dela te deixe sentir miserável sem o teu consentimento

Um beijinho... e continua a dar notícias,
Alima





terça-feira, 18 de junho de 2013

Querida família que está em França (II)...

...Neste caso, tia T.
Gosto muito de vez em quando ligar para saber de si. Se dependesse da tia, só teríamos notícias suas no Natal, nos aniversário ou quando morre alguém na aldeia. Sim, porque a tia gosta imenso de ligar de França para Portugal para avisar que fulano-vizinho morreu. Como se tivesse à espera que fizéssemos mais de 300Km para ir a um funeral de alguém que não temos grande relação.  Então, boa sobrinha que sou, volta e meia e faço uma chamadinha para saber como andam as coisas por aí.

A tia começa sempre com um discurso do quão mal está: é a ciatique que não a deixa dormir, é a dor de cabeça que a consome, é as varizes inchadas, é a ecografia a não sei quê, é a gripe/pneumonia que o marido tem desde Março e que não curou... é o desemprego, é a criminalidade na zona onde mora...

Depois da panóplia de doenças e de problemas sociais que tão bem a tia descreve, a tia começa o discurso que mais detesto e que eu mais acho cómico: filhos e casamento.
"-Ai, já sabes quem vai casar? O V.!!! E ele tem a tua idade, sabias? A noiva até é portuguesa, dos lados de não sei onde..."  "E lembras-te da R.? Vocês brincavam muito quando vocês eram pequenas... olha, já é mãe!"   "E a M.? vi-a no outro dia aqui na França... tinha um namorado muito bonito. Pelos vistos ele ganha muito como mecânico..."

Sim tia, sei bem que é essa malta toda. Essa malta seguiu precisamente as pegadas dos pais. Fizeram a escolaridade obrigatória, porque sabiam que se tornariam trolhas e faxineiras. E com esses não encontro grande tema de conversa a não ser para falar sobre o estado do tempo. Já não fazem parte do meu circulo de amigos. Porque apenas poucos, muito poucos filhos de emigrantes da aldeia quiseram seguir o ensino superior. E são esses muito pouco com quem tenho alguma empatia e alguma relação. Esses esforçam-se para falar português que eu consigo entender.
Porque acho que neste mundo existem dois tipos de pais: os que querem que os filhos tenham um futuro igual ao deles e os que querem que os filhos ainda consigam ir mais longe que eles próprios...
Esses são os que chegam aos trinta e ainda não estão casados. Prioridades diferentes, sabe? Nem todos podemos casar aos 18 anos nem ter filhos aos 20. E ser casado aos 18 não necessita necessariamente maturidade...

E nada me dá mais gozo quando chego ao tasco da aldeia e observo aqueles casais da minha idade ou um pouco mais velhos tipicamente emigrantes (e não, não estou a ser snob) já com um ou dois filhos, vestidos com a camisola da selecção nacional ou uma tshirt adidas ou nike, com o seu orgulhoso bólide de matrícula francesa e com a sua pronúncia francesa terrível (falo e escrevo muito bem francês, a minha mãe sempre me ensinou, como sabes) na qual eu pesco muito pouco do que eles dizem. Educadamente cumprimento e sou cumprimentada por todos. Então educadamente perguntamos-nos como temos andado e o que temos feito. 

E eles têm o discurso sobre o quão difícil a vida está em França, que as coisas já não são como eram antes. Mas que felizmente ainda vão tendo trabalho nas obras e elas nas limpezas ou na fábricas. Algumas delas até são porteiras o que faz com que tenham alojamento quase de graça a troco da manutenção do prédio... que a vidinha deles é casa-trabalho, trabalho-casa. Que os domingos são passados em casa a dormir porque fica caro sair. Que o carro muitas vezes só vê a luz do dia quando vão de férias para Portugal. 

E claro, o meu discurso é outro: estudei e estudo para ajudar a salvar vidas. Que estou optimista para arranjar trabalho. Que não sou mãe nem pretendo ser tão cedo, mas que sou a titia de uns quantos filhos de amigas que já deram o seguinte passo. Que não tão cedo procuro casar. Que viajo. Que já conheço quase toda a Europa de mochila às costas. Que já estive no Médio Oriente. Que gosto de  tomar um café na esplanada. Que só fico em casa aos Domingos quando está realmente muito mau tempo. 

Tia, isto resume-se a uma palavra: prioridades. Eles são felizes de uma maneira. Eu sou feliz à minha maneira. Não os crítico. Espero bem que eles não me critiquem. Se os invejo? De maneira nenhuma... Se eles me invejam? Às vezes acho que sim. Isto é, às vezes consigo detectar um bocadinho de desdém por parte deles sabendo eles neta de quem eu fui. Ainda tem alguém imagem do avô como um amigo da pinga. Aliás, ironia das ironias só da nossa família (digo a nossa casa e a casa da irmã do avô que era a mais  pobre da aldeia) é que tem todos os descendentes têm canudo.
E depois há aquele gozo que as pessoas dão a mim ou à minha irmã, em que insistem em chamar-me pelo nome próprio (até aqui tudo bem) mas quando eu pergunto pelo filho ou pelo neto  (que até sei que é professor ou que tirou o curso de contabilidade) usando o nome próprio ainda têm a lata de me corrigir com o "O meu filho professor Fulano? bla bla bla" ou "a minha neta neta que trabalha nas finanças Sicrana? bla bla bla"

Mas a tia ficou chateada comigo. Depois de me ter dito quem se casou e quem pariu, eu meti um bocado de fel na conversa:
- Então tia, sabe quem é que casou? A sua priminha favorita! Aquela que vivia em França e a quem a tia pagou uma ida à Disneylândia quando ela tinha 8 anos! Aquela que chegava a uma loja e lhe sabia como pedir uma Barbie... E que era mais inteligente que a sua sobrinha Alima? E a quem lhe ofereceu o seu único cordão de ouro quando ela acabou o curso enquanto à sua sobrinha-afilhada Alima nada? Não recebeu o convite, tia? Eu soube porque ela me adicionou ao Facebook e...
- Ai eu não sabia! Mas quando foi?
- Uiiii já há  algum tempo... já há uns meses para cá ela tem publicado fotos do quão prenha está! A não ser que tenha casado prenha...
- Ai... eu já não sei nada dela há algum tempo... desde que ela se ajuntou com aquele rapaz... um, um, um... enfermeiro...

E pronto, vi que ficou incomodada porque não foste convidada para a boda, quando ela sempre foi a menina dos teus olhos... Temos pena, temos pena.

Até Agosto,

Alima


P.S: Eu também nunca iria usar a porcaria do cordão. Mas sabendo que eu e a minha irmã somos as suas parentes mais próximas, já que não foi capaz de ter filhos, e sabendo que a tia adooooora comprar ouro, ainda pensamos que poderíamos receber alguma peça em ouro da sua parte. Um anel que a faça recordar, por exemplo. Mas pronto, como não sabemos ser pedinchonas também não estamos muito tristes. 
Mas a prima afastada a quem lhe deu um cordão só porque ela lho pediu (e depois ainda se foi gabar na festa de não sei quem de que ela recebe um cordão seu enquanto as sobrinhas nicles), ela que o meta bem no cú. Bem enfiadinho. 


sábado, 15 de junho de 2013

Querida família que está em França (carta I)

No Domingo passado deu-me vontade de falar com vocês. Normalmente só entramos em contacto em ocasiões especiais e no Domingo, sem qualquer motivo especial, resolvi ligar-vos.

Faço uma chamada ao primo G. O primo G. é meu primo em segundo grau. Não tendo primos directos da parte do meu pai, adoptei os primos directos dele como meus primos de coração. 

Querido G:
És um dos meus primos favoritos. Apesar de já estares nos teus quarenta anos ainda consegues manter o espírito jovem que sempre gostei.
Lembro-me de seres o orgulhoso dono do Toyota Celica branco. Continua a ser para mim dos carros mais cool alguma vez fabricados. Era o carro que transportava as noivas na aldeia a caminho do altar e a caminho do restaurante já depois da cerimonia religiosa.
Adorava aquele carro pelo seu estilo desportivo e pelo aroma a baunilha que punhas sempre como ambientador.
Eras o primo que levavas a Alima ao café da freguesia próxima, o meu café favorito porque era o único que vendia gelados nas redondezas. E então perguntavas-me que gelado eu queria. E eu escolhia sempre o cornetto de morango, o meu favorito. E antes de voltarmos à nossa aldeia, compravas mais uns quantos cornettos de morango para comer à sobremesa. E quando chegava a casa, fazia questão de distribuir os cornettos pela minha irmã, avós, mãe e pai.
Fiquei triste quando me disseste que te roubaram o maravilhoso Celica para destruirem uma vitrine de uma loja. 
Todos os anos na festa da aldeia dançamos ao som da música do conjunto músical. Já dançamos ao som de Quim Barreiros, José Malhoa, Emanuel e o típico Apita O Combóio...

És das pessoas que mais gosto. Tens um coração de ouro. Infelizmente na tua vidinha amorosa as coisas nunca correram muito bem: Estiveste a três dias de te casares e não te casaste, arranjaste namoradas que aproveitaram-se do teu bom coração e que fizeram perder milhares de euros. Casaste-te à pouco tempo. Gosto dela. Ela é super amorosa. Mas fico triste por saber que não serás pai. Darias um excelente pai, primo G.

Há dois anos quando nos vimos em Agosto estavas muito pálido. Soube que estiveste muito doente em França. Estiveste de dieta todo o maldito verão. Nem um fino, nem um vinho, nem um bocado de presunto e chouriço...

Mas no ano passado estavas pior. Fui visitar-te à casa dos teus pais. Cumprimentei-te e tu perguntaste-me quem eu era. Eu pensei que estavas a brincar. Mas logo logo o teu irmão me arrastou para um canto e me disse que tinhas um tumor no cérebro. Benigno. Mas que fez perder a visão e a memória durante umas semanas até ele ser praticamente removido. Que depois da cirurgia ainda terias  resquícios que deveriam ser posteriormente removidos. Eu chorei. Como eu chorei... Ali estavas tu como se tivesses Alzheimer a sorrir para mim e sem conseguir identificar-me. Como se estivesses senil..

Fui falando com a tua esposa pelo msn. E ela deixou de falar comigo também. E com trocas e destrocas de telemovel perdi o teu contacto telefónico.
Hoje encontrei o teu número numa agenda velha. 
Liguei-te. Atendeste. 
-Ça va mon chére? - disse-te em francês em tom de gozo.
-Alima, és tu?
- Puxa, como sabias que sou eu?
- Saberia distinguir a tua voz mesmo que estivesses na América...

Estivemos ao telefone uns bons quinze minutos. Estás melhor.Ainda continuas a fazer tratamentos. Em principio serás operado em breve. Queres obter a cidadania brasileira. Queres acabar de pagar a casa e ir viver para o Brasil...

Estou tão feliz por saber que estás melhor... 
Vai dando notícias.
Até Agosto. 

Alima

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Querida Ana

És uma das boas amigas que ainda me restam desde o Secundário. 
Não éramos propriamente grandes amigas, mas tínhamos uma boa relação.
No entanto mantivemos sempre em contacto. Tomamos regularmente cafés, és um elemento do meu grupo de amigos.
Mas temos de admitir uma coisa: sempre deixaste tudo pela metade. Desististe de fazer o 12º ano comigo porque entraste numa espécie de depressão, e depois disso repetiste mais duas vezes o 12º ano não porque chumbaste mas porque querias fazer melhorias. O teu curso-objectivo era muito alto. E quando mais tarde soube que não tinhas entrado, senti-me triste por ti.

E senti-me triste quando me dizias que não estavas a gostar do curso que estavas a tirar. Dei-te apoio moral para que o acabasses pelo menos, porque estavas a atrasar demasiado a tua vida. Tu que és mais velha que eu um ano (e também muito mais inteligente e melhor aluna que eu!) estavas a adiar mais e mais a tua vida. Pensavas em transferência para outro curso (que não conseguiste) e lá a muito custo acabaste o curso que tinhas entrado inicialmente.

Quando te convidei para lanchar há dois anos, tinhas acabado finalmente o curso. Incentivei-te a mandar curriculos para tudo que era um possível local de trabalho. Disseste-me que não querias trabalhar naquilo. Que provavelmente querias ser advogada. E que irias concorrer como licenciada para Direito. E não entraste. Então voltaste a fazer os exames nacionais porque afinal querias ser tradutora. E claro, no ano seguinte entraste no curso que querias. E quando te liguei dois meses mais tarde para saber como estava a decorrer o curso, disseste-me que tinhas desistido. Que afinal irias pegar no teu diploma e fazer uso dele...
A palavra que associo a ti, foi uma palavra que aprendemos quando lemos Os Maias: diletantista- aquele que tem muitas ideias e muitos projectos e que acaba por nunca os levar adiante. 

Durante este último mês temos falado quase todos os dias. Tudo porque estou a fazer os possíveis para que não desistas do que estás a fazer agora. A vida é uma aventura. E as aventuras trazem sempre sabedoria. O que estás a fazer agora, fiz eu há muitos anos atrás, com menos idade que tu. 
Peço-te querida Ana, não desistas. Aproveita o que estás a fazer. Não reclames. O teu quarto pode ser minúsculo e os teus colegas de casa que os conheces há uns dias podem ser canalha comparando contigo, mas tens de ver que está mais que na altura de pegares nas asas que tens e voar... Sair de Portugal deve ser sempre para ti uma experiência positiva. Afinal Portugal tornou-se um país de velhos e sem oportunidades.

Eu sei que tenho sido uma chata. Que te estou a perguntar todos os dias como corre o trabalho. Que te pergunta como vais de amores. Se tens visto coisas giras. Se tens aprendido. Que te orienta a como fugir às chatices de viver com um grupo de portugueses com quem ainda não tens laços...
Ontem disseste que eu estava a ser uma boa amiga porque estou a tentar levantar o teu astral... Eu não sou uma boa amiga para ninguém (e não sou amiga de mim própria), mas só quero que aprendas que o adiar as coisas não te leva a lado nenhum.  Não terás para sempre o colo dos teus pais. Alguém tem que abanar. Claro que os teus pais já têm saudades tuas, mas tu precisas de crescer... Estás demasiado dependente das tuas raízes. E todas as raízes envelhecem e apodrecem. E ao apodrecerem perdes as chances de ter bons frutos.

Peço-te querida Ana, não desistas... Luta, esforça-te, não te deixes ir abaixo. Aprende a gostar do que estás a fazer. Aprende a chegar ao trabalho com um sorriso nos lábios e a estender-te na cama à noite a pensar que fizeste tudo como deverias ter feito. Como dizia o Miguel Torga Numa aventura o que importa é partir e não o chegar. 

Quero orgulhar-me de ti da mesma forma que tu te orgulhas de mim...

Um beijo tão grande quanto a distância que nos separa,

Alima

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Querido Cupido

Peço encarecidamente que por uns bons anos esqueças que eu exista.
Não quero apaixonar-me nem apaixonar ninguém.
Sou uma pessoa demasiado ocupada com trabalho e com o sucesso, com a família e com os amigos que para mim são seres assexuados. Não quero perder tempo a olhar para outros com um olhar apaixonado

Da última vez que me atingiste, levaste-me à exaustão. Felizmente já consegui retirar a flecha que mandaste com o teu arco... e foi bem penoso removê-la: tirou-me horas de sono, fez com que chorasse e suspirasse pelos cantos como se o mundo estivesse a desabar a meus pés. Fez de mim uma miserável. Mas sim Cupido, já recuperei, o alvo que fui já foi cicatrizado. Cicatrizado mas com muito medo de que a ferida volte a abrir. 

Lembro-me há uns anos ter lido no Principezinho uma coisa qualquer sobre cativar significar criar laços. Quero então, caro Cupido, que não me ponhas a cativar alguém nem quero ser cativada. 

Deixa-me em paz, por favor. E eu prometerei que estarei bem sossegadinha de modo a voltar a ser a Alima invisivel que sempre fui. Não flirtarei nem sequer sorrirei para nenhuma possível vítima tua. E prometo que não terei nem conversas parvas nem conversas demasiado inteligentes com nenhum homem (sim, porque fui chegando à conclusão que os homens ou são oito ou oitenta!)

E acima de tudo procura não acordar velhos fantasmas... Deixa-me desfrutar o Verão sossegada, tá?

Alima

sábado, 8 de junho de 2013

Cara R.

Conhece-mo-nos no secundário há muitos anos. Tu já lá estavas naquela escola desde criança, eu cheguei lá a meio do nosso 10º ano. Eras a filha do prof C., eu era a aluna transferida....
Não sei propriamente ao certo em que dia nos tornamos amigas. Mas quando nos tornamos amigas, rapidamente nos tornamos as melhores amigas.
Estudávamos juntas, saíamos muitas vezes juntas para tomar café, tínhamos o nosso ritual de almoçar no shopping às sextas feiras juntamente com as nossas colegas. Éramos muito complíces. 

E essa excelente amizade durou apenas quatro anos, até ao dia em que senti que traíste a minha amizade.
O facto de me sentir sozinha naquele que veio a ser um dos piores dias da minha vida, fez com que cortasse ligações contigo. Deveria dar-te alguma chance? Não sei... Nunca mais me procuraste. Nunca mais te dignaste a ligar-me a saber como eu estava. 
Confesso que não sofri muito com essa separação, talvez porque não estudávamos na mesmas universidade e porque se calhar nunca mais nos vimos. Vivemos na mesma cidade, mas eu fiz questão de não frequentar os mesmos sítios que frequentávamos juntas. Além disso, o meu coração estava demasiado sofrido com a terrível perda que tinha tido menos de 12 horas da última mensagem que trocamos. 
Recordo-me bem que enviei-te uma sms com o "o meu pai faleceu esta noite", e tu respondeste "lamento muito, estou no café X com não sei quem, se precisares de algo avisa"... Como é que é???? Eu, orfã de pai teria que ligar-te a dizer que precisava que me viesses dar um abraço, ou que me desses a mão enquanto estaria naquela maldita capela mortuária a ser cumprimentada por dezenas de pessoas que não conheço? Estavas num café a poucos metros onde eu estaria a velar do meu pai, porra! E não te dignaste de aparecer!
Nesse dia, bloqueei o teu contacto no msn. Ainda tive durante alguns dias o teu contacto de telefone até que depois apaguei-o.

Pouco tempo depois sei que te cruzaste com a minha mãe. Sei que falaste com ela. E sei disso porque a minha mãe discutiu comigo horrorizada porque eu nunca mais falei contigo, e que te queixaste a ela que  tu nunca mais falaste comigo porque tinhas medo do meu feitio. "Não entendo como deixaste de falar com a R., sabendo que vocês eram tão amigas...", dizia a minha mãe... Pois, R., mas a minha mãe nunca se apercebeu do quanto eu necessitava do teu apoio e do quanto tu mo negaste. 

Muitos anos se passaram, cruzei-me contigo duas ou três vezes na rua, e não senti nada. Nada mesmo, R. Fera ferida que fui, aprendi a lamber as minhas próprias feridas até as sarar...

E nove anos depois de termos acabado o secundário, o pessoal marcou um jantar de reencontro. Sem pensar se irias ou não, prontamente disse que sim. E fiquei chocada quando tu me enviaste um pedido de amizade no Facebook... Sete anos depois da última vez que trocamos palavras! Foi como se estivesse a mexer com fantasmas. Rapidamente enviei-te uma mensagem a dizer que não, não quero ser tu amiga, e tu vieste com o discurso sobre arrependimento, perdão, saudades, do quão estúpida eras e do quanto gostarias de voltar a ser minha amiga, tomar um café comigo para falarmos melhor... E quanto mais eu lia aquele texto, mais eu pensava no quão individualista és... Sim, porque estávamos naquele grupo do facebook há meses, tínhamos amigos em comum desde sempre no facebook e no momento em que digo que podiam contar com a minha presença no jantar, vieste logo tentar tornar-te minha amiga no facebook e vieste logo com o teu discurso de arrependimento.

Aceitei o teu pedido de amizade por misericórdia. E mal aceitei consegui ter acesso a tudo sobre o teu perfil: desde fotos, a frases, a comentários... E depois pensei que não é saudável para mim estar a mexer com o fantasma que agora és...foram sete anos que voaram e no qual eu não contei com a tua presença... Era impensável para mim sentar-mo-nos no café e falar no tempo que já-lá-vai contigo. Frases como "Que me contas, R.?" seriam impensáveis para mim....Vi pelas fotos que és feliz, que tens um namorado que tem uma tatuagem do Benfica. Sei que vocês os dois  devem-se dar mesmo bem, porque sei que eras doente pelo Benfica. Que até tinhas blogs sobre esse tema. Que na manhã depois do Feher ter falecido acusaste todos os Portistas (eu incluída) pela morte do fulano (e o jogo era Benfica-Guimarães)... E de que todos os portistas (eu incluída) deveriam ir para o Inferno quando morressem...
Mas cinco minutos depois eu apaguei-te dos meus contactos. Enviei-te uma mensagem a pedir desculpa por tal. Não quero mesmo saber o que fazes, não quero ver o meu Facebook com coisas que publicaste... No dia do funeral do meu pai, fiz também um funeral a nossa amizade...

Estava a contar ver-te no jantar. Não foste. Deduzo porque não tinhas coragem de olhar na minha cara porque fui sincera contigo ao dizer-te que te perdoava mas que não esperasse qualquer relação de amizade da tua parte. 
E no jantar apercebi-me que estamos a envelhecer a olhos vistos. Nove anos depois, os nossos antigos colegas de turma que na altura tinham as preocupações de tirar carta de condução, arranjar namorados, ter média para entrar em medicina, estão agora casados, carecas, com filhos, mais gordos ou mais magros, mas todos eles mais velhos!
Os anos passam, e o Mundo não pára!

Bem, despeço-me agora com os votos das maiores felicidades (porque não sou vingativa),
Alima

PS. Apesar de ter perdido grande parte da minha fé, continuo a rezar. Rezo sempre por ti.... como rezava desde a altura em que nos conhecemos

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Carta ao Cancro

Escrevo-te algumas linhas para te dizer o quanto te odeio e ao mesmo tempo o quanto te temo.
Tenho mais medo de ti do que de Deus, porque cheguei à conclusão que consegues ser mais imbatível que Ele. Deus é muitas vezes um falhado quando O invocamos para que seja possível lutar contra ti.... E quantas e quantas pessoas vi morrer por tua culpa. Poucas são as vitórias de pessoas que fui conhecendo ao longo da minha vida e que me disseram timidamente "sim, venci completamente". E refiro-me a pessoas com fé...

Eu própria já fui temente a Deus. Ia à missa porque além dos meus pais me obrigarem, a minha consciência me ditava também. E pouco a pouco fui dando razão àqueles que preferem a cama do domingo de manhã depois de uma noitada aos que iam à missa... Tornei-me uma não crente graças a ti. E além de não crente tornei-me uma rebelde e revoltada em tudo que respeita à religião. Olhar para uma cruz com Cristo crucificado dá-me repulsa. Cristo sofreu poucas horas naquela maldita cruz e a sua agonia transparece no seu rosto. E aqueles que morrem de cancro e passam dias e dias com o mesmo semblante? Não terão sofrido mais que Cristo? 

És mesquinho e cruel. Antes de matares as pessoas, trazes sofrimento, agonia e dor: a dor física que tu tão bem sabes; a dor psicológica de saberem que vão morrer e nada poderem fazer ou de olharem-se ao espelho e sentirem-se a desfigurar mais e mais, impotentes ao desenvolvimento da doença; a dor social, essa dor que mesmo sem querer uma pessoa não consegue disfarçar a compaixão que temos por alguém que padece o teu mal, ou mesmo a própria dor de quem sofre por um isolamento. E nem quero falar naquela dor que um filho ou uma mãe ou um neto ou um amigo quando olha para aquele que sofre e não poder fazer nada... Há dores que uma morfina ou qualquer opióde não podem ajudar!

És tu que aumentas as estatísticas de mortes em pessoas jovens. Matas reis, rainhas, jovens, crianças, adultos, mães, pais, avós, netos, maridos, esposas, amigos, vizinhos, tios, tias, primos e primas, escritores, actores... Ainda estou para conhecer alguém que possa afirmar que nunca conheceu ninguém que tivesse morrido de cancro.
Escrevem-se livros e realizam-se filmes sobre ti. A muitos deles falta-lhes a essência sobre o que realmente és. As personagens desses filmes nunca ficam realmente ictéricos, com confusos, cheios de edemas, com dores terriveis, com dispneias e anemias, em que se pode ver um jovem que há meses era saudável e quem em pouco tempo ficou confinado a uma cama e de fraldas...

Para mim és o inferno aqui na Terra. És um traidor e um mentiroso, porque no início dás a sensação que podes ser facilmente derrotado. Pensamos que uma cirurgia, um transplante ou uma quimioterapia ou radioterapia e uma ida a pé a Fátima e tudo se resolverá. Mas depois, depois voltas em força, tirando as forças à tua vítima. E aí já não rezamos para que ela esteja curada. Rezamos para que tu a mates o mais depressa possível com o menor sofrimento possível. E tu, maldoso ainda a deixas a sofrer mais dias e dias... e deduzo que não sabes o quão difícil é rezar para que este horror termine depressa, rezar para que o nosso pai ou nosso amigo parta em paz e sem sofrimento...

Muitas vezes as pessoas pedem-me opinião sobre um cancro em não sei quem não sei onde. Tenho algum faro nisso. E custa-me olhar para quem me pede opinião com olhar impotente e pensar "esquece, pelo que me estás a dizer ela está toda contaminada". Costumo mentir com o "há boas hipóteses", mas termino sempre com "...mas...". Maldito sejas que me obrigas a mentir! Maldito sejas porque por tua culpa deixei de acreditar em milagres!

E depois, coincidência das coincidências, todos os anos que costumo ir ao cemitério no dia de Todos-os-Santos, há sempre um grupo de escuteiros à porta do cemitério a pedir dinheiro para uma luta contra ti em troca de um autocolante! "Para ajudar os doentes do IPO", dizem. Muitos dos que põe uma moeda na caixa de latão foram por flores em alguém que morreu por tua causa!!!

Sabendo que quase todos os meus familiares directos morreram de cancro, supostamente por muito cuidado que eu tenha, por muitos exames que eu faça anualmente, sei que haverá um desses exames que me vai dizer para me preparar para o pior. Mas peço-te que seja daqui a muitos muitos anos, depois de eu ter salvo muitas vidas da merda que tu és...

Odeio-te,

Alima

terça-feira, 4 de junho de 2013

Caro Avô T.

Escrevo esta carta porque hoje recordei-me de si...
Sei que já vão alguns anos que o vi. Sei que não tenho as melhores memórias de si.
A minha mãe passado tantos anos culpabiliza-se um pouco pelo facto de não ter proporcionado melhores memória suas. O problema é que ela não tem razão de qualquer culpa. Eu era uma adolescente tonta, mas não assim tão tonta. O avô foi motivo de muitas discórdias em minha casa. Muitas discórdias séria, digo-lhe. Mas eu, que sou boa menina, perdoo-lhe. Depois que você fez a sua derradeira viagem, a tempestade acalmou. E nisso agradeço-lhe. Temia que o seu espírito ainda rondasse em cima de nós.

Quando me recordo de si, não consigo criar uma imagem de um bom avô para as suas netas. O avô foi muito egoísta para com elas, sabe bem disso. Sempre ouvi dizer que são as pequenas atitudes que marcam a diferença. E a diferença aqui tornou-se um bocado indiferença quando penso em si. Talvez se tivesse sido mais generoso comigo e com a sua outra neta, talvez se não fosse gerador de tantos conflitos, provavelmente eu conseguiria brotar uma lágrima de saudades suas... 

Mas uma coisa não posso negar: o avô foi um homem sábio. Foi um sábio ao transmitir a sua sabedoria para o seu filho. Porque o seu filho foi e será para mim um excelente pai. E como foi um excelente pai, fez todos os esforços para que as suas netas pudessem recordar o seu avô. Não, não duvido que você, nos poucos anos que conviveu com o seu filho (ora porque o avô emigrou, ora porque o seu filho teve que sair da aldeia para estudar e trabalhar) tenha sido um bom pai. Porque sabemos que em regra geral os nossos pais aprenderam a ser pais com os seus próprios pais.  Aliás o meu pai sempre se gabou que foi o primeiro a ter uma bicicleta na aldeia e de ter sido o primeiro não emigrante a ter carro graças a si... mas não foste um bom avô. 
Pessoalmente, não me posso queixar muito dos seus momentos de generosidade em que me ofereceu um par de argolas, de me querer oferecer um colar em ouro, de me querer pagar algumas aulas de piano... mas o avô tinha outra neta. Essa neta é a minha irmã. A neta que não sei porquê sempre foi discriminada em tudo. E como espera que ela tenha alguma recordação sua? Por exemplo,  o avô em vez de ter oferecido umas argolas, poderia ter oferecido mais coca colas e sumois de ananás na tasca da aldeia. São essas pequenas coisas que marcam uma criança. É inevitável, sempre que vou visita-lo ao cemitério por obrigação familiar, sinto-me obrigada emocionalmente em dizer um Olá a muitos dos seus compadres que repousam perto de si e que em vida me ofereciam as benditas coca colas e cem escudos para comprar chicletes gorila... 

Mas sim, avô há flashs na memória que ficam. Recordo-me de que apesar de velho, tu eras um homem lindìssmo. Olhos azuis e louro e com uma pele muito bem tratada para quem vivia num ambiente agreste de uma serra no interior de Portugal. Características que nenhum dos teus descendentes tem.
Recordo-me de me ter dito que foi o homem dos mil engenhos: Foi mineiro, guarda de minas, socorrista, parteiro, arrancou dentes, deu injecções, matou e esventrou animais, agricultor, tocou cavaquinho no rancho lá da terra, serralheiro, carpinteiro, engenheiro, arquitecto, deu o salto a pé para França onde alguns dos teus companheiros pereceram pelo caminho... Foi também personagem de muitas histórias caricatas... E foi  numa noite à lareira que aprendi consigo todos os ossos dos corpo humano...

E são essas histórias e a sabedoria que me transmitiu em muitas noites à lareira que ainda me fazem recordar de si... e quero um dia poder contar aos meus filhos o que meu avô dizia e o meu pai repetia...

Um pobre mesmo que venda tudo que tem nunca chegará a rico...
Mais vale ser invejado do que lastimado...
Devagar que temos tempo...
Mais vale um rico homem do que um homem rico... (mas se for as duas coisas ao mesmo tempo...)

Despeço-me até a uma próxima carta,
Alima

domingo, 2 de junho de 2013

Carta ao rapaz a quem dei o meu primeiro beijo

Antes de mais nada, deixa-me dizer-te que apesar de tudo que dissemos um ao outro em tom de agressividade e discórdia, anos mais tarde após o nosso primeiro beijo, farás sempre parte da minha memória quer para o bem e quer para o mal.
O beijo, o primeiro beijo, tão importante à nossa pessoa, faz parte das nossas vidas... Podemos esquecer-nos de como celebramos o nosso vigésimo aniversário, ou quem fomos ver o nosso filme favorito no cinema, mas a memória do primeiro beijo perdura sempre.

E quando foi o meu primeiro beijo? Foi contigo. Nunca te cheguei a dizer. Foi naquele sábado à noite de Novembro, debaixo de chuva miudinha, em que saímos do café onde eu estava as minhas amigas (que amigas eram? já não me recordo) para darmos uma volta pelo centro da cidade. Recordo-me que me pediste uma chiclete. Foi naquela rua que tantas vezes passei sozinha, que tem umas lojitas bem bacanas e que a partir daquela noite, no meu íntimo, passou a ser a rua onde beijei  romanticamente pela  primeira vez.

Durante muitos meses pensei em ser eu a dar o primeiro passo. Tivemos tantos momentos fantásticos para que pudéssemos beijar: no cinema, na praia, no carro... Mas morria de medo de que recuasses e dissesses não. E sempre que estava contigo rezava baixinho para que fosses tu a beijar-me.

Mas no meu primeiro beijo avançamos os dois. Não chegaste acabar a pergunta que ainda sei qual era. O nosso beijo, ou melhor quando eu avancei sem responder foi o sim para a tua pergunta. 
Foi uma confusão de línguas que não contava que acontecessem. Nos filmes românticos não se consegue ver o que passa dentro da boca dos actores. E quando acabamos de nos beijar, abraçamo-nos. Sentia-me a tremer. Deste-me um primeiro beijo digno de cinema. 
Ainda me recordo o teu hálito à chiclete de mentol. E sorri pouco tempo depois quando ouvi na rádio o Rui Veloso a cantar Primeiro Beijo e a história da "Chicla" de Mentol

Muitos outros beijos aconteceram naquelas semanas em que namorámos. E mesmo quando deixamos de namorar tivemos os nossos beijos. E eu lutei tanto para que as coisas corressem bem...

... Mas tu,  homem agora, a quem dei o meu primeiro beijo não estás destinado a ser o homem que beijarei todos os dias... Resignei e aceitei tal facto. Custou mas já  passou...

Mas sim, meu caro, depois de ti beijei outros. Uns porque queria, outros porque pensei que seria melhor assim. E antes de ti tive propostas para ser beijada ao qual recusei, esquivando-me.  Neste momento em que escrevo esta carta eu não beijo ninguém (ao contrário de ti, bem sei). Mas sou feliz porque já fui beijada...E sinto-me feliz por saber que foi contigo que dei o meu primeiro beijo...

Um abraço... e sê feliz... 
Alima