sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Querida L.

Visto que sou uma boa aluna e gosto de ajudar os outros, andei a dar explicações de Patologia a uns amigos. Como estávamos perto do Natal, eles agradeceram-me com um cesto todo fofinho cheio de latinhas e de caixas de bombons. Tinha latinhas de trufas, de merdinhas gourmet e...caviar!

Os bombons marcharam quase todos numa semana, o caviar e as merdinhas gourmet guardei para levar para Portugal. Se é trés chic, que seja comido em família! Mas antes disso perguntei-lhe como é que se deve comer realmente o caviar. Nunca tinha provado, alguém já me tinha dito que era uma porcaria e tal. Então eles me explicaram que deveria por uma taça de gelo, depois rodelas de limão em cima do gelo e só depois o caviar. Explicaram-me que deveria ser servido com uma colher de madrepérola (onde raio arranjo eu isso mesmo?) porque as colheres de metal cortam o sabor.

Cheguei a casa com as latinhas, obriguei a minha mãe a esperar mais uns dias para provar a porra do caviar.


Noite da consoada. cumpri religiosamente tudo que a malta me explicou. Esfregou-se as mãos. Usou-se um botão de madre pérola para ser servido o caviar. Meteu-se à boca. Degustou-se.
A primeira a dar o seu parecer foi a minha irmã: ESTA MERDA SABE A PEIXE COM KILOS DE SAL.
Eu e a mãe concordamos. Fechou-se a lata do caviar para o jantar no dia seguinte na casa da minha tia.

Eu adoro a minha tia. É a pessoa mais genuina que conheço. Diz txouriça e nós foi e nós semos, mas eu adoro-a mesmo. Pus na mesa o caviar. A irmã dela (que não é minha tia) gaba a textura e o sabor, o paladar (trabalhas numa fábrica, que caraças sabes tu disso, perguntava a mim própria!). A minha tia, pega num pedaço de broa, mete caviar em cima, mastiga e diz:
- Pu*a que pariu a isto! Andas a trazer destas merdas da Rússia ou lá o que é que não valem um cara***o? Vou pôr masé mais txouriça e fritar mais uns bolinhos de bacalhau!

Adoro-te tia...


PS. Tenho mais 3 latas iguais no frigorífico, para quem quiser...

domingo, 22 de dezembro de 2013

Querido Pai Natal

Já há muito tempo que não lhe envio nenhuma carta. Possivelmente porque tenho cartão multibanco o que faz com que tudo o que quero a pouco e pouco vou comprando. Já não preciso de ter a pachorra de lhe escrever...


Uma coisa que nunca percebi muito bem foi a diferença entre ti e o Menino Jesus. Em casa és tu que dás as prendas. Na casa da avó é o Menino Jesus. Espero bem que tu e o Menino Jesus não discutam muito por causa disso, já que na casa da avó, a mesa é sempre mais cheia, sobra sempre mais coisas. E nessa mesa quem se aproveita das migalhas e das bolachas é o Menino Jesus. Na minha casa, a mesa fica praticamente vazia porque somos pouquinhos. Ficam umas migalhitas para comeres.

Outra coisa que não percebo muito bem é como é que estás em toda a parte: estás nos shoppings, nas ruas, nas vitrinas a aturar putos. Pensei que fosses só um e que só te davas ao trabalho de apareceres na noite de Natal.

Muito obrigada pela casa da Barbie que nunca cheguei a receber. Tive muita fé que um dia iria ter uma casa da Barbie igual à da minha prima. Em contrapartida, o meu pai, habilidoso fez uma cama em madeira para a minha Barbie e a minha mãe fez um vestido de noiva para ela também.
Muito obrigada pelas caixas de Ferrero Rocher que me ofereceste. Elas não chegavam até ao inicio das aulas, acredita. Ainda vou perceber qual foi a tua de me dares uma caixa de Mon Cheri sabendo que era uma garota de 7 anos que não deveria beber álcool.

Ainda vou perceber também como é que eu recebi um saco de carvão naquela noite de Natal em que eu passei a tentar salvar vidas após acidentes de viação, ossos de peru entalados na garganta, enfartes cardíacos e tentativas de suicido num hospital espanhol quando eu deveria mesmo era estar em casa de pijama a fazer zapping e a enfardar tudo que fosse de chocolate e empurrar tudo com uma garrafa de cidra. Pensei que o carvão era para os meninos maus. E acho que nunca fui uma menina má.

Bem, Pai Natal, este ano não quero coisas materialistas. Felizmente descobri que no Amazon consigo comprar livros de medicina a preços de chuva, logo não te vou pedinchar livros de Cirurgia nem dessas coisas. Além disso o meu velhinho leitor de ebooks é mais que perfeito para ler livros sacados da net (sou pobre para comprar tudo o que leio). Vou-te pedir essencialmente uma coisa que o Rei Salomão pediu à muito: sabedoria. Sabedoria em tomar decisões, em distinguir o trigo do joio, sabedoria em escolher os meus amigos, em como, quando e em que circunstâncias devo amar. Sabedoria para me tornar uma pessoa melhor e para saber manter e fazer cada vez mais amigos. Sabedoria para aguentar mais uma semaninha e aí as 12 badaladas vão ser passadas com a boca cheia de uvas passas e de mais desejos!

Não é pedir muito, pois não?

Alima

P.S. Sim, a nossa porta de casa não tem qualquer enfeite nem luz nem merdinha alguma. Mas continuamos a viver lá, ok? A cadela ladra imenso mas é mansinha. E desculpa se a chaminé estiver com muita fuligem...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Querida mãe,

Hoje é o seu aniversário. Parabéns.

Sei que às vezes não me porto como a melhor filha do mundo. No entanto nada e ninguém é perfeito (à excepção da sua filha mais nova que faz merdas do arco da velha e mesmo assim a perdoa porque ainda a vê como aquela bebé de poucos meses).

No entanto, apesar das nossas muitas incompatibilidades, posso achar que somos muito parecidas. E não refiro em termos físicos. Afinal de contas herdei o seu cabelo seco, grosso, african style, herdei a sua tendência a apanhar escaldões com um bocadinho de sol. Felizmente não sou baixota como a mãe. Nem baixota como todos na família.
Herdei também o seu mau feitio. Sou muito boa pessoa até provarem o contrário. Tal como a mãe, consigo ser tão dramática como uma novela mexicana. A grande diferença entre a mãe e eu é que eu dou o braço a torcer e sei pedir desculpas quando estou errada. A mãe limitas-se a esperar que os outros  venham pedir desculpas mesmo que não estejam errados (só para a manutenção da paz em casa) só porque não é capaz de pedir perdão a quem quer que seja.
É o tipo de pessoa que adora causar escândalo mesmo à hora de sair de casa por merdinhas. E depois o que faz? Mete-se na cama, como uma cobarde à espera que a gente lhe venha pedir por favor para sairmos. O problema é que apanhou-me mil vezes desta forma. A mil e uma vez já não aconteceu comigo. "Ai já não quer sair, mãe? Óptimo, ficamos por casa e eu ponho a leitura em dia...". A mãe é aquele tipo de pessoa que não pede nada: sugere. E se não seguirmos a sua sugestão, o caldo entorna-se de novo.

De qualquer forma, deixe-me que lhe diga que a admiro muito. A mãe é uma sobrevivente e uma lutadora neste ciclo de tragédias que é a nossa família. A mãe ao contrario dos seus irmãos, preferiu investir nas filhas para que pudessem ter um futuro melhor em vez de investir em viagens e em coisas mais vãs. O que é certo é que por milagre, por muito sacrifício que fazemos, somos felizes à nossa maneira. Privamos-nos e mesmo assim nunca nos falta nada. O que é extraordinário.

Apesar de não ser a melhor filha do mundo, espero que se orgulhe de mim da mesma forma como me orgulho de si.

Feliz aniversário mãe. Infelizmente não lhe poderei dar um beijinho de parabéns ainda hoje. Mas se Deus quiser amanhã já nos sentaremos à mesma mesa.


Alima

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da Medicina Interna...

Ontem tive um teste de crédito a Medicina Interna. Não é que eu não estude para este cadeirão (pelo contrário), mas fui a este teste já sabendo as respostas correctas. Tudo porque os grupos anteriores fizeram exactamente o mesmo teste e lá conseguiram tirar uma fotografia ao teste já com as respostas feitas.

Acontece que nenhum de nós para não dar cana de que tínhamos o teste, entre todos combinamos por duas ou três respostas erradas.

Fomos fazer o teste. Resolvi tentar errar em respostas que poderiam deixar o aluno na duvida. Uma das perguntas era o que era a caput medusa. Havia como várias opções de que era causado por vasodilatação das ramificações da Veia Cava Inferior e havia a opção da hipertensão portal. Ora, a resposta que segundo me tinham dado como correcta era a da vasodilação das ramificações da Veia Cava Inferior e eu estava 90% mais inclinada para a hipertensão portal. Pus essa opção.

Outra das perguntas era sobre o edema pulmonar como consequência entre várias opções de Insuficiência cardíaca à direita ou à esquerda. Como resposta correcta eles tinham lado direito. Mas eu achei novamente a resposta muito estranha porque quase ia jurar que era do lado esquerdo. E pus como correcta a opção do lado esquerdo.


Vamos a saber os resultados. A professora chama o grupo todo. Diz ela que acha extraordinariamente estranho o facto de toda a gente ter errado na pergunta do caput medusa e do edema pulmunar. À excepção de mim.


E foi assim que só errei uma resposta quando na verdade queria errar propositadamente mais.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Peripécias psiquiátricas

O Fonseca (nome fictício) era um homem na casa dos quarentas anos institucionalizado na década de 80 com diagnóstico de esquizofrenia.

Era um homem alto, corpulento. Não obedecia a ordens. E quando era demasiado estimulado para obedecer a ordens como "ir para aquela cadeira" ou "ir para a sala de refeições", ele basicamente atirava-se ao chão como de um desmaio se tratasse. E quando caía ao chão, devido ao seu peso era uma barulheira tamanha.

E lá estavamos nós, estagiárias em enfermagem em 2007 a tentar acordar o homem num dos nossos primeiros dias naquele lugar. "Senhor Fonseca, acorde", palmadas na cara para aqui e para acolá, beliscões na axila ao qual ele reagia contraíndo-se, mas mesmo assim de olhos fechados como se estivesse a dormir. "Senhor Fonseca, Senhor Fonseca!", gritávamos.


Até que um dos auxiliares berra-lhe:
"OH FONSECA, BONITO SERVIÇO, O TEU IRMÃO ESTÁ ALI E TU AÍ DEITADO! Ele vai adorar saber que te andas a portar mal"


O homem abre os olhos, levanta-se com velocidade: "Onde? Onde? Onde?Mano? Mano? Mano?"

A primeira vez apanhou-nos. A segunda usamos a estratégia do auxiliar. O "irmão" ia lá todos dos dias sempre que ele mandava-se ao chão. (Por acaso o irmão dele ia lá frequentemente, algo que infelizmente era raro em muitos utentes)

O Fonseca era de poucas palavras. Mas uma frase dele marcou-me imenso: "Temos de ser duros", dizia ele.


E esta semana antes de voltar a Portugal vai ser do camandro. Sangue, suor e lágrimas. Dois exames e um teste importante para ir descansada, sem grandes coisas para estudar.


"Temos de ser duros", dizia o Fonseca. Ah pois temos...

Lareira acesa da cozinha, como sinto a tua falta.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Poema que declamei na festa de Natal da escola primária em 1996 e que ainda o tenho na memória



Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
mas há pouco, há poucochinho, 
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu, 
branca e leve, branca e fria... 
- Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança, 
e noto, por entre os mais, 
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los, 
primeiro, bem definidos, 
depois, em sulcos compridos, 
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
- e cai no meu coração.


AUGUSTO GIL

Dedicado a todas as crianças, adultos e velhos que tal como eu, sofrem com as investidas da neve, vento e gelo na Europa Central e de Leste.
É que estou como o outro "Não faz chuva, nem faz orvalho, faz um frio do ca**lho!"

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A avó e as nozes

Um dia, a minha mãe ofereceu um cesto de nozes ao meu pai, depois de lhe ter explicado em como partir nozes com a porta de casa. O meu pai, que nunca tinha visto um fruto assim, uma vez que na serra onde nasceu e cresceu, as nogueiras nunca vingavam, foi todo contente com a cesta de nozes para a casa dos meus avós paternos para mostrar a iguaria que a namorada lhe tinha dado.

Passado uns tempos a minha mãe perguntou-lhe o que é que tinha achado das nozes.
O meu pai disse que eram deliciosas. Mas que a mãe dele achou-as muito amargas. E o meu avô um pouco duras

Posto isto, a minha mãe ficou com três teorias:
1- O meu avô comeu as nozes com casca;
2- A minha avó comeu aquela casquinha preta que reveste a noz.
3- O meu pai não teve o cuidado para explicar aos seus pais de que o miolo é que interessa.



Fica o mistério por resolver....


sábado, 7 de dezembro de 2013

Porque é que a Alima não é adepta de certas campanhas de solidariedade...

Houve um tempo em que trabalhava num Centro Social comparticipado pelo Estado. Além de receber imenso dinheiro do estado Português, recebia imenso dinheiro e donativos de empresas e de pessoas singulares. E mesmo assim sempre se queixavam que não tinham grandes recursos.

Uma vez, pediram-me para acompanhar uns utentes a um dentista que lhes cobrou por uma consulta dentária a módica quantia de cinquenta euritos que seria desembolsado dos cofres do centro social. Ora, eu no meu dentista pagava metade, tinha a certeza que ele faria um desconto se levasse um grupo, e assim que cheguei ao Centro Social expliquei-lhes que estavam a fazer mal negócio. Com o meu espírito de empreendedora, mostrei que poderiam poupar imenso dinheiro se trocassem de dentista e com o dinheiro que poupavam poderiam investir em consultas de oftamologia e de podologia (sim, porque a diabetes existe e as cataratas também, e sempre que eu dizia "o sr X anda a ver pior, diziam-me que não havia dinheiro para consultas"). Disse que poderiam investir algum desse dinheiro em pensos medicalizados que eu necessitava para alguns utentes (pensos hidrocoloides, carvao activado, hidrocelulares). A resposta da assistente social foi: SRA ENFERMEIRA, NÃO SE META ONDE NÃO É CHAMADA.

Fiquei seriamente chocada. Punham voluntárias a pedir no centro comercial ou a mendigar de porta em porta e depois não se importavam em esbanjar dinheiro em situações em que poderiam ser poupadas. Nesse ano, eu e a minha turma de guitarra demos um concerto de Natal, o meu professor propôs dar um donativo para a instituição onde eu trabalhava e eu opus-me firmemente, tendo feito um manguito. Acabamos por doar a uma instituição de apoio ao autismo na nossa cidade (que pelo que sei está a fazer um magnifico trabalho).

Durante a minha infância e parte da adolescência, vivi num bairro onde havia gente que trabalhava e recebia e havia gente que recebia e não trabalhava. Tinha uma vizinha na casa dos trintas que lhe arranjaram um emprego a varrer o chão das ruas e ela recusou porque achava que a vassoura era muito pesada. Essa mesma vizinha que nunca trabalhou na vida porque sei lá como se esquivava, recebia varias vezes ao ano donativos alimentares. E ela por varias vezes ofereceu muitos desses géneros à minha mãe pelo simples facto de não beber leite de marca branca (catxitxa, dizia a puta) e de só gastar azeite Galo e salsichas Nobre. Ou seja, azeite marca Dia ou salsichas marca É, jamais! Lembro-me de uma vez estar a brincar na rua e sentir muita sede. Fui ao supermercado do bairro e comprei uma garrafa de água das mais baratinhas. Essa vizinha estava também lá no supermercado e disse-me "Não compres essa água. Nem sabes onde fica essa serra! A Luso é melhor"

E este tipo de comportamento revoltava toda a gente lá em casa. Anda meio Portugal a contribuir para que a outra metade não passe fome e muitos pobres que fui conhecendo ao longo da vida recusam ou aceitam e deitam fora essas contribuições só porque só usam produtos de marca. São chic demais para usar produtos de marca branca. Como me contou uma amiga minha que trabalha num hipermercado, uma vez uma velhinha com aspecto pobre foi às compras e comprou só produtos de marca, que como se sabe, são muito mais caros. Quando estava a efectuar o pagamento, ela queixou-se à minha amiga de que a vida estava mesmo cara. Então essa minha amiga perguntou-lhe porque é que não optava por marcas brancas que pouparia imenso dinheiro. A velha respondeu: "Oh menina, o que gasto aqui neste produtos mais caros, pouparei na farmácia"

A partir daí torço sempre o bico quando alguma pessoa me aborda para dar um donativo monetário para a instituição X ou Y. Talvez os únicos donativos que dou ao longo do ano é para a Liga Portuguesa da Luta contra o Cancro quando fazemos os papeis do IRS. Ou quando vou todos os anos contribuir em géneros para o Canil da minha cidade. Ou quando de vez em quando me lembro que Deus talvez exista e vá pôr uma moedinha na caixa de esmola do São Judas Tadeu, advogado das coisas impossíveis. 

Contribuições a pobrezinhos? Pobrezinha sou eu!

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Feliz Aniversário

Hoje é o teu aniversário. Parabéns.
Não te vou desejar pessoalmente. Primeiro porque geograficamente não posso. Em segundo porque realmente não quero.


Infelizmente a tua data de aniversário jamais a poderei esquecer: é a mesma data de aniversário que a minha. E num tempo em que éramos felizes juntos festejamos-la juntos. Uns anos rodeados dos teus amigos, outros com os meus amigos, outros anos com a orelha colada ao telefone. Às vezes desejo que o nosso cérebro fosse como este computador em que te escrevo: quando está com problemas de memória, mando formatar. E o problema desaparece assim como qualquer memória. Mas depois lembro-me que se calhar é bom ter um cérebro com memória: é sinal que estou viva. E as memórias vão desaparecendo com o passar do tempo. Mas a experiência permanece.
Alguém escreveu que Experience is a hard teacher because gives the test first, the lesson afterwards. E de ti, só quero guardar algumas memórias e toda a experiência que adquiri contigo. Porque as lições foram bem duras. Mas felizmente acho que foram devidamente superadas.
E sim, aquela lágrima que parece brotar dos meus olhos não é de humilhação pelo facto de te ver de mãos dadas com a tua nova namorada (bem feiinha digo-te já, ao menos trocavas-me por algo bem melhor, caramba Ela se for tirar todos aqueles sinais da cara, vai parecer um campo de golf). É uma lágrima que não chega a cair por causa do tempo que de facto perdi contigo e pelo facto de lutar tanto por alguém como tu que fez de mim a pessoa com menos interesse em procurar alguém neste mundo. Por não seres a metade da minha laranja, acabei por me tornar um limão. Tornei-me insensível aos afectos. Vejo todos os homens como amigos apenas, sem o mínimo de atracção. Lutei contra marés e dragões, lutei contra o tempo e acabei por me cansar de lutar. Como disse a alguém ainda estes dias, agora é a minha vez de lutarem por mim, eu tenho os braços cruzados a partir de agora.

Feliz Aniversário a ti. E a mim já agora.

Vai-te encher de moscas.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

E como estamos quase no Natal...

Essencialmente eu odeio o Natal.
As músicas natalícias deprimem-me, aquele ambiente de lusco fusco das luzinhas, Pais Natais e bolinhas coloridas irritam-me, sofro de claustrofobia sempre que entro num shopping por essa altura onde há aquela azafama de comprar tudo para a mesa, mais brinquedos e prendinhas para este e aquele. Detesto essa época porque todos parecem transpirar felicidade, a época em que parece que ninguém tem problemas de dinheiro porque os melhores brinquedos e os melhores bacalhaus desaparecem num ápice. 
Odeio aquele frio típico da época. Por norma as noites são tão frias que as magnólias e as buganvíleas que até então sobreviveram ao rigoroso frio bracarense, acabam por ficar queimadas.

Por azar, três familiares meus morreram na véspera de Natal, no dia de Natal e no ultimo dia do ano. Não há ano em que não pense neles e em como as coisas eram diferentes quando eram vivos. Como não há ano em que não pense naqueles que partiram e que contribuíram e muito para que os meus antigos natais fossem felizes.

A mesa de Natal que há muito tempo era constituída por mais de vinte e tal pessoas barulhentas, passou depois a ser constituída por oito e neste momento por três pessoas apenas acompanhadas por um cd do Fausto Papetti com o seu saxofone e da televisão ligada nas notícias. Não, a família não diminuiu muito de número. Simplesmente ficamos cada vez mais individualistas, ninguém quer ficar encarregado de grandes tachos de panelas, passa-se apenas o Natal com filhos e netos (os que já têm). 

Os bacalhaus que se deixavam de molho (sim, porque no Norte não é comum comer peru), passaram a ser duas postas apenas. As dezenas de pratos de aletria, de mexidos e de rabanadas e daquela doçaria toda foram reduzidas a um ou a nenhum prato porque somos poucos e queremos manter a linha. Bolo rei já não entra em casa há anos porque nenhuma de nós gosta. Já não se compra paté nem se fazem entradas só porque somos três. Jantamos na sala de jantar nesse dia. O único dia em que damos uso à sala de jantar. Sim, porque toda a boa família do Norte tem uma mesa de jantar para seis-oito pessoas que só é usada uma-duas vezes ao ano.

Alguns pratos e travessas do serviço da Vista Alegre dos anos 70 com cento e tal peças e os talheres prateados e dourados do enxoval de solteira da mãe só são usados no Natal. Depois de lavado e secado é religiosamente guardado na cristaleira e no faqueiro que tresanda a sacos de lavanda, sob a repreensão da mãe de que com a minha idade já estava casada, logo com oportunidades de usar mais vezes tais serviços.

E depois do jantar, deixamos a loiça suja na mesa e ficamos a ver tv até à meia noite, altura em que trocamos as prendas. Prendas simbólicas porque felizmente compramos ao longo do ano tudo que vamos precisando. Uma caixa de bombons, um livro, uns brincos e tal são normalmente as prendas. A mãe vai para cama cedo porque faz frio, a minha irmã iden, eu fico a jogar na Wii até os meus olhos ficarem cansados fruto das horas passadas a ver tv e do ambiente com fumo da lareira da sala que só é usada uma vez ao ano e como tal está entupida com os ninhos dos pássaros.

Quando era miúda e passava o Natal na casa dos avós, havia discussões, risos e brincadeiras. Havia fartura. Havia sempre alguém com conversas estúpidas. Havia sempre um frustrado que se gabava de que tem o carro mais caro da família ou de outro que negoceia antiguidades melhor que ninguém. E quando chegava a casa corria para a lareira onde tinha as minhas prendas. Uma boneca normalmente, ou um jogo. E no dia seguinte voltava-se à casa dos avós onde se comia roupa velha carregada de azeite e alho. Não havia problemas de colesterol nem diabetes. Havia conversas estúpidas e brincadeiras parvas...

Quando era miúda ficava excitada quando o pinheiro e as figuras do presepio e aquela quincalharia toda de Natal descia do sotão. Corria campos e muros à procura de musgo. O pinheiro, as figuras do presepio e a quincalharia estão no sotão cheios de pó há mais de sete anos. Todas as portas da rua tem uma coroa de Natal e umas luzinhas menos a nossa. Deixamos de ser crentes nessas coisas. O espírito de Natal deixou de cair sobre nós.

A minha mãe nessa altura recorda-nos sempre da importância de lhe dar-mos netos para ver se voltamos a ter Natais mais risonhos.
Mais um Natal passado. Mais um ano que se espera até ao próximo. Com a esperança de que continuemos juntas. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os que se casam...

No intervalo entre uma aula e outra no hospital é costume eu e o D. irmos tomar café e comer uma sandes no bar do hospital. Achei-o um bocado em baixo. Perguntei-lhe o que se passava. Ele respondeu:
-Ontem, vi pelo facebook que a minha ex está noiva.

Perguntei-lhe há quanto tempo ela passou a ser a sua ex e durante quanto tempo tiveram uma relação.
Ele respondeu-me que acabaram há ano e pico e que mantiveram uma relação por três anos. E que acabaram porque 3500 km de distância e 6 semanas por ano juntos é demasiado tempo sem se poderem ver. Pus-lhe a mão no ombro em gesto de solidariedade. E lembrei-me automaticamente o porquê de não querer qualquer relação em Portugal. Dizem que que o amor ultrapassa barreiras (neste caso distância) mas eu discordo. A monotonia e as saudades induzem o stress de não podermos estar com o outro e isso resulta na minha opinião em conflito. E o conflito leva a separação.

E lembrei-me também de uma conversa que eu tive com esse meu amigo duas semanas antes, em que nos questionava-mos se quando acabássemos o curso e especialidade (isto aos 35-38 anos na melhor das hipóteses) ainda teríamos alguém que realmente valesse a pena à nossa espera. Chegamos à conclusão que será difícil.


Sempre que abro o meu facebook e observo as fotos dos meus antigos colegas de curso, consigo separa-los em três grupos: os que se casaram (alguns já tem filhos) normalmente põe fotos de barrigas de gravida, seus petizes ou fotos dos seus casamentos, os que ainda namoram e enchem-se de fotos deles abraçados ou a beijarem-se. O terceiro grupo (no qual eu me incluo orgulhosamente e que sei que está a ficar cada vez mais pequeno), resume-se àqueles que não namoram, estão solteiríssimos da silva. Esses põe fotos sozinhos, normalmente fotos de experiências de vida loucas (na minha foto de perfil eu estou numa muralha de um castelo na Roménia, local que muito provavelmente nuca iria visitar na minha vida se me incluísse no grupo 1 ou 2).

Muitas vezes em conversa com elementos do grupo 1, eles já me disseram que devo sofrer do síndrome do Peter Pan. Segundo eles, quem sofre desse síndrome têm um enorme medo de crescer, quer manter-se para sempre criança. Se sofro ou não, não sei. Só sei que sou pessoa de usar todas as armas que possuo. Não sou bonita fisicamente mas gosto de me sentir a pessoa mais inteligente e aventureira que alguma vez conheci. E segundo a minha inteligência, nem todas as mulheres são boas donas de casa ou parideiras. Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Mas atrás de uma grande mulher poucas vezes existe atrás um grande homem. Toda a gente sabe quem foi a Margaret Tatcher. Mas poucos são os que sabem o nome do marido dela.  Se um homem enviúva é um pobre coitado que não tem grande capacidade de fazer as tarefas domésticas e que normalmente procura arranjar outra companheira, se uma mulher enviúva torna-se para todos os efeitos uma grande guerreira, uma guerreira que tem de lidar com filhos, mecânicos, picheleiros e electricistas. Uma guerreira que com o passar do tempo e com as limitações que a sociedade impõe se torna fria e calculista. Uma cabra muitas vezes.

E pronto, gostei daquela frase que o Barney Stinson do How I met your mother disse num episódio:

"Everyone I know is getting married or pregnant. I'm just getting more awesome"

e já agora desta:

"Sometimes I wish everybody could be as awesome as I am"

True story



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Porque às vezes me surpreendo com as minhas saídas

Vivo numa residência universitária. Vivo lá porque além de ser a solução mais económica, é também o melhor remédio contra a solidão. Viver sozinha fica caro, viver com alguém que até então desconhecíamos e dividir tarefas mais cedo ou mais tarde dá raia.

O facto de viver numa residência permite que possa jogar monopoly com alguém que esteja disposto a jogar (e perder, como sempre) comigo, a experimentar e deixar experimentar experiências gastronómicas dos nossos países de origem, a poder sair à noite em grupo, a estudar em grupo, a cravar apontamentos e livros mais facilmente.

Mas sim, o meu maior problema é saber gerir o budget que posso gastar mensalmente. Vivendo na residência poupo mais de metade se vivesse num apartamento. E como não sou de copos e noitadas, o dinheiro que poupo gasto num dos meus maiores prazeres: viajar.

Poucos são os portugueses que vivem na mesma residência que eu. Se bem que de ano para ano, o número está a aumentar (será a crise?). Infelizmente existe o preconceito de muita gente que vive em apartamentos de que quem vive em residências universitárias é economicamente carenciado. E é lamentável que muito  desse preconceito vem mesmo de portugueses, malta que não chegam aos calcanhares em termos económicos dos estudantes dos países árabes, por exemplo, já que eles recebem  cerca de 2000 euros mensais por parte do governo para que estudem no estrangeiro. Muitos desses meus colegas disseram-me que não seriam capazes de viver numa residência só por causa da cozinha. Sim, a cozinha é o maior dos nossos problemas porque apesar de ser limpa diariamente, há muita gente que não tem qualquer cuidado de deixa-la limpa.
A conversa que se segue tem o seu toque de preconceito por parte de alguns tugas e que achei no mínimo deliciosa:

Uma polaca estaciona o seu Volvo todo desportivo no recinto da faculdade. Um português comenta o quão bestial é aquele carro e de que deve ser de polacos de graveto. Eu comento que aquele carro é de alguém que vive na mesma residência que eu.
O tuga vira-se para mim e diz de uma forma muito altiva e prepotente de que quem tem aquele carro não pode viver numa residência porque tem demasiado carcanhol para viver lá. Eu chamo a dona do carro. Ela confirma que vive no mesmo andar que eu.
Tuga armado em rico 0- Alima 1

O português fica todo amuado comigo. Passado uns minutos, outro polaco de quem somos amigos chega ao recinto com um jipe Mercedes. Ele vive na residência.
Tuga armado em rico 0 - Alima 2

Entretanto azar dos azares para o tuga, chega o H., o meu amigo iraniano com quem faço as minhas viagens. Vem no seu (e meu para todas ocasiões e passeios) BMW.
Tuga armado em rico e inchado de ódio 0- Alima 3.

Entretanto fomos para a aula de microbiologia. O tema era doenças tropicais que são associadas a infecções. Surgiu o tema viagens, quem foi a África e tal. O tuga armado em rico, inchado de ódio e de um modo sarcástico gaba-se que foi passar férias a Cabo Verde este Verão. Numa de afronta, pergunta-me em voz alta no meio da aula se já lá estive. Disse-lhe que não, mas que primeiro gostaria de visitar Angola.
Tuga armado em rico, inchado de ódio e sarcástico 1- Alima 3.

Ele pergunta-me se eu não costumo passar férias no estrangeiro. E aí dei uma resposta improvisada de que me orgulho:

"Para quê passar férias no estrangeiro se eu vivo no estrangeiro todo ano? Quero Portugal, o nosso Sol, a nossa francesinha, bacalhau e Super Bock. Para quê ir para o estrangeiro se os meus pais restauraram casa na montanha e um compraram apartamento na praia"

Tuga armando em rico, inchado de ódio e sarcástico 1- Alima 4

Acho que o snobei um pouco. Que se lixe. Não gosto que me snobem. Detesto gabar-me do que tenho. Mas detesto ainda mais quando me vêm como a parente pobre. Viena, tu e eu num fim de semana juntas... em breve!




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Querida L.

Ultimamente tenho conhecido muita gente que me têm dito que andam a tomar medicação para dormir. E calmantes. E anti depressivos. E quando pergunto o motivo para andarem a meter porcarias para o bucho, dizem-me que andam cansados e não conseguem dormir. Que se sentem demasiado apáticos e que o médico prescreveu umas coisas para melhorar o humor. Mas o que mais me impressionou mesmo foi dizerem-me que por causa de um desgosto amoroso, andam a tomar anti depressivos.

Houve uma fase na minha vida, em que estava tão cansada que tomei um único e simples diazepam 5mg roubado da caixa avó e que me fez dormir umas 10h seguidas. Mas foram 10h com sonhos muito estranhos. E jurei pra nunca mais. E houve também aquela fase em que o médico de família me prescreveu uma coisinha fraquinha para melhorar o meu animo, já que estava num processo de luto. Essa coisinha fraquinha deram 7kg a mais para o meu corpo.

Mas tomar merdas por causa de um desgosto amoroso? Quem sou eu para criticar alguém, mas eu na minha (in)sanidade mental, quando estou mais em baixo, vingo-me em duas coisas: doces e salgados. E milagre dos milagres cada pedaço de chocolate ou cada fatia de queijo que se derreta na minha boca faz com que eu fique um bocadinho melhor. E quando estou em fase de exames, o senhor stress ronda sobre mim, e é combatido por um maço de cigarros que rapidamente é metido na gaveta até aos próximo exame. 

Uma vez, numa saída entre raparigas, tentamos ajudar uma colega nossa porque ela tinha acabado com o namorado naquela tarde. Para a ajudar, abriu-se uma garrafinha de vodka cujo líquido foi distribuído irmãmente entre as quatro. Chegou-se à conclusão que o nosso estado emocional influencia o nosso nível de alcoolemia, uma vez que a nossa amiga, que sempre teve fama de esponja, acabou por ficar numa espécie de estupor comatoso, que lhe valeu um valente galo na  testa com a queda que deu ao sair do carro, cabelo vomitado e uns beliscões nas axilas para ver se ela reagia a estímulos dolorosos (Escala Coma de Glasgow Rula!). Seis horas depois a moça acordou mais fresca que uma alface (qual gurosan qual quê?) enquanto nós acordamos com cara de aziadas com a péssima noite que passamos.

E pronto, na minha perspectiva parva, a melhor solução para um desgosto amoroso resume-se a uma tablete de chocolate, a uma barra de queijo e tostas, a um bom vinho frutado e a uns cigarros. E em bloquear a pessoa das redes sociais. E em apagar foto por foto todas aquelas que o estupor mostra os dentes. E já agora a um bom grupo de amigos parvos que nos arrastem para todos os bares da cidade e que saibam dar um par de estalos quando ficamos mais tristes. 

E para dormir bem, o segredo está no copo de leite com mel e canela. E consciência limpa já agora.

E RIR. RIR MUITO. RIR ATÉ DOER A BARRIGA E A MANDÍBULA. RIR ATÉ CHORAR. RIR ATÉ À ÁGUA QUE ESTAMOS A BEBER  (ou coca-cola, ou cerveja, ou etc) SAIA PELO NARIZ.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Querido Pai

Hoje assim do nada recordei-me das  tuas lições de mineralogia, geologia e história até.
Nasceste numa zona onde durante a Segunda Guerra Mundial, centenas senão milhares de pessoas trabalhavam nas minas de Volfrâmio. Segundo as tuas explicações e as do avô, aquela zona estava a ser explorada por alemães e ingleses. O avô trabalhou como guarda das minas dos alemães. A avó trabalhava nas minas dos ingleses a carregar cestas de volfrâmio à cabeça pelo monte acima e abaixo até juntarem tudo e ser posteriormente levado para onde faziam máquinas bélicas. No fundo, os dois trabalhavam e dormiam com o inimigo.
E apesar de já terem passado cerca de 70 anos, acho uma certa piada e fascinação até, ao saber que milhares dessas pessoas trabalhavam em condições péssimas para juntar meia dúzia de escudos a esburacar e a escarafunchar montanhas, a garimpar riachos e a transportar minério à cabeça ou a conduzir animais sem realmente saberem qual a verdadeira função daquele ouro negro. A guerra que atingia mais precisamente a Europa Central ainda era pouca divulgada na aldeia. Na vila. No país inteiro.
Morria-se nas minas em derrocadas, morria-se com uma bala no peito quando contrabandeavam. Muitos morreram anos depois de silicose e tuberculosos. Não havia higiene e segurança no trabalho, não havia capacetes, nem iluminação nem máscaras nem luvas. O avô, homem pouco culto mas fino como um rato aliou-se à companhia alemã porque pagavam mais. E como guarda, era facilmente subornado por colegas para fechar os olhos quando queriam trazer uns kilos nos bolsos para venderem posteriormente no mercado negro. Mas como o avô dizia, ele sobreviveu porque graças à sua astúcia conseguia dormir numa cama quente. Os outros dormiam nas minas, sujeitos ao clima agreste das montanhas e rapidamente pereceram.

Graças a essa febre do ouro negro, uma espécie de cidade foi construída no vale da montanha. Subindo a encosta a pé, num trilho já há muito esquecido, são 2km sensivelmente da freguesia. De carro são 30 minutos por estradas estreitas. Quando a visitei pela primeira vez há muitos anos, o avô foi connosco. E ele explicou-me detalhadamente onde era o quê.  Havia ruínas de uma escola, de uma capela em honra a Santa Barbara (padroeira dos mineiros), de um tasco, de uma espécie de hospital de campanha, de uma pensão até. As ruínas aparentavam ser de casas muito bonitas e mais acolhedoras do que a velha casa de xisto negro em que o avô vivia na freguesia 2km mais acima. Na rua em péssimo estado brincavam três miúdos com cabelos muito loiros, quase albinos. O avô percebeu o meu olhar aparvalhado e comentou-me que aquilo era fruto da semente germânica.

Muitos anos se passaram e voltei lá. A aldeia estava ainda mais deserta, os vestígios de onde foram casas eram cada vez menores. Pedras, vidros partidos e lixeira. Nunca fui a uma favela no Brasil, mas associei aquele lugar a uma favela/cidade fantasma.  Ainda existia um tasco onde me recordei que cerca de 12 anos antes o meu avô cumprimentou efusivamente os donos. Afinal, apesar de viverem num raio de 2km, já não se viam desde a década de 50. A velha, quando me entregou o sumol de laranja, olhou para mim a perguntar o que raio fazia eu naquele lugar. Sem meias medidas expliquei que era a neta do C. do C. que ela reconheceu automaticamente. Perguntou-me que era feito dele. E do filho que fez o exame da 4ª classe naquela escola porque era muito maior que a da freguesia. Expliquei-lhe que ambos morreram. Assim como a minha avó. A velha sem meias medidas disse "Que Deus conserve as suas almas. Mas que o seu avô era um putanheirozinho lá isso era". E porque é que o avô tinha essa fama e tirava proveito? Porque foi dos poucos homens que sobreviveu até aos 80 anos. E como tal ia consolando as viúvas, que tinham enviuvado aos 30- 40 anos.
O avô contava que muita gente ganhou dinheiro. Gastaram em vinho do Porto, em putas e em jantaradas nos hoteis do Porto. Nunca pensaram que um dia a guerra iria acabar. Porque um dia a guerra acabou, o volfrâmio perdeu todo o valor que tinha, a espécie de cidade mineira ficou abandonada a salteadores e à mercê da natureza, e aqueles que não juntaram dinheiro porque não tiveram cabeça para economizar acabaram por na década de 60 darem o salto para França.

E assim do nada recordo-me das vezes que visitamos as minas alemãs, pai. Lembro-me de ver fachadas de casas que antes eram escritórios e armazéns. Lembro-me que no cume de uma montanha, estava a estátua de um santo qualquer que o patrão alemão venerava. Recordo-me de me mostrares pedras com volfrâmio, pirite e estanho. Explicaste-me a como distinguir o volfrâmio do alcatrão ou de rochas com impurezas negras. Numa das minas que entramos, retiraste um pedaço de quartzo hialino muito pontiagudo. Lindo como se um cristal precioso se tratasse.
E nas minhas aulas de geologia, eu sentia-me em segurança porque basicamente eu adorava calhaus. Conhecia bem o granito, o basalto, o xisto, típico da tua aldeia. Tudo graças aos teus ensinamentos e aos do avô.

                                                                       (retirada da net)

PS. um dia tentei voltar às minas. Tive que desistir. As giestas que antes estavam perto do caminho ocuparam a estrada toda como de dragões se tratassem. Tenho pena mesmo. Muita pena.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quem tem um amigo tem tudo

Tenho amigos que são meus amigos há anos e que os deixei de os ver;
E amigos que conheci há poucos dias e de mansinho passaram a ser meus amigos;
Tenho amigos que vejo poucas vezes por ano, mas graças às redes sociais temos conversas longas como se estivéssemos no café;
Tenho amigos que deixaram de ser amigos pelas atitudes mais estúpidas. Há amigos a quem sou capaz de perdoar tudo. Outros que a mínima falha me tornam fria e distante. E a amizade não volta a ser como antes.

Tenho amigos que no início odiei mas que a pouco e pouco me foram conquistando. Outros que eu pensei que eram bons amigos e afinal não passavam de colegas apenas.

Tenho amigos a quem sei que posso procurar conforto. E amigos que sabem que podem procurar conforto em mim.

E esta noite ri e chorei de rir com um grupo deles à mesa. Contamos piadas, histórias divertidas, discutiu-se futebol e religião e até amores também. Fez-se barulho, bateu-se com a mão no tampo da mesa, bebeu-se vinho e a comida desapareceu toda.


Quem tem saúde tem tudo. Quem tem um punhado de bons amigos tem muito mais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Daqueles indivíduos que parecem que têm sete vidas

Homem, na casa dos 60-70 anos foi admitido no serviço de cirurgia para ser submetido a uma colescistectomia. O professor pediu-nos para que fizéssemos a admissão ao paciente com tudo a que ele tem direito: entrevista e exame físico.

Bem, não me vou  dar como é óbvio a grandes pormenores. Mas para mim este sujeito é o rei das maleitas. E um rei a escapar à morte. Senão vejamos:
- Foi piloto da força aérea na década de 70 e enquanto pilotava o seu F qualquer coisa sofre um acidente. Resultado: um pulso partido apenas.
- Cancro de língua (com radioterapia), extracção dos dentes e desaparecimento das glândulas salivares.
- Tumor nas adenoides;
- Cancro de tiróide
- Quatro enfartes de miocárdio, com direito a colocação de stents;
- Hipertrofia prostática
- Pancreatite que culminou numa peritonite (Resultado 3 dias em coma, 2 meses hospitalizado)
- Obstrução intestinal


Para não dizer que ele é hipertenso e diabético.

E quando ele relatava a sua história, todos nós ficamos completamente aparvalhados. Quem olhasse para ele, via nele um homem comum como qualquer outro homem. Um homem com uma postura descontraída, com alguns cabelos brancos, óculos e jornal na mão. Nunca um individuo que parece que teve alguns dos problemas de saúde mais letais.

Lembrei-me logo daquela anedota (sem piada nenhuma) do miúdo tetraplégico, todo penteado, que lança piropos na rua. E que uma mulher muito ofendida diz-lhe para parar de lançar piropos porque Deus podia castiga-lo. Ao que o miúdo lhe diz :"como? só se me despentear!"

Na mesma noite sonhei com o senhor. Sonhei que ele estava num avião e que o avião se despenhava. Ele sai ileso e ainda tem o cuidado de sacudir o pó da roupa. Impecável....


PS. E neste Natal, quando a minha tia desbobinar à mesa a quantidade de cirurgias que fez e da quantidade de médicos, naturopatas e fisioterapeutas que visitou, vou-lhe fazer ver que uma merdinha de cirurgia ao túnel carpal é coisa de meninas.

domingo, 3 de novembro de 2013

Agosto de 2013

Alima passeia com a S. pela avenida.
Tia da Alima encontra a Alima e conhece a S.

Alima reecontra a tia dias mais tarde. Tia da Alima pergunta-lhe:
-Oh Alima, aquela tua amiga tem tatuagens e piercings... Ela não anda metida na droga por acaso?
- Nada disso titia... Ela anda metida num doutoramento. Na Alemanha. Na área da na-no-te-cno-lo-gia.
Coisa que o seu filhinho vestido de Gant e Sacoor nem sabe o que é.



 Corpo de adulta, mente de canalha...

OkOk eu não falei do filhinho....

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Querida M.

Hoje celebra-se o dia dos Finados.

Antes de mais deixa-me dizer-te que este dia só começou realmente a ter significado desde que a minha avó paterna faleceu. Até então eu ia ao cemitério com a minha mãe para dar um arranjo à campa do meu avô materno só porque sim. Mas nunca no dia dos Finados. 

Por falar em mortos, sabes bem que tenho um grande respeito por eles. No entanto, nunca fui de grandes sofrimentos e de esgares de nojo ou pena quando via cadáveres. (Ok, já fiquei um bocado mal dispostinha numa aula de anatomia patológica quando o professor ao abrir um corpo e foi libertado um odor extremamente desagradável típico da decomposição do cadáver). Corpo é corpo e está ali. Mas a alma, a alma que não a podemos ver mas podemos sentir, essa sim, tenho um enorme respeito.


No final do Verão quando fui passar um fim de semana à praia da Tocha, estava eu com os meus amigos a jantar e na risota, quando a avó do dono da casa, aproximou-se de mim assim do nada. A minha amiga e o neto tinham-me dito que a velhota era assim um bocadinho para o mística. E erradamente associei ao um bocadinho bruxa.
O pessoal parou todo com o ruído e começou a observar-nos.
A senhora pousou as mãos no meu rosto e observou-me atentamente. Assim do nada, enquanto ela olhava-me fixamente ela disse-me numa voz muito calma de que eu tinha uma espécie de aura de uma cor muito florescente. De que eu tinha uma capacidade fora do normal de obter tudo que eu desejava. De que sentia que eu era protegida por espíritos muito bons e que faziam com que eu transmitisse uma espécie de boas vibrações.
Eu sorri para ela. Não sabia o que lhe dizer. Senti-me encavacada. 

Então ela, enquanto tinha as mãos pousadas no meu rosto disse-me que nos meus olhos transbordavam uma tristeza por perdas de pessoas muito próximas a mim. E o que ela disse depois, deixou-me completamente arrepiada: "Avisa a família dos teus parentes que se mataram para pararem de gastar dinheiro em bruxas. Eles só vão poder comunicar com os vivos na data em que eles deveriam realmente morrer. Até lá estão a sofrer porque ainda estão neste mundo mas não conseguem comunicar com ninguém." E automaticamente pensei naqueles primos dos meu pai que se mataram e que sei que alem dos familiares andarem a gastar dinheiro em advogados, andam também a gastar em bruxas. Como em tom de brincadeira disse a minha irmã: suicídio deve ser doença de família na família. 


Seja como for, o A. no dia seguinte, enquanto estávamos a trabalhar para o bronze, disse-me que a sua avó lhe tinha dito que estava a contar que eu lhe pedisse para fazer uma espécie de chamadinha para o Além. Eu sorri e neguei com a cabeça. Não, não tinha qualquer intenção de fazer tal chamada. Quando quero falar com os mortos, eu rezo a eles, eu sonho com eles, eu penso neles. Às vezes sinto a presença deles o que não me assusta.  Durante meses evitei locais com velas aromáticas porque volta e meia sentia o cheiro à capela mortuária onde velei o meu pai, mesmo eu sabendo que naquele local era impossível sentir aquele determinado cheiro. Talvez fosse a forma dele se comunicar comigo. Gosto de pensar dessa maneira, pelo menos.

E portanto, não me sentia tentada a fazer essa chamada para o Além. Iria perguntar o que? Iriam dizer-me o que? Que estão bem? Que estão mal? Que sentem saudades nossas como nós sentimos deles? Prefiro não saber... Às vezes as pessoas mais ignorantes são as mais felizes. Prefiro viver na ignorância nesse assunto do que saber uma resposta que me deixe eternamente triste. Já vi dezenas de pessoas a morrer: umas morrem com um sorriso nos lábios como se estivessem em paz, outras fazem esgares de horror e de sofrimento minutos antes de partir. E gosto de pensar que aqueles que morreram tenham a capacidade de nos porem a mão no ombro e de uma forma ou outra nos dizerem sem palavras. Ei, tem calma... tudo vai dar certo...estou aqui para te proteger. 


E pronto, qual é a minha opinião sobre o Dia de Todos os Santos? É aquele dia em que dias antes o preço das flores inflaciona e em que o cemitério é uma feira de vaidades: os mais ricos põem flores mais caras, os mais pobres flores mais baratas e os mais pobres de espírito deixam fiado na florista para comprarem flores caras. 
É aquele dia em que se olha para a campa de família do vizinho e se vê que só é ornamentada naquele dia. Ou então que lamentamos porque aquela campa não foi ornamentada porque ninguém a foi visitar.
É aquele dia em que as gentes do Minho (pelo menos) vestem as suas melhores indumentarias para serem exibidas no cemitério, aquele dia em que encontramos aquelas pessoas que só vemos em ocasiões festivas.
É aquele dia em que encho com alguns euros as caixas de lata dos escuteiros  que ficam à porta do cemitério para peditórios para a Liga Portuguesa contra o Cancro e em que fico a matutar nas centenas de pessoas que repousam por causa daquele mal no outro lado do portão. 
É aquele dia em que anoitece depressa, faz frio, quase sempre chove em que se fica sentada à lareira a comer castanhas como se não houvesse amanhã e a contar os dias que falta para a próxima festividade: o Natal. 
É aquele dia em que se acorda ressacada depois de uma noitada na discoteca para celebrar o Halloween.
É aquele dia em que uma lágrima teimosa cai sempre quando se pensa naquela pessoa que amamos já partiu. E naquele que pensamos que será o próximo. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Das músicas...

Daquele tempo muito remoto em que se comprava CDs e em que me eram oferecidos quando eu tirava Excelente nos testes, guardo algumas memórias um tanto curiosas.

Recordo-me que cresci a ouvir pop rock dos anos 70 e 80 e alguns cantores brasileiros uma vez que a única altura em que basicamente ouvia música era no carro. E claro, nesse tempo que mandava no rádio era o meu pai.
Então adolescente parva que era, assim que tirava um excelente num teste, no fim de semana seguinte arrastava os meus pais à  Valentim de Carvalho ou ao Hipermercado mais próximo (sim, porque Fnac é uma coisa tãaaao 2000 e tal) para que me comprassem aquele cd daquela banda que aparecia nas revistas Super Pop e Bravo.

Acontece que num Natal os meus pais ofereceram-me o cd do Roberto Carlos. Que seria o meu cd e o cd deles já agora. E quando abri tal prenda perante o olhar atento dos meus primos, fui altamente gozada por terem uns pais brega que me queriam tornar brega e antiquada. E a mesma coisa se passou quando dias depois contei às minhas amigas sobre a minha prenda de Natal. Ah e tal, tens de ouvir Britney Spears e BackStreetBoys e não Roberto Carlos, disseram-me.

Confesso que Roberto Carlos foi indubitavelmente um dos cantores que acompanhou a minha infância. Há letras de músicas que as sei de cor não por gostar delas mas porque numa idade mais pequena, como é normal  nas crianças, tive a capacidade de assimilar tudo. E quem diz Roberto Carlos diz Carlos Paião ou José Cid. Ou então Elton John, Queen, Rolling Stones, Simon and Garfunkel. Algumas bandas/canções deixei de ouvir, outras ainda as oiço. E acho fantástico quando me perco pelo youtube, ligo uma música daquelas que há mais de vinte anos que não ouvia e ainda sei a letra de cor.

E este texto está a ser escrito porque esta manhã quando estava na cozinha com um companheiro de casa, ele ligou no youtube uma música que ele tinha descoberto graças a uma novela e que era fantástica. Disse-me que no Brasil ainda se faziam boas músicas. E quando ele a ligou, para espanto dele e meu, comecei a cantá-la como se a ouvisse todos os dias. A música era interpretada por Lulu Santos. Intitula-se as "Curvas da Estrada de Santos". Original do Roberto Carlos. Aquele que quem ouvisse fazia da pessoa brega.


As dezenas de Cds que coleccionei graças aos meus Excelentes estão parados numa prateleira algures. Mas os clássicos velhinhos, volta e meia são levados para o carro para serem usados. E porque? Porque grandes canções duram para sempre.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Porque acho que vou para o Inferno...

Vivo com quatro muçulmanos que gosto muito muito muito. O texto que vai a seguir regista algumas das particularidades deles pelas quais eu tenho uma espécie de ódio de estimação. E afirmo e reafirmo que sou muito tolerante. Às vezes até acho que demais.

- Os muçulmanos não me deixam meter nada no frigorífico que contenha carne de porco.
- Os muçulmanos só deixam eu beber álcool se eu utilizar os meus copos (e mesmo assim fazem má cara quando uma garrafinha é consumida)
- Os muçulmanos fazem uma dieta quase quase vegetariana, porque só podem comer carne Hallal (que na cidade onde estudamos não existe e só podem comprar carne Hallal a... 350km daqui)! Ou seja, fazem má cara quando eu como chicha  não Hallal. E se tiverem uma deficiência de vitamina B12 foi porque Alá assim o quis.
- Os muçulmanos podem até estar a morrer de dores de estômago, mas são capazes de recusar uma canja só porque pus knorr de galinha não Hallal (Knorr de galinha Hallal existe?)
Os muçulmanos fazem as suas orações várias vezes ao dia, não importa se acordam meio prédio durante a noite ao andar de sapatos pelo corredor e a abrir e a fechar portas.
- Os muçulmanos com quem vivo, nasceram e cresceram na Europa, seus pais são de origem Iraniana e Paquistanesa e conseguem ser mais fanáticos do que muitos dos nossos colegas que são realmente originários desses países.
- Os muçulmanos com quem vivo dizem que eu sou uma leviana quando digo que Religião não impõe regras. O que impõe é a religiosidade das pessoas com a mania de impor regras. E é a religiosidade que a meu ver lixa tudo o que há de melhor numa religião.
- Para eles, a religião Islâmica é a melhor de todas. Mesmo não sabendo nada de nada sobre as outras. E o pior de tudo é que muitas vezes não sabem como defender a sua ideia. Mas as suas ideias são as melhores, porque foram ensinadas pelos seus pais cujos seus pais as transmitiram também. As mulheres na Arábia Saudita não podem conduzir? A homossexualidade é pecado? Está no Corão!!!
- Os meus amigos muçulmanos dizem que eu deveria abraçar a religião deles. Que não há nada melhor que casar-se com um muçulmano. Mas fazem ar de horror quando lhes repito e repito aquilo que um cardeal português disse "Casar com muçulmano dá má sorte todo o ano".
- Os muçulmanos lêem e voltam a ler os ingredientes de qualquer coisa que compram. Pelos vistos há croissants de chocolate que contêm álcool. E o puré congelado de castanhas que se vende no supermercado contém Brandy. E sempre que se vai a um restaurante fazem questão de perguntar se saltearam os legumes ou temperaram o peixe com álcool. E tudo porque o consumo de álcool é proibido. Mesmo na porra do puré de castanhas.
- Os meus amigos muçulmanos são amigos de todos os muçulmanos da faculdade, dão likes em tudo que tenha a ver com Alá. As fotos das meninas no perfil do facebook são personagens da Disney ou fotos do tempo em que eram bebés.


Os muçulmanos que vivem comigo convidaram-me para uma viagem no fim de semana passado. Eles são preguiçosos para preparar uma merenda que seja e gostam imenso de cravar a merenda dos outros.
O que é que a Alima vai de levou de merenda? Umas sandes com tomate, alface, queijo... e (uma coisa que não aprecio muito mas lá tive de fazer o sacrifício) fiambre! Conclusão: passaram larica.

E se continuarem a lixar-me o juízo, a próxima mousse de chocolate que eu meter no frigorífico (e que rapidamente desaparece antes de eu sequer a ter provado), vai conter Brandy!!!

E sim, meus amigos, aqueles brigadeiros lindos e saborosos que vocês enfardaram em poucos minutos continha licor. Esse era o segredo da receita que não vos contei. E vocês enfardaram como se fosse a sobremesa dos deuses. Estúpidos. 


Ok. Vou parar ao Inferno.


Aliás, segundo eles, como consumidora de álcool, porco e especialmente infiel já tenho o lugar garantido.

domingo, 13 de outubro de 2013

Querido Pai

...custa-me tanto pensar que tu estivesses aqui a nossa vida seria tão diferente. Talvez não estaria a fazer o que estou a fazer hoje, talvez não consentisses o meu espírito aventureiro. Como pai galinha que sempre foste, dizias que davas a chance de que eu e a mana voássemos mas não sei até que ponto não estarias sempre por perto com a tua asa sempre protectora. Quando me ensinaste a andar de bicicleta disseste que iria cair muitas vezes nela, mesmo depois de ser perita. Mas que o segredo é levantar, sacudir poeira e não desatar a chorar com as primeiras tentativas. Puseste até duas rodas laterais de apoio mas a pouco e pouco foste pondo-as de maneira a que nem tocassem no chão.

Mas a vida encarrega-se de mudar as coisas. Dizias que estarias reformado lá para os 55 anos. E que assim que te reformasses e sabendo que não eras homem de ficar por casa, irias passar a semana na aldeia nas tuas bricolages e a trabalhar na horta e só voltarias a casa ao fim-de-semana. Ou então irias restaurar o teu Renault 12 na garagem. Mas que as tuas quintas feiras e domingos iriam ser passados na caça. Mas isso nunca chegou a acontecer. Tantos sonhos em vão. Puta de vida. Puta de vida mesmo.

Sinto a tua falta. Sempre.

Alima

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Querida mãe

Apesar de não morrer de amores pela área da Cirurgia, acho que tenho o melhor professor do mundo.

Quarta feira, 09h da matina, serviço de cirurgia do Hospital Universitário.
Entra para internamento uma mulher nos seus 40 anos, com dores abdominais (hipocondrio direito) e episódios de vómitos. Na anamnese ela refere que tinha uma dieta à base salsichas (sim, ela era economicamente desfavorecida), que fumava como uma chaminé (2maços por dia)

O professor chama-nos ao gabinete, senta-se no seu cadeirão enquanto nós, quatro marmanjos e marmanjas ficamos especados de pé com o nosso caderno e caneta em riste.

- O que acham que pode ser? Caso cirúrgico ou caso para dar alta?

E pronto, cada um deu o seu ponto de vista. Ele questionava as nossas ideias, nós lá tentávamos defender a nossa causa. 
Sabíamos que ela é uma 4F (female, fourty, fertile e fat), o que pode ser sinal de "pedras na vesícula". E pelo que ela descreveu primeiro teve episódios de dor e só depois vómitos. Portanto, caso cirúrgico quase na certa.

Ao fim da aula chegou-se a tal consenso, com a limitada hipótese de poder ser ulcera duodenal (cuja endoscopia digestiva alta seria feita naquela tarde)

Gostei imenso da abordagem do professor. Obrigou-nos a reflectir e a usar as armas que temos para nos defender. Gostei do debate. Foi possível fazer relações com a patologia e farmacologia que ainda são cadeiras novas para nós. 

Praxis. Gosto disto. 

Alima



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Agosto de 2013- Praia com a mãe e irmã


Ligo a B.
B. não atende.
B. liga-me passado cinco minutos:
- Porra Alima, estava a trabalhar! Que queres?
- Só trabalhas B.!!! Sempre com a meter os dedos na boca de alguém!

Mãe pára de ler o jornal e diz:
- Então Alima? Isso são coisas que se diga à tua amiga????
- OHHH MÃAAAAAAAE! A B. é dentista!!!!

domingo, 6 de outubro de 2013

Querida mana,

Uma das vantagens de viver na Europa Central reside no facto do nível de vida ser um bocado mais acessível que no nosso país.
E quando no fim-de-semana passado, o meu velho amigo H. bateu à porta do meu carro para darmos um passeio, eu não pude dizer que não.
O nosso destino: Ucrânia. Trata-se de um país que não há muito tempo eu considerava, digamos, exótico demais para mim. O meu conhecimento sobre a Ucrânia quando vivia em Portugal resumia-se a saber a capital do país, alguns conhecimentos de geografia do país e claro, algumas noções sobre as gentes da Ucrânia que residem em Portugal.

Gosto imenso dos ucranianos. De uma maneira geral, são excelentes pessoas. Tenho a ideia de serem pessoas muito metódicas e trabalhadoras. E devido a essas qualidades, são pessoas que rapidamente adoptaram a cultura e a língua portuguesa como suas novas culturas (coisa que muitos imigrantes de outros países que já vivem há anos em Portugal mal português sabem falar). Recordo-me de no meu 10º ano ter participado nas Olimpíadas da Matemática no Liceu e quem ganhou o 1º prémio foi um rapaz ucraniano que nem uma calculadora levou para a prova. Seja como for, nutro um grande carinho por esse povo.

Passada a fronteira, depois de um bom dia  e obrigado em português por parte de um guarda da fronteira quando me entregou o passaporte, percorremos alguns kilometros até chegar à nossa cidade-destino.

Porque gosto tanto de viajar na Ucrânia? Lembras-te daquela vez em que nos fizemos à estrada no Gerês, andamos e andamos sem ver viva alma em Portugal e mal cruzamos a fronteira chegamos a uma vilazinha espanhola com uma piscina natural de água quente, cafés, restaurantes, multibanco e um supermercado Dia até? Lá está. Percorremos dezenas de km até chegar à Ucrânia com paisagens bonitas mas apenas isso. E mal cruzamos a fronteira estávamos numa cidade quase tão evoluída como aquela em que vivo.

Porque gosto da Ucrânia? Um país com um custo de vida muito baixo. Há notas que equivalem a 10 cêntimos. Quando me deu para contar o dinheiro daquele maço de notas que o H. me entregou para guardar, achei cómico porque aquele enorme maço valia 5 euros. Almoçamos num restaurante muito chique, com música de fundo, cascatas de água e essas criquices de ar de restaurante de luxo e acabei por pagar dois euros apenas. E nem vou comentar o preço que paguei por um casaco pele de coelho pelo qual fiquei perdidamente apaixonada...nem pelas garrafas de vodka. Nem pelo tabaco que se fuma em situações de stress. Nem pelo preço do combustível em que ainda se mete gasolina no carro por 1 euro o litro.

Porque gosto tanto da Ucrânia? Quase toda a gente fala inglês. Fluentemente. Eu e o H. arranhamos no russo (quer dizer eu arranho, ele é quase fluente!), mas claro há palavras que não sabemos mesmo. E as próprias pessoas lá nos respondiam em inglês com toda a naturalidade do mundo. Para não falar que são pessoas extremamente acolhedoras. E faziam um ar de espanto quando nos perguntavam qual era a nossa nacionalidade e de nós lá dizíamos que eu sou portuguesa e o H.  iraniano.

Porque gosto tanto da Ucrânia? Porque é uma mistura de culturas. Vivem lá Hungaros, Polacos, Russos, Eslovacos, Turcos, Judeus. E como tal ir ao supermercado é uma autentica aventura. Comprar Baklava do Irão, Lokum turco, romãs do Azerbeijão e sabonetes do Mar Negro é uma coisa normalíssima para eles mas para mim é exotismo puro e duro.

O que admiro na Ucrânia? Ao contrario da cidade onde vivo onde há muitos mendigos (coisa que detesto, porque tratam-se de romenos como todos os direitos e nenhum dever) não me apercebi de ninguém a pedir dinheiro na rua. Infelizmente vi alguns animais abandonados que me aperta sempre o coração.

O que não gosto quando vou à Ucrânia? As duas horas que se passa para cruzar a fronteira. Afinal de contas, o carro é praticamente revirado para evitar contrabando...

Aguarda pela minha chegada no Natal para veres as coisas que comprei para ti. Até lá vai rezando para que o H. me convide de novo antes de regressar a Portugal. :)

Um beijinho de muitas saudades,
Alima

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Agosto 2013

Conheci pessoas novas, algumas das quais começaram a fazer parte do meu circuito de amigos.
Um dia comentei algo sobre um desses meus novos amigos (neste caso um velho amigo que reapareceu na minha vida ao fim de quinze anos): o P.
A minha mãe, sem saber quem ele era realmente, pôs-se a perguntar o que eu sabia sobre ele: o que ele fazia da vida, onde ele estudara...
- Já agora, de onde ele é?- pergunta-me.
- Ele apesar de viver aqui perto, nasceu em Angola.- disse-lhe vagamente, mas com um retoquezinho de malvadez.

Ok. A minha mãe ficou um bocadinho desconfortável com a resposta. Apesar de saber que ela não é racista, nem longe que se pareça, sei que ela não veria com bons olhos o facto da filha namorar eventualmente com um negro. Porque este Verão a sua filha Alima andou com um P. angolano para cá e para lá.


Uns dias mais tarde, disse à mãe que iria sair. E que o P. angolano iria buscar-me a casa. Disse-lhe até que até era menina de apresentar-lhe o P. angolano. A mãe entrou em pânico. Oh, não vale a pena, filha..., disse-me ela.
E quando ele chegou, chamei a minha mãe. Ela apareceu no jardim. Ele permaneceu no carro.
-Mãe, este é o P. que nasceu em Angola!

A minha mãe lá se inclina para ver quem estava dentro do carro e vê o filho da amiga dela. Ele faz-lhe um sorriso com os dentes todos, e acena-lhe. Ele sabia o que tinha aprontado.
Depois de um breve suspiro sonoro, a mãe diz para mim tentado controlar o riso:
-Oh Alima, vai te lixar!

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Cartas a todas as Cosettes redigida por uma Éponine

Sinceramente eu nem deveria estar a dar-me ao trabalho em escrever-vos. Mas é mais uma forma para afirmar que estou com vocês até aos cabelos. Vocês na perspectiva masculina são umas fracas e sensíveis meninas cheias de uis e de ais, umas meninas que precisam de ser protegidas de todos os males quando vocês mesmas podem ser as principais transmissoras desses mesmos males.

A coisa ficaria bem se não andassem a estragar a vida a tantas Éponines que andam por aí.
Passo a explicar:
Homens que valem realmente a pena ter uma relação são poucos. Muito poucos. Esses homens têm bom coração, são altruístas, simpáticos, com dom de palavra e cultos.
O que acontece? Há sempre uma porra de uma Cosette com quem se embeiçam. As Éponines são as melhores amigas e confidentes. São uma espécie de irmazinhas queridas com quem nunca teriam uma relação sentimental. Mas admitem que as suas queridas Éponines são o seu maior porto de abrigo que jamais podem abandonar. Elas demonstram valentia e sabedoria, coisa que muitos Marius às vezes não têm. São também assexuadas. Os Marius até tremem só de pensar que a amiga Éponine até deu mais trela aos amigos do que ao próprio Márius.

A Cosette que estou a pensar no momento em que escrevo esta carta não passa de uma simplória com pouco mais que o 9º ano. Lá porque tem um corpo bonitinho acha que consegue conquistar todos os Marius da nação. E só porque tem alguns dramas familiares acha que estão no direito de ter uns fanicos. E o Marius que eu cá sei, qual cavalheiro, acha-se no dever de a proteger de todos os vilões. Paga-lhe cafés, jantares e viagens. Paga-lhe até consultas médicas e naturopatas. Vai com ela para o shopping e a Cosette com o 9º ano mal feito mas que de burra tem pouco, aproveita-se do bom coração e da boa carteira do Marius e sabe como pedir uma mala de senhora de 300 euros e um smartphone topo de gama. Depois o Marius acha-se no direito de se reaproximar mais e mais da Cosette e o que ela faz? Faz-se de difícil. De que não quer neste momento nenhuma relação. E em vez de lhe agradecer a bondade do pobre Marius ainda o ataca por causa dos defeitos que ele tem. Sim, todos os Marius também têm defeitos. E para piorar as coisas, alem de realçar que não quer nenhuma relação com o Marius, mete-se com outros homens assim à cara podre mesmo em frente ao pobre Marius.
E como quer manter preso o Marius o que faz? Faz piadinhas e graçolas sobre um possível casamento entre eles, alimentando a esperança do pobre. E pior: põe a irmã mais velha a ter uma conversa com o Marius sobre quais as perspectivas de futuro, sobre como é o casamento dos pais dele, de quantos filhos e quando os quer ter. Pergunta-lhe até como é a conta bancária.


E estas merdas todas fica a Éponine a saber numa esplanada à noite com vistas para a cidade. Porque o pobre Márius liga-lhe a dizer que precisava de conversar com alguém porque sente-se injustiçado com tamanha indiferença por parte da doce Cosette.
A Éponine desmarca com os amigos ir ter só como Marius. E depois do Márius contar-lhe a história, do há quantas noites não dorme à conta da paravolhona da Cosette, a Éponine fica boquiaberta. Ainda lhe diz: Não vês que ela está a usar-te? És burro ou fazes-te? Tens 30 anos, não 13 para andares nestas merdas! mas acaba por ouvir uma resposta que ainda a magoa mais do que a impossibilidade de fazer alguma coisa por ele: Mas eu gosto imenso dela...
E depois a Eponine ainda tenta mudar de tópico sobre outras coisas mais triviais, mas o assunto Cosette volta à baila uma e outra vez, quando o pobre Márius se queixa das arritmias que ela lhe tem causado.

E pronto, a Éponine ainda tenta explicar-lhe como funciona a mente de uma mulher mas a meio da conversa pensa que talvez o parvo do Marius esteja realmente perfeito para a Cosette. E quando pela milésima vez o Márius pergunta à Eponine o que deveria fazer em relação ao tema Cosette, a Éponine lá revira os olhos e lhe diz em tom dramático que o destino tomará conta do assunto. Mas achas que eu deveria mostrar mais directamente o meu afecto por ela?, pergunta Márius... Se tens amor a ti próprio e à tua carteira, dá tempo ao tempo, aconselha a Eponine...

E no último vislumbre que a Éponine tem a partir do seu carro ao ver o carro do Márius partir, a Éponine que de pobre e de vítima não tem nada diz baixinho: Adeus idiota... é bom que não me voltes a incomodar mais...

Mais um Marius enfeitiçado, mais um Marius perdido que uma Eponine resolveu esquecer...


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Querido A.

Tenho o professor de pato-fisiologia mais secante do mundo e arredores.
Como te vou explicar: demora meia hora a chamar o nome do meu grupo (somos nove ao todo), mais meia hora a tentar abrir site, mais site mais site. Meia hora a falar sobre que livros deveríamos comprar para a cadeira, abre e fecha Amazon umas cem vezes. E só que estamos realmente cansados de estar na aula é que começa a dar a aula propriamente dita.

Disseram-me os mais antigos alunos que o fulano é um observador nato. Fica logo atento ao nosso primeiro erro. Que chumba alunos só porque sim. E claro, desde logo tentamos criar uma boa impressão de maneira a tentar cativar o homem.

Logo na primeira aula ele berrou o meu apelido a perguntar quem era. Sim, porque onde estudo conta mais o apelido que o nome. Eu respondi. Então ordenou-me que teria de fazer uma apresentação para a aula seguinte. E tal como chamou o meu nome, outros colegas meus foram chamados para fazer a mesma coisa.
Uma semana passada, com o trabalhinho feito, cheia de medo de causar má impressão, lá fui eu à aula. Os outros nomes que foram chamados na semana anterior nem os pés puseram.

Fiz o meu trabalho em power point, tentei demonstrar uma segurança que realmente não tinha. Mostrei imagens, gráficos e tabelas, fiz uma apresentação com pouco texto de modo a que fosse fácil a leitura.
E quando terminei, olhei expectante para o professor e ele sorriu para mim e deu-me os parabéns pela minha exposição. Afirmou também que já era costume que os portugueses fizessem um trabalho bastante satisfatório uma vez que o nosso sistema de ensino já nos habitua a trabalhar com pesquisa bibliográfica desde o secundário.

Foi assim um pequeno passo para mim, um grande passo para passar na cadeira!!!


Alima

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Querida mana,

No Sábado passado foi a vindima na casa dos avós.
Pela noitinha, a mãe apareceu no Skype para ter dois dedos de conversa comigo.
Depois de ter falado sobre quantas pipas de vinho serão enchidas, quantas pessoas foram vindimar, quem foi vindimar, a mãe quase finalizou a conversa com:

- Sabes, estava eu perto da eira aos figos e vi um sapo. Não sei de onde é que ele vinha. Talvez viesse daquele riacho que passa no campo de não sei quem. O que é certo é que perto do sapo, nas pedras do muro estava uma cobra pequena. Pequenina mesmo. Pelo menos só vi a cabeça que era da grossura do meu polegar. E a  cobra produzia aquele som com a cauda e o sapinho  estava completamente hipnotizado. Então, eu com um pauzito afastei o sapo de perto do muro. Acho que salvei uma vida hoje. E senti-me tão bem com isso...!

Ainda bem mamã...


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Querido A.

Na semana passada começaram as minhas aulas. Logo no segundo dia de aulas tive aulas no hospital no serviço de Medicina e Cirurgia. Fiquei feliz por saber que o meu velho pijama branco do tempo em que estudava Enfermagem ainda me serve. Apenas retirei o bolso com o símbolo da antiga escola e pus um bolso branco. E felizmente eu não o queimei como tinha prometido na altura em que estava a acabar o curso porque senão teria de comprar outro pijama novo :)

Seja como for, usar pijama branco e ter um estetoscopio ao pescoço não é novidade para mim. Usei centenas de vezes quando era enfermeira. E por isso mesmo torci logo o nariz quando me tentaram tirar fotos para por no facebook com aquela indumentaria. Assim como torci o nariz ao ver toda a gente a publicar tais fotos nas redes sociais. Considerei uma atitude demasiado presumida por parte deles até. (Okok, tenho mais 6 anos que muitos deles...).

Seja como for, a primeira aula no hospital foi Interna. A professora mandou sentar o grupo na biblioteca do serviço e falou, falou, falou, gesticulou e gesticulou, mais trago de água, mais morder os lábios.
Falou na importância da Medicina Interna, que é nela que reside a arte da medicina bla bla bla. Pôs-se a explicar como deveríamos fazer uma anamnese mais-que-perfeita. Ameaçou-nos até de que se preferíssemos Cirurgia a Interna que estávamos literalmente chumbados a Interna.

Depois na aula da Cirurgia, o professor fez praticamente o mesmo discurso. Reforçou a ideia que só o cirurgião é que pode curar. Que a scum (escumalha) de Interna simplesmente aliviava sintomas e adiava a morte. E em vez de por-se a falar sobre anamnese e exame físico, pôs-nos a treinar suturas! Adiantou que se preferíssemos Interna a Cirurgia estaríamos chumbados também.

Apesar de eu ser sempre ter jurado que nunca olharia Cirurgia como um futuro, porque além de eu conhecer as minhas limitações em termos manuais admito que sou um bocado stressada para isso, juro que simpatizei mais com Cirurgia do que com Interna. Enquanto Interna falava em art, pathology, farmacology e help, Cirurgia falava em skills, cure, progresstechnology.

Acho que vou adorar isto mesmo....

domingo, 22 de setembro de 2013

Querida L.

No início deste mês fui convidada para o baptizado do filho do C. e da S.. Bem, neste caso, como eles optaram por uma cerimónia muito íntima, fui convidada para o pica pica após o baptizado. E lá cheguei eu, tu, os teus pais, o teu padrinho A. como assim manda a regra.
Como deves saber, um tio avô do C. é nada mais nada menos que o padre da aldeia-natal da minha mãe. É também muito amigo da minha avó. Quando a minha avó vivia na casa dela, volta e meia o Sr. Padre ia fazer-lhe uma visitinha e acabava quase sempre para um cházinho e bolos. 

Uma vez que o vi, fiz questão de o evitar, não fosse ele eventualmente reconhecer-me (não fosse eu uma espécie de fotocópia do meu avô)
A coisa estava a correr tão bem até que a sobrinha do padre o traz pelo braço até ao sofá onde eu estava sentada com a malta.
- Oh tio, a família desta menina é paroquiana na sua freguesia...- diz a mãe do C.

Oh bolas, fui apanhada...

- Ai sim? É de que família?- pergunta-me o padre.
- Sou da família dos ....(nome que a família é conhecida)- respondo-lhe.
- Dos ....!? Mas eu sou muito amigo da sua família! E olhando bem para a menina, você é a cara chapada do seu avô que-Deus-o-tenha! É o nariz, é o cabelo aos caracóis, é a robustez... oh até o sorriso! Só não tem os olhos azuis típicos da família...

Sim, precisava mesmo de um padre para me dizer que de toda a família, sou eu a mais parecida... Espera aí... ele chamou-me robusta! 
E continuou...

- Sabe, eu até já faço parte da vossa história familiar. Já estou na paróquia há quase cinquenta anos. - diz ele todo vaidoso- Fui eu que fiz o casamento a todos os seus tios... E baptizei alguns dos filhos deles... E funerais? tantos...Olhe, até já fiz o funeral a um genro da sua avó...
- Pois, esse genro da minha avó é por acaso o meu pai...- disse-lhe.
- Oh, não me digas que és filha da M.!!! Foi minha aluna na telescola! Olha lá, ela já arranjou alguém?

OK! Parou tudo... Ele quer saber se a minha mãe é uma viúva alegre ou não!  Uma resposta vaga deve servir:

- Oh sr. Padre... Se ela tem ou não, não me diz respeito!
- Pois bem, pois bem... Sabe, a sua família foi uma grande benemérita da nossa igreja... O sino da nossa igreja  tem o repique mais bonito da região porque a família da menina deu muito ouro para fundir com o bronze. E olhe, quando os franceses invadiram o Minho, foi a sua família que escondeu tudo o que era de valioso na paróquia no jazigo de família e em paredes falsas. Contribuíram tanto que os seus não sei quantos avós tiveram direito a um retrato a óleo na sacristia...

E quando ele dizia isso em voz alta (o homem deve ser mouquinho da silva porque ele falava tão alto que parecia que estava a dar o sermão), as cabeças dos meus amigos que estavam comigo no sofá se viraram para mim. 

- Ena pah... está na altura de ires buscar alguma contribuição do espólio lá da igreja para mudares de carro, não oh Alima?- diz o teu pai em tom de brincadeira. Puxa, o teu pai tem razão...

Então o padre vira-se para o teu pai e diz-lhe a alto e bom som:
- Sabe, eu não concordo que aqueles quadros estejam na sacristia. Não foram grandes pessoas em vida. Eles fizeram a fortuna a traficar escravos. Eram negreiros...!

Ok... isto é uma afronta para a minha pessoa. Mexer nos esqueletos que temos no armário??? Fala no quão beneméritos os meus antepassados foram para depois cuspir a palavra negreiro?Já não é a primeira vez que ele diz isto! Pode ser impressão minha, mas mais cabeças estavam voltadas para o sofá onde eu estou... A palavra negreiros só é bonita se tiver Almada antes...  Mas, espera aí...

- Tem razão, sr Padre. O problema é que se tirassem todos os quadros de pessoas que não foram boas pessoas em vida das sacristias, acho que as paredes ficariam bem pobrezinhas... Por exemplo, se retirarmos os retratos de todo o clero que fez parte dos Autos de Fé ou Santa Inquisição... queimar inocentes, gatos pretos, possíveis bruxas e tal... ou melhor, aqueles membros do clero que negaram protecção às vítimas do Holocausto... Ou então...

E não pude acabar a frase... o teu padrinho puxou-me pelo braço para outro lado da casa. Beato e menino de coro como ele é (ou melhor, menino que lê na missa ao domingo) lá achava que estava a tentar salvar a minha alma. Fiz frente a um padre, caramba! O padre que já faz parte da família, como ele disse. Vou parar ao Inferno...

O teu padrinho merece uma coça. Adorava saber como é que o padre se ia defender!





sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Querido P.

Uma semana se passou depois de ter partido de Portugal.
O tempo aqui está péssimo, as sandálias e tshirts que eu trouxe não vão ter uso nenhum até Junho, já que faz muito mau tempo por aqui. 

Como te prometi, continuo a fazer dieta. Já perdi 17kg desde Julho. Sinto-me mais bonita, mais ágil e mais sexy até. Quero ver se continuo a perder mais peso até ao Natal. Só mesmo para poder comprar mais trapinhos nos saldos assim que chegar a Portugal (já que onde vivo nenhuma loja de jeito).

Confesso que me habituei a ti este Verão. Fizemos tanta coisa juntos e esta separação brusca causou-me alguma tristeza. Sabes bem que eu adoro cá estar,  mas os primeiros dias em que aqui cheguei senti-me um bocadinho deprimida. E para piorar as coisas, foste a última pessoa que vi em Portugal, tu fizeste questão de me levar ao aeroporto. E antes de me levares ao aeroporto, fizeste questão de me oferecer um pequeno almoço à maneira numa esplanada em frente ao mar. Desfrutei contigo o último cheiro a maresia e o último vislumbre da nossa praia. A praia que eu tanto sinto saudade... A praia que neste país onde vivo jamais poderá existir.

Temos falado imenso por telefone. Mas não é a mesma coisa, claro. Não é como passávamos horas num bar perto da praia a conversar, ou mesmo quando começávamos a noite numa esplanada com amigos em Braga e acabávamos os dois a noite no Porto ou em Viana a ouvir Oceano Pacífico no carro.  Uma vez no carro perguntaste-me como é que era possível que nunca nos tivéssemos beijado como nos filmes. Afirmaste que tinhas tido mais momentos românticos comigo do que com muitas namoradas. Eu respondi-te que os amores mais ternos são os de infância. São aqueles amores de folhas perfumadas com ursos estampados, nada arrebatadores, sem ciúmes e sem joguinhos de sedução. E nós fomos uma espécie de namorados de infância.  São pequenos momentos como esses que me fizeram nascer algumas lágrimas nos olhos no momento em que nos abraçamos antes de eu embarcar. E as outras lágrimas caíram quando cheguei ao meu destino quando invés de ser recebida com um sol e calor, fui recebida com chuva, frio e um céu cinzento. E com a garantia da porteira da residência onde vivo de que este ano deve começar a nevar lá para Outubro. 

Obrigada por este Verão. E por tudo. 
Até Dezembro. 

Alima

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Julho de 2013

Paro o carro em frente à capela mortuária da aldeia-natal da mãe.
Mesmo em frente à capela, está um busto em bronze do padre da freguesia para celebrar os quarenta e tais anos como pároco naquela freguesia.
Diz a minha mãe:

- Hum... o padre já tem direito a estátua... E olha que está bem bronzeada.

Digo-lhe:
- Deve ser humilhante estar vivo e ter uma estátua em praça pública...

- Não digas disparates, Alima... o homem até merece...- responde a mãe em tom de zangado.

Respondo-lhe: 
- Não deve ser fácil estar vivo, ter uma estátua e ver os pássaros a cagar-lhe em cima... 

Ok... vou para o Inferno...

domingo, 8 de setembro de 2013

Querida L.

Não temos qualquer relação de sangue, mas podes considerar-me como uma tia.
Não tenho sobrinhos  e estando a anos de luz de ter filhos, adoptei-te como minha sobrinha. Da última vez que te vi, consegui-te ensinar a fazer o hi-five e a fazer som quando mexes com o dedo na boca. 

Este mundo não está fácil para os adultos como eu e os teus pais. Oxalá que quando tiveres a minha idade as coisas estejam muito melhores. A palavra crise sai das bocas dos portugueses diariamente. Tem sido a culpa de todo o mal. Já não se culpa Deus por todo o desemprego e as carências a todos os níveis que acontecem no nosso país. Culpa-se a crise. 

Quando eu era criança pouco me tinha que preocupar com a palavra fome. Na minha imaginação a fome era uma coisa que só havia em África, porque de vez em quando lá surgia uma ou outra imagem na televisão. A Internet  nas nossas casas não existia (aliás só tive Internet em casa uns dois anos antes de ir para a universidade). Pouco ou nada sabia o que era a pobreza. Tive uma infância modesta, sem excessos nem carências. Não me faltava nada, mas também não tive tudo. Infelizmente os casos de miséria aumentaram muito... Terás que amadurecer mais depressa que eu...

Julgo que tive o primeiro contacto com a miséria, tinha eu sete anos. Fui visitar o meu avô ao hospital no Porto. Sei que estávamos na altura do Natal, porque lembro-me de ter um Pai Natal de chocolate. Estava eu e a minha mãe à porta do hospital quando um rapaz com os seus vinte e poucos anos mostrou um papel qualquer à minha mãe a dizer que tinha SIDA e que precisava de dinheiro para os tratamentos. A minha mãe deu-lhe alguns escudos. Eu dei-lhe metade do Pai Natal de chocolate, porque ele pôs-se a olhar fixamente para ele. Acho que terá sido a primeira vez que ouvi falar em SIDA. Isto em finais de 1994, tinha eu sete/oito anos.

Outra situação que me marcou também foi num sábado de manhã em que íamos para a aldeia. Mal tínhamos saído da autoestrada, começou a fazer-se uma fila de carros . O motivo: alguém tinha sido atropelado. Os condutores paravam, viam o que se passava e arrancavam de novo. O meu pai, boa alma e bom militar que foi, imediatamente parou o carro para tentar socorrer a vítima. O meu pai e mais duas/três pessoas. Lembro-me que a vítima era um rapaz também com uns seus vinte e poucos anos. Pela cor da pele, parecia cigano. Estava todo ensanguentado e inconsciente. Não me recordo todos os pormenores, mas recordo-me que veio a ambulância,  e algum tempo depois o meu pai entrou no carro, pôs o cinto de segurança e disse para a minha mãe: 
- Overdose. Pelos vistos ia tão grogue que atravessou a estrada e...
- Esta juventude com os excessos não sabe onde vai parar- disse a minha mãe

Então o meu pai, virou-se para mim e para a minha irmã (que na altura eu deveria ter também uns oito anos porque me recordo que a minha irmã que é cinco anos mais nova que eu ainda estava numa cadeirinha) e disse:
- Vocês as duas, antes de fumarem ou de meterem para a veia o quer que seja, lembrem-se sempre deste rapaz, estamos de acordo!?

Seja como for, a primeira (e única vez) que pus um charro na boca, lembrei-me daquele rapaz. Um flash da minha memória voltou de novo àquele sábado de manhã. Senti logo repulsa por aquilo que me tinham passado para a mão.
Sabes L., eu sou apologista que para não cometermos erros devemos acima de tudo aprender primeiro com as consequências dos outros. É tudo muito bonito chegarmos à escola e ouvirmos falar em drogas e no mal que elas fazem, mas tudo não passa de histórias tristes na nossa cabeça. 

O mesmo digo de certas doenças, e vamos por exemplo falar no HIV. Eu admito que eu só aprendi realmente as consequências destes dois problemas em estágios que fiz. Eu e a tua mãe fizemos juntas um estágio em Psiquiatria. E ambas senti-mo-nos de mãos atadas quando encontramos dois diferentes colegas do tempo de liceu numa ala de agudos de psiquiatria. Por consequência das drogas estavam ambos com esquizofrenia. O rapaz que eu conhecia (e que toda a gente o achava o mais bonito da EB2/3) além de esquizofrenia tinha também HIV. E quando comecei a conversar com ele sobre se ele se lembrava das raparigas com quem tinha namoriscado e que lhe enviavam cartas de amor no dia dos Namorados, ele pôs-se a falar nos planetas. No Deus. Na complexidade que era o Universo. Que tinha sido raptado por um ovni. Pôs-se a falar nos pássaros e nas borboletas. Não, não era o velho A. que eu conhecia que arrancava tantos suspiros às raparigas tontas da escola como aquele loiro da boysband. E temi pela saúde daquelas que chegaram a vias de facto com ele.

Para aprenderes bem o flagelo das drogas e destas doenças terríveis que poderiam ter sido facilmente evitadas, sugiro-te querida L. que faças uma visita de estudo e que possas contactar com estas pessoas. Terás uma imensa pena por elas. As suas ideias estão distorcidas. Tomam dezenas de medicamentos por dia... Mas acho que aprenderás com os erros delas.  Tal como eu aprendi com aquele rapaz a quem dei o meu chocolate e aquele que vi estendido no meio da estrada com uma overdose...  E isso agradeço aos meus pais: eles nunca me esconderam nada sobre as desgraças da vida. Obrigaram-me a olhar para aqueles dois seres humanos e fizeram deles mote de lição. Ensinaram-me desde logo a conviver com a morte.  E tu, L., aprende. Aprende muito. Evita errares. E aprende principalmente com as desgraças dos outros. Não estás nunca imune a elas.

Um beijo do tamanho do Mundo,
A tua tia,
Alima



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Querida F.

Assim do nada recordei uma personagem da minha infância que faleceu tinha eu 10 anos.
Era irmão da minha avó paterna. Não sei o nome dele, mas sempre o conheci pelo o tio da Esperança (não é Esperança, é outro nome muito parecido que é o nome da aldeia onde ele vivia).
Lembro-me de me dizerem que ele se tinha casado com a mulher mais rica da zona (que tinha 1kilo em ouro, vejam só!), mas como ela era muito mais velha que ele, ele seria mais o enfermeiro dela que propriamente marido. Não tiveram filhos. E como ela não tinha mais família, os irmãos dele (inclusivé a minha avó, claro) puseram o casal como padrinhos de pelo menos um dos filhos. Portanto, aquele casal foi o padrinho de baptismo do meu pai. E como a miséria antes do meu avô dar o salto para França era tanta, a minha tia T. foi criada na casa dos tios da Esperança. Foi criada no sentido de ser educada e um tanto criada de empregada dos tios até atingir a maioridade. E quem diz a minha tia, diz um e outro sobrinho que também lá viveu.

Seja como for o meu pai gostava imenso dos padrinhos. E sempre que íamos visitar os meus avós a aldeia, íamos sempre dar um saltinho para os visitar.

A ideia que eu tinha da madrinha do meu pai: uma velha de olhos esbugalhados, pálida como a cal e toda curvada que tremelicava das mãos. Acho que ela tinha uma espécie de barba também. E lembro-me dela sempre sentada na cozinha em madeira. Parecia a bruxa da branca de neve. E tratava o meu pai como "o meu picheno".
O tio, visivelmente mais novo, era um tipo alegre. Sempre a rir-se. Sempre que lá íamos oferecia uma travessa ou um prato antigo ou um pote de ferro à minha mãe porque sabia da paixão que ela tinha (e tem) por antiguidades.

Seja como for, a velhota faleceu. E passado três meses dela quinar, o tio da Esperança perguntou aos meus pais o que achavam se ele se casasse de novo. Os meus pais não disseram que concordavam nem que discordavam. E no mês seguinte ele casou-se com uma mulher muito mais nova que ele. E perfilhou-lhe a filha da mulher. E claro, aí a família ficou um tanto zangada com ele pelo facto de ele não ter pensado nos sobrinhos e de dar tudo a uma estranha que tinha conhecido semanas antes.
O meu pai nunca mais o visitou pelo facto do velhote ter sido egoísta com os sobrinhos e principalmente pelo facto daquela casa ter uma nova patroa.
A nova esposa nova começou a obriga-lo a cultivar campos e a ter rebanho. E passado 10 meses após o casamento, o tio da Esperança que até então tinha uma saúde de ferro, foi encontrado morto num campo enquanto sachava.

Anos mais tarde fui tomar café na Esperança. Enquanto tomava café, assim como não quer a coisa perguntei o que foi feito da viúva do tio do meu pai. Sabia que mal o velhote morrera, ela pôs a casa e os terrenos à venda. O dono do café aproximou-se perto do meu ouvido e sussurrou que ela se mudara para uma aldeia vizinha. Que depois do tio já se tinha casado mais duas vezes com dois velhotes. Ela dá-lhes o Viagra, sabe menina? É o Viagra que os mata!

E desde então sempre que penso naquela mulher associo às viúvas negras...