terça-feira, 29 de novembro de 2016

Novamente sobre as filas

Se há coisa que me rouba a paciência são as filas.

Hoje, precisava de ir aos correios enviar umas encomendas volumosas, chego lá, tiro duas senhas, uma delas por engano. Faltavam 30 números. Bufei, exasperei, e saí dos Correios para tomar um café e dar uma vista de olhos no quiosque ao lado.

Regresso aos correios, os números já estavam relativamente perto do meu, faltavam umas cinco pessoas para serem atendidas.
Devido ao tamanho das encomendas, tive alguma dificuldade em entrar dentro do posto, uma das encomendas cai ao chão, ninguém me ajuda a apanhá-la, olhando com certa indiferença até ao ver o meu embaraço, até que um rapaz nos seus 20 e poucos anos, num gesto cavalheiresco, apanhou a caixa e passou-ma para um dos meus braços que estava mais livre.

Agredeci o gesto, com um sorriso e um obrigado. Trocamos meras palavras até que ele confidenciou que estava com pressa para ser atendido porque tinha aulas dentro de 20 minutos e que lhe faltava uns 30 números.

Lembrei-me que tinha duas senhas no bolso. Pus as caixas no chão e inspeccionei os meus bolsos. Dei-lhe uma senha mesmo em frente ao pessoal que exasperava para ser atendido... pessoal que não me ajudou 3 minutos antes... pessoal que barafustou quando ele agradeceu o meu gesto.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Então Alima, como vai a tua vida nos estágios?

Digamos que deixei um serviço complicado na área da Pediatria em que dava cabeçadas contra a parede por ver miúdos tão profundamente doentes para me enfiar noutro serviço bem chato da cirurgia.
Durante os últimos dias e muito provavelmente durante os próximos, observei e observarei centenas de mulheres com patologia mamária.

Sinto um enorme aperto quando vejo mulheres da minha idade ou pouco mais velhas que eu a deslocarem-se às consultas, ou para fazerem pensos pós-mastectomias ou para saberem resultados daquelas biópsias. Mulheres que foram desleixadas toda a vida no que respeita a exames médicos até ao dia em que ficaram doentes, mulheres que realizavam os exames médicos constantemente porque a sua mãe ou irmã tiveram neo da mama, mulheres cujo o tumor as surpreendeu com uma simples apalpação mamária.

Cada mulher que entra no consultório, é uma mulher diferente. Nunca sei o que posso contar antes de cada mulher retirar o sutien para mostrar as cicatrizes ao médico.  Maior parte das feridas não têm vestígio de sequela, ou sem têm, são subtis, mas há aquelas feridas com cheiro nauseabundo e de aspecto atroz que nos fazem pensar qual o limite da decência e da decandência a que uma mulher pode ser submetida.
Felizmente tenho visto casos de sucesso, de mulheres que tiveram neoplasia da mama, lutaram e passados 10-20 anos ainda cá estão para contar sobre a sua luta. Mas como infelizmente a sorte não toca a todos, compadeço-me daqueles casos em que de surdina oiço "ela ainda não sabe, mas já tem metástase no pulmão".

Em termos humanos, é dos serviços que mais me tem sensibilizado por afectar mulheres dos 18 aos 100. É impossível não deixarmos o serviço sem ponta de revolta, de pena.
No entanto, sinto que muitas destas mulheres não estão a ter o acompanhamento que deveriam. Infelizmente não há resposta por todos os casos por parte da assistente social, da psicologia, da fisioterapia...
Como está a ser este estágio? Profundamente enriquecedor, profundamente inspirador, profundamente triste...

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Porque sei que tenho entrada garantida no Inferno, mas entrarei a rir

Umas gringas, junto ao El Corte Inglês, perguntaram-me qual seria a melhor saída do metro para chegar ao Benfica's Stadium. Recomendei a linha verde com saída em Campo Grande.



                                                :D :D :D :D

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Os grandes momentos da Medicina

Conseguem superar qualquer sexta-feira em que se sai do serviço um bocadinho mais tarde que o normal só porque ficamos abalroados de trabalho e burocracia.

O motivo é nobre. Um dos "meus miúdos" do serviço de Pediatria onde estou a estagiar acabou de ganhar um rim. Um orgão que lhe vai dar umas chatices numa fase inicial mas que lhe vai substituir de vez (assim espero) a terrível hemodiálise, tratamento que desde sempre lidou com ele.


Bom fim-de-semana a todos :)


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

E então essa vidinha sentimental, cara Alima?

Não existe. Simplesmente não existe. Grandes expectativas deveriam levar a grandes sucessos ou a grandes fracassos e até à data nem uma coisa nem outra.

Há muito, muito tempo poderia estar agarrada a um balde de chocolates e a beber litros de coca cola como forma de amenizar a minha angústia. E estive, é certo. Mas ter quase 30 anos, não é só um número mas também experiência de vida. 
A expectativa era enorme, o momento era perfeito e o sacrifício foi grande. Mas há gente que tem uma capacidade brutal de arrasar tudo. Nas primeiras 72 horas após este arraso eu senti-me péssima, uma dor forte no peito, uma falta de ar horrível e um sentimento de angústia devastador. Mas depois, depois disse-lhe que friendzone não funciona comigo quando estou interessada em alguém. Se não é meu para o que quero,  também não serei dele para o que ele quer, que neste caso era só e apenas amizade. Afinal de contas a Cinderela perdeu o sapato, não perdeu o amor próprio.

E foi assim que num sentido metafórico, fiz as malas e parti. Parti e deixei-lhe a chave. Aos pouquinhos vou apagando as sms dele, as mensagens no whatsstapp. Aos pouquinhos vou deixar de pensar nele, de sonhar com ele e de observar se está online no whatssapp só para ter a certeza que ele está bem. Aos pouquinhos vou apagando-o da minha vida e passará a ser uma ténue lembrança. Poderia estar agarrada a um balde de chocolates e a beber litros de coca-cola. Mas não, não estou. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

E então Alima, esta história do assassino de Aguiar da Beira deve ter algo de bom, não?

Hum... Digamos que boa parte dos meus familiares, amigos e vizinhos que tenho pela Freita tiveram direito a tempo de antena na TV e outros meios de comunicação.  Digo boa parte porque aquilo é um deserto de gente, logo poucos foram os que não foram entrevistados. É que o homem foi-se mesmo esconder nas imediações da minha aldeia. E quando soube disso, comecei a pintar o cenário de um homem enfiado na minha casa isolada no meio da serra, a beber chá e refastelado no sofá.

Vi que o meu tio estava sóbrio (coisa que já não o via desde o ano passado) e coxo (talvez devido a uma queda em momento ébrio). E que deu uma entrevista e pêras, com um discurso do caraças. E bem vestidinho, caramba!
Descobri que essa sobriedade se deve ao facto de ter havido recolher obrigatório, logo não havia tasco nem suecada para ninguém depois das 20h. Logo o meu tio e a cambada de gente de meia idade e de idade avançada teve que ficar enfiado em casa, a ver a telenovela, com as suas digníssimas esposas.

E é isto. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Das caixas do supermercado

No espaço de 72horas, sim, 72h, defendi duas vezes dois operadores de caixa de dois supermercados diferentes mas no mesmo bairro.


Pingo Doce, 11 de Outubro:

Filas enormes. Mais de 5-6 clientes na fila. Estou na fila das caixas ditas normais, não das prioritárias. Atrás de mim está uma velha com uma netita com ano e qualquer coisa num carrinho de bebé. A garota super bem disposta, ora morde o peluche que trazia, ora morde um pedaço de pão.
A velha gritava incessantemente com a neta "Carlota, está quieta, está quieta oh Carlota". Gritava com a neta e gritava para os meus ouvidos porque estava mesmo atrás de mim.

A fila era lenta e mais lenta ficou quando um velhote pede educadamente para deixar passar primeiro, porque só queria comprar uma garrafita de vinho. E atrás de mim a velha barafustava em som audível algo como "deixam passar um velho bêbedo e não me deixam passar a mim que tenho um bebé... mal criadõeeeeeees! Gentinha estúpida". Comecei a fazer tripas coração para a ignorar para não me chatear forte e feio. Entreti-me a folhear uma revista, como forma de me anestesiar de tudo, mesmo não me conseguindo concentrar com o "Ta quieta Carlota" e  com aquele tonzinho de considerar estar numa fila um verdadeiro frete.
Chego à minha vez, pago, começo a ensacar as coisas e a velha vira-se para a rapariga da caixa e diz:

"MENINA, QUERO IMEDIATAMENTE O LIVRO DE RECLAMAÇÕES PARA FAZER UMA QUEIXA CONTRA SI"

A rapariga fica estática e perguntei imediatamente à velha porque haveria de fazer tal coisa.
A velha diz-me: "Fique sabendo que eu conheço os MEUS DIREITOS. Esta menina tinha a OBRIGAÇÃO de me atender primeiro! A OBRIGAÇÃO! Tal como você e as pessoas que estavam à sua frente tinham a OBRIGAÇÃO! Mas que posso querer eu quando sei que nesta área vive gente POUCO CIVILIZADA, né? EU SEI BEM OS MEUS DIREITOS, TÁ A VER?"

Fervilhei um bocado. Mas respondi: "Se sabe tão bem os seus direitos, deveria saber que a caixa mesmo ao lado desta é que é para pessoas com prioridade. Logo eu não tenho a obrigação de a deixar passar. Lamento. E a senhora não me parece uma pessoa que deveria ter prioridade! Está com a criança, bem sei, mas está com uma criança que está perfeitamente sentada num carrinho de bebé. Mas olhe se quer puxar pelos seus direitos, eu também vou puxar pelos meus: EU TENHO DIREITO A FAZER AS COMPRAS SOSSEGADA e o que a senhora fez durante os minutos que estivemos na fila foi BARAFUSTAR E GRITAR, COISA DE GENTE MESQUINHA E POUCO CIVILIZADA, TÁ A VER? Mas ainda quer escrever a bendita queixa?"

A mulher encolheu-se toda. A rapariga da caixa esboçou um sorriso. Saio do espaço com uma sensação de vitória, sem antes de passar no cacifo calmamente para retirar outras sacas e para verificar que a velha não ia aprontar alguma.


Lidl, 13 de Outubro

Filas enormes. A culpa é dos benditos cremes para o rosto que estão em promoção. Uma fulana desata a destratar mal o operador de caixa com um "seu estúpido, ladrão, inútil" e outros impropérios.
"VOCÊ QUERIA-ME ROUBAR NAS CONTAS! O tomate custa 80centimos e não 1€. LADRÃAAAAAO!"

O rapaz praguejava qualquer coisa que eu também não percebia bem dado o seu sotaque criolo.

Minha reacção:
"Pssst, minha senhora, não acha que está a fazer demasiado escabeche? Quer que lhe pague os tomates só para a fila avançar sossegada?"
Ela: "Este preto é um ladrão! Um desonesto!"
"Vamos lá ver uma coisa... Ele pode ter-se enganado e não é por isso que ele seja desonesto. Mas uma coisa é certa: A sua falta de educação e principalmente FALTA DE RESPEITO, vocabulário vulgar e RACISMO por quem está aqui a dar o seu melhor, bate qualquer sinal de desonestidade que ele possa ter tido consigo. Tenha vergonha!"

A mulher saiu de lá rapidamente. Ainda gostava de saber qual é a função do segurança nestes supermercados já que ele ficou impávido e sereno e nada fez para amenizar tal espectáculo.


Alima, defensora dos operadores de caixa desde Outubro 2016,