terça-feira, 14 de maio de 2013

Cara C.

Conheci-te num lar de idosos no tempo em que vivi em Espanha. 
Eras uma velhinha pequenina, de cabelo castanho avermelhado.
Recordo-me que andavas com o andarilho.
E eu, Enfermeira do turno da noite, teria que te avaliar a glicemia às seis da manhã.
Com um simples bom dia, ligava a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira para não te acordar completamente. Ainda podias ficar na cama mais uma horita.
E tu despertavas sempre com um sorriso. Na tua secretaria, estavam expostas dezenas de fotografias do tempo em que eras (ainda) mais jovem. Fotos em que numa delas que estavas sentada numa cadeira com um bebé ao colo, o teu marido de pé, pondo a mão no teu ombro e dando a outra mão a um petiz. 
O teu marido já faleceu. Aquelas crianças foram tornando-se adultos. 
Outra foto estás tu no sofá, com uma criança no colo. E aquela criança é tua neta. E o teu rosto, a tua pele estão mais velhos e enrugados que na outra foto a preto e branco... 
Eras lindíssima quando eras jovem. Ainda agora o és... Sei que trabalhaste como costureira. Agora tens cerca de noventa anos, provavelmente já não consegues enfiar uma linha na agulha com tanta destreza. Sofreste com a Guerra Civil. Sofreste com a Segunda Grande Guerra. Proibiram-te de falar a tua língua. Mas sobreviveste. Deixaste de ser a dona da tua própria casa para seres mais uma residente de um lar no centro da tua querida cidade... 


E tu despertavas sempre com um Bon Dia, Noia. E eu lá respondia com o meu catalão de segunda categoria  Bon Dia, Iaia.
E então me dizias sempre as mesmas frases em castelhano, enquanto dávamos as mãos, querida C.:

Haz lo que puedas y lo que no puedas,
Aprovecha la vida
Disfruta tu dia al maximo, ya que amaneció


Sim, querida Iaia, é que tenho feito... Leio muitas vezes esta ladainha do Carpe Diem (e ultimamente expressões como YOLO) em livros e nas redes sociais, mas saída da tua boca tinha outro sabor...

Um beijo com muita estima,

Alima



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