quinta-feira, 30 de maio de 2013

Caro F.

Faz hoje precisamente oito anos que partiste. 
Se a memória não me falha, atrás daquela tua postura de homem dado ao rigor, um tanto jocoso, de piadas grosseiras e javardas, estava escondido sobre um véu o carácter de uma excelente pessoa, uma pessoa altruísta, uma pessoa que desde pequena os meus pais me obrigaram a admirar. 
Digo obrigada, porque na altura, criança que era, não sabia lá muito bem a diferença entre o bem e o mal. Não eras propriamente um daqueles familiares fofinhos que passava a mão no meu cabelo em gesto de ternura. Porém não me esqueço que comi muitos gelados à tua custa. E sei que volta e meia lá me davas uma notita de cinco contos... E que passava alguns dias de férias na tua casa na praia.
Eras uma pessoa de bom garfo... que provavelmente muito contribuiu para a tua morte. Lembro-me que eras pessoa de comer uma bola de queijo numa noite. Tenho a imagem de ti a comeres mil-folhas e a beber Magos em férias que passamos juntos. Sempre que íamos a tua casa, fazias questão de encher a mesa com tudo e mais alguma coisa e sentias-te zangado se recusássemos em pegar no quer que fosse. 

Eu e os teus filhos nunca tivemos grande relação. Viam-me como a pirralha. E mesmo agora ainda me vêem como a eterna pirralha, mesmo depois de eu já ter quase trinta anos. Eu e eles poderíamos ter mais temas de conversa, mas no íntimo receio que só diga besteiras em frente deles.


Lembro-me que eu era uma criança muito irritável. Alguma coisinha que saia do lugar e eu desatava num pranto. E tu me prometeste uma boneca se eu me calasse. E eu voltava a chorar. E então me prometias duas. E três. E quatro. E eu só me calei quando me disseste que me darias seis bonecas. Muitos anos depois disso, comentei-te que ainda esperava pelas seis bonecas. E tu riste na minha cara. Porque eu fui crescendo e deixei de brincar com bonecas. E pulseira e a libra em ouro que me ofereceste nas comunhões ainda as uso.

E sempre que fazia anos, estavas lá. E quando entrei na Universidade fomos logo à tua casa para celebrar. Os nossos encontros eram quase sempre rituais de celebração. Ou era Natal, ou Passagem de Ano, ou porque não sei quem fazia anos, ou porque te deram um cabrito... E o que mais me custa é pensar que no dia em que morreste eu estava contigo a celebrar.
E também me lembro de ti em momentos mais tristes da minha vida. Estava contigo quando soube que os meus avós paternos faleceram. E apesar de não serem teus parentes, aliás só os conheceste realmente quando foste passar férias connosco à terra dos meus avós, vi-te triste.

Foste personagem em muitas historias caricatas. Ainda sorrio quando me recordo quando tu me contaste que a minha mãe, pouco mais nova que eu nessa altura, estava sempre a dizer que estava na hora de mudares de carro. E então um dia simulaste que o teu carro tinha avariado e lhe pediste para o empurrar, estando a minha mãe de mini saia e sapato alto...até que "por milagre" o carro pegou... Eras aquele que durante muito tempo conduzia dois toyotas corolla brancos a caírem de podre. Mas que num mês comprou um BMW e outro carro para o filho. Passaste de pelintra de Corolla ao dono do BMW. Muitos te invejaram na altura pelos teus bens materiais. Eu nunca te invejei. Estava super orgulhosa de ti. 
Ou então aquela vez em que um parolo qualquer te tinha que pagar favores a ti e te convidou para comer marisco, sem que ele nunca tenha provado tal iguaria. Conclusão, ele comeu camarão com casca e tudo, mesmo com toda a gente a olhar para ele de forma abismada e mesmo assim ele não deu ar de fraco...

Tinhas o teu lugar à cabeceira da mesa em todas as festas. Além do avô, foste a segunda pessoa mais importante, a quem todos deviam respeito. O teu lugar foi destituído quando uma das tuas cunhadas se casou com o médico...  Então aí toda a gente começou a achar que mais vale respeitar o médico de que a ti só com o medo de poderem a precisar de alguma coisa dele. Estúpidos... 
Lembro-me bem do último dia em que estive contigo. Foi no último domingo de Maio. Organizamos um picnic para onze pessoas na festa da terra da tua esposa. Mais familiares que por lá estavam se juntaram a nós, primeiro para beber um copo e depois para se instalarem connosco até de noite. Confidenciaste-me que querias meter os papeis para reforma na quarta feira. Brindamos a isso. Não sei bem porque mas falamos qualquer coisa sobre a Morte... Tiramos fotografias à mesa, estávamos todos com um sorriso de orelha a orelha....
Despedi-mo-nos á pressa...

Eram umas duas da manhã quando o telefone do quarto dos meus pais tocou. Era o teu filho. Encontraram-te em paragem cardíaca enquanto dormias. O teu filho tentou trazer-te à vida, mas não foi possível. Faleceste na tua casa. Na tua cama.
Não te quis ver morto. Preferi não ficar com essa tua imagem. O meu pai confidenciou-me que devido à tua causa de morte, rapidamente o teu corpo enegreceu e inchou. E que o calor da capela mortuaria tornava o ambiente irrespirável. Não, não serias os velho F., que usava perfumes caros cujos filhos lhe davam porque estavam enjoados deles.Fiquei cá fora a acompanhar a cerimónia fúnebre.

Lembro-me de à porta do cemitério, eu ter abraçado o meu pai. Uma tua cunhada, com que raramente convivíamos aproximou-se de mim e disse "Oh mulher, estás a chorar?Mas porque é que estás a chorar?Oh... não chores..." Mas chorei. Chorei porque ele foi das pessoas que mais marcou a minha infãncia. Chorei porque era uma espécie de pai para mim, uma figura presente em todos os momentos mais marcantes da minha vida. Uma figura que dois dias antes estava a falar em reforma. Melhor, que no dia a seguir deveria ter entregue os papeis da reforma.. Uma figura que contava ver envelhecer... E isso, a tua cunhada nunca entenderá. Tampouco vi os filhos dela lá. Aliás, alem dos teus filhos, não me recordo de ver mais nenhum primo...

Com a tua morte, nunca mais fui à bendita festa no ultimo domingo de Maio. As coisas complicaram-se imenso com a tua partida. Mal eu sabia que em menos de um ano iria enterrar o meu Pai.
Mas a vida continua. O teu filho mais velho casou-se e já tem dois pequenos. O teu mais novo acabou o curso, montou a sua clínica e mais cedo ou mais tarde se casará...

A vida continua, caro F.... e se o Céu existe, e se vocês desse lado podem intervir com este lado, mande aí uma forcinha...


Alima


PS. Em todas as PCR que eu assisti e que são ineficazes, revejo o teu rosto em cada vítima... :(



terça-feira, 28 de maio de 2013

Carta à Matemática

Juro que durante uns anos eu gostava imenso de si.
Mas depois, deixou de ser tão elementar e passou a ser cheia de incógnitas. Começou com um x, depois passou a ter também um y e também cheguei a resolver sistemas com um z. e Vieram as funções, as probabilidades, a geometria, as raízes quadradas, as derivadas e aquela panóplia toda...

Foste o maior problema no meu percurso escolar. Por questões de empregabilidade, tive que deixar para trás o sonho de ser professora de História ou de Geografia. Tinha receio de entrar no curso de Direito, tal como o meu pai sonhava que eu fosse, já que eu entrar no curso de Medicina seria para mim uma utopia.
Mas quantos e quantas foram para a área de Letras para fugir de si?

Os meus pais pagavam a explicadores, eu passava horas a olhar para ti e... nada.... era boa aluna em todas as disciplinas, mas tu, caríssima Matemática, só davas desgostos a mim e aos meus pais.
Se me desses uma única alegria, juro cara mas não querida Matemática, eu olharia para ti com outros olhos... poderia ter aquela sensação de fiz o que podia ter feito e consegui salvar-me... Mas não... fazia tudo o que podia e o que não podia e mesmo assim não me salvava.


E quando no Exame Nacional eu chumbei a Matemática por duas malditas décimas, tendo tido média superior a 15 nas outras disciplinas... Bem, o meu mundo desabou mesmo... sentia-me tão fraca quanto aqueles alunos que passaram com 10... Chorei, deprimi mesmo... A minha mãe, que também se dedica a ensinar-te mas num ensino mais básico sem eu saber foi ao liceu onde eu estudava. Fez barulho para que pudessem recorrer da minha nota. E eu passei a Matemática. Foi um Verão em que cresci imenso. Passei de pita do Secundário a Caloira da Universidade. E tu, cara e demoníaca Matemática ias tirar-me esse prazer...

O que te posso dizer agora, é que desde 2004 que não resolvo a porra de um sistema, nem a maldita de uma derivada, nem uma raíz quadrada, nem a porra de uma hiperbole, nem trigonometria... Funções: sim, mas muito fáceis. Estatísticas? Sim, mas muito simples. Mas dou muito uso à tabuada, ao calculo mental de somar, subtrair, multiplicar e dividir... E números negativos só mesmo quando entro num elevador!
Eu sei, eu sei que tudo rola à volta da matemática... que se não fosse a Matemática nunca saberíamos que grandes civilizações existiram... e que até mesmo graças a Matemática a roda é redonda e o mundo redondo é.

Portanto, cara e odiosa Matemática, deixe-me dar um conselho: Não destrua sonhos de tantos alunos como eu. Deixe de ser tão complicada. Nem todos gostamos de desafios... Deixe isso para aqueles que realmente gostam, vulgo malta das engenharias ou das matematicas mesmo... deixe de dar cabo da média de secundario... Sabe que quando destrói um sonho pode estar a destruir uma vida. Frustrações podem levar a depressões. Depressões podem levar a suicídios....

Votos de que tenha todos os seus problemas resolvidos de modo a não ser tão complicada,

Assinado,
Alima

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Querida E.

Não nos temos visto há alguns anos,

Na verdade não posso dizer que a culpa é inteiramente tua. Sou também a culpada. No entanto tenho feito todos os esforços para que a gente se possa encontrar. Em todos os Verões, ligo sempre para o teu número de telefone. Muitas vezes está desligado, muitas vezes não atendes. E ninguém do nosso circulo de amigos te pôs a vista em cima... O que é pena... Sempre ouvi dizer que é na necessidade que sabemos quem é nosso amigo. E já necessitamos muito uma da outra. Tínhamos uma excelente relação...

Fizemos juntas o secundário. Entramos junta na mesma Universidade e fizemos juntas o mesmo curso. Basicamente passamos sete anos juntas.
Eu acabei o curso e resolvi emigrar. Tu resolveste ficar por Portugal para seguires o teu curso de sonho. Ao contrário das nossas colegas que pensavam que eras uma doida por estares a sacrificar mais anos para entrares no curso que querias, eu dei-te todo o meu apoio moral e compreensão. E juro que rezei para que fosses bem sucedida nesse objectivo.

Eu no estrangeiro, suei, aprendi, lutei, saí de um emprego para ir para um outro melhor... até que consegui arranjar trabalho em Portugal. E sempre que vinha de férias e queria saber de ti, só me dizias que estavas a fazer melhorias no secundário...
Em Portugal cheguei à conclusão de que não gostava do que eu fazia. E para pesar ainda mais à minha angustia, senti-a me espezinhada pelos meus superiores e por aqueles que se achavam meus superiores só porque deram mais anos à casa do que eu. E eu tenho o grave defeito de não me saber impor. Ou não saber como me impor... Sou uma fraca...

O que é certo, é que três anos de termos concluído o curso eu entrei no curso que tu querias não pelo mesmo método que tu pretendias ter, mas porque consegui poupar um dinheiro quando eu trabalhava no estrangeiro (sim, porque não se consegue poupar dinheiro em Portugal, tendo em conta aos baixos salários).   Liguei-te a dar a boa nova, de que tinha entrado no curso mas no estrangeiro, e não te demonstraste entusiasmada comigo... Compreendo... mas mesmo assim, generosa que sou, dei-te força para fazeres o mesmo... Acabaste por baixar os braços e estas a tirar outro curso que nada tem a ver com o curso que pretendias.
Liguei-te em Junho a saber como estavas. Queria tomar café contigo. Queria saber como vai a tua vida. Queria contar sobre a minha vida, não para te meter inveja, mas sim para tentares dar o mesmo passo que eu. Disseste-me que estavas atolada de exames. Que quando as coisas estivessem mais calmas, me ligarias, que eu não precisava de te ligar. Juraste até que me ligarias dali a duas semanas...

Um ano passou e ainda aguardo notícias tuas, querida B.

Um beijo e boa sorte para a nova fase de exames,
Alima





terça-feira, 14 de maio de 2013

Cara C.

Conheci-te num lar de idosos no tempo em que vivi em Espanha. 
Eras uma velhinha pequenina, de cabelo castanho avermelhado.
Recordo-me que andavas com o andarilho.
E eu, Enfermeira do turno da noite, teria que te avaliar a glicemia às seis da manhã.
Com um simples bom dia, ligava a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira para não te acordar completamente. Ainda podias ficar na cama mais uma horita.
E tu despertavas sempre com um sorriso. Na tua secretaria, estavam expostas dezenas de fotografias do tempo em que eras (ainda) mais jovem. Fotos em que numa delas que estavas sentada numa cadeira com um bebé ao colo, o teu marido de pé, pondo a mão no teu ombro e dando a outra mão a um petiz. 
O teu marido já faleceu. Aquelas crianças foram tornando-se adultos. 
Outra foto estás tu no sofá, com uma criança no colo. E aquela criança é tua neta. E o teu rosto, a tua pele estão mais velhos e enrugados que na outra foto a preto e branco... 
Eras lindíssima quando eras jovem. Ainda agora o és... Sei que trabalhaste como costureira. Agora tens cerca de noventa anos, provavelmente já não consegues enfiar uma linha na agulha com tanta destreza. Sofreste com a Guerra Civil. Sofreste com a Segunda Grande Guerra. Proibiram-te de falar a tua língua. Mas sobreviveste. Deixaste de ser a dona da tua própria casa para seres mais uma residente de um lar no centro da tua querida cidade... 


E tu despertavas sempre com um Bon Dia, Noia. E eu lá respondia com o meu catalão de segunda categoria  Bon Dia, Iaia.
E então me dizias sempre as mesmas frases em castelhano, enquanto dávamos as mãos, querida C.:

Haz lo que puedas y lo que no puedas,
Aprovecha la vida
Disfruta tu dia al maximo, ya que amaneció


Sim, querida Iaia, é que tenho feito... Leio muitas vezes esta ladainha do Carpe Diem (e ultimamente expressões como YOLO) em livros e nas redes sociais, mas saída da tua boca tinha outro sabor...

Um beijo com muita estima,

Alima



quarta-feira, 8 de maio de 2013

Quem sou eu...

Sou:
mulher, filha, neta, irmã, sobrinha, afilhada, amiga, prima, dona, ex namorada, colega de quarto, colega de trabalho, ex colega de trabalho, colega de curso, ex colega de curso.

Sou
coleccionadora, optimista, tímida, aventureira.

Sou
boa cozinheira, sincera, divertida, old fashion

Sou
preguiçosa, desastrada, desarrumada, do FCP,

Sou
a dona do carro, a dona do cão, a da consulta às 9h da manhã, a que vai fazer madeixas. a da marcação para a instalação da tv por cabo, a Portuguesa, a que viveu em Espanha.

Sou
a estudante, a que trabalhou ali e além, a que tirou um curso e agora está noutro...

Sou e fui  muitas coisas... mas o que sou e o que fui pouco ou nada me definem. Sou acima de tudo um ser biopsicossocial, como aprendi há muito muito tempo. E hoje começa o meu novo blog :)


Alima- Nome de Origem Árabe. Significa Sabedoria